—Eu proponho uma votação! — manifesto-me no meio de tanta gente. Temos poucos Natblidas por agora, não devemos matar aqueles que nos restam.

—E como votaríamos? — pergunta a Octavia. Eu penso um pouco, não tinha uma grande ideia. Na Arca as coisas funcionavam de uma maneira, para Terrenos, votações são um método desconhecido, e se eu já ponho em causa ser Skaikru, a Octavia não pode ser considerada parte do nosso povo.

—Observem uma luta entre eles, amigável, como é óbvio. Aquele que se sair melhor e aquele que tiver as melhores intenções, será o vencedor. A maioria vence — todos parecem ficar um pouco chateados.

—Vai contra as tradições! — a Indra manifesta-se sendo apoiada por todos os Terrenos dentro da sala.

—Então vocês preferem perder todos os Natblidas? Que outra chance têm? — ninguém se pronuncia, todos devem tentar encontrar uma solução que vá contra a da votação, mas não há nada a fazer. Para este período de reambientação à vida normal da população, precisamos de alguém que nos guie, e de outros suplentes que assumirão o cargo, caso algo aconteça.

—Que assim seja, Clarke kom Skaikru terás a tua votação! — ela assente e todos parecem chateados.

—Ba... Okteivia... — a Indra tenta protestar, mas ela cala-a.

—Ai laik Heda gon au! (eu sou a Comandante, por agora!) — ela diz convicta e todos obedecem. Ela tem todo o poder sobre eles, afinal após 6 anos de liderança, todos já se habituaram a tê-la como autoridade e não como a miudinha indefesa que não sabia lutar e caçava borboletas brilhantes. — Vocês obedecem aos meus comandos! Lid ai in Lucas kom Trikru! (Tragam-me o Lucas do Povo da Floresta!)

—E quanto à Natblida? — ela é questionada sobre a pequena Madi.

—A Clarke coserá os cortes dela e da Zoe. Madi kom Trikru é uma vergonha para o sangue. No entanto, podemos precisar dela para desempenhar outras tarefas durante o período de transição da nossa vida toda para as aldeias! — fico aliviada por não a matarem, acho que a Octavia está a poupá-la porque quer saber informações do Bellamy, das quais ela não tem o mínimo conhecimento, informações que ela pensa que eu tenho e que me intrigam por não chegarem. Durante estes anos, creio que a única forma de me manter sã foi simplesmente cuidar da pequena Madi, e tentar contactar a Arca todos os dias, nunca recebi uma palavra de volta. — Podem retirar-se.

Dirijo-me com a Madi e a Zoe para o quarto dos aprendizes para Heda. Limpei ambos os ferimentos, aqueci a minha faca e coloquei-as em ambas as feridas. Quando sangue preto estancou, eu cosi a ferida da Madi em primeiro lugar. Tudo foi silencioso, a Madi não pronunciou uma única palavra sobre recusar o seu sangue, a Zoe não pronunciou um mísero som sobre a Lexa e tudo isto, e eu não quis tocar em ambos os assuntos. Creio que quis evitar uma conversa desconfortável para todos. Eu estava determinada em tomar o trono de Heda, por outro lado, nunca aceitariam isso. Neste momento não quero o trono, acho que o mais correto era dar o cargo à Zoe. Ela era a irmã da Lexa, a mulher que toda uma nação admirava e que transmitia segurança e paixão a todos. Ela era uma verdadeira, completa, Comandante. Tinha os três pilares necessários para exercer o cargo com todo o brio. Era uma mulher sábia que tomava as decisões mais inteligentes e que acreditava na mudança. Era uma guerreira forte que nunca subestimava o seu inimigo, nunca deixando de lutar pelo que acreditava com todas as suas forças. Mas acima de tudo, ela tinha uma compaixão pelo seu povo. A Lexa acreditava que sacrificar poucos para salvar muitos era um princípio com todo o sentido, eu discordava dela. Neste momento, a raça humana está viva graças a essa filosofia de vida. A Lexa conseguia aquilo que queria porque todos a seguiam, estavam todos prontos a morrer por ela, porque ela era diferente. A Lexa era especial. E eu acredito com todas as forças que a Zoe também o seja.

