Ainda É Cedo
38 Bem Vindo ao Inferno - Parte I
Notas iniciais
BASE MILITAR DE GUANTÁNAMO – CUBA
Após estourar os dois joelhos de Sherman e ter descoberto que Phil Coulson e Nina McCarthy estavam envolvidos no esquema revolucionário, Carter ainda almejava por mais informações. Contudo, após o surto sangrento da mulher na sala de tortura, Fury deixou o serviço nas mãos de George Tarleton.
–Você está tirando uma com a minha cara não está? – Fury estava indignado. Sharon não entendia o por quê. – Você, de novo, deixou esse seu lado patológico maluco tomar conta de você.
–Do que está falando?
–Você explodiu os joelhos da porra do cara.
–E daí? Você já fez muito pior do que atirar na perna de um médico irlandês. – devolveu não se importando com o que o diretor dizia.
Fury passou a mão pelo rosto, irritado.
–Eu já te disse, mil vezes, que há uma grande diferença entre matar uma tribo indígena da Tasmânia ou um imbecil do gueto de Nova Iorque e matar alguém importante. Você sabe quem é Jeremy Sherman para a cidade de Dublin? – ela nada respondeu. – Ele é simplesmente o médico mais famoso da cidade. Esse imbecil, que você acaba de aleijar, é conhecido nacional e internacionalmente por essas ONGs ridículas de apoio aos necessitados. Sabe o que vai acontecer se descobrirem que ele foi morto em Guantánamo? – Nick aumentou o tom de voz bravíssimo. A sujeita abaixou a cabeça, se ligando no que fizera. – Esses filhos da puta dos direitos humanos vão foder com a gente! Entendeu agente Carter? Entendeu?
–Sim senhor. – suspirou ela – Perdão, senhor, eu me excedi.
–Reze para que ele não morra. Já estamos na mira da mídia com essa palhaçada do Rogers, só me falta recordarem de Guantánamo.
Ela riu.
–O bom de lidar com o povão é que eles sofrem de amnésia crônica. É até bom manter a atenção deles voltada ao Rogers, pelo menos assim eles esquecem problemas mais graves.
A risada debochada de ambos foi interrompida pela chegada de Tarleton.
– E então Tarleton, o que mais conseguiu tirar destes dois babacas? — Sharon apressou-se em perguntar ao homem que saia da “sala da justiça” limpando as mãos sujas de sangue em uma flanela.
George não estava com uma cara muito boa. Fury ergueu uma sobrancelha, aflito.
–Bem, er, bem...
–Quê que houve? –o homem de um só olho logo viu que tinha algo errado – Anda, Tarleton, diga-me, o que houve?
–Exageramos senhor, exageramos.
–“EXAGERAMOS” ? “EXAGERAMOS” ? – grunhiu o comandante, entre dentes, encenando aspas – Vocês fazem uma merda e no final exageraMOS? Morreram é isso?
–Não senhor, quer dizer, a mulher sim, o homem não.
Fury respirou aliviado.
–Ao menos ele está vivo. Esqueça isso por um tempo, quero saber o que mais ele disse. –ponderou a Agente 13.
–Os filhos da mãe foram para a Inglaterra, tem três bebês, Romanoff e Barton estão com eles...
–Barton? – disseram ambos em uníssono, perplexos. – Aquela porra tá viva?
–Isso aí, aquela porra tá viva. – respondeu ele, divertido. – E aquela porra e o resto das porras estão atrás da piranha chinesa e se eles a encontrarem antes da gente, sinceramente, fudeu.
Momento tenso no local. Ninguém ali sabia até que ponto as investigações de Chan tinha obtido resultados. De qualquer forma não é nada bom para o governo a união do Hulk e do Capitão América contra a América.
–E... Senhor, vamos ter que liquidar o Sherman. Mesmo ele sendo importante, vai ser muito ruim se ele sair daqui e der com a língua nos dentes. Ainda mais agora que a putinha dele morreu.
A mulher presente não conteve um sorriso com a ideia de mandar o irlandês para a terra dos pés juntos. Nick fez menção de dizer algo sobre a euforia dela, mas seu rádio tocou e este se afastou para atender.
–É meu. – avisou Sharon a George – Eu termino o serviço.
–Porque faz tanta questão de matar? – o agente não resistiu a pergunta – Não que eu seja um Steve Rogers de bondade, mas, gata, você fica feliz em matar... Isso é... Doentio.
Ela sorriu para ele agradecida.
–Vou levar o doentio como elogio.
Tarleton deu de ombros.
–Você não respondeu minha pergunta. Diga, porque gosta de matar?
–Porque me dá prazer, ora. Eu gosto do olhar de pavor que eles me dão antes do tiro final e dos”por favor, por favor” e toda a baboseira.
O homem não resistiu a uma careta ao escutar o que escutou.

–Er... Tudo bem. Todo mundo...
–Os encontramos! – Fury era todo sorrisos ao dar a notícia. Em segundos todos no lugar estavam mais felizes que jogador de futebol erguendo taça em final de campeonato. – Pegamos esses filhos de uma puta, caralho!
–Como isso? – a psicopata quis saber detalhes – Espera! Encontrar é diferente de pegar... Estamos com eles? Onde estão minhas filhas?
–Filhas? – George boiou
–Sim, pegamos a maioria. Eles se encontraram com o grupo de Xiaoli, mas o Bruce surtou e isso nos alertou. A maioria já está a caminho de Guantánamo para “averiguação”.
–Rogers está entre os presos? – continuou o chefe da CIA
–Não, o veado tá foragido, mas pegamos a mulher dele e duas das crianças, ou seja, em breve vamos reunir a família.
–Minhas filhas! – suspirou a doida. – Onde elas estão? E onde está a outra?
Fury não resistiu a uma careta ao ouvir minhas filhas. Resolveu ignorar. Aquele era um momento de alegria.
–Martinez, Wollscheid, Ross, Wilson e Banner estão a caminho. Romanoff, Barton, a piranha da chinesa e o Rogers ainda estão por aí junto a uma das bebês.
–Vão trazer o Hulk pra cá?
–Não, ele vai para uma jaula especializada no aeroporta-aviões.
–E o Coulson? – recordou-se a moça – Vai deixá-lo em liberdade? O que ele fez foi traição à pátria e a instituição, fora que foi cúmplice de um bando de terroristas.
–Eu não o esqueci, Carter, já mandei tropas atrás deles na África.
Ambos agentes ficaram contentes com a resposta.
–E o Sherman? – quis saber o da CIA – O que fazemos com ele e o corpo da mulher?
O general bufou.
–Bom, a cagada já foi feita, então desova em algum lugar. Sharon termine com o médico e Tarleton mande alguém queimar os corpos longe daqui... Não quero provas.
–Sim, senhor. – responderam.
–Ah e Carter, espere! – ele a barrou.
–Sim, diretor.
–Não seja cruel. Uma bala na cabeça e pronto,entendeu? Terminem com eles e esperem os novos prisioneiros.
Carter direcionou-se sorridente a Jeremy, que mal conseguia respirar de tanta dor. Na verdade o que mais doía nem eram os ferimentos em toda a parte do corpo, mas sim a culpa na morte da esposa. Por um momento Jeremy teve vontade de voltar no tempo e denunciar Steve e sua trupe para a polícia.
Porem, sabia que tinha feito o certo. Sharon se aproximou dele com a arma em punho e semblante irônico.
–Vai. Acaba. Aca-ca-caba logo com isso. – sussurrou com dificuldade, uma fina gota de sangue escorrendo pelo canto da boca.
A monstra gargalhou do sofrimento.
–Você merece, sabia? Merece mesmo morrer, mas beeeem devagarzinho. – o sujeito gelou. – Sorte sua que fiz uma promessa a Fury, então... Vá para o inferno, Dr. Sherman.
–--------------------------------------------------------------------------------
LIVERPOOL – INGLATERRA
–Cara larga essa criança no meio de uma moita qualquer, pelo amoor de Deus! – insistia Natasha entre sussurros enquanto se escondia atrás de uma árvore. – Essa praga não cala a boca.
Atrás dela vinha Clint com um bebê conforto na mão direita e um revolver na esquerda. Anna, a pobre coitada que foi parar nas mãos dos assassinos, chorava sem parar.
–Se você não calar a boca quem vai ser abandonada em uma moita vai ser você. – avisou colocando as mãos delicadamente sobre a boquinha da criança. – Anna, por favor, ajuda querida! Ajuda!
–Joga ela fora! – bradou à ruiva, histérica.
O grito de fúria atraiu a atenção de sete agentes que rondavam o local.
–Está satisfeita? – resmungou Barton, usando o corpo como um escudo para proteger a menina dos balaços ao atravessar a mata enquanto Natasha revidava os tiros.
Correram por dez minutos até encontrarem uma velha cabana de camponeses. Os sons das rajadas estavam se aproximando.
–Não vai dá, vou me entregar. – conclui Clint enquanto ninava a primogênita Rogers – Isadora , Domi e Sam foram pegos junto com Flora e Olívia... Não sei onde estão os outros. Não quero arriscar a vidinha de Ann em um confronto.
–TÚ TÁ CHAPADO? VOCÊ...
Clint colocou a cadeirinha com o neném no colo de Romanoff que se silenciou, chocada.
–O que significa isso? – inquiriu em tom mais baixo e assustado.
–Atravesse o rio e vá para a zona urbana de Bristol, de lá dê um jeito de ligar para Coulson e, sei lá, ligue para o Coulson e veja o que ele pode fazer. Nessa bolsa aí tem fraldas, roupas e uma mamadeira pronta. Mantenha A.J viva, entendeu?
–Não! – se desesperou – Clint eu não...
–Por favor, Nat! – ele implorou roubando-lhe um selinho – Se você tem um pingo de consideração por mim, mantenha A.J viva. Por favor!
Natasha nunca esteve tão desesperada em toda sua vida. Anna voltou a chorar.
–Eu odeio crianças.
–Anda logo, não temos tempo... Vou distraí-los. Fuja!
–Clint...
O arqueiro não deu ouvido ao que dizia a russa, apenas a enxotou para longe com a criança. Observou a silhueta da mulher se perder em meio às sombras das árvores, com o coração apertado. Não por Natasha, mas por Anna.
–-------------------------------------------------------------------------------------------------
#Steve
Não sei por quanto tempo corri e nem quantos agentes tive que liquidar. Só sei que após um bom tempo eles pararam de me seguir. Simplesmente os helicópteros sumiram. A floresta que dividia Liverpool de Bristol havia voltado a sua calmaria habitual.
Voltei correndo para o lugar onde tinha deixado Isa e os outros, com o coração apertado temendo que eles não estivessem mais ali. Era óbvio que eles não estariam mais ali! Eu os mandei fugir, não mandei? Então por que estariam? E se... E se os levaram? Eu não estava lá para ajudá-los. E se os levaram... Para onde os levaram? Meu Deus, o que eu fiz? Essa minha ideia de chamar a atenção deles para uma direção oposta pode não ter obtido o resultado esperado. Afinal, eles estavam em maior número. Podem muito bem também ter se dividido e um grupo ter ido atrás de mim e outro ao encalço de Isadora.
Os piores pensamentos possíveis tomaram conta de minha cabeça enquanto eu corria. Ao chegar ao local nada encontrei, então continuei andando pelos arredores, até o momento que cheguei ao fim da estrada de terra. Ali só o que tinha era uma ribanceira cujo fundo eram águas. Eles não foram para cá, claro. Talvez tenham seguido para a direção oposta... Ou quem sabe tenham adentrado mata adentro.
–Merda! – bradei exausto, preocupado, acabado. Sem ter a menor ideia de por onde começar a procurar. Não havia nem sinal de que a SHIELD tinha passado por ali.
Estava prestes a voltar quando duas coisas alarmantes chamam minha atenção. A primeira eram marcas de rodas, freadas, metros antes do precipício. E a segunda era o contorno de alguém ao horizonte fitando o abismo.
Coloquei a mão sobre o revolver, por precaução e me aproximei até que percebo quem é a pessoa.
–Xiaoli! – a chamei.
Ela virou-se para mim em lágrimas, apertando contra si uma mochila preta. A sujeita estava toda ralada e mancava.
– Onde eles estão? – um nó começou a se formar em minha garganta – Não... Não... Eles não...
Chan veio até mim em soluços e me abraçou de forma tão forte que dei um passo para trás.
–A roda...
–Que roda? O que houve? – certo. Isso só pode ser brincadeira. A chinesa não parecia em condições de dizer nada. E eu não estava com paciência para gente que não tem condição de falar – PARA!- grunhi e ela engoliu em seco, arredia. — Me diga, pelo amor de Deus, o que aconteceu aqui. Onde está Isadora e as meninas? Onde estão os outros, Xiaoli?
A mulher colocou a mochila nas costas, enxugou as lágrimas e puxou-me pelas mãos até o precipício.
A segui desnorteado e senti-me enfraquecer ao perceber que lá embaixo, em meio as pedras de um riacho, estava a carcaça de nosso Santa Fé. O carro havia despencado por quinze metros de altura.
–Os pneus foram atingidos, Sam perdeu o controle do veículo. – narrou – Antes do carro caí nós pulamos, mas nem todo mundo conseguiu sair...
Ela fez uma pausa dramática para soluçar. Quase tive um AVC.
–Sam entregou duas das bebês a Bruce e Beth também conseguiram pular, pois estavam do lado das portas. Barton e Natasha quebraram o vidro dos fundos e saíram com a terceira criança, mas não deu mais tempo de fazer nada... Eu mal consegui tirar essa mochila que está com o dossiê. – lamentou – Sam, aquela moça morena e sua namorada não conseguiram se soltar dos cintos de segurança a tempo. Foi muito rápido! Ela só disse que era para tirar as meninas e que ela se virava, disse que já tinha caído antes...
Deixei-a falando sozinha e tentei descer aquele morro maldito. Isso não podia estar acontecendo!
–Não vai adiantar, é tarde demais! Eles os levaram... Não sei em que estado, mais os levaram. – alertou-me – Pare Capitão, não vai encontrá-la lá embaixo.
–ENTÃO ME DIGA ONDE EU VOU ENCONTRÁ-LA? – berrei histérico me aproximando dela muito indignado
Xiaoli me fitou perplexa e percebi que tinha sido muito grotesco. Coitada, não tem culpa se eu sou a pessoa mais azarada da face da Terra.
–Me desculpe. – pedi – Eu só...
–Tudo bem, eu entendo. Eu te entendo mesmo. Já é tarde, acho devemos sair daqui e procurar um lugar seguro para passar a noite.
–Passar a noite?- me revoltei- Eu vou ficar aqui ou ir para um lugar bem movimentado para que me encontrem e levem para junto deles.
A garota gargalhou.
–Esperava uma atitude mais inteligente do senhor, Capitão. Não vê que é isso que eles querem? Não vê que é por isso que pegaram ela –enfatizou o pronome – Ao invés de você? É piegas, mas dá certo. Já imaginavam que você iria surtar e se entregar para salvar a família.
Arfei, derrotado, sentando-me no chão. Chan permaneceu de pé com os braços cruzados.
–Então o que me sugere?
–Sugiro que levante desse chão e me ajude a encontrar um lugar para descansar. Amanhã, mais calmos, pensamos em procurá-los.
–Não vou estar mais calmo amanhã. Não posso ir dormir com a minha família e amigos nas mãos de sabe-se Deus quem. Temos que fazer isso hoje. AGORA! – me levantei decidido, mas logo observei o estado da chinesa.
Xiaoli Chan estava com os dois braços ralados, a face esquerda esfolada e a perna direita continha um ferimento aberto que sangrava. Provavelmente todos os ferimentos foram obtidos no momento em que ela pulou do automóvel em movimento. Aquilo não era justo com ela. Ela era uma mulher e estava ferida em todos os aspectos. Precisava descansar.
–Estou exausta. – implorou – Eu tenho um plano, mas preciso dormir.
Concordei com a cabeça.
–Venha, vamos encontrar alguma coisa.
Voltei para a floresta. Xiaoli tinha razão ao dizer que pegar Isadora tinha sido uma armadilha para prender todo mundo. Se me pegassem, provavelmente Isa não iria atrás. Ela não se importa tanto quanto se importava comigo. Ultimamente tudo que ela faz é me culpar. Eu sou o culpado de tudo para ela, até do aquecimento global. Em suma, acho que estamos todos cansados.
Depois de uma hora de caminhada chegamos uma zona aberta da mata.
–Acho bom fazermos uma fogueira aqui. Não vamos encontrar coisa melhor pela frente. – eu disse.
–Aqui está bom, pelo menos temos uma boa visão de tudo daqui.
Juntei algumas folhas secas e gravetos para uma fogueira. Sentamo-nos em volta.
–Como você conseguiu fugir depois de ter pulado do carro? – puxei assunto.
– Bruce ameaçou se “esverdear” e isso deixou o pessoal assustado por um tempo, então fugi. Beth não teve tempo de me seguir.
–Banner se entregou, então?
–Sim. E as suas filhas foram levadas com eles. Mas, não o culpe. – ela acrescentou rápido ao observar minha cara irritada – Não deu tempo de entregá-las a ninguém... Eram muitos malditos armados. Pense pelo lado positivo, uma delas ainda está com Barton.
Dei um sorrisinho amarelo, fitando as brasas da fogueira.
Ficamos em silêncio por mais alguns tempos até Xiaoli voltar a falar.
–Ela ainda gosta de você, não se preocupe.
–Como? – estranhei.
–Isadora. Ela só está doente, já te disse, ela ainda está lá dentro.
–E o que podemos fazer para curá-la? Como posso ajudar se nem sei se ela está bem, se machucou na queda... Nem sei onde ela está.
–Ouvi os agentes falarem sobre ir para a base militar, mas os Estados Unidos tem centenas de bases pelo mundo. – comentou com certo humor na voz. – Talvez possamos ir para Washington procurar alguma associação de moradores ou organização política independente e mostrar o que eu descobri sobre as intervenções militares no Oriente Médio... Não é muito, mas com isso podem nos ajudar a procurá-los.
Balancei a cabeça em negativa.
–Não acho seguro fazer nenhuma manifestação enquanto eles estiverem nossos amigos como reféns. Temos que descobrir onde eles estão e tirá-los de lá. Aí sem vamos a Washington.
–É... Você tem razão. O negócio é descobrir a localização.
–Barton e Romanoff estão por aí, não estão? Amanhã cedo vamos tentar encontrá-los. – ela concordou com um sorriso.
Mais alguns breves momentos de silêncio.
–Posso fazer uma pergunta? – inquiriu a oriental. Concordei com a cabeça. – O que fez você, ícone americano, embarcar nessa furada?
Ri alto do furada. Pensei por alguns instantes.
–Acho que minha consciência... E a Isa, claro. Acho que sem ela eu demoraria décadas para perceber...
–Perceber o que? – apressou-se
–Perceber que a guerra é um crime. E que guerra hoje em dia nem sempre é declarada, como era no meu tempo. Agora se você tem muito dinheiro pode usar a propaganda para fazer com que as pessoas acreditem que invadir outros locais e extorqui-los é perfeitamente normal. Guerra é o crime facilmente mais rentável e, certamente, o mais cruel... É o único em que os lucros são contados em dólares e as perdas em vidas... Ela é conduzida para o benefício dos poucos, à custa dos muitos... Eu passei a maior parte do meu tempo como um “defensor de alta classe” para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em suma, eu era um gângster, um gangster para o capitalismo. E o pior é que eu fazia isso sem saber.
–Sociedade conativa. – resumiu
–Exatamente. Lembro-me que a primeira coisa que Isadora me disse quando nos conhecemos foi “mantenha os olhos abertos”. De inicio não entendi. Naquela época, bem, acho que por toda minha vida eu quis fazer a coisa certa, lutar pelo meu país... Só que os tempos mudam e percebi que obedecer a autoridades corruptas não faz de mim um bom homem, muito pelo contrário. E do que adianta ser uma mega potência a custa de vidas. Você disse que tinha entrado nessa com seu noivo... Por que ele desistiu?
Ela pareceu se entristecer e por um momento me arrependi de ter feito a pergunta.
–Se não quiser responder...
–Não, tudo bem, Capitão. Bem, quando fomos nos aproximando da caixa preta dos negócios da China algumas autoridades fizeram várias propostas para que parássemos por ali. Inclusive alguns até nos deram segredos “menores” para que nós espalhássemos para a população em troca dos grandes. Não funcionou óbvio. Mas, então Juliet Jones do consulado canadense ofereceu sete milhões de dólares e, bem, ela ao Jake e... Adivinha? – ela riu – Estou aqui em uma floresta britânica e ele está milionário do outro lado do mundo.
Ui!
–Sinto muito. – foi o que pude falar – Tenho certeza que vai encontrar alguém bacana.
Xiaoli abaixou a cabeça, com um sorriso melancólico.
–Passei anos presa a ele. Até ouvir falar de um homem incrível, mas não tenho a menor chance. – ela olhou para mim chateada. — Ele tem filhas e é apaixonado pela mãe delas.
Pelo que parece eu não sou o único azarado na vida.
–Eu também tinha sérios problemas amorosos. – contei tentando animá-la – Mas, decidi esperar pela parceira ideal. E veja só... Na época em que eu ficava desesperado procurando-a, Isa não tinha nem nascido. Vai ver o seu ainda não nasceu.
Ela gargalhou junto a mim.
–Ele já nasceu... Há muito tempo. Meu problema é que meu parceiro ideal já tem uma parceira ideal e ela não sou eu.
–Isso também já aconteceu comigo. – confessei rindo – E eu consegui conquistá-la.
–Era a Isa?
–Concordei com a cabeça.
–Então não desista talvez você também possa conquistá-lo. – incentivei
–Você acha?
–Acho que sim. Bom, agora vá dormir amanha o dia começa cedo.
–Boa noite, Capitão!
–Boa noite! – desejei, embora eu não fosse ter uma boa noite.
Não sem saber o que tinha acontecido com todo mundo. Não sem saber o estado que Isa estava depois do acidente. Não sem saber onde estavam minhas filhas.
–-------------------------------------------------------------------------------------------
GUANTÁNAMO – CUBA
#ISADORA
–Isa? Fala comigo, vamos, fala comigo? – acordei com a voz angustiada de Domi e tapinhas no rosto – Ela está acordando! Graças a Deus!
Abri os olhos com certa dificuldade. Beth ajudou-me a me situar. Olhei para cima e só vi pedras. Uma forte dor de cabeça tomou conta de mim.
–Que lugar é esse?
–O inferno. – Dominika respondeu – O inferno de Guantánamo.
