Ainda é cedo.
21 Capítulo 21: Vinte e um
Notas iniciais
Manuela
O restante da semana não foi muito bom. Eu e o Edu não nos vimos muito. Quando eu não estava estudando no quarto, estava na faculdade, e quando o Edu não tava no quarto, tava com o Gus – ajudando nos trabalhos de publicidade – na fisioterapia ou na faculdade.
Minha última prova foi feita. Minha cabeça parecia que ia explodir. Eu estava com umas três horas de sono diárias durante a semana toda, sem contar o cansaço acumulado do restante do ano. Meu sono era muito desregulado, mas nunca me afetou em nada. Eu estava sempre com olheiras, mas nunca me importei com elas. Sem contar que minha alimentação durante o último mês foi totalmente deixada de lado e a última semana se baseou em barrinha de cereal e cafeína.
Na sexta acordei meio mole, mas fui fazer a prova. Tive que ficar me mexendo pra não capotar enquanto respondia as questões.
Cheguei em casa antes da hora do almoço. Minha boca estava com um gosto salgado, o que sempre acontecia quando eu passava mal. Dentro do elevador, a porta girou e tive que me apoiar. Não tive nem coragem de ir pro meu quarto. Minhas pernas estavam moles e tinham pontinhos pretos nos meus olhos. Cai no sofá.
-Edu – tentei chamar, mas só saia um sussurro.
Peguei o controle da TV e joguei no chão. O barulho preencheu o apartamento. Ouvi os passos pelo corredor.
-Manu?
-Hum – grunhi em resposta.
-O que houve?
Senti ele se sentar no sofá comigo, passando a mão pelo meu rosto.
-Você tá quente... Vou ver se acho um termômetro.
-Não – tentei segurar sua mão para impedir, mas acabei só fazendo um movimento qualquer pra chamar sua atenção – Eu só preciso comer alguma coisa e vou ficar bem.
-Manu, você não comeu direito a semana toda... Você tem dormido?
-Se eu entrar em coma, vou ficar feliz.
Ele soltou seu famoso “tsc”.
Eduardo
-Cadê seus documentos? Vamos no hospital...
-Não – ela era teimosa! Tentou se levantar, mas seu corpo amoleceu e voltou para o encosto do sofá.
Não me importei mais. Eu sabia que ela tinha passado a semana sem comer uma refeição completa e ela tinha uma bela de uma insônia, o sono completamente desregulado e na semana de provas, sempre piorava.
Peguei sua bolsa e achei a carteira lá dentro.
Seu corpo tremia de frio, a febre devia estar altíssima.
-Não preciso ir pro hospital. Vou tomar um banho e a febre vai baixar.
Peguei meu telefone e pesquisei o hospital mais próximo, mas assim que o mapa foi aberto, vi que o trânsito na via estava terrível. Algum acidente ou algo do tipo.
Corri pra caixa de remédio que tínhamos e procurei um antitérmico. Fiz ela engolir com um copo de água e a levei pro banheiro no colo.
Coloquei um banco embaixo do chuveiro e tirei sua roupa. Ela estava tão mole que não firmava o corpo sentada sem meu apoio. Abri o chuveiro e deixei a água morna descer em nós dois. Sua cabeça pendia para o lado, encostada no meu ombro e ela se encolheu mais, tentando se aquecer. Ficamos ali por um tempo até sentir que seu corpo estava um pouco menos quente.
-Edu — ela sussurrou agarrando minha blusa encharcada. O tecido estava colado no corpo e os dedos fracos soltaram a peça — Eu quero dormir.
-Consegue se firmar um segundo pra pegar uma toalha pra você?
Ela afirmou com a cabeça e me estiquei sem tirar os olhos dela. Alcancei a toalha pendurada na porta e fechei a água. Enrolei seu corpo no tecido macio e a peguei novamente no colo.
Já deitada na cama, abri as gavetas e peguei uma roupa leve. Ela se sentou apenas para enrolar a toalha no cabelo dela e passar a camiseta na cabeça. Virou de lado e se encolheu, puxando as cobertas até o pescoço. O rosto estava pálido, mas com as bochechas coradas pela alta temperatura.
Deixei ela descansar enquanto me trocava e secava a bagunça que fiz andando molhado. O quarto estava meio caótico, como ficava quando ela estudava demais. Folhas com vários rabiscos se espalhavam pela escrivaninha, junto com livros pesados e infinitos post-its espalhados na parede.
Deitei do outro lado da cama por puro medo de deixá-la sozinha. Torci para o remédio fazer efeito logo mas foi em vão.
Uma hora depois, ela estava tão quente quanto antes do banho e balbuciava coisas totalmente sem sentido. Nem tive tempo de pensar quando a vi virando o corpo para fora da cama, tentando levantar.
-Manu, espera. Eu te ajudo!
Ela não esperou. O corpo balançou e ela caiu de quatro no chão, vomitando.
Corri a tempo de não deixar que ela tombasse por completo. Aparentemente o esforço de levantar e vomitar tinha levado seu corpo ao extremo. Ela tentava abrir os olhos, mas eles pareciam pesados.
-Ainda quer vomitar?
Ela negou com a cabeça. Voltei seu corpo para a cama e limpei o chão.
Corri e guardei os documentos dela no bolso. Ela seguia encolhida na cama. Os lábios pálidos e a testa suando pela própria temperatura.
Peguei o corpo trêmulo no colo e fui o mais rápido que pude pro carro. Deitei ela no banco de trás e fomos para o hospital. Nessa altura, ela já tinha desmaiado ou dormido, eu não sabia definir.
-Licença – tentei transmitir menos medo do que realmente sentia quando desci com ela desmaiada – Onde é a emergência?
O guarda me olhou desconfiado, parando para analisar a Manu.
-Só um minuto.
Ele não demorou e veio com uma cadeira de rodas. Coloquei ela e segui correndo para onde ele tinha indicado. Todos pareciam observar a gente. Fiz a ficha e me mandaram para uma sala de espera separada. Ela tinha voltado a balbuciar coisas incompreensíveis e sua cabeça parecia pesada demais pro próprio pescoço suportar. Fiquei atrás da cadeira, servindo de apoio, segurando sua testa para manter a cabeça em pé. Uma enfermeira apareceu uns dez minutos depois.
-Manuela Bernardes?
-Aqui – levantei a mão imediatamente .
-Vou precisar levá-la, espere aqui.
-Não posso ir junto?
-Não vou demorar. Já te chamo para acompanhar.
Quis protestar mas ela me deu as costas. Só consegui concordar enquanto a enfermeira levava ela pelo longo corredor, cheio de crianças chorando e mães desesperadas.
A Suzy era hipoglicêmica, então eu sempre acabava recebendo ligações para ir buscá-la. Ela tinha que comer a cada três horas, mas era teimosa, e sempre acaba desmaiando quando o açúcar baixava. Com o tempo, fui aprendendo a controlar meu nervosismo enquanto esperava.
Hoje era dia 6 de novembro, e meu aniversário era amanhã. Naquele momento, a única coisa que eu pensava era que a Manu precisava ficar bem. Era esse o presente que eu queria.
Quando a enfermeira voltou, me pediu desculpas pela demora e explicou que o protocolo do hospital tinha incluído recentemente que pacientes desacordadas como a Manu fariam um toxicológico na chegada, para eliminar que haviam sido dopadas ou algo do tipo.
-Dopadas? Isso é comum?
Ela me olhou com tristeza.
-Mais do que eu gostaria de admitir. Parece que surgiu uma nova droga nas festas e estamos tendo uma recorrência de casos desse tipo.
-Mas dopam as mulheres e depois trazem aqui? Não faz sentido.
Viramos em um corredor bege com placas de silêncio.
-Ainda não sabemos muito dessa droga. Parece que se não dosar corretamente, ela faz mais do que só adormecer alguém. Tivemos que adotar medidas porque a maioria dos acompanhantes eram os responsáveis e acabavam culpando as mulheres, falando que elas tinham tomado algo por conta própria. Mas parece que elas demoram pra acordar ou começam a passar mal ainda meio desacordadas, então alguns trazem com medo delas morrerem.
Um frio subiu pela minha coluna só de pensar que algo assim podia ter acontecido com a Manu naquela festa.
-Que horror!
-É, e o pior é que parece ser o tipo de droga que exige certo status social. Então a gente já sabe no que vai dar.
Ela suspirou, meio frustrada. Um novo boa noite cinderela de playboy. Que ótimo, mais uma coisa pra fazerem vista grossa até alguém com influência ser pego usando ou sendo vítima!
Ela apontou para uma das portas no corredor e entrei cauteloso.
-Fizemos alguns exames. O resultado não deve demorar. Já já a médica de plantão vem com os resultados.
-Obrigado.
O quarto tinha três boxes, separados por uma cortina bege como as paredes do corredor. A Manu estava na última maca, dormindo enquanto uma máquina acompanhava seus sinais vitais.
Sentei na cadeira de plástico que estava ao lado dela. Uns 40 minutos depois, uma médica chegou.
-Você é o acompanhante dela?
