Aidentiti no kōkan
15 Dia de azar
Notas iniciais
Capitulo 15
Tudo que se podia ouvir naquele instante na quadra era o som da bola quicando no chão e se afastando. O alto levantador de Seijoh, o calouro que substituiu Oikawa e estranhamente havia pedido para tentar um corte, voltou ao chão com leveza, disfarçando um pequeno sorriso no rosto enquanto olhava para o pequeno garoto caído ao chão com ambas as mãos no rosto, encolhendo-se contra si mesmo.
O pequeno ergueu um dos olhos, ainda cheio de lágrimas, para ver o atacante. Todo seu rosto ardia e seu nariz parecia que havia quebrado, de tanta dor que sentia. Claro que já havia levado diversas bolas em seu rosto diversas vezes, mas aquela veio com tanta força e tanta precisão que nem ao menos tivera tempo de reagir. Quando percebeu havia sido jogado para trás, suas costas e a parte de trás de sua cabeça acertando o chão da quadra com força e fazendo um barulho estranho. E mesmo que tivesse absorvido a maior parte da força da bola com sua cara, ela ainda ergueu-se alguns metros para cima e caiu novamente, dessa vez acertando o chão próximo de onde caiu, distanciando a cada instante.
Sabia que uma bola daquela não teria vindo por acidente, estava próximo a linha de reservas, uma quadra inteira ainda poderia ser usada para ser lançada a bola, e mesmo assim ela acertou em cheio sua cara, tão perfeitamente ajustada a seu rosto que não existia uma parte dele que não estivesse ardendo. E por que tinha acontecido antes mesmo do amistoso entre Karasuno e Seijoh começar? Bem... Shinra já sabia que seu dia não seria dos melhores, aquilo foi apenas uma confirmação de suas premonições.
Tinha começado com logo cedo, naquela bela manhã de sábado. Havia despertado atrasado e tão rápido quanto conseguiu arrumou-se e saltou escadas a baixo para ir até a porta e finalmente desaparecer rua a fora na direção de Karasuno para pegar o ônibus que os levariam para Seijoh. Mas assim que colocou o pé no final da escada o segundo desastre veio a acontecer.
De alguma forma misteriosamente mágica ou demoníaca, para a pequena garota estava mais para o ultimo, sua mãe se materializou na sua frente impedindo a continuação de seu caminho. O rosto recheado com uma curiosidade alarmante fez a pequena garota, já colocando-se no papel de um menino, tremer as pernas, o coração vacilar uma vez. Uma desculpa, precisava apenas de uma e estava sem ideias. Viu sua mãe abrir a boca, lá vinha a pergunta:
— A onde vai a essa hora em pleno final de semana Hina? — eram plenas seis horas da manhã. Para ser mais exato umas seis e doze. Hina, vestindo-se de Shinra, precisava estar no ponto de encontro as seis e meia em ponto, nada que uma corrida não pudesse resolver com suas pernas ágeis. Todavia, não era um super herói que conseguia alcançar a velocidade da luz em um piscar de olhos, nunca chegaria nem perto e Karasuno não ficava assim tão perto de sua casa para chegar em menos de dez minutos. Se demorasse mais um pouco chegaria atrasada.
E o mais importante naquela questão inteira: Hina, nunca em sua vida, acordaria cedo em pleno final de semana, com tanta animação e pressa, se não tivesse algo de extrema importância pra fazer. Sua mãe via a pequeno mochila que tinha em suas costas, carregada com seu uniforme de vôlei de Karasuno e uma roupa reserva. Obviamente sua mãe não sabia o conteúdo da bolsa, e preferia que não soubesse. Precisava se apressar e achar uma desculpa.
— Bem... e-eu... s-sabe...- vasculhou seu cérebro em busca de alguma coisa enquanto gaguejava sem nada pra falar. Droga, precisava de socorro.
— Hina vai encontrar com meus colegas de Karasuno para uma partida. Eu não estou me sentindo muito bem, então eles aceitaram que ela fosse no meu lugar para conseguir formar um time completo. — Shinra havia aparecido bem no momento certo. Ele havia ouvido a confusão que Hina aprontara para se arrumar e depois disso não conseguiu mais dormir. Sabia que ela estava afobada de mais para pensar em alguma coisa então só lhe restava levantar-se da confortável cama, ir até a beirada do segundo andar próximo a escada e dar a desculpa para sua mãe.
— Isso! — exclamou a pequena feliz por seu irmão estar ali naquele momento. Deveria lembrar-se de agradecê-lo depois, no momento não tinha tempo nem oportunidade. Sua mãe não disse mais nada, para ela Shinra nunca lhe mentiria, então só lhe cabia aceitar e ceder espaço para a filha passar, por mais que não agradasse a história de que ela voltaria com esse esporte. Claro, não poderia deixá-la ir sem um aviso.