—Eu vou descansar, nomon (mãe)— a Madi pronuncia-se e retira-se daquele espaço. Sei que está cansada, mas também sei que me quer evitar a todo o custo, especialmente porque sabe que temos que tocar naquele assunto. Antes de sair ela fecha a porta cuidadosamente, de forma a não fazer muito barulho e dirige-se para o quarto que um dia foi o meu enquanto estive em Polis, enquanto a Lexa ainda era a Heda e estes problemas não eram conhecidos. Não que eles não existissem, mas eu e a Lexa estávamos demasiado ocupadas a viver um conto de fadas feito de uma felicidade enganosa e irreal, vivendo-o no nosso castelo, no nosso mundo aparte onde não haviam guerras ou radiações que pudessem matar a humanidade. Só nós. Só nós e o nosso amor.

—É a tua filha? — a Natblida com o longo cabelo castanho e olhos verdes dirige-se a mim. A voz, a atitude, a aparência, é como se a Lexa estivesse aqui presente no corpo dela!

—Podemos dizer que sim — sou muito vaga. Ela permanece calada a olhar para mim com a típica expressão que a Lexa tinha quando queria que eu prosseguisse a minha história, por mais estúpida e insignificante que fosse. Como daquela vez em que eu e o Wells nos preparávamos para o Dia da União ou pregávamos partidas um pouco por toda a Arca, deixando os nossos pais loucos de tanto procurarem por nós e com tanta preocupação de qual teria sido a última em que nos tínhamos metido. — Depois do Praimfaya, eu encontrei a Madi no meio da terra suja e das raízes, ela estava ferida. Eu tirei-a de lá e cuidei dela desde esse momento, ela é a minha luz na vida. A razão pela qual estou viva hoje.

—Eu sempre acreditei no Povo do Céu quando era criança — confessa. — Acreditei que vocês eram bons, que não eram cruéis, que não queriam violência. Eu errei.

—Como assim? — noto algum desconforto enquanto lhe faço os pontos na mão. Noto que está tensa e que tem rancor quanto ao meu povo de nascença.

—Eu pus toda a gente no mesmo saco. Vocês não são todos boas pessoas, nem todos vocês são corações puros, nem todos vocês evitam a violência, Wanheda — consigo perceber que ela está magoada com alguém. A Lexa também era assim, apesar de ser muito dura, quando as emoções lhe chegavam mesmo à origem do ser, ela deixava-as alterar as suas decisões finais. Talvez tenha sido isso que a matou. — Skaikru diz ser diferente, afirma com toda a convicção que nós somos selvagens, que os nossos costumes são brutos, mas no fim são iguais ou piores. Queimam 300 pessoas vivas sem nem pestanejar, matam centenas de pessoas desligando filtros de radiação, permitem que um míssil destrua toda uma aldeia e mate milhares do vosso povo, criam guerras que nunca conseguem combater, matam inocentes para salvar a vossa pele, matam os vossos que se opõem ao que vocês desejam, matam um exército que estava lá para vos ajudar... Vocês escolheram se as pessoas tinham valor ou não, e quem não tinha, ficava cá fora para morrer na onda de radiação que ameaçava chegar a qualquer momento!

—Eu sei que posso não ter tomado sempre as melhores decisões, mas foi a minha forma de sobreviver e de ter a certeza que o meu povo ficava salvo, que a raça humana sobreviveria! Isso era importante para nós — ela assente.

—Eu cometi o meu erro ao colocar-vos todos no mesmo saco da primeira vez, mas não o cometo uma segunda vez. Eu sei que nem todos são culpados. Wanheda, eu sei que a minha irmã te apoiou em grande parte destas decisões, e é por isso que não serás devidamente penalizada caso eu me torne Heda. Nem todos são culpados pelas mortes, nem todos têm que pagar. Quem teve culpas está morto. Se eu me tornar Heda, podes contar que eu não vou deixar o meu 13º clã sozinho. Defender-vos-ei como puder, tal como a minