Ainda é cedo.
14 Capítulo 14: Que boa ideia esse casamento primaveril
Notas iniciais
Eduardo
“Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na dispensa
Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor essa é a última oração...”.
Não me incomodei de acordar ouvindo ela cantar no banho. Ela cantava bem. Não era uma Adele da vida, mas era agradável aos ouvidos. Levantei e comecei a me trocar enquanto ela repetia sempre a mesma parte, já que a música tem seis minutos de duração.
Então começou a cantar outra música. Era de uma banda que ela tinha me apresentado: Soulstripper. Ela sempre ouvia e sempre se lamentava de ter conhecido a banda depois que já tinha acabado. As letras eram bem loucas, mas ao mesmo tempo, eu podia ver que arrancavam suspiros da garota.
“Ela mal acordou
Nem se levantou
Já me perguntou se era amor
Calma meu bem, nem me conheceu
Um café primeiro”.
Continuei a me vestir. O chuveiro fechou, ela não parou de cantar. Tava chegando a melhor parte. Fui para o corredor, podia ouvir ela ainda cantando dentro do quarto.
“Como é que eu vou dizer pra uma garota com o sorriso como o dela
Que ainda é noite lá fora?
Por isso eu não disse...
Por isso eu nunca digo”.
Bati na porta do quarto. Ela parou, silêncio, alguns passos, silêncio.
-Pode entrar.
-Bom dia – abri a porta devagarinho.
-Bom dia, Edu – ela parecia meio constrangida com a situação. Não estava só de toalha, havia vestido um roupão por cima e estava terminando de amarrar a fita da cintura – Tudo bem?
-Pra vida inteira é muito tempo – imitei a voz do cantor e ela reconheceu a frase da música na hora. Seu rosto se iluminou – Faz assim...
Minha voz era horrível, mas ela nem se importou. O sorriso de ponta a ponta da orelha. Continuou a música para mim, cantando baixinho.
-Vamos tentar até amanhã. Depois até quarta e deixa a vontade mostrar até quando – ela revirou os olhos, como se pensasse “que merda”.
Me aproximei e a abracei. Dançamos aí paradinhos no lugar. Os corpos indo de um lado pro outro devagar, enquanto ela seguia com a música.
“Não me pede pra gostar de você
Gostar tem que ser sem pedir
Mesmo que seja sem querer”.
Pisei no seu pé sem querer e me atrapalhei todo pra me desculpar. Começou a rir, sem parar de me olhar. Tive que rir também.
-Por que fez isso?
-Foi sem querer. Machucou?
-Não isso! A música…
Afastei uma mecha do cabelo que estava no seu rosto. Ela era tão linda que simplesmente admiti.
-Manu, não to pedindo pra gostar de mim mas... Não pode me proibir de gostar de você.
-Eu sei – o tom não parecia muito feliz ao aceitar isso.
-Mas mesmo assim, obrigado.
Depositei um beijo nela e decidi ir me arrumar para não atrasar. Levantei e fechei a porta atrás de mim. Ela não respondeu, e nem continuou a cantar.
Manuela
Eu tive uma das piores noites da minha vida. Assim que deitei a cabeça no travesseiro, tive um sonho completamente confuso e tumultuoso. Acordei com o telefone berrando o toque do despertador. Meu corpo inteiro gelado, o pijama de tecido fino molhado de suor. Minha respiração desregulada.
O que tinha acontecido? Eu não conseguia me lembrar de nenhum minuto do sonho, só continuava a sentir aquele pavor.
Liguei o chuveiro e deixei a água ir descendo pelo ralo, molhando meus cabelos. Algo que me acalmasse.
Comecei a cantar a primeira música que me veio à cabeça, e depois outra... Saí do banho muito mais relaxada. Até que ele veio no meu quarto, fez com que eu me sentisse uma personagem de Glee (versão desafinada e sem orçamento) e depois disse algo que eu entendi como “não se sinta obrigada a gostar de mim, mas obrigado por me deixar gostar de você e não me vetar logo de cara”.
Ele é um fofo.
E eu não sei lidar com fofices. Ta ai! Tenho um problema.
-Não arranja compromisso pra sexta!
Dei um pulo da cadeira quando a Laura disse isso, no meio da aula. O professor explicava a matéria com os slides e eu não parava de fazer anotações sobre o sistema endócrino.
-Ta falando do que? – sussurrei inclinando um pouco a cabeça.
-Vai sair comigo.
-Como é que é?
-Por favor Manu... Tenho um casamento de família, evento mega chato, e como minha prima já me conhece o suficiente pra saber que eu odiaria ficar lá com todo mundo da família me enchendo o saco – acho que deu pra perceber que ela não tem uma boa relação com a família né? – então tenho um convite e você vai comigo.
-Quem disse que eu vou?
-Não quero saber! Você vai, e eu já tenho seu vestido.
Pensei em responder mas optei por ficar calada quando o professor olhou feio para as duas.
Sexta chegou, e a Laura não foi pra aula. Tive, pelo menos, umas 4 páginas de rabiscos de conteúdo que precisaria passar a limpo depois. Saí faminta e fui direto para casa. Quando cheguei, o Edu estava sentado no sofá, mexendo no computador e comendo uma maçã. Tinha um embrulho enorme ao seu lado.
-Entrega pra senhorita — ele anunciou, sem tirar os olhos da tela.
Peguei o pacote e levei para o quarto. Era grande mas não muito pesado. Quando abri, quase caio para trás. Senhor, o que a Laura estava pensando? Eu nunca que iria entrar naquilo!
Era um vestido vermelho super justo e acinturado. O tecido era grosso para estruturar o modelo mas não parecia desconfortável. Tinha um decote coração, que sem dúvida, iria fazer meus peitos saltarem praticamente.
Pensei um milhão de vezes em ligar e desmarcar, mas sabia do chilique que ia ter que aguentar... Me convenci que eram apenas as vozes da insegurança me invadindo.
Me ocupei o resto da tarde com os rascunhos da aula que precisava passar a limpo. Parei para comer algo e fiquei ali, encarando a peça.
-O vestido é bonito, deixa de frescura e veste logo! — me repreendi.
Estava para dar 6 horas da tarde e ela ia me pegar às 8 horas. Eu nem tinha tomado banho ainda. Dei mais uma olhada no vestido. Respirei e fui para o chuveiro.
Sequei os cabelos de qualquer jeito, deixando amassado só para dar volume. Meu cabelo já tinha crescido desde que cortei antes de me mudar, estavam abaixo do ombro. Peguei alguns grampos, prendendo todos os fios, deixando ele só de um lado. Pronto, não era um resultado profissional mas dava para o gasto. Cabelo feito.
Não fiz nada muito elaborado. Meu rosto já não doía tanto, mas eu sabia que entre os beijinhos de “Oi, prazer” na bochecha, ela voltaria a ficar dolorida. Apresentava um tom amarelado muito feio. Depois de meio vidro de base e meio potinho de corretivo, consegui normalizar o tom da minha pele. Quase nada de cor na sombra, um branco no fundo, mil camadas de rímel e meus cílios pareciam postiços. Um batom de leve, não muito forte, em um tom de vermelho rosado, mas já era o suficiente para evidenciar os lábios. Só faltava o vestido.
Abri o embrulho de novo. O tecido vermelho parecia querer saltar para fora da embalagem e me agarrar. Comecei a vestir, já sabendo como ficaria. Tentei fechar o zíper, mas não consegui. Prendi a respiração. Subiu um pouco. Peguei as duas pontas e fechei só com as mãos mesmo. O tecido não estava tão apertado. Não conseguia fechar porque era humanamente impossível fazer sozinha, e não porque não cabia.
Isso Manu, divide apartamento com um menino, fica semi nua enquanto se veste e bota um decote. Chama ele pra te ajudar! Depois não reclama se for atacada.
Tentei o máximo que conseguia. Estava na metade do zíper, mas não dava mais. Meus dedos já estavam esfolados. Mesmo sem fechar por completo, o busto já abraçava meus seios, destacando-os.
-Edu – chamei com a voz arrastada.
Ele não demorou pra aparecer na porta do meu quarto. Fiquei de costas para esconder a vergonha que sentia.
-Preciso de ajuda, fecha pra mim?
Ele não disse uma palavra sequer. Caminhou até mim e começou a fechar o zíper, lentamente.
Eduardo
Estava terminando de atualizar alguns aplicativos no computador quando escutei ela me chamando. E quando cheguei na porta… Uau!
Ela estava de costas para mim, segurando a parte da frente do vestido com os braços cruzados por cima do busto. As costas estavam livres, o cabelo preso de lado com grampos. Seu quadril estava marcado pelo tecido e mesmo com os braços na frente, eu podia ver que o decote lhe valorizava da melhor forma.
Eu não tinha palavras. Nenhum som conseguia sair de mim. Vasculhei a mente, buscando qualquer coisa válida para dizer.
Nada além de “uau”.
Caminhei até ela. Os dedos tremiam para fechar o zíper, o subindo lentamente. Nervoso como um adolescente virgem que nunca tocou em uma mulher na vida. Não conseguia ir mais rápido do que aquilo porque tudo parecia em câmera lenta.
Me segurei para não beijar a nuca livre, porque parecia muito convidativa.
-Obrigada.
Assim que viu que tinha terminado, ela saiu andando, muito mais rápido do que eu gostaria e me deixou ali parado, com a maior cara de bobo de todos os tempos.
Manuela
Corri/andei até o banheiro. Ajeitei o corpo dentro do vestido extremamente justo. Ele se encaixou diferente do que eu pensei. Tudo aquilo no meu corpo que eu não era exatamente apaixonada, preencheu o espaço. Os seios faziam o decote parecer perfeito, como se tivesse feito exatamente para o meu busto. O quadril estava modelado. A cintura até parecia mais fina.
Era lindo, encantador, sensual... Para mim? Revelador.
Mostrava um corpo que eu supostamente não tinha, ou pelo menos nunca tinha visto dessa forma. Nunca tinha usado uma peça que tinha sido feita para ser sensual. Por mais bonita que a imagem estivesse no espelho, era estranho ver que era eu ali. Aquele corpo que preenchia o tecido de forma elegante mas super sexy, era meu. A visão quase me fez esquecer que algum dia não achei meu corpo incrível.
Tentei diminuir o decote, puxando para cima a fim de esconder um pouco de pele. Foi em vão. Todas as minhas curvas insistiam em aparecer, destacando cada parte do meu corpo. Puxei o tecido do quadril, tentando ter um pouco mais de folga, mas não adiantou. Tudo estava em seu devido lugar.
Eduardo
Não saí do quarto. Queria ver ela mais uma vez.
Ela voltou não muito confortável de dentro do banheiro. Tentava subir o busto do vestido como se quisesse esconder mais pele, mas era uma batalha perdida. O decote em coração se encaixava perfeitamente, valorizando os seios que já eram chamativos. O tecido fino não brilhava, mas o tom de vermelho quase no tom do seu batom se cruzava por todo o corpo praticamente, se moldando e destacando cada pedacinho, sendo completamente justo até o fim do quadril, depois solto até os pés. Cada curva do corpo se destacava. A cintura estava fininha, o quadril e o busto perfeitamente proporcionais. Estava completamente...
Maravilhosa. Estonteante. Encantadora. Sexy. Linda.
Minha.
Eu queria que ela fosse minha garota maravilhosa. Eu queria que todo mundo visse aquela mulher sexy como minha. O meu desejo mais primitivo era não dividir ela com ninguém, mas seria um pecado guardar aquela beleza toda só para mim.
Vê-la daquele jeito mostrava outras coisas. Ela estava incrível naquele vestido. Se estivesse um pouco mais segura e não tentando em vão se esconder, seria a mulher mais poderosa do mundo. Aquelas personagens perigosas de livro que te seduzem e te matam depois e você ainda morre feliz só de ter tido uma chance com ela.
E eu a queria, com ou sem aquele vestido. Queria agora! Queria amanhã! E semana que vem...
Não me importava com a posição que assumia daquele jeito. Só queria que ela ficasse comigo.
-Então?
Ela deu uma voltinha e eu involuntariamente, dei um pulo da cama. Queria estar perto dela. Tocar seu corpo e ter certeza de que aquela beleza toda era real.
Manuela
O que era aquilo nos seus olhos? Admiração?
-Então?
Não resisti ao desejo de saber sua opinião. Seu corpo saltou, as pernas esticadas, o olhar bobo.
-Nunca te vi tão linda.
-Obrigada – foi a única coisa decente que consegui pensar.
-Sério, você tá mais do que incrível. Eu… Sério, uau.
Não sabia lidar com aquele olhar dele. Gostava da admiração que vinha e até do desejo que saiu em sua voz ao me responder. Mas simplesmente não sabia lidar com isso. A única coisa que consegui fazer foi sorrir. Por que? Eu não sei, mas o sorriso bobo simplesmente saiu.
Mas todo o encanto se foi, quando eu fui me calçar. Me desequilibrei em um dos saltos e caí de bunda no chão.
-Puta que pariu!
Ele riu.
-Nunca imaginei alguém com uma roupa dessas xingando desse jeito.
Ele tentava disfarçar, mas aquela cara de bobo e o brilho nos olhos não me enganavam.
Estávamos os dois rindo quando a campainha tocou. Ele foi abrir a porta enquanto eu soltava alguns fios de cabelo, para dar um ar mais frouxinho no penteado. Desisti e acabei soltando ele por completo de uma vez.
Cheguei em tempo ainda de ver ele abrindo a porta.
-Pode falar porque eu já sei: estou divando!
E ela estava mesmo! O vestido modelo sereia, todo justo ao corpo. Tinha um ombro só, com a alça brilhante cruzando o busto. O tecido preto, com uma seda delicada e uma fenda que começava no meio da coxa, que ela fazia questão de exibir. A maquiagem marcava e iluminava seu rosto nos pontos certos. Seu batom não era muito diferente do meu. O cabelo estava com ondas marcadas e impecáveis. A Laura estava digna de uma festa de gala.
-Está ótima, Laura – foi só o que ele disse.
-Obrigada querido, eu sei que tô arrasando – ela deu um tapinha no ombro dele e deu um passo para dentro do apartamento. Só então ela percebeu minha presença – Manu! Ficou lindo. Foi assim mesmo que eu pensei que ficaria — ela bateu palmas, animada — Vamos?
-Claro, só um minuto.
Voltei para o quarto e peguei uma bolsinha pequena, colocando o celular e o batom lá dentro. Passei meu perfume e dei uma última olhada. Eu nem conseguia acreditar que era eu, que aquele corpo era meu!
-Toma cuidado, tá?
Olhei em direção da voz e o encontrei. Os olhos baixos, o corpo largado na minha porta. A postura parecia relaxada, mas eu podia ver seu rosto tenso.
-É só um casamento – disse andando em sua direção.
-Ficaria chocada com as histórias que tenho sobre festas de casamento... – levantou a cabeça com um olhar distante, mas logo voltou para a realidade – Sério, tá linda demais pra qualquer um te tocar.
Meu corpo inteiro tremeu só de pensar em como seria isso.
Me controlei e me aproximei para dar um beijo na bochecha, deixando uma marca de batom. Passei o dedo pelo seu corte ainda não cicatrizado na boca e falei baixinho no seu ouvido:
-Não se preocupe. Sua obra de arte está segura.
-Laura? Não acha essas roupas um pouco...