— Não jogue de mais, sabe do problema que tem no tornozelo. — todavia Hina quase não escutou. Correu porta a fora e disparou na direção da escola, chegando no ultimo minuto. E nisso veio a terceira desgraça do dia: o sermão.
Obviamente não poderia ser apenas o sermão do treinador Ukai, também tinha que vir do Ennoshita, Nishinoya e Tanaka. Todos já estavam dentro do ônibus naquele momento e o único assento que lhe havia sobrado era do lado de Akane, obviamente ele o havia guardado para o pequeno jogador.
Akane nunca lhe disse o que ele e seu irmão poderiam ter conversado quando o rapaz dormiu em sua casa. E, apesar de lhe dar uma grande curiosidade, não se dedicou a perguntar, mesmo que soubesse bem que, se fosse algo que não tinha a menor importância Akane não teria problemas em falar, e mesmo assim ele não disse um pio. Não era estranho de sua pessoa, era verdade, mas no dia seguinte ele parecia um pouco inquieto de mais. Não conseguia ter nem ideia do que poderia se tratar o assunto e por mais que tentasse não conseguia tirar isso da cabeça. Não sabia porque lhe incomodava tanto. E toda vez que isso lhe vinha a mente, tinha sempre a impressão de estar encarando Akane de um modo bem mais intenso do que antes. Se ele reaparava não sabia, mas sabia que acontecia.
Seja como for, foi exatamente esse pequeno detalhe que acabou por gerar a desgraça numero quatro do dia. Sentou-se ao lado do rapaz, não deixando de encará-lo desde que colocara o pé para dentro do ônibus, talvez por isso reparou os hematomas em seus pulsos, aparecendo ligeiramente por debaixo da manga que havia escorregado um pouco para baixo quando o rapaz moveu os braços. Percebeu também os cortes em seu pescoço, não profundos, pareciam apenas pequenos arranhões, praticamente todo coberto pela gola da jaqueta que usava.
Seus dedos foram inconscientemente para os machucados no pescoço, procurando ver melhor o que tinha apenas um vislumbre. Entretanto, assim que seus dedos tocaram a gola da blusa do rapaz ele se esquivou, segurando seu pulso em um estado visivelmente de defensiva. Ele estava tentando esconder aqueles pequenos machucados.
— O que aconteceu? Por que seus pescoço e seus pulsos estão machucados? — questionou. Já que não poderia ver, teria que perguntar diretamente a ele. Todavia, por mais amigos que fossem Akane nunca contou nada a seu respeito para Shinra, o único que o pequeno sabia vinha de sua pouca convivência durante aquele período escolar. Shinra também nunca perguntou, para ele pouco importava o passado das pessoas, havia muitas coisas que Akane também nunca descobriria sobre ele, entretanto, aqueles machucados, percebeu, estavam constantemente aparecendo de tempos em tempos no rapaz, e nunca conseguia saber o motivo.
Akane virou o rosto para outro lado, ajeitando a jaqueta para que pudesse tampar mais perfeitamente os machucados em sua pele. Ele não diria, não tinha coragem de dizer mesmo que os olhos de seu companheiro mostrassem a preocupação que sentia. Sabia que ele apenas queria ajudá-lo, mas Akane tinha vergonha do que passava e não via como alguém como Shinra, que por mais que fingisse ser um homem era uma garota feliz e alegre com uma família amável e de boas condições, poderia entender. Apenas queria viver aquelas duas vidas, uma feliz com seus amigos e uma com sua família, secreta e odiada.
Afinal, pensava, do que adiantaria Shinra saber o que passava em sua casa? Nada poderia fazer, não poderia entendê-lo e nem consolá-lo. Então, preferia estar do jeito que estava e apenas se contentar em ver a felicidade da pequena amiga que tinha feito e zelar para que esse ultimo raio de felicidade que via em sua vida não se esvaisse junto de sua pouca esperança. Assim como muitas outras coisas, como o fato de estar apaixonado por ela, permaneceria em segredo dentro de seu coração. Isso não o mataria de qualquer maneira.
— N-nada...
— Akane, por que não quer me contar? Eu sou seu amigo eu posso...
— Eu já disse que não é nada! Não disse que não se importava se eu ficasse calado?! Então me deixe assim e não pergunte mais! — não queria sobressaltar sua voz, mas sabia que se não tivesse sido um pouco rude Shinra não largaria de sue pé.
O pequeno, por sua parte, se assustou com a reação e viu que seria melhor permanecer quieto o resto da viagem. Uma parte sua ficou realmente afetada com aquilo, Akane sabia um dos seus piores segredos, não poderia compartilhar pelo menos esse com ele? Claro que talvez fosse algo intimo, mas se aquilo o estava machucando tudo que queria era ajudar, de alguma maneira, seja o mais simples que for.