Confirmei com a cabeça e ela estendeu a mão para me cumprimentar. Devia estar na casa dos 50 anos e alguns fios grisalhos na raiz entregavam sua idade. Parecia ter descendência asiática pois os olhos eram levemente puxados.
-Lamento pela demora na sua entrada. Estamos investigando sobre uma nova droga e tínhamos que testá-la antes de deixar que você acompanhasse. Mas está tudo registrado em prontuário e ela foi acompanhada pela enfermeira todo o tempo. Se precisar de alguma garantia disso…
-Garantia? Não, doutora. Eu agradeço a explicação mas acredito em vocês.
-Agradeço pela confiança. Estamos tendo alguns problemas porque alguns acompanhantes ficam um pouco…
Ela media as palavras.
-Ofendidos?
-Sim — ela sorriu, meio aliviada — Obrigada novamente por entender. Os resultados dela saíram e preciso perguntar algumas coisas para tentar fechar o quadro. Qual é o nível de relação de vocês?
-Nós moramos juntos.
Ela me olhou meio confusa, mas não questionou.
-Ótimo. Ela tem passado por algum período estressante?
-Ela estuda medicina. Estava em semana de prova.
A médica sorriu, solidária.
-Muito bom encontrar uma futura colega de profissão. Lembro bem como era e infelizmente, o estresse não melhora. Olha, ela tá com anemia e o cortisol alto. Provavelmente um combo de estresse e ausência do sono e se eu posso chutar, uma alimentação pobre e irregular. O corpo colapsou mas é um quadro agudo, fácil de reverter. Vai ter que passar a noite em observação por precaução. Você pode passar a noite mas infelizmente não tenho nada mais confortável para oferecer — ela disse apontando para a cadeira de plástico — Ela vai ficar bem, rapaz.
Deu um tapinha no meu ombro e saiu.
Parecia que tinham tirado uma pedra das minhas costas. Eu fiquei aliviado por saber que estava “tudo bem” com ela.
O cansaço acabou batendo também. Apoiei a cabeça na maca e acabei cochilando.
Manuela
Acordei com a tosse de alguém. Olhei ao redor sem reconhecer o lugar frio e de iluminação fraca.
E então me lembrei.
Eu cheguei em casa. Passei mal. Edu me carregou. Eu vomitei. Desmaiei. Fui para o hospital. Tinha feito uns exames, mas não sabia o resultado.
Olhei para o lado e vi o Edu cochilando, com o capuz do moletom cinza cobrindo a cabeça, apoiado na maca. Os lábios estavam entreabertos, a respiração suave.
Eu ainda estava com sono mas tentei não dormir. Não sabia que horas eram mas estava na esperança de alguém passar para saber do exame.
Me virei e a cama estalou, acordando o Edu com um susto.
-Tá tudo bem? – ele impulsionou o corpo para a frente, como se estivesse preparado para qualquer coisa.
-Ei calma – fiz um movimento com as mãos, pedindo pra ele não se preocupar.
-Ta acordada há muito tempo?
-Não, acabei de acordar... Que horas são?
Ele conferiu no celular.
-Pouco mais de meia noite.
-Eu dormi todo esse tempo?
-Você despertou algumas vezes, mas grogue demais pra acordar de verdade.
-E o que aconteceu? Lembro que vomitei e depois está tudo meio borrado.
Lembrava dele ter me colocado no chuveiro. Estava tão fraca que nem tive força para me envergonhar dele me ver sem nada.
-Você teve uma febre muito alta. Só deu uma aliviada agora de noite. Por isso deve ter dormido tanto.
Então processei que ele disse que já passava de meia noite. Se eu tivesse força, ia ter dado um pulo.
-Hoje é seu aniversário, e você está em um hospital... Ótimo jeito de comemorar, desculpa.
Ele forçou um sorriso.
-Tá tudo bem, eu nem ia fazer nada mesmo. O importante é você ficar bem. Como se sente?
-Fraca – disse soltando um suspiro – Inútil. Os exames já saíram?
Ele fechou a cara. Ops, pergunta errada.
-Você está anêmica, Manu! A médica disse que o estresse deve ter dado uma pane no seu corpo. Sabe o que isso quer dizer?
Isso soava engraçado, já que uma das coisas que eu amo é comer! Mas, devido ao estresse das últimas semanas, meu estômago embrulhava só de pensar em comida.
-Edu, a estudante de medicina aqui sou eu, tá?
-E de que adianta você saber e não botar em prática?
Ele começou um discurso de que eu tinha que me alimentar, que agora ia me vigiar e bla bla bla.
-Acabou? Posso te dar parabéns agora?
A expressão suavizou, e me olhou como se me dissesse “você não tem jeito!”.
-Pode, teimosa!
-Então vem cá!
Estendi os braços pedindo abraço, já que não podia forçar o braço com o soro pra me levantar. Levantei o corpo o máximo que pude quando ele se aproximou, sentando no canto da minha cama. Nos abraçamos. Ele puxou meu corpo e eu enfim consegui me sentar. Seu abraço era uma delícia, acolhedor e parecia que os corpos se encaixavam com facilidade.
-Obrigada por tudo – falei abaixando a voz – E feliz aniversário.
Dei um beijo na sua bochecha, mas ele queria mais. Ele virou meu rosto, segurando pelo queixo, e me beijou de leve.
Quando nos separamos, lhe lancei um olhar curioso.
-Fiquei preocupado – ele disse fechando os olhos.
-Desculpa.
Ele fez careta.
-Você tá com gosto de remédio.
Tive que abafar o riso para não acordar os outros do quarto.
-Idiota!
Eduardo
Saímos do hospital com uma receita de vitamina para a Manu e direto pro mercado. Comprei tudo aquilo que eu e ela não gostávamos, além de fruta, verduras e mínimos congelados.
Ia ser ruim? Ia! Mas eu não ia parar no hospital de novo.
Ela fazia careta para metade das coisas que eu botava no carrinho.
-Chuchu? ODEIO! Não tem gosto de nada.
Eu também não gostava.
-Melhor então, que você não pode reclamar que é ruim.
-Eu não tenho mais cinco anos, Edu! – ela protestou, fazendo bico e cruzando os braços. Só faltou bater o pé e dar birra.
-Mas tá se comportando como se tivesse! Agora desfaz esse bico e vamos pro caixa.
Então esse foi meu aniversário de vinte e um anos: uma torta de legumes com suco com a Manu.
-AH – ela gritou entre uma garfada e outra – Comprei uma coisa pra você.
-Onde você arranja dinheiro?
Ela me olhou, como se eu tivesse ofendido ela.
-Já disse que tenho minhas fontes! Agora me serve mais um pedaço de torta enquanto busco seu presente!
Ela estava muito melhor. A cor tinha voltado pro rosto e o apetite tinha começado a voltar. Ela voltou com uma caixa colorida.
-Feliz aniversário – ela cantarolou sorridente – Abre, abre, abre!
Ela parecia uma criança feliz, inclinada sobre a mesa com os olhos arregalados, ansiosa para ver o presente que ela mesma estava me dando. Abri a caixa. Era um kit de lápis com diversas cores diferentes das tradicionais. Um dia reclamei da falta de opção em certos tons e achei que ela nem tinha prestado atenção. Saber que ela notava comentários assim me deixou feliz.
Meus olhos brilharam. Ela estava animada, sorridente e quase pulava na cadeira.
-E então?
-Eu amei, obrigada!
Ela pareceu aliviada, mas não parou de sorrir.
Era um estojo de pano, que enrolava formando um bastão, tendo uma cordinha na ponta para amarrar em volta. Deviam ter uns quarenta lápis ali. Não era um kit profissional, mas era uma das melhores coisas que eu já tinha recebido na vida.
-Como conseguiu? Deve ter sido muito caro...
-Não, eu que fiz...
O sorriso não sumiu, mas os olhos foram desviados com vergonha.
-Montou isso? Em plena semana de provas?
-Comprei o tecido e levei em uma costureira, ela colocou a fita pra amarrar e os elásticos dos lápis. Achei uma loja que vendia cores super diferentes, então comprei os lápis e coloquei. Queria que fosse algo... Único. Só você tem um desses.
-Nem acredito...
-Mas quero uma coisa!
-O que?
-Eu nunca vi um desenho seu...
-Como não, tem um monte espalhado pela casa e... Você sempre me viu desenhando os projetos da faculdade.
-Eu sei, mas os que você larga pela casa são os rabiscos à toa, e os da faculdade não são bem do tipo que eu vá me interessar. Quero ver um desenho seu de verdade, dos que você guarda no seu quarto, que você...
Não precisou terminar. Ela queria ver os que eu mostrei pra Anne.
-Entendi... Bem, vamos fazer um trato, ok? Eu faço um desenho com meu novo material e te dou!
-Fechado – ela respondeu, comendo mais um pedaço de torta, feliz pelo acordo que selou.
Manuela
O Edu passou o resto do dia recebendo ligações e visitas. Eu só apareci para os amigos que reconheci do dia do clube, dando um “oi” discreto. Tentei descansar lendo um livro de suspense que achei perdido nas minhas coisas. De noite, ele passou horas no telefone com a Suzy.
Eu sei que meio que estraguei o dia dele, mas ele parecia não se importar.
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