Ailie In Wonderland
2 Sing, my princess
Notas iniciais
“Você agora é... – Neil apontou pra mim com uma bengala preta. – Uma Lolita.”
Neil estava me levando para conhecer mais o país Wonderland. Estávamos entrando em um enorme jardim com enormes flores.
– Ai, to adorando esse vestidinho! – eu disse.
– Até um tempo atrás você estava implicando com ele... – suspirou Neil.
– Ei, Neil, estou com fome... – reclamei.
– Aqui não dá pra transformar nada, não adianta choramingar, estamos no jardim das rosas. – disse Neil.
– E não dá pra transformar as rosas em um docinho, poxa? – perguntei.
– Obviamente não. – respondeu Neil.
– Por quê? – perguntei inutilmente.
Neil apontou para cima, olhei para aonde Neil apontou e vi uma rosa vermelha gigante.
– Ora, Neil. – disse a rosa. – Temos companhia hoje?
– Sim. – respondeu Neil. – Essa é a Ailie.
– Prazer Ailie, meu nome é Arabella. – a rosa vermelha se apresentou gentilmente.
– O meu chá está pronto? – perguntou Neil.
– Claro, nunca nos esquecemos de fazer, Neil. – respondeu Arabella.
Neil andou até uma mesa de folha. Em cima da mesa de folha tinha uma xícara de chá e um bule. Neil sentou em uma cadeira de folha, as folhas eram belas, como diamantes.
Arabella começou a puxar conversa:
– Que tipo de flor você é? – perguntou ela.
– Como assim flor? – perguntei.
– Ora, querida. Todas aqui somos flores. – disse uma orquídea.
– Eu não sou uma flor... – respondi.
– Claro que é. – disse uma rosa branca.
– Se não fosse, o que estaria fazendo aqui? – respondeu Arabella.
– Eu só estou acompanhando o Neil... – respondi.
– É uma flor feia. – disse a rosa branca que se aproximou e me cheirou. – E não tem perfume!
– Deixa-me conferir. – Arabella se aproximou e me cheirou também. – Se tem perfume, é bem ruim!
Neil pegou a xícara delicadamente e deu um gole.
– Ai, ai, começou... – suspirou ele.
Uma rosa negra entrou na discussão:
– Ela deve ser uma flor sem cheiro. – disse ela.
– Flor sem cheiro? E existe isso? – perguntei indignada.
– Claro que tem, no jardim vizinho tem umas... – respondeu a rosa negra.
– Sim, o jardim de rosas da rainha... – disse Arabella.
– Como é o jardim da rainha? – perguntei curiosa.
– Vou contar a história. Uma vez a rainha pediu para colocarem uma árvore de rosas negras em um jardim abandonado. Mesmo sendo algo bem impossível, os soldados dela foram a busca das sementes para não terem a cabeça cortada fora. Mas, no fim, só conseguiram árvores falsas de rosas brancas... Então eles pintam todas as rosas das árvores com tinta preta... – respondeu Arabella.
– Oras! – eu disse. – Mas elas não são flores de verdade.
– Flores são flores. – disse uma margarida.
– O Neil não é uma flor e vocês o tratam bem... – eu disse.
– Ele é uma flor sim. – disse Arabella. – Eu vi ele crescer.
“Ai, que flores mais chatas!” pensei.
– Se ele não fosse, o que você faria? – perguntei.
– O expulsaria daqui. – respondeu Arabella.
– Mesmo o conhecendo faz tempo e fazendo “chazinho” pra ele?
– Sim.
“As flores mudas são mais legais...”
– Afinal... – Arabella começou a cantar. – Uma flor é o que mais tem de melhor no mundo! Somos divas e delicadas como diamantes. Somos como dinheiro na mão do pobre. Nós merecemos um lugar apenas para nós! Nós trazemos alegria ao mundo.
As outras flores também começaram a cantar:
– Afinal, o que mais deveríamos ser? Somos flores, somos as melhores do mundo!
Olhei ao redor e vi uma jovem rosa experimentando colares esse olhando na frente do espelho. Comecei a cantar também para entrar na onda:
– Mas vocês não são um pouquinho vaidosas demais?
– É claro que não, somos divas, se somos vaidosas, nós devemos ser. – cantou a jovem rosa que estava se olhando no espelho.
– Nem uma lagarta merece estar aqui nesse lugar. É como se aqui fosse um lugar cheio de pecados, proibido de tocar. – cantou Arabella jogando uma lagarta no ar.
– Ainda acho que são vaidosas e egoístas. – cantei.
– Egoístas são os outros, que nem lugares pra gente dão, simplesmente nos arrancam e tiram nossas pétalas para fazerem “bem-me-quer-mal-me-quer”! – cantou a rosa negra.
– Mas o que as outras criaturas como formigas tem a ver com isso? – cantei.
– Ai, calem a boca! – gritou Neil.
– Uma flor merece mais respeito, merece o primeiro lugar. – uma margarida colocou uma coroa de rei no Neil.
– Ei! Não coloque esse “troço” na minha cabeça! – gritou Neil.
– A rainha não nos entende e ainda quer nos expulsar daqui porque estouramos o cartão de crédito dela! – cantou Arabella.
– Oras! E depois ainda dizem que não são egoístas? – cantei.
– Claro que não somos os outros é que são! – cantaram todas de uma vez.
– A flor dá alegria ao mundo, somos coloridas e bonitas. – cantou uma tulipa.
– Isso eu até concordo, tenho até um jardim de flores no meu quintal! – cantei.
– Agora sim você conseguiu entender a mensagem, é o que eu disse no começo: Somos divas, poderosas e riquíssimas em beleza. – cantou Arabella.
– Até a abelha vocês expulsam daqui? – cantei.
– Mas é claro! – disse uma flor.
– Minha paciência com essa cantoria está esgotando... – cantou Neil baixinho.
– Conseguimos ser mais bonitas que a Madonna! – cantou Arabella.
– Se duvidar, conseguimos vender mais que ela! – cantou outra flor.
– Mas vocês ainda não tentaram vender, como sabem então? – cantei.
– Você já sabe a resposta. – disse Arabella.
– Sim, acho que não preciso nem pensar nela... – eu disse.
– Acabou a cantoria, Deus é pai. – disse Neil.
– Mas eu não sou uma flor. – eu disse.
Neil levantou-se e andou até mim. Ele colocou a mão em meu ombro.
– Isso, nós dois não somos flores. – Ele olhou para Arabella com um olhar nada gentil. – Você é como se fosse minha mãe desde minha infância. O que vai fazer?
As flores ficaram em silêncio e logo soltaram fogo:
– O que?! – começaram a gritar. – Vocês não são flores?!
– Por que deixamos esse lugar impuro por tanto tempo?! – gritou Arabella
– Vamos expulsá-los daqui! – gritou uma margarida.
– Sim, vamos expulsá-los, saiam daqui! – gritou uma tulipa.
Enquanto eu e Neil corríamos, as flores nos empurravam.
Elas ficaram realmente loucas com a provocação do Neil! Nunca imaginei que ele pudesse ser assim, sério.
– Desculpe por isso. – disse Neil.
– Tudo bem. – sorri.
– Às vezes não consigo me controlar muito bem. – sorriu Neil. – Elas estavam te irritando, então não consegui me controlar.
– Ah, tudo bem, eu me sinto assim às vezes. – eu disse corada. – Onde vamos agora?
– Já viu móveis com vida própria? – perguntou Neil.
– Não. – respondi.
Neil pegou em minha mão correndo, virou-se para mim com um sorriso e disse:
– Então venha comigo!!
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