— Né, Shinra. — Nishinoya pendurou-se na poltrona da frente, encarando-o com olhar felino igual a Tanaka-senpai ao seu lado. Sabia que ali vinha coisa, mas não estava mais com muitos ânimos de se divertir com seus senpais. — Ouvimos dizer que vai chegar uma aluna transferida na nossa escola. Ouvi dizer que é estrangeira.
— Sério? — incentivou, mesmo que sua voz tivesse soado um pouco fraca. Yuu pareceu ter sido o único que percebeu. Talvez por estar bem próximo de seu pequeno kouhai havia reparado essa pequena mudança que havia passado despercebida por Tanaka.
— Parece que ela vai entrar na sua sala, Sakurano-san. Depois nos conte como ela é. Tenho esperanças de que seja uma linda garota loira de olhos azuis e um corpo de dar inveja a qualquer mortal! — Tanaka divagava em pensamentos enquanto tagarelava sobre a novata, pensamentos, se mal poderia dizer, nem um pouco cultos. Mas Shinra não prestava atenção.
Seijoh chegou e sem que percebesse a quinta desgraça do dia observou cada um dos jogadores de Karasuno descer do ônibus. Shinra não havia reparado naquele instante, mas logo perceberia, que naquela escola encontraria um terrível inimigo.
Como era de se esperar os jogadores do terceiro ano de Seijoh não estavam mais no time, se quer na escola. Boa parte de suas forças de ataque haviam diminuído com a saída de Oikawa, ou Grande Rei como Hinata-senpai gostava de chamá-lo. Não por isso Seijoh havia caído de sua posição, pois o novato que apareceu para substituí-lo poderia ser tão bom quanto. Oikawa era um monstro, isso não tinha o que se discutir, mas aquele rapaz que estava no primeiro ano tinha algo bem pior.
Imagine alguém com as habilidades de Oikawa, mas a genialidade de Kageyama, somado a um temperamento calmo e sorrateiro que se assemelhava ao ataque surpresa de uma serpente, prestes a esmagar a sua presa. Esse era Asano Akabane. Tinha o tamanho de Akane, os olhos de um castanho amendoados reluzentes, pele branca e cabelos ondulados ligeiramente longos de um castanho quase ruivo. Possuía um sorriso fácil no rosto, tranquilo como sua personalidade na frente de uma multidão. Mas quando se encontrava sozinho com pessoas que não eram de seu agrado... Se tornava um demônio assustador.
Shinra odiava pessoas como ele, pois eram valentões difíceis de se livrar por serem sociáveis diante dos demais. E, por mais que não soubesse, Asano também odiava pessoas como Shinra. Uma coisa que o novato da Seijoh tinha claro era que esportes que exigiam altura não deveriam ser praticados por pessoas de estatura baixa. E Shinra entrava perfeitamente nessa categoria. Asano não se incomodava com líberos, afinal, era uma posição que aceitava pessoas mais baixas. Entretanto Meio de Rede, Ponteiros e Levantadores obrigatoriamente deveriam ser altos em sua concepção. E exatamente por esse motivo a desgraça numero seis aconteceu.
Asano já tinha posto sua atenção em dois específicos jogadores de Karasuno: Hinata e Shinra. Todavia ele conhecia a fama de Hinata, e sabia que seria mais difícil mostrar para ele que vôlei não era lugar para pessoas de baixa estatura. Todavia Shinra era um caso diferente. De forma calma e discreta deveria intimidá-lo e forçá-lo a esquecer o esporte.
Hinata foi logo ao banheiro deixando seus companheiros já preparando-se na quadra da escola Seijoh onde iriam jogar. Yuu, aproveitando o momento em que Shinra se encontrava sozinho, se aproximou do pequeno companheiro, afastando-o um pouco mais do resto do grupo.
— O que aconteceu no ônibus hoje? Você não parecia ter a mesma animação de quando chegou. — questionou, o olhar preocupado dirigindo-se para o pequeno kouhai que sorriu constrangido.
— Não é nada Yuu-senpai. Eu só... — o rapaz suspirou e desviou o olhar para um canto qualquer da quadra. Os jogadores adversários já haviam entrada na quadra e começavam a se aquecer, logo o jogo começaria e sua autoestima não estava muito elevada. — Não sei se posso te contar os detalhes. Mas tem algo com o Akane que está me preocupando. Não me importo que ele não converse muito, mas gostaria que confiasse em mim para dizer seus problemas e me deixasse tentar ajudá-lo.
— Não se preocupe! — o tapa veio junto com a fala, em uma potencia de tal tamanho que se viu perder um pouco do equilíbrio e dar alguns passos para frente. Seus olhos voltaram-se para seu senpai, que tinha um enorme sorriso despreocupado no rosto. — Tenho certeza que ele logo vai te contar e vocês dois vão se resolver. São grandes amigos, não são?! Algo assim não vai atrapalhar vocês.
— Talvez você tenha razão Yuu-senpai. Talvez eu esteja me preocupando à toa. — sorriu para o rapaz a seu lado, um pouco mais tranquilo, apesar de não muito conformado. Todavia, mesmo que o momento estivesse em um clima agradável, a sexta desgraça mencionada antes não demorou a chegar.
E nisso nos encontramos nesse momento. Tudo havia passado muito rápido. Shinra já tinha começado a escutar as batidas da bola sendo lançada em alta velocidade para o chão em chutadas consecutivas, entretanto aquele som foi diferente e o chamou a atenção. Todavia, assim que seu rosto se virou para a direção do som a bola acertou seu rosto e o mandou para trás. Sua cabeça acertou o solo e a bola se distanciou. Suas mãos foram até o rosto de forma desesperada e inúteis a procura de deter a dor que começou a se espalhar. E durante aqueles primeiros segundos de surpresa todos ficaram em silencio.
— Shinra! — Akane se aproximou do pequeno, ainda encolhido no chão com a mão no rosto e os olhos lacrimejando. Em seguida todos do time de Karasuno vieram em seu amparo. A maioria sabia que Shinra não tinha problema nenhum em levar boladas como aquelas, em algumas partidas nada mais natural do que vê-lo recepcionando com o próprio rosto. Entretanto, aquela foi diferente.
Uma das maiores qualidades do pequeno ponteiro era sua capacidade de levar uma bolada e permanecer de pé ou, pelo menos, levantar-se rápido se caia. O som do golpe em sua cabeça foi estranho, todos puderam ouvir, e pela reação do pequeno em seguida aquilo havia doido mais do que das outras vezes. Akane ergueu a cabeça, encarando a pessoa que tinha jogado a bola.
— Ora! Sinto muito! Ainda não tenho muita coordenação em meus ataques, afinal sou apenas o levantador. — o enorme rapaz se aproximou, um singelo sorriso no rosto. Shinra o observava com atenção, mesmo que cada vez mais apertasse o rosto com as mãos. — Eu realmente sinto muito. Mas me sinto impressionado da bola ter te acertado, você é tão pequeno e estava tão longe... Que azar não? Foi como acertar uma formiga com a ponta de uma flecha hahahaha!
Akane sentiu seu corpo levantar assim que ouviu aquelas palavras. Seu tamanho se equiparava ao do garoto que tinha a frente, ambos a se encarar de maneira provocante. Akane sabia que aquele tipo de comentário era malicioso, e que aquela bola não havia acertado Shinra por acaso. O sorriso daquele rapaz a sua frente era falso, suas intenções não eram boas e por algum motivo haviam se focado no pequeno garoto. Seria como Kintaro? Que se incomodava com a "luz" que o pequeno possuía? Ou era por outro motivo? Seja como for não o deixaria continuar com isso.
Uma pequena mão o segurou pelo pulso e o puxou um pouco para trás enquanto alguém se posicionava entre si e o rapaz levantador. Shinra ergueu o rosto um enorme sorriso em seu rosto apesar do mesmo estar completamente vermelho.
— Realmente foi muito azar meu! — comentou rindo, de forma casual. Todos os encararam com confusão, mas o pequeno não se importava e continuou. — Hoje realmente não está sendo meu dia de sorte. Mas não se preocupe comigo, sou bem resistente! Posso aguentar mais um monte dessas!
Asano encarou Shinra que tinha a sua frente, além do vermelho em sua pele, parecia que nada mais havia afetado seu rosto. Todavia jurava ter usado força o suficiente para, pelo menos, quebrar-lhe o nariz. Não era possível que aquele garoto tinha conseguido sofrer tão poucos danos com aquele nível de força. Foi então que percebeu, bem discreto perto no nariz estava uma pequena mancha vermelha mais escura.
Sangue.
Enquanto estava com a mão no rosto Shinra havia escondido a hemorragia que lhe havia escapado do nariz por causa do impacto da bola e antes de se levantar a havia limpado para que ninguém a notasse. Os olhos de Asano então pararam na manga da jaqueta do pequeno garoto, reparando que, não só ali, como em suas mãos também, um vermelho vivo estava sendo escondido com maestria. Asano não sabia, mas Shinra tinha experiência em esconder situações como aquela.
— Tudo bem... já que não aconteceu nada de mais... — deu-lhe as costas, desaparecendo para o outro lado da quadra com seus companheiros de time. Shinra continuou com um pequeno sorriso no rosto, estava sendo difícil manter a postura.
Akane o encarava, sem saber exatamente como reagir. E quando Shinra se virou, o rosto ensombrecido e pensativo, ele percebeu que o sorriso que antes estava ali, nada mais foi do que uma mascara para não preocupar ninguém.
— Tudo bem mesmo, Sakurano-san? — perguntou Ennoshita que se aproximou depois de todos se acalmarem. Shinra sorriu e assentiu de leve.
— Nos deu um baita susto! Pensamos que dessa vez a bola ia mesmo te machucar! — comentou Tanaka, um sorriso aliviado em seu rosto.
— Shinra tem uma cabeça dura de mais para ser afetada por apenas isso! — riu Nishinoya.
Akane encarou tudo aquilo preocupado. Seus olhos finalmente reparando na mancha vermelha sendo escondida pela manga do pequeno garoto. Ele não estava bem, tinha certeza disso.
— As vezes, precisamos esconder alguns machucados para não causar problemas desnecessários a quem gostamos. — comentou o pequeno de repente, de tom suficientemente baixo para que apenas seu alto amigo conseguisse ouvir. — Eu acreditei nisso durante anos, até meu irmão me pegar mentindo sobre isso. — Shinra riu fraco. — Desculpe ter te exigido de mais hoje mais cedo, creio que fiquei um pouco parecido com meu irmão. Quando se sentir a vontade para me contar o que está acontecendo, saiba que sempre estarei aqui para ouvir.
Akane encarou, surpreso e estático, o pequeno se retirar, com passos lentos e ligeiramente instáveis. O rapaz não poderia, de forma alguma, duvidar da força que aquela garota possuía e agora sabia que realmente, por mais que Hina falasse até se cansar, Akane não sabia absolutamente nada sobre ela. Obviamente ele sabia mais do que muitos outros que a conheciam, mas ele agora percebia que o que o irmão dela o havia contado aquela noite era certo, e a imagem que ele tinha de Hina era apenas um centésimo do que ela realmente era.
— Você já passou ou passa por alguma coisa bem desagradável na sua vida, não é Tomoshi-san? — a pergunta do irmão de Hina o surpreendeu. Pensou que naquela noite não conversariam, já que ambos eram calados de mais para ter algum tipo de iniciação. — Não precisa me falar o que, apenas me responda se estou certo.
Assentiu com a cabeça, sem dizer uma só palavra. Não entendia onde Shinra queria chegar, mas por algum motivo, talvez pela expressão do rapaz, sabia que não era nada agradável.
— Eu sabia. Você é igual a mim. — o comentário veio estranho, mas decidiu por esperar e ver o que mais o rapaz tinha a dizer. — Pessoas como nós sempre nos fechamos em nosso próprio mundo de solidão quando passamos por uma situação ruim. Nos tornamos silenciosos e acabamos por transparecer o que estamos vivendo, por mais que não falemos nada. São pessoas como nós que achamos que pessoas como Hina não sabem o que passamos em nosso sofrimento, não é? Você também deve pensar que ela é uma garota privilegiada sem problemas por causa do sorriso que ela tem.
Akane não respondeu, mas desviou o olhar. Era verdade, ele não imaginava, nunca em sua vida, que Hina poderia saber como era ser desprezado por seus pais, ser tratado como lixo e ser solitário. Com a luz que ela possuía ela não deveria saber o que era ser odiada ou se quer saber o que era apanhar de alguém. Ela era "luz" afinal. E o que a "luz" poderia saber sobre a "escuridão"?
— Vou te avisar então Tomoshi, já que sei sobre seus sentimentos para com minha irmã e sei que suas intenções são boas. — seu rosto se aqueceu assim que ouviu aquelas palavras e por um instante engasgou-se com o próprio ar que usava para respirar. O irmão de Hina era, definitivamente, um rapaz astuto. — Se acha que, só por que descobriu o segredo de minha irmã e conversa com ela todos os dias, sabe alguma coisa sobre ela está completamente enganado. Você não sabe nada sobre ela, nem mesmo um centésimo do que ela realmente é ou passou em toda sua vida.
Seus olhos encararam Shinra com atenção um clima tenso pairando entre os dois. O pequeno rapaz já estava sobre sua cama, sentando e encarando atentamente o enorme rapaz que tinha a frente, o olhar neutro e profundo, tão parecido com o de sua irmã, o perfurando e lhe esfregando na cara sua ignorância. Akane não gostou nem um pouco daquele olhar.
— Não me leve a mal, apenas estou lhe contando um fato para o seu próprio bem e não acabar dizendo ou fazendo alguma besteira que machuque minha irmã. — continuou Shinra, desviando o olhar para um canto qualquer do quarto, perdido em memórias. — O que quero dizer é, Hina é o pior tipo de pessoa que você poderia tentar se relacionar. Não por ser incomoda, como ela acredita, mas por você nunca saber o que realmente ela está sentindo. Aquela mascara de felicidade que ela coloca sobre o rosto, escondendo dor e sofrimento que possa estar sentindo ao passar de qualquer olhar alheio... Mesmo que esteja prestes a desmoronar aquele sorriso nunca vai sumir a não ser que ela se veja sozinha. Esse é o pior tipo de pessoa.
— Não entendo...
— Apenas digo, se você tentar determinar sua história pelo seu sorriso tudo o que vai conseguir vai ser afastá-la de você. Você ainda não sabe o que tem por trás do sorriso que ela coloca pra você.
Agora compreendia um pouco do que Shinra queria dizer sobre a irmã. Ela escondia muito mais do que seu sorriso alegre aparentava, assim como estava escondendo a provável dor e tontura que sentia naquele momento. Seus punhos se apertaram, por seu próprio puro egoísmo. Queria saber mais sobre Hina, queria saber seus segredos, mas não queria dizer os seus a ela.
A pequena, por sua vez, havia se afastado para ir ao banheiro e limpar os rastros de sangue que ainda lhe restavam nas mãos. Cada passo era uma tortura, sentia que tudo rodava ao seu redor, que estava prestes a cair no chão em qualquer instante. Foi difícil esconder de todos aquela dor que sentia tanto na cabeça quanto no nariz e torcia para que nada em sua cabeça estivesse sangrando, por que ia ser complicado esconder.
Suspirou, finalmente adentrando no banheiro para se acalmar. Desgraçadamente tinha que usar o banheiro masculino, entretanto, com sua tontura, aquele era o menor de seus problemas. Lavou a mão e a manga de sua jaqueta como conseguia, em seguida jogou um pouco de água sobre o rosto. A água fria fez a pele de seu rosto, ainda ardendo, se acalmar por alguns instantes, enquanto se encarava no espelho.
Fortes olheiras destacavam-se em sua pele branca, sua expressão cansada com a face ainda ligeiramente corada. Estava indo de mal a pior, sendo tragada por aquele mar de emoções incomodas que apenas a puxava para baixo. Não sabia quanto tempo mais conseguiria guardar seus pesadelos, quanto mais tempo eles permaneceriam sendo um segredo. Suspirou, agora não era hora de pensar em coisas ruins, tinha um jogo pela frente e precisava estar lá para apoiar a todos, para torcer e animar desde o banco do reserva. Apesar de que, do jeito que se encontrava, duvidava conseguir pular uma única vez sem despencar de uma vez no chão.
— Seu guarda-costas está te procurando. — a voz a trouxe de volta a realidade. Olhos verdades cansados encarando aquele que havia acabado de adentrar no banheiro. Era estranho ver que Kintaro foi o primeiro a encontrá-la, todavia, não se importou com esse detalhe. — O jogo já vai começar.
— Tudo bem... Já estou indo. — encarou-se uma ultima vez no espelho e, só então, afastou-se da pia, praticamente arrastando-se para fora do banheiro. Chegou a passar do lado de Kintaro, que não deixava nem um instante de lhe encarar com extrema atenção.
Apesar de Shinra se encontrar um pouco melhor do que no momento em que foi até o banheiro, ainda não poderia dizer que estava bem. Sentia que a cada passo que dava sua cabeça rodava e latejava de dor. Não sabia por quanto tempo conseguiria suportar, muito menos se conseguiria fingir estar bem até lá, mas precisava tentar. Não sabia o que tinha acontecido quando bateu a cabeça, será que era um machucado sério? Será que deveria dizer pra alguém? Não... Se contasse eles parariam o jogo e perderiam o sorriso para ficar preocupados com ele. Não podia deixar isso acontecer.
— Você mal se aguenta em pé. — a voz atrás de si comentou. Tinha se esquecido que Kintaro o acompanhava. Seus olhos voltaram-se para ele por breves instantes, encarando-o desde onde estava caminhando um pouco mais a frente. Ele estava sério. — Por que não desmascarou aquele cara? Não foi um acidente! Ele jogou em você de propósito! Você é burro de mais para perceber ou apenas um covarde?!
Shinra parou de andar, ajeitou o corpo como pode e girou sobre seus calcanhares para encarar o rapaz que tinha a frente. Os olhos enchendo-se de um fogo que Kintaro não conseguia explicar e recuou.
— Kin-chan. Me dê um soco. — o pedido veio mais estranho que sua atitude séria. Os olhos do pequeno rapaz encaravam os de Kintaro como se esperasse alguma reação. Mas como poderia bater nele? Não era como se não tivesse vontade, apenas não conseguia.
— E-está louco?! A batida com a cabeça deve ter quebrado alguma coisa aí dentro. — recuou, injuriado por ter escutado aquilo. Quem em sã consciência poderia pedir pra outra pessoa o bater? Aquele garoto era maluco.
— Como eu pensei, você não vai fazer isso. — um pequeno sorriso surgiu no rosto do pequeno garoto, seus olhos encarando com carinho o rapaz que tinha a sua frente.
— M-mas o que você...
— Não é como se eu não conhecesse pessoas como você e aquele rapaz. — comentou Shinra, interrompendo seu colega. Kintaro percebeu, por alguns instantes, que teve uma impressão errada sobre Shinra, e ele não era tão ignorante como pensava que era. Aqueles olhos... Olhos que antes eram cheios de inocência se tornaram tão sábios e experientes que por um instante o loiro duvidou que estivesse falando com a mesma pessoa. — Os classifiquei de três formas: aqueles que agridem com palavras; aqueles que agridem com a violência física e aqueles que fazem os dois. Você é o primeiro caso Kin-chan. Você não conseguiria me bater, nem mesmo se eu te desse essa chance.
— Ora seu...
— Não me leve a mal. Isso é algo bom, prefiro o seu caso, é por isso que não me incomodo com nada que você faça. Mas pessoas como aquele cara são diferentes. — os olhos do pequeno garoto se dirigiram para a quadra a sua frente, encarando aquele que havia lhe lançado a bola no rosto aquele instante. Ele sabia que não tinha sido acidente, ele conhecia o som de uma bola que tinha sido acidente e a que não. Foi intencional. — Com o rosto sempre sorrindo, jeito sociável e extrovertido ele consegue cativar as pessoas, ninguém sabe sua verdadeira faceta. E quando encontra as pessoas que não gosta, as marca e usa de artifícios violentos e discretos para abordá-la. Mesmo que eu tentasse denunciá-lo, fizesse uma confusão, quem sairia perdendo era eu. E dessa vez, tenho mais coisas a perder do que minha própria imagem social. Se fosse apenas isso eu não me importava.
— Dessa vez?
— Sakurano-san, Matsumoto-kun! Venham logo, o jogo já vai começar! — Tanaka gritava desde onde estava. Havia visto os dois desde a quadra e como demoravam decidiu por chamá-los. Shinra não disse mais nada, assim que a conversa foi interrompida se viu na chance de escapulir sem contar mais detalhes, deixando várias perguntas na cabeça de Kintaro.
Ele sabia que para perceber aquilo o garoto deveria ter tido experiência com esse assunto em algum outro momento de sua vida, entretanto, não viu como alguém que possuísse tal "luz" e sorriso, como o do pequeno moreno, poderia saber o que era ser intimidado por outras pessoas. Decidiu por esquecer o assunto, ajeitando-se no lugar dos reservas. Akane iria começar no primeiro set e ele o substituiria no segundo. Muito provavelmente, pensava Kintaro, Ukai colocaria Shinra pra jogar próximo ao final do jogo.
E a partida começou.
O serviço começou com os convidados do lugar. Seijoh era muito bem conhecida como o time perfeito, todos seus componentes trabalhavam juntos como uma maquina. Todavia isso foi na época de Oikawa, agora que ele não estava mais ali, era questionável todo o trabalho em equipe que o time poderia ter. Karasuno testaria a atual força de um de seus principais adversários naquele instante.
Não apenas Oikawa, como mais três do time haviam saído depois daquele ultimo jogo nas partidas da primavera. Quatro calouros novos haviam se ingressado para ocupar os lugares e um deles era Asano. Ele ainda estava irritado com o acontecimento com o novo baixinho do time adversário e garantiria que Karasuno fosse massacrada por suas mãos. Não importava que fosse o levantador, ainda poderia ser o maestro daquele jogo assim como seu senpai, Oikawa, foi.
O apito soou, Karasuno tinha o serviço.
Tsukishima lançou a bola para o campo adversário, uma bola relativamente fácil, recepcionada pelo time adversário. Asano sorriu, era o momento de mostrar do que era capaz. Seus olhos avaliaram o lugar, tanto seu campo quanto o campo do time adversário. Avaliou quem estava saltando para atacar e quais eram os bloqueadores.
O sorriso predatório que se desenhou em seu rosto, tão discretamente mascarado por seus braços já preparados para o levantamento, dariam arrepio até mesmo no mais forte e confiante dos jogadores. Seus olhos queimando em determinação e precisam acompanharam os movimentos de seus colegas, para logo em seguida preparar o seu.