– O qu-que? – todas as coisas terríveis que eu já tinha lido sobre o lugar veio como uma onda em minha cabeça – E minhas filhas? O Steve, Sam, Bruce... Onde... Cadê todo mundo?
–Estamos todos fudidos. – anunciou uma voz conhecida vinda dos fundos da sala. Virei-me para ver quem era.
–Skye? – choquei. – O que... Ai meu Deus! Descobriram que o Phil...
–Aham! – ela concordou – Estamos todos presos. Coulson, Sam e Ward estão na ala masculina. Banner não está por aqui e suas filhas estão com aquela loira psicótica.
A pior coisa que uma mãe pode ouvir é “suas filhas estão com a loira psicótica”.
Fitei-a estarrecida.

–Temos que sair daqui.
–Vamos esperar o Steve. – ponderou Domi – Ele ainda está por aí, vai nos tirar daqui.
–Não vou esperar ninguém! – perdi a linha. Fui até a grade gritar por alguém – EEI! EI GUARDA VEM AQUI!
Um cara trajando farda americana apareceu.
–O que você quer?
–Isadora...
–Quieta Domi! – bradei – Chame a Sharon, por favor.
O soldado riu debochadamente.
–Vai se arrepender de chamá-la, gatinha. Ela odeia você...
–Não importa.
Ele deu de ombros.
–Tuuudo bem.
Beth, Skye e Domi vieram até mim com semblante enfezado.
–Isa você ficou desacordada por quatro horas, não tem ideia do que passamos durante esse tempo. – amedrontou-me Ross – Aquela mulher é a pior de todas, ela acha que as meninas são filhas delas, é completamente louca. Mas, não as fará mal... Espere o Capitão nos encontrar, Chan, Romanoff e Barton estão com uma delas e estão a solta. Não a provoque, por favor.
–Não vou provocar, só quero as minhas filhas. – repliquei
–Isadora ela é doida!- exclamou Skye apavorada – Se você a provocar ela...
–Ela matou o Dr. Sherman. – completou Domi – Ela... Ela trouxe a cabeça dele aqui. E está a caça da Nina. Tenho medo do que essa gente possa fazer aos homens e a nós.

– Meu Deus! – sussurrei – Nós...
–Mandou me chamar piranha. – a voz sádica de Carter me chamou atenção – Que bom que acordou. Temos muito o que conversar, certo?
Lancei-lhe meu olhar mais maligno.

–Onde estão minhas filhas? – questionei aproximando-me da grade

–As suas eu não sei. As minhas estão comigo que é o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
–Você precisa de tratamento.
A sinistra puxou-me pelo braço contra a grade.
–E você precisa morrer, lenta e dolorosamente. — sussurrou em meus ouvidos- Mas, antes você vai ver todo mundo que você gosta sofrer. Você vai ver, Isadora Wollscheid, o porquê não se deve roubar o namorado e as filhas de Sharon Carter. Você roubou minha família... Você vai pagar.
Não perdi tempo. Com o braço livre unhei a cara dela. A loira me soltou.
–Abra a sela! – rosnou a um capataz – Abra essa porra dessa sela e leve essa vadia para a sala da justiça. Anda!
–Não! – as meninas se colocaram a minha frente
Respirei fundo tentando controlar a raiva e o medo.
–Acalmem-se. Eu volto logo. – tranquilizei-as, nem um pouco tranquila.
O soldado me algemou e arrastou-me para fora seguindo a diaba até uma porta de metal.
Sharon abriu a sala com um sorriso e o fedor do lugar me atingiu com um soco.
Ela riu me empurrando como um gado e trancando a entrada.
Certo, era uma sala de tortura.
–Agora você vai entender porque os jornais tratam Guantánamo com um inferno. – anunciou debochada – Bem vinda ao Inferno de Guantánamo Srta. Wollscheid.
Fale com o autor