Ainda É Cedo
30 Mongólia ao Cubo
Notas iniciais
–O que houve com a garota? – quis saber Barton, deitado em seu leito, ao perceber a movimentação estranha na casa.
Natasha deu de ombros, não levando a sério o mal estar de Isadora.
–Palhaçada. Estávamos tirando aqueles sacos de cimentos dos fundos e ela, fraca, começou a ficar com dor de cabeça e desmaiou.
Clint fez uma careta pensativa.
–Ela está estranha já tem um tempo... Esses dias teve uma crise de espirros. Será que passei essa maldita pneumonia para ela?
–Tomara que sim e que morra! – torceu a outra sentando em uma cadeira próxima – Garotinha chata, frágil e histérica. Você viu ontem o “show” que ela deu só porque Sam não lavou o prato?
O arqueiro não resistiu a uma gargalhada ao lembrar-se do fato, embora no meio da risada tenha sido atingido por um costumeiro surto de tosses.
–Calma, Clint! Respira! – se afligiu a ruiva dando tapinhas nas costas dele.
Clint a afastou com a mão, antes de dar uma pigarreada.
–Não precisa sentir pena de mim, Natasha. Odeio que sintam pena de mim. – resmungou – E você também não precisa ser tão cruel com a Isadora.
–Não preciso? Clint eu não estou com pena de você e também não estou sendo cruel com ela. Apenas estou farta de tudo isso e se não fosse pelos surtos sentimentais daqueles dois, eu teria te salvado muito antes. Eles me atrasaram muito e você sabe que eu odeio atrasos.
Ele a observou em silencio por um minuto.
–O pai dela morreu Nat. – recordou-a – Você já perdeu seu pai você...
–Perdi meu pai, mas segui em frente. – interrompeu o gavião, um pouco enraivecida – Não chorei compulsivamente até desmaiar e muito menos tive um ataque de pelanca ao ponto de me entregar para a polícia. Você tem que ficar bom logo para darmos o fora daqui. Esses quatro são uns bobocas lunáticos acham que vão conseguir mudar alguma coisa na base da diplomacia e, nós, sabemos que isso não funciona.
Clint ergueu uma sobrancelha, curioso.
–Você é cômica.
–Cômica? Cale a boca, Clint, não é hora para brincadeiras!
–Não estou brincando, estou falando sério. Você é cômica. – repetiu ele mais convicto impossível — Natasha você gosta de falar mal da sensibilidade excessiva da Isa, mas esquece que sensibilidade é uma qualidade. Qualidade esta que até mesmo você tem.
Romanoff rolou os olhos, bufando, como quem escuta uma piadinha besta.
–Sensibilidade é fraqueza, Barton assim como o tal do amor. Até porque uma coisa liga a outra e felizmente eu não tenho estas fraquezas.
–Desculpe informá-la, cara “Viúva Negra” – ele enfatizou aspas usando um tom irônico na voz – Pode enganar quem quiser, e sei que faz muito bem, contudo não a mim. Eu sei que no fundo, beeeem no fundo, lá onde é quase impossível enxergar você é uma doce mulher.
–Doce? Me poupe...
Clint lançava um olhar clínico sob a mulher a sua frente. Por que para ela era tão difícil ser uma pessoal normal, mesmo por um minuto?
–Eu te vi chorar. – afirmou ele com um sorriso de canto – E eu fiquei chocado com isso.
Natasha gelou dos pés a cabeça. Isso não, Isso não!, pensava ela aflita. Ele estava quase morto, como pode lembrar-se disso?
Permaneceu sóbria sem transparecer nenhum sentimento como de praxe.
–E eu não fui o único a ficar espavorido ao presenciar essa cena, tenho certeza. – continuou ele cutucando, sem querer, a ferida da amiga.
De todas as coisas erradas que já fez na vida (e não foram poucas!!) , a única que se arrependeu -e de forma amarga e íntima – foi ter chorado naquele maldito carro por causa do maldito Clint, naquela maldita Sibéria e na frente daqueles malditos norte,sul e centro- americanos.
Pela primeira vez Romanoff não havia conseguido se conter em público. E o responsável por tal pecado foi o singular sujeito capaz de roubar sorrisos de uma dama tão séria, sóbria e mal-humorada. Clint havia chegado à tempo, em um passado distante,de salvá-la de uma morte eminente. Tempos depois, quando esta teve a chance de pagar a dívida, falhou. E falhou de forma tão trágica e gritante que permitiu que Barton fosse cruelmente torturado por quase setenta dias.
Ela não chorou pelo estado crítico de Barton. Ela chorou por ter falhado. Falhar não faz parte do dicionário de Natasha Romanoff.
Falhar é o pior dos pesadelos para a Viúva Negra.
–Errar é humano. – retrucou após uma eternidade em silencio.
Clint riu da amiga que achava que chorar era um erro.
–Bom, mudando de assunto...
–ótima ideia! – a russa apressou-se a comentar arrancando outra gargalhada com tosse do amigo.
–Enfim, você não acha que é... Como vou dizer... Bem, não acha que é muita pretensão da sua parte querer abandonar todo mundo e fugir sozinha? – inquiriu o pneumático
–Não estarei sozinha, estarei com você. Além do mais já passamos por situações mais difíceis. – ela alegou – Só fingi estar contente com os propósitos deles para conseguir te achar; sabia que a SHIELD estava me enrolando. O Capitão é bonzinho demais para o meu gosto, está sempre evitando um confronto, fica com cagaço de embarcar em uma guerra civil e “matar inocentes”. – cochichou com medo de que Sam ouvisse algo da cozinha – Porra será que ele ainda não se ligou que esse negocio de bondade é burrice? Se me deixasse fazer as coisas do meu jeito, já teríamos acabado com isso há tempos.
–Mas, mataria muita gente no processo. – acrescentou o arqueiro
–E você se importa por acaso? Francamente Clint! A convivência com esses comunistas não estão te fazendo bem. – zombou – Daqui a pouco vai começar a acreditar em paz mundial.
O homem enfermo juntou as sobrancelhas um pouco assustado com o que ouvia. Não que acreditasse no sucesso da missão humanitária e socialista do quarteto, todavia não era como Natasha. Clint se importava com os inocentes e crianças.
–Talvez eles consigam fazer justiça. Mandela não conseguiu após 27 anos preso? Então porque o Capitão América, sua namorada, um ex-agente federal e uma ladra do Caribe não podem?
A nativa de Volgogrado sentiu vontade de dar uns safanões no amigo.
–Ah e você quer ficar 27 anos aqui na Irlanda esperando o mundo esquecer-se de nós? – ela o desafiou.
–E o que você me propõe? – questionou de volta em tom brincalhão — Matar todo mundo aqui e fugir com as armas para os Estados Unidos e iniciar uma chacina sozinhos? Dá um tempo, isso é loucura! Isso aqui não é como em Budapeste. Em Budapeste a SHIELD estava com a gente e nós sabemos que quando a SHIELD caça alguém ela consegue a caça.
A espiã bufou sentindo-se impotente.
–Façamos o seguinte, se recupere e iremos embora. Na calada da noite, para que ninguém interfira. Você já está melhorando e não vai ser bom que conviva com outra pneumática.
–Isso não é uma atitude bacana, Nat. A Isa me ajudou muito quando eu não podia nem falar direito. Todos aqui nos ajudaram. – enfatizou a pluralização da última palavra – Eu mato e sacaneio gente inescrupulosa, no entanto o quarteto daqui é muito boa gente.
–Então fique você que eu vou sozinha.
–Também não é assim. Poxa, tente entender é só...
–Ei gente o que estão cochichando aí? – Sam entrou no quarto quebrando o papo.
Os dois se entreolharam aflitos.
–Sobre a Isadora. – respondeu Natasha, calma e tranquilamente. – Esperamos que ela esteja bem.
–É... Steve está boladão. A Domi acha que ela está mesmo gripada ou algo do tipo. Essa semana ela espirrou algumas vezes e anda muito sonolenta.
–E nervosa. – adicionou Barton – Eu não fiquei nervoso quanto ela.
–Isso me cheira outra coisa. – desconfiou a mulher – Algo bem, bem pior que isso.
–O que?
–Gravidez.
–Não, isso não. – Wilson apaziguou – Até comentei sobre isso com a Dominika, porque ela estava comendo por dois, mas ela me disse que semana passada tinha saído com você para comprar absorventes para Isa.
Romanoff se recordou da situação, aliviada, já excluindo essa possibilidade. Ótimo! Não sabia em quanto tempo o Gavião se recuperaria. Ninguém merece ter que ficar com gente que não gosta e ainda ouvir choro de criança.
Gravidez não era. Então o que seria?
**********************************************************************
St. James's Hospital — James's Street, Dublin
Absurdamente aflito, Steve andava em círculos na sala de espera do hospital. Ao seu lado, Dominika tentava entender o que se passava com Isadora. Pneumonia? Fadiga e estresse podem ser considerados sintomas, mas e aquela fome de pedreiro? Isadora nunca foi de comer muito e nas últimas semanas estava comendo mais do que Sam (e olha que Sam come muito!). E ainda tinha o fator cheiro. Isa andara sentindo cheiros que ninguém mais sentia.
–Ei Steve para de andar e vem aqui. – sussurrou Domi para que ninguém a ouvisse chamando Josh de Steve
–O que foi?
Domi coçou o cabelo, desconfiada.
–Isso tá estranho, Capitão. Muito estranho. Se eu não soubesse que ela estava menstruada á duas semanas, diria que Isa está grávida.
Steve quase teve um troço quando ela usou o substantivo grávida na mesma frase em que usou o nome próprio Isa.
–Nã-Não que-que isso! – gaguejou – Ela não... Para de falar besteira Dominika!
Ela gargalhou com o pânico do outro.
–Calma Steve! Ela não está grávida, tudo bem? Mas, poderia estar né? Fala aí... Vocês...
Steve ficou mais vermelho que um tomate, arregalando os olhos e direcionando ao bebedouro. Domi logo sacou a situação, não resistindo a uma gargalhada. Minutos depois Steve voltou mais aflito do que nunca.
–Você – ele olhou em volta com medo que alguém o escutasse – Você tem certeza que ela não pode estar grávida, certo? Por que se ela estiver...
–Nossa vira essa boca para lá, Steve! Deus nos livre! Imagina o inferno que seria para nós e para essa criança numa situação dessas? – ela o interrompeu – Não está, fique tranquilo. Semana passada ela estava naqueles dias, ou seja, é impossível estar grávida agora. Mas, fica o recado né... Camisinha, honey.
O loiro não sabia onde enfiar a cara, porem sentou-se ao lado da morena em busca de notícias.
–Vai ficar tudo bem. – Domi tentou tranquilizar o rapaz, ao perceber que este estava prestes a ter uma sincope – Acho que não é nem pneumonia e nem gravidez. Talvez um desequilíbrio hormonal... Isso é bem comum em...
–Desculpe atrapalhá-los, Os senhores são Penélope Jones e Joshua Williams, certo? Acompanhantes da senhorita Alicia Beckham? – disse um homem alto e de cabelos grisalhos, trajado de branco, lendo os nomes em uma prancheta.
Os dois levantaram num pulo da cadeira, tentando se acostumar com a ideia de terem nomes diferentes.
– Sou o doutor Peter Kirkman poderiam me acompanhar?
–Claro. – disse um atemorizado Steve... Ou Josh.
Seguiram o doutor até uma charmosa salinha onde Isa (ou Allie) repousava sobre uma maca.
–Isad... Alicia! – o desespero do loiro quase pôs tudo a perder – Está tudo bem? Oh meu Deus, estive tão preocupado!
Ela esboçou uma careta de confusão.
–Alicia? Quem é... – Steve arregalou seus olhos azuis para ela que logo compreendeu – Ah... Alicia! Estou bem sim. Por que não estaria?
–Você apagou por quase três horas. – explicou o médico – Mas, é perfeitamente normal em seu quadro. Seu namorado disse que você estava carregando peso quando passou mal.
Isadora ainda estava grogue, porem logo se lembrou do ocorrido também estranhando o mal estar repentino.
–Como assim “no meu quadro”? Eu ando espirrando ultimamente... Pode ter algo a ver? – ela quis saber – Meu irmão está com pneumonia e eu e a... a...
–Penélope! – exclamou Dominika
–Ah sim... Penélope. Desculpe, estou atordoada. – mentiu. – Nós estamos cuidando dele então...
–Sim, sim ela me disse. Realmente você está com um resfriado. – informou o médico anotando algo em sua prancheta – Mas, óbvio, que não foi um resfriado que te fez desmaiar por tanto tempo.
–Então o que foi doutor? Pode falar. Fala de uma vez. – Steve se desesperou e Isa apertou sua mão, passando confiança.
O médico sorriu para ele.
–Fiquem calmos, não me parece ser nada sério. Realizamos um Beta HCG na Senhorita Beckham que detectou o hormônio da gravidez...
Dominika se engasgou com a própria saliva. Os verossímeis papais gritaram um escandaloso e desesperado:
–Hormônio da gravidez? Impossível!
Dr. Peter confirmou resfolegado.
– Não é isso que me preocupa. –continuou de onde tinha sido interrompido – O exame encontrou uma gestação de sete semanas, em que o nível de HCG no sangue deveria estar em torno de 7, 650 — 229,000 mI. Porém o nível de HCG encontrado no sangue dela é de 288.000 o esperado para uma gestação de no mínimo doze semanas.
Ninguém ali entendeu nada.
–Esse exame está errado, doutor. – decretou Isa – Isso é cientificamente impossível eu menstruei esse mês. Não! Não mesmo! Você está maluco isso sim...
–Calma Allie! – pediu SteveJosh
–Há duas hipóteses, senhorita Beckham. – introduziu o médico – A primeira, e bem provável, é que a senhorita esteja realmente grávida e que o que teve não foi menstruação e sim um descolamento da placenta ou talvez tenham se fecundado dois embriões e um deles o útero absorveu.
–Está dizendo... Que...
–Estou dizendo que sua namorada a principio poderia estar grávida de gêmeos e um deles foi abortado de forma espontânea. Isso é supernatural. – contou a Steve. Ao seu lado Isadora estava em estado de choque. – Muitas mulheres, que não sabem que estão grávidas, confundem o aborto com a menstruação. Os sintomas são os mesmos.
Minuto de silencio angustiante no consultório. Domi já imaginava o inferno que a vida de todo mundo ali iria virar com um bebê.
Steve parecia ter recebido a notícia de que tinha um tumor do tamanho de uma maça no cérebro. Isadora estava inconformada.
–Não, doutor. Não mesmo! Eu saberia se estivesse grávida! Era sempre eu a descobrir a gravidez das minhas amigas e... Pelo amor de Deus isso é injusto comigo! Só transamos uma vez isso não pode acontecer assim tão rápido. Eu não posso ser mãe agora! – ela berrava como se o profissional de saúde fosse o culpado.
–Desculpe querida, mas uma vez é o suficiente. Além do mais é o que eu sempre digo: Cada mulher é única assim como os sintomas e a gestação. Aquilo que sua amiga sentiu pode não ser o mesmo que você sinta, entende?
–Puta que pariu! – praguejou Dominika – E qual é a segunda hipótese doutor Kirkman?
Steve estava com o olhar fixo no vazio. Aquilo era muita, muita, muuuuuuuita sacanagem do destino. Como ele cuidaria de uma criança com uma fuga para a China já marcada? Roupas, fraldas, berços, choros, mamadeiras, chupetas... NÃÃÃÃÃÃO! Não tinha dinheiro, não tinha tempo e não tinha lugar seguro! Inadmissível a criação de outro ser em meio a uma guerra.
A outra estava convencida de que não seria mãe.
–A segunda hipótese é que tenha sido mesmo uma menstruação e que o exame tenha detectado essa quantidade exagerada de HCG por conta de um desequilibro hormonal.
–É isso! É isso aí mesmo, doutor! – grunhiu a caribenha envolta de uma súbita esperança – Isso explica a fome, o cansaço, o estresse e o desmaio. Tudo! É isso gente, tem que ser isso.
A esperança voltou a reinar no consultório. Isa e Steve sorriram aliviados, uns para o outro.
Entretanto o Doutor Peter não estava muito convicto disso não.
–Vamos tirar a prova dos nove, então. – propôs ele bem-humorado – Esperem por meia hora que a ginecologista-obstetra Dra. Nina McCarthy vai encaixar vocês em um ultrassom. Se existir gravidez, seja de sete ou catorze semanas, será visível e se não estiver... Ótimo! Aí tentaremos descobrir o que há de errado com a senhorita.
–Excelente! Vocês vão ver gente! Eu não estou grávida. – asseverou Isadora, despreocupada com uma possível.
***************************************************
#Steve
Por que será que quando estamos com pressa, com medo, com raiva, com ansiedade ou com todas essas coisas juntas o tempo parece que não passa? Os trinta minutos no corredor pareceram uma eternidade sem fim. Isto é, para mim, já que Isadora estava mega tranquila.
–Como você pode estar tão despreocupada assim? Em minutos podemos descobrir que vamos ter um filho.
–Nós não vamos ter um filho, Steve! Não mesmo! –insistia ela – Que coisa, quer acreditar em um médico que nunca viu na vida do que em mim? Eu acho que saberia se estivesse grávida.
Comprimi os lábios em dúvida.
–Não sei como pode ter tanta certeza.
Ela liberou um longo suspiro e em seguida virou-se, mansa, para me fitar.
–Já estamos com problemas suficientes, Steve. – disse ela com uma serenidade invejável — Acho que já preenchemos nossa quota. Acho que Deus não iria permitir que um bebê passasse por tudo que estamos passando. Seria crueldade demais com ele.
–Tomara que esteja certa. – afirmei inseguro segundos antes de a doutora nos chamar.
Dominika (que estava mais aflita que eu!) resolveu esperar do lado de fora.
A obstetra, uma senhora gentil de meia idade, com sotaque britânico conduziu-nos a um pequeno consultório de exames e pediu que Isadora (que estava mega, hiper, super-relax) deitar-se em uma maca.
A mulher então passou uma espécie de gel sobre a barriga de Isa, que riu sentindo cócegas, para em seguida deslizar sobre o local um tipo de instrumento parecido com um taco de hóquei. Olhamos para o monitor e vimos uma massa cinzenta indefinida.
O sorriso de Isadora sumiu na hora. Tive que respirar fundo para não cair da cadeira.
–Com certeza você está grávida, Senhorita Beckham. Parabéns papais! – saudou-nos a Dra. McCarthy, sorridente. A “mamãe” fitava o monitor, boquiaberta.
–Não acredito! – disse ela em um sussurro.
A doutora continuou a deslizar o aparelho pela barriga dela.
–Querem ouvir o coraçãozinho do bebê? – perguntou ela sem tirar os olhos da telinha. Ficamos em silencio incapaz de falar qualquer coisa – Vou encarar isso como um sim. Muitos papais de primeira viagem ficam meio chocados quando... Espera... isso...
Dra. Nina arregalou os olhos em uma risada.
– O que foi? Não é um bebe? – me animei
–Não... É sim, só que não um. São dois.
Grudei as mãos na cadeira para não cair de susto. Isadora começou a chorar em pânico. A doutora achou que fosse emoção e deslizou agora um microfone sobre o abdômen de Isa. E então ouvimos um “tum-tum-tum-tum-tum” descompassado do lado esquerdo e outro “tum-tum-tum-tum” do lado direito. Eram dois corações, eram dois bebes. O momento que deveria ser de felicidade para outros casais, tornou-se pavoroso para nós.
Isadora chorava muito. Tanto quanto chorou soube da morte do pai. Aproximei-me dela para tentar consolá-la quando a médica disse:
–Meu Deus! Isso é muito, muito raro!
–Dois bebes de uma vez em apenas uma noite? Sim, muito azar. – respondeu Isa em um soluço
–Não, querida, não são dois bebês. – retrucou a senhora agora desviando o olhar do monitor para nós. – São três! Olhem só! – ela deslizou o microfone para outra região da barriga de Isa e outro coraçãozinho fez-se ouvido. Foi demais para mim, tudo rodou. – E olhem só... Estão na mesma placenta, isso é raríssimo!
Encostei-me na cadeira, capturado por uma súbita vertigem. Abri os olhos para ver se Isa tinha tido uma síncope, porem ela agora apenas observava o monitor.
–Mesma placenta? O que isso significa? – ela quis saber limpando as lágrimas, absurdamente nervosa
A médica sorriu para nós como se acabássemos de fazer algo incrível.
–Isso significa que vocês terão trigêmeos idênticos. Uma gravidez trigemelar natural já é considerada rara, mas a de vocês é raríssima. – contou-nos contente embora estivéssemos com o semblante de quem recebia a notícia da morte de um ente querido – Um único espermatozoide fecundou um único óvulo e o zigoto se dividiu em três. Esse tipo de fecundação ocorre na proporção de uma a cada 200 milhões, vocês são um casal de muita sorte. Meus parabéns! Vocês terão três lindos menininhos ou três lindas menininhas.
–Acho que eu vou ter um faniquito. – Isa murmurou atordoada – Está me dizendo que entre duzentos milhões de mulher eu fui à azarada que conseguiu uma coisa dessas? Pelo amor de Deus! Três? Eu não vou dar conta de três bebês.
Eu me sentia incapaz de falar. Parecia que tinham me dado três marteladas na cabeça.
–Não diga isso, Srta. Beckham. – a médica a repreendeu – Vocês foram abençoados, triplamente abençoados. Olhem só para vocês, queridos, são jovens, bonitos e parecem se amar muito. Essas crianças com certeza trarão felicidades para vocês. É o que eu sempre digo aos papais e mamães que passam por aqui:Quando o amor entre duas pessoas não cabe mais dentro delas... Nasce uma nova vida. E no caso de vocês o amor é tão grande, mas tão grande que apenas um novo ser não daria conta, por isso vieram três.
Maneira fofa de dizer que estamos ferrados!, pensei em dizer. Todavia ela estava certa. Criança é sempre alegria, correto? Mesmo quando vem logo três e quando você está sendo caçado pelo mundo inteiro e vive fugindo de tudo e de todos. Como eu fui irresponsável! Por minha culpa três crianças vão ter uma vida ruim e despreparada. Eu arruinei a minha vida, a vida da Isa e a vida dos meus filhos. Meus TRES FILHOS! Dá pra acreditar em uma coisa dessas?
–Vou deixar vocês sozinhos por um minuto.
Assim que a médica saiu abracei Isa e chorei junto a ela. Um choro diferente, um choro de culpa, frustração e horror.
–E agora Steve? – pranteou – Como nós...
Dei um selinho nela, tentando acalmá-la.
–Vai dar tudo certo. Estamos juntos nessa, lembra? A obstetra tem razão, meu amor, nós daremos conta. Nada vai faltar para nossos filhos.
–Vai faltar sim, não seja eufêmico. – protestou histérica – Nós estamos muito, muito, muuuuito perdidos. O que iremos dizer ao pessoal? A Natasha vai querer me matar! Se um já era problema, quiçá três! T-R-E-S STEVE! Três!! Nós somos dois. – enfatizou – E agora?
O que eu poderia responder perante uma situação destas? O que podemos fazer? Voltar no tempo e usar um preservativo ou doar nossos bebês? Nossa isso nunca!
– Vai dar tudo certo. – repeti, encarnando o papel de otimista antes ocupado por Isadora.
Após cinco minutos a doutora voltou e nos explicou que Isadora ia precisar de muito cuidados, pois uma gravidez múltipla é considerada de riscos. Segundo ela, a chance dos bebês nascerem prematuros era de 90%, mas que se Isa repousasse muito ( o que acho difícil de acontecer, mas vai ter que acontecer) poderia chegar as 33 semanas, que traduzindo são oito meses.
Conjuntamente a isto existiam N problemas que poderiam gerar a morte da gestante e dos bebês, porque nada é fácil para nós. Viagens de carro ou avião estavam expressamente proibidas o que destruiu nossa ideia de fugir com ela grávida mesmo. Também informou-nos que precisaríamos passar por uma consulta de quinze em quinze dias.
Isadora precisaria engordar no mínimo dez quilos para que os bebês não nascessem muito fraquinhos e também repousar muito. Ela falou em repouso umas trezentas vezes, acho que isso é importante.
–Então está me dizendo que não posso fazer esforço, viajar, me estressar, comer besteiras, andar muito e que posso ter diabetes, pressão alta, descolagem de placenta, o que resultaria em parto precoce e mesmo que eu chegue aos oito meses os bebês vão precisar ficar na UTI. É isso? – resumiu a brasileira, amedrontada com tudo.
–Sim, resumindo é isso. Claro que outros problemas surgiram – essa médica teve a coragem de dizer “outros problemas?” Já não é o bastante? – Mas, vamos falar sobre isso nas próximas consultas, tudo bem?
NÃÃÃÃO! NADA BEEM, MOÇA!
–Claro. – respondemos
–Ótimo. Vejo vocês cinco em quinze dias. – se despediu, divertida.
Cinco! Meu Deus nós somos cinco!
*********************************************************
Posterior à consulta que nos deu a notícia que mudaria nossas vidas para sempre, havia outro problema a resolver: Como dizer a Dominika, Sam, Natasha e Clint que nós não só poderíamos sair da Irlanda em nove meses? Ou talvez um ano, pois não sabemos como os bebês nascerão. Todos nossos planos haviam mudado. Precisávamos de outro plano. Um plano onde três bebês se encaixariam. E adivinha? Esse plano não existe.
Decidimos dizer a Domi que Isa teria apenas um bebê e só então no sítio revelar que o nosso problema era três vezes maior. O número três agora faz parte da minha vida.
–Não fica assim, Isa. – Domi resolveu ajudar a amiga que chorava baixinho na janela do carro – Nós vamos dar conta, acredite. Gravidez não é doença e você é jovem, ou seja, vamos conseguir seguir viagem durante os nove meses.
Engoli em seco.
Seguimos viagem em silencio, apesar dos gemidos de Isa. Pensei no que dizer a ela, que pudesse consolá-la, sem sucesso. Na verdade, o que eu poderia dizer? Que muitos casais passam por isso? Mentira, apenas um casal em cada duzentos milhões de casais passam por isso. Uma dura e trágica estatística. Talvez com o tempo essa angústia diminua e quem sabe se torne algo bom.
Não era algo bom. Não era assim que eu queria ter filhos com Isadora. Não no meio do nada, em um país estranho, escondido em um sítio.
Chegamos quase em luto no sítio, sendo recebidos por um Sam ansioso.
–E aí o que a Isa tem?
–Chame todo mundo para a sala, Wilson. – ordenei – Vamos acabar com isso de uma vez.
A nova mamãe tinha os olhos vermelhos e distantes, porem não mais chorava. Em pouco tempo Natasha e Sam arrastaram Barton para a sala.
–O que houve? Por que estão com essas caras de enterro? – questionou a russa sentando-se ao sofá.
Silencio. Ninguém tinha coragem de dizer nada.
–Isadora vai ter um neném. – Dominika salvou a pátria – E antes que vocês surtem, saibam que não vai mudar nada em nossos planos. Podemos perfeitamente seguir viagem com uma gestante.
Sam gargalhou alto antes que eu pudesse revelar o triplo erro da frase da caribenha.
–Ai gente nossa vida está cada vez mais parecida com The Walking Dead! – bradou ele entre risos – Já temos o Hershel Barton todo fudido das pernas e agora adivinha quem aparece? Lori! Vai morrer no parto, já to avisando.
–CALA A BOCA, SAM! – grunhiu Domi, chocada com o humor negro – Já falei que você está ficando viciado nesse negócio de zumbis.
–O que eu posso fazer se a realidade está copiando a arte? – retrucou divertido – Eu não to entendendo nada, sério. A Natasha disse que você estava naqueles dias semana passada.
–exatamente. – deu força a ruiva – Você mentiu para nós?
–Não menti... Simplesmente não foi uma menstruação. A doutora disse que quando os embriões estão se acomodando na parede uterina, o útero libera uma parte dela. – Isa explicou com a voz fúnebre – Isso acontece quando são gêmeos.
Natasha se engasgou com a limonada, começando a tossir.
–Que-Quer dizer que são gêmeos? – Clint investigou pasmo.
–Não. – eu respondi – São trigêmeos.
Fale com o autor