Com um flexionar leve de seus joelhos, cotovelos ligeiramente dobrados, olhos focados na bola, direcionou-a para a posição perfeita com a qual o atacante deveria acertá-la. Cachorro louco foi o escolhido, desgraçadamente como seu apelido havia pego entre os novatos depois que alguns do terceiro o haviam mencionado em uma conversa qualquer. Asano pensou que iniciar a partida com força total seria mais do que um aviso para seus adversários.
Uma paralela, facilmente passando pelo bloqueio de duas pessoas, pronta para acertar o chão do campo de Karasuno. Todavia, como um movimento ágil e preciso, Nishinoya estava posicionado perfeitamente no lugar onde a bola iria chegar, recepcionando com a precisão que sempre lhe marcou, elevando-a para Kageyama, já em sua posição.
Tanaka e Akane correram para o ataque, elevando-se em um salto preciso, bem no momento que a bola havia tocado as pontas dos dedos de Kageyama. Quase sem precisar pensar o levantador da Karasuno colocou a bola para cima novamente, jogando-a para o canto esquerdo da rede, onde Akane esperava com um brilho diferente em seu olhar.
Shinra, que mais tinha contato com o enorme rapaz, teve um leve vislumbre do rosto de seu amigo e não conseguiu arrumar palavras para descrever. Mesmo no jogo contra Datekou ele não tinha formado aquela expressão, aquele olhar em chamas, arregalados e focados em seu destino.
Ele definitivamente iria acertar o chão do lado de Seijou, independente de quem entrasse em seu caminho.
O bloqueio subiu, pronto para segurar a bola, mas não o suficientemente preparado para o que se seguiu.
Akane era forte, com a puberdade e os esportes que ele costumava fazer constantemente nas escolas ele guardava uma força em seus braços que poderia ser muito bem comprada a muitos jogadores profissionais, adultos experientes e treinados. Era natural para ele, mas com sua atitude normalmente desanimada ele constantemente retraia sua força, escondendo o que poderia ser uma arma poderosa.
Mas agora, Shinra poderia ver, ele estava completamente focado em acabar com o time adversário.
E assim o fez.
O braço desceu com tudo para cima da bola, ultrapassando o bloqueio despreparado para o que tinha por vir, descendo acelerado para o chão, bem no fundo da quadra. O libero da Seijou ainda tentou interpor-se no caminho da bola, mas tudo o que conseguiu foi mudar um pouco sua trajetória para acertar as arquibancadas na parte detrás de seu campo.
Akane ajeitou sobre seus pés novamente no chão, a tensão exalada de seu corpo quase soltando faíscas ao entrar em contato com a de Asano, que lhe encarou com um sorriso torcido, quase irritado. Não precisava ser um gênio para saber que, entre aqueles dois, a disputa seria terrivelmente acirrada.
Akane não deixaria o que aconteceu anteriormente ao jogo passar, enquanto Asano sabia bem que o rapaz era perigoso e faria de tudo para interpor-se entre ele e seus objetivos de intimidação alheia.
Shinra saltou eufórico com aquele primeiro ponto, esquecendo-se por um momento seu pequeno problema de tontura. Ele nunca tinha visto Akane tão focado e dedicado a um jogo, obviamente ele se esforçava, mas nada como isso. Era como se ele tivesse acabado de entrar em uma luta, obrigado a usar todas as suas armas e forças para sobreviver ao combate e isso encheu Shinra de um orgulho e uma empolgação, uma alegria tão volátil em seu peito que tudo que poderia fazer era mandar para longe qualquer outro tipo de preocupação e simplesmente vibrar pela realização vitoriosa que acabara de ver, por mais que ainda fosse o começo de uma grande disputa.
Todavia tudo que foi capaz de fazer foi piorar ainda mais sua condição já instável.
Seus pés tocaram o chão depois do salto e por um instante, segundos prolongados, tudo girou, ficou escuro, e bambeou sobre seus joelhos estranhamente enfraquecidos. Como reflexo apoiou-se na pessoa a seu lado, evitando um novo encontro com o solo, porém atraindo a atenção do companheiro.
— Tudo bem, Shinra-san? — a voz preocupada de Shinji o trouxe de volta por alguns instantes, alertando-o que, se não tomasse cuidado, arruinaria aquele momento de felicidade e adrenalina, uma partida que prometia ser perfeita.
— Estou bem, apenas um pouco ton... — as palavras não chegaram a ser finalizadas. Quando seu corpo ajeitou-se em uma posição ereta novamente o mundo voltou a rodar, sua visão escureceu por completo e antes que pudesse retomar a compostura novamente Shinra havia perdido o sentido das pernas.
A inconsciência tão conhecida lhe rodeou, bloqueando por completo qualquer dor o enjoo que pudesse ter sentido antes.
Fale com o autor