Aidentiti no kōkan
12 O outro lado da moeda: Shinra
Notas iniciais
Suspirou, vai se saber quantas vezes apenas naquele dia. Sua irmã tinha voltado a seu quarto em busca de refugio de seu insistente pesadelo e o pior é que estava piorando, logo não conseguiriam mais esconder de seus pais. Sabia que era uma subida gradativa, no passado também foi. Começava com algo rápido, ela não gritava, apenas despertava, mal se lembrando do que tinha sonhado, e ia procurar por ele. Depois ela já se lembrava do sonho por inteiro, mas ainda não soltava sons. Depois começava a tremer durante a noite, suava. Depois começava os resmungos. Em seguida ela começava a falar, pedir ajudar, coisas do estilo. E por fim vinham os gritos.
Foi um dos motivos pelos quais haviam retornado ao Japão, Hina não sabia, mas ele foi forçado a contar o ocorrido para seus pais e por medo ele mudaram de lugar. Todavia, naquela época, tinham um bom motivo para irem embora, somado a vários outros como a vontade de sua mãe de voltar a morar perto dos pais que já estavam velhos e logo partiriam desse mundo. Era triste, mas ela queria mais tempo com eles, aproveitar os últimos momentos poderia se dizer.
Se soubessem que Hina voltou a ter esses pesadelos... Muito provavelmente suspeitariam que o que aconteceu no passado havia voltado a ocorrer, quando na verdade era todo o contrário. Hina estava feliz, mais que feliz por estar onde queria estar, com amigos e jogos pela frente. Nunca a viu tão bem, e não poderia dizer que também não estava. Mesmo que manter o segredo era difícil em sua situação era engraçado ver que estava rodeado de garotas, aprendendo mais sobre elas.
Não era o que um garoto costumaria fazer, se algum outro estivesse em sua situação estaria com pensamentos maliciosos sobre suas colegas e amigas em todo o momento, principalmente com a proximidade que tinha, e não negava que as vezes era difícil manter-se neutro quando as garotas cismavam de conversar ou fazer coisas que para ele seriam proibidas. Garotas tinham uma proximidade deveras assustadora.
Não poderiam se mudar de novo, recomeçar tudo agora que já tinham tudo que queriam e bem no início. Mas seus pais não lhes dariam ouvidos se tentassem explicar, seria mais fácil permanecer em silencio e arrumar uma maneira de impedir que escutem os gritos de Hina quando esses chegassem. E pensar que já nem ao menos precisava escutar a porta se abrir para acordar, Hina já tinha começado a falar enquanto dormia e dava para escutar muito bem desde seu quarto. Era assustador.
– Shinra? — a voz mansa e carinhosa de sua melhor amiga o retirou de seus pensamentos. Emily Hyuuka era uma garota muito amável, foi a primeira que descobriu sobre o segredo de uma forma um tanto peculiar. Seus olhos eram de um castanho tão escuro que poderia ser facilmente confundido com negro, os cabelos ondulados aloirados e a pele branca, com as bochechas sempre rosadas. Era quase de seu tamanho, pequena e delicada, parecia uma boneca, não levantava a voz, não reclamava, todos de sua turma gostavam dela, era inteligente e bonita. — Sabia que o encontraria aqui em cima.
Havia se refugiado no telhado da escola para poder pensar, mas Emily sempre o encontraria, do pouco tempo que passaram juntos foi fácil para ela decifrar seus hábitos, expressões e algumas vezes pensamentos. Era uma grande amiga e sempre estava a seu lado. Ela descobriu que era um menino simplesmente pelos pequenos detalhes de sua atitude, por isso ficou preocupado com Hina que agia de modo tão espalhafatoso.
Pessoas observadoras como Emily eram assustadoras e aquele amigo de Hina não deveria ser muito diferente. A loira sentou-se a seu lado, um sorriso amável em seu rosto enquanto o encarava. Ele sabia que a pergunta viria.
– Aconteceu alguma coisa?
– Apenas estava pensando. — respondeu, forçando o sorriso para não causar mais complicações. Um dia contaria a ela sobre o que passava com sua irmã, mas não era agora, além do consentimento de Hina precisaria estar preparado para qual seria a reação de sua amiga. Mesmo a pior possível.
– Na sua irmã, certo?
– É assustador esse seu jeito de saber das coisas.
– Não é tão difícil. Você fala muito nela, da pra perceber que ela é muito importante pra você. — o moreno não conseguiu evitar deixar escapar um pequeno sorriso ao escutar aquilo. Por mais que diferenciasse de sua irmã em questões de amizade, pois sim, ele teve a suas nos Estados Unidos, não poderia negar que precisava dela tanto quanto ela precisava dele. — Ela deve ser uma pessoa incrível.
– Pelo contrário. É desastrada, distraída e uma dor de cabeça por cada ideia maluca que tem. — resmungou, jogando o corpo para trás e apoiando-se nos braços, o rosto voltando-se para cima a encarar o céu um pequeno sorriso a lhe surgir no rosto, cheio de carinho e nostalgia. — Mas nunca deixa de sorrir mesmo nas piores situações e sempre arruma uma maneira de alegrar quem tem um problema.
– Entendo...
– Não é a melhor pessoa do mundo, adora se intrometer em assuntos que não tem nada haver com ela e mente sempre que acha necessário, o que se refere a muitas ocasiões. Mas no final sempre faz essas coisas erradas procurando ajudar alguém que goste.
– Um dia quero conhecê-la.
– Ela me mataria se soubesse que você sabe do nosso segredo.
– Já tentou dizer pra ela?
– Eh? Não, mas...
– Não saberá até contar. — em alguns aspectos Emily se assemelhava bastante com sua irmã, e uma dessas semelhanças era a forma simples de ver as soluções dos problemas. E o pior disse é que nunca deixavam espaço para a outra pessoa pensar que poderia ser uma solução não exatamente simples ou fácil de ser executada, muitas vezes nem chegava a ser uma solução. — Agora vamos, o horário de almoço está quase acabando.
Dedicou-se em apenas segui-la para os andares de baixo, caminhando tranquilamente enquanto Emily cumprimentava seus conhecidos, tanto de anos mais acima que o dela ou de sua mesma série. Até mesmo professores a cumprimentavam sempre que passava pelos corredores. Emily era demasiadamente sociável.
Ele por outro lado, na maior parte das vezes passava despercebido, por mais que caminhasse ao lado de Emily o tempo todo sua presença era completamente apagada se caso quisesse. Foi um truque que aprendeu depois de pensar um pouco em uma frase muito comum em filosofia:
"Penso logo existo", pelo que se estudava essa frase se devia a ideia de que as coisas só existem pelo fato de você pensar nelas, se você deixasse de pensar, como no caso de estar dormindo ou em um estado de coma, tudo deixaria de existir para você. Então se as pessoas não pensassem nele ele deixaria de existir para elas? Simples não? Mas não era tão fácil de fazer.
A partir do momento que você é apresentado as pessoas passam a pensar em você, como em sua primeira impressão. Todavia, acreditou que se não fizesse mais nada para chamar a atenção a memoria da primeira apresentação se dissiparia, se desgastaria e desapareceria como qualquer outra memoria e assim ele deixaria de existir e ter problemas. Claro isso não funcionava com todo mundo, existiam pessoas que forçavam a continuação de uma existência. Pessoas como sua irmã que sempre insistia até a desistência da pessoa a qual era foco de sua atenção.
Ao chegar na sala acomodou-se quase de imediato em sua cadeira, o rosto voltando-se para a janela a seu lado. Como estaria sua irmão? Ela havia saído tão apressada que quando acordou já não tinha ninguém em casa, se bem se recordava ela nem ao menos havia levado seu bento... Suspirou, sempre tão descuidada.
– Ne, Hina! — chamou uma de suas colegas, aproximando-se junto a mais duas, um sorriso malicioso em seus lábios. Não a chamava bem de amiga, mas apenas de colega. Não era que desgostava, apenas não via intimidade suficiente para que fosse considerada uma amiga. — Ouvimos dizer que o Ayama Mikoto da sala 3 está interessado em você e que talvez se declare hoje.
– Ah... Sério? — perguntou sem muitos ânimos, afinando um pouco a voz para realmente aparentar ser uma menina. Sua voz era ligeiramente mais grossa que a de sua irmã, entretanto ela conseguiria muito bem usar sua voz normal para fingir ser um garoto, afinal, ninguém acreditaria que um "menino" como ela teria uma voz muito grossa. Mas ele não podia falar normalmente, isso denunciaria fácil que não eram quem dizia que era.
Ouviu uma leve risada de Emily ao fundo, receber uma declaração de um garoto não era nada legal. Pelo menos não para ele. Bom, era uma consequência do segredo que guardava, não tinha como escapar, apenas deveria escutar o que o rapaz tinha a dizer e por fim recusar a oferta. Mesmo assim era terrivelmente inconveniente.
– Vocês tem certeza que não é da Emily-chan que ele gosta e apenas vai me usar para chegar até ela? — questionou, de forma ligeiramente tímida e desacreditada. Todavia a garota a sua frente negou com veemência.
– Não! Tenho certeza que é de você que ele gosta! — afirmou com ainda mais firmeza. Suspirou, esses problemas eram terríveis! Não queria ter que lidar com eles, mas também não queria ficar sem eles. Era uma contradição e isso o incomodava. — Você tem tanta sorte Hina-chan! Eu queria um garoto como aquele de olho em mim.
Algumas garotas eram seres estranhos. Sonhavam coisas estranhas como romances impossíveis, ficavam sempre a procura de uma aparência aceitável tanto para elas quanto para sociedade não apenas em si mesmas como também em seus parceiros, falavam de um jeito desdenhoso e era uma raça de cobras traiçoeiras, sendo que estava depreciando a pobre da cobra que apenas seguia seus instintos de sobrevivência. E de tudo isso surgia garotas como Emily e Hina, que não se importavam com aparência, algumas vezes chegavam a ser desleixadas, no caso de Hina o tempo inteiro, pouco ligavam para romance ou se algum dia teriam um par ou como ele seria. Não eram frívolas e chegavam a ser honestas de mais.
Não que garotos fossem uma raça diferente, mas as vezes tinha medo de determinadas garotas. Estar tão perto do mundo delas era mais perigoso do que ser um garoto e apenas se aproximar.
A aula transcorreu como sempre deveria. Mal conseguia prestar atenção no que seus professores chegavam a falar. Não tinha dificuldades, preferia estudar em casa do que estar ali, sem falar que de qualquer maneira teria que repetir o assunto para tentar ensinar sua irmã. Apesar de não conseguir reclamar de nada, ela estava se esforçando para tirar notas altas e fingir para seus pais que ela era ele. Ela realmente queria continuar em Karasuno.
Suspirou, ele também queria continuar ao lado de Emily. Ela era uma pessoa incrível, tranquila e de fácil conversa. Não tinha uma vida movimentada como a que sua irmã estava a ter, muito menos muitos amigos como Hina aparentemente estava a fazer. Eram apenas os dois e não se incomodava nem um pouco. Talvez devesse chamá-la para ver os treinos de sua irmã, tinha certeza que ela não se importaria.
Deitou-se sobre sua mesa, apenas esperando que a aula terminasse. Foi realmente muita sorte que sua irmã tivesse se engraçado em uma escola em que não precisava de uniformes, assim não tinha que usar saia... Só de pensar já lhe passava calafrios. E como o outono se aproximava junto ao inverno usar roupas de frio facilitaria ainda mais guardar seu segredo.
Foi durante a saída, enquanto caminhava com Emily a seu lado, que o rapaz se aproximou. Era ligeiramente alto, deveria praticar algum tipo de esporte já que seu corpo era bem demarcado pela blusa que usava, os olhos de um castanho claro quase amarelado, cabelos negros e curtos caindo-lhe sobre os olhos. Para as demais garotas ele era considerado atraente, mas Shinra em seu disfarce de Hina, mesmo que estivesse como uma menina naquele momento, não significava que teria o mesmo tipo de desejo. Ainda era um garoto, e ainda sentia atração por garotas e não garotos.
Todavia entrou no papel que deveria ser tomado e seguiu o rapaz para um área mais privada, escutaria o que ele teria a dizer e iria embora, simples assim. Era um lugar comum para aquele tipo de situação, no entanto. No telhado da escola onde poucas pessoas iam, principalmente naquele horário de saída.
Escutou desde o início até o fim. Era sempre aquela mesma ladainha de sempre, desde aquele papo de "comecei a prestar mais atenção em você" até o "comecei a gostar cada vez mais de você" eram sempre a mesma coisa. Deveria se lembrar de não dizer esse tipo de coisa para uma garota, era tão cansativo e repetitivo que compreendia agora porque o romance havia sido tão banalizado e sua irmã odiava falar dele.
– Desculpa. Mas não correspondo seus sentimentos. — respondeu com delicadeza, dedicando um delicado sorriso ao rapaz. Ele a encarou um pouco decepcionado.
– M-mas... P-por acaso g-gosta de outra pessoa? — questionou, ainda com um pouco de esperança de que pudesse ter alguma coisa.
– Não, apenas não quero um relacionamento por agora. Você parece ser um rapaz legal, tem algumas garotas da minha turma interessadas em você, então se ainda quer alguma companhia relacionada a esse tipo de relação, sugiro que tente conhecer uma delas. — sorriu novamente, preparando-se para ir. — Até mais.
Odiava esse tipo de situação, era exatamente por esse motivo que gostava de passar despercebido. Sem contato, sem complicações, sem existência, sem coexistência. Mas tudo bem, era um dos fardos de ter vida e ele sabia bem disso.
– E como foi? — questionou Emily assim que se encontraram. Apenas dedicou-se a suspirar, seguindo o caminho em direção a sua casa. Sua companheira riu, divertindo-se com sua reação. — Você é bem insensível, Hina.
– Não estranhe, se fosse minha irmã não seria muito diferente. — argumentou, franzindo o cenho. Novamente Emily riu.
– Mas tenho certeza que ela não seria tão... Robô, por assim dizer. Já tentou demonstrar algum sentimento para mais alguém além de sua irmã?
– Você é a prova viva de que faço.
– Vai que estou morta.
– Impossível, caso fosse o caso todos me olhariam com cara estranha por estar falando sozinho. Sem falar que uma existência espectral não foi comprovado ainda pela ciência.
– Você as vezes é muito chata. — Emily era cuidadosa, sempre colocava suas frases no feminino quando tinham pessoas conhecidas por perto. E naquele momento estavam rodeadas pelos outros alunos que se dispersavam para o mesmo caminho que elas. — Tente ser mais emotiva de vez em quando.
– Não vejo essa necessidade. — novamente franziu o cenho e Emily riu. Sua relação se baseava praticamente apenas nisso. Emily era o sentimento e ele a cabeça. Shinra nunca teve muito sentimentalismo para pessoas que não fossem intimas. E isso muitas vezes afastava quem não o conhecia. Foi então que se recordou, talvez fosse uma boa hora para perguntar. — Ne, Emily, quer ir comigo a um dos treinos de minha irmã?
– Vai ter muitos meninos, certo?
– Desde quando você é desse tipo?
– Ha ha!! Apenas estava brincando, sabia que você ia ficar com essa cara de nojo. — riu a loira, apressando um pouco o passo e virando-se para encarar seu companheiro, deixando-se caminhar de costas. — Claro que irei com você, estou ansiosa para conhecer sua irmã.
– Sabe que terá que tratá-la como meu irmão, e tenho certeza que você poderá me tratar como um garoto. — avisou, todavia o rosto de sua companheira não diminuiu.
– Quando iremos? Você pode me explicar as condições mais tarde.
– Tudo bem se for amanhã, depois da aula.
– Sua irmã vai ficar muito feliz.
– Tenho certeza disso. — murmurou, já estava se aproximando de casa. Todavia reparou algo inusual no caminho.
Aproximou-se de Emily, poderia não ser um bom protetor, mas sabia que estar junto era melhor do que nada. Era um grupo de garotos, algumas quadras de sua casa, tão próximo que chegou a se assustar. Emily segurou sua mão, estava tão nervosa quanto, eles usavam uniformes de estudantes, mas já sabiam bem que isso não valia de nada. Muitos baderneiros eram de alguma escola.
Assustou-se quando um deles o encarou, um pequeno sorriso debochado dirigindo-se a sua pessoa. Parecia o conhecer, mas nunca tinha visto ele. Talvez conhecia sua irmã? Mas não estavam usando o uniforme de Karasuno. Quem eram então? Apressou o passo, não era por que estava curioso que ficaria para perguntar. O quanto antes chegasse em casa melhor seria, e arrastaria Emily para dentro, sua mãe estando lá ou não.
Assim que virou a esquina e viu sua casa logo a frente não conseguiu evitar o alivio, mas sabia que ainda não era seguro. Atravessou o portão, abriu a porta as pressas e por fim jogou Emily para dentro, entrando logo em seguida, fechando a porta no ato. Agora poderia respirar mais tranquilamente.
Retirou os sapatos e saltou para perto de uma das janelas, encarando o lado de fora com certa incerteza. Não havia ninguém na rua, mas não sabia se estavam esperando na virada da rua. Não poderia deixar que Emily saísse daquela maneira.
– Vai ficar aqui até minha mãe chegar, vou pedir para que te leve para casa. — falou, não era um pedido nem uma sugestão, estava mais para uma ordem, pois sabia que era o mais sensato.
– Mas e quanto a...
– Eu invento alguma desculpa, não se preocupe com isso. O mais importante é você voltar para casa segura. — e mesmo que dissesse isso seu cérebro já começava a trabalhar em milhares de situações que poderiam ocorrer naquela noite. Evitar perguntas seria o melhor, mas não sabia se conseguiria. Para sua sorte Emily já sabia de seu segredo, se caso fosse o contrario estaria deveras perdido.
Mas uma coisa tinha certeza: assim que Hina chegasse em casa perguntaria a ela no que havia se metido agora.
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