-Extravagantes? Sim, mas nem me importo, sabe? — ela realmente parecia confortável em seu vestido — Aliás, corpão hein, Manu? A própria dama de vermelho! Eduardo tava ba-ban-do!
Ela sorria a cada palavra dita. Ela realmente não se importava com os vestidos. Eu sim.
-Além de que, não conhece minha família... A gente tá simples se for comparar com algumas outras festas.
Eu sabia que a família dela era podre de rica, e até conseguia imaginar eles fazendo aqueles bailes, assim sem razão nenhuma, com jantar fino e roupa de gala, como os que eu via nos filmes e seriados.
E eu estava certa!
Quando chegamos lá, fiquei chocada. A cerimônia seria feita no mesmo local da festa, só que em outro salão. O espaço era enorme e todo decorado em tons de dourado — um dourado chique e não aqueles que encontramos em lojas tradicionais de festa com materiais plásticos pintados com spray vagabundo. Haviam velas servindo como iluminação por todo o ambiente.
Fomos recebidas por recepcionistas — sim, você não leu errado — e garçons com champagne — NA ENTRADA! Nem era hora de brinde, apenas estavam distribuindo champagne chique como se fosse água da torneira. Era tudo muito lindo e sofisticado.
Nos sentamos e a cerimônia não demorou para começar. Olhando ao redor, a Laura estava certa: todos os convidados estavam impecáveis! Me sentia em um casamento de novela das 21 horas pois nitidamente aquele pessoal era bonito demais. O noivo? Era um gato. A roupa social tinha um caimento perfeito, e eu tinha certeza que tinha sido feito sob medida por um alfaiate chique. A noiva era uma verdadeira princesa com seu vestido cheio de brilho e camadas. Simplesmente maravilhoso! E quando falo estilo princesa, é princesa mesmo, com uma cauda que pegava quase todo o tapete que ela atravessava. O véu ia até o chão, todo bordado. O casamento real ia chorar vendo uma cena dessa!
Me sentia um peixe fora d’água, já me vendo perdida no ambiente e assuntos. Eu era como a Bebel de “Paraíso tropical”, que não saberia o que dizer e ia repetir “que boa ideia esse casamento primaveril em pleno outono” a noite inteira.
A cerimônia acabou e como eu imaginei, fiquei perdida nos assuntos, porque aparentemente não era meme das novelas e gente rica realmente fala sobre ações e bolsa de valores. Investimentos e atualização da tecnologia no Japão. Viagens para Europa e qual carro dar pro filho no próximo aniversário. Acenei e sorri várias vezes, sem entender nada.
A comida de gente rica realmente era reduzida. Versões minúsculas de canapés que fariam minha avó infartar de raiva. Trocaria aquelas vieiras, que nem tive coragem de experimentar, facilmente por um cachorro quente da esquina.
Depois de muitos “oi, prazer” minha bochecha começou a latejar. Mas fingi que estava tudo bem. E estava tudo muito tranquilo e agradável, até uma das tias da Laura sentar com a gente. Não demorou para as duas começarem a se alfinetar. Ela era mesquinha, tipo riquinha de nariz empinado, o tipo que eu não suportava.
Criticava tudo que estava ao redor, desde a decoração até a mim e a Laura. Não concordei com uma palavra sequer que saia da boca da nojenta. Prendia os dentes para não começar a falar poucas e boas. Minha bochecha doía mais a cada vez que eu colocava mais força nos dentes. Não tive paciência pra ficar lá muito tempo e saí andando sem rumo entre as mesas do salão. Encontrei um banco no jardim, e fiquei por lá, retomando a paciência que a velha mesquinha tinha torrado.
Eduardo
Assim que ouvi elas saindo, liguei para o Gus, que não demorou pra chegar. Não tínhamos conversado desde sábado no clube. Mas não era a primeira vez que ele me tirava de alguma encrenca, e sempre agimos normalmente depois. Jogamos vídeo game e ele me contou sobre a Laura. Eles tinham trocado telefone depois da confusão e estavam se falando quase o dia todo.
-Eeeita, acha que fica sério então?
-Não sei, cedo pra dizer ainda…
Corremos no circuito do jogo para fugir de um ataque.
-Nem vem com essa pra cima de mim!
-Ah é espertão? Então me diz: você e a Manu, vai ficar sério?
Aí ele me pegou. A Manu era imprevisível, não dava pra afirmar nada com ela.
-Eu não sei, é diferente cara…
Desviamos de alguns tiros e conseguimos algumas recompensas.
-Diferente por quê?
-Não vai ser a mesma coisa se a gente namorar…
Isso era verdade!
-Para de inventar história. Tu gosta dela, e ela gosta de você. Do que mais vocês precisam?
-Quem disse que ela gosta de mim?
-E precisa dizer? Vocês vivem de agarração por aí... Se ela não gostasse, já tinha saído daqui faz tempo!
Será?
-Ainda não sei... Eu queria que ela sentisse que não precisasse ter medo comigo, sabe? Que eu não quero machucar ela. Mas só tenho feito o oposto.
-Isso parece irônico. Ela tá com o rosto machucado de um murro que levou por sua culpa, e você com a cara toda lascada falando que não quer machucar ela... Ah tá viu!
-Eu sei, mas é a verdade. Queria que ela confiasse em mim.
-Arranjando briga? Meio difícil, sabia...
-Porra, tu quer me animar ou terminar de pisar em mim?
-Foi mal – ele disse entre risos – Mas falando nisso... Cadê ela?
-Saiu com a Laura, foram pra um casamento.
-Casamento? Quer dizer, vestido de festa, maquiagem e elas sozinhas?
-Exato!
-Isso é um perigo...
-Não, perigo é a abertura no vestido da Laura. Dá pra fazer um estrago sem nem chegar perto do zíper…
Ele ficou nervoso na hora, gaguejando de olhos arregalados. Comecei a rir, mas não deixei de pensar na imagem delas saindo daquele jeito.
Manuela
Só dava pra aproveitar duas coisas naquele casamento: os docinhos eram divinos e os primos da Laura eram muito, mas muito lindos, então para onde olhasse, era como se estivesse em um desfile de modelos masculinos.
A maioria era como a própria Laura: altos, com os cabelos cor de areia, quase loiros, os olhos grandes e castanhos.
E podia apostar que todos fizeram os ternos junto com o noivo, porque o caimento de cada um era impecável! Tinha um que eu juro, dava pra ver a definição das costas!
-Pode bater a foto pra mim?
Era um dos primos da Laura. Me assustei ao perceber que era comigo.
-Quer dizer... Se não for incomodar?
-Não — sorri envergonhada — tudo bem, claro que bato.
Calcei discretamente os sapatos que tinha retirado e deixado escondido na barra longa do vestido e andei até o grupo que sairia na foto.
O vestido foi arrastando e meu salto afundando na grama. Chances de cair na frente daqueles deuses e passar vexame? É claro que sim!
Eles se juntaram e sorriram. Os dentes perfeitos, todos branquinhos e alinhados. As posturas impecáveis. Era perfeição demais pra uma foto só gente! Parecia que eu estava tirando foto pro catálogo de verão versão social.
Acabou que tirei várias fotos, com eles de diferentes posições. Acabei descobrindo que o nome do que tinha pedido as fotos era Oliver. Estava até me divertindo enquanto dava uma de fotógrafa. Até ouvir a Laura...
-Muito bonito Manu, sai e me deixa sozinha com a doida da tia Ema, muito obrigada!
Ela vinha afundando o salto, levantando o lado do vestido que não tinha a fenda, o que só mostrava ainda mais as pernas.
-Se fosse pra ficar sozinha eu teria vindo sozinha! Grande amiga você, ein!
Devolvi o celular para o garoto e sai sendo puxada, pedindo mil desculpas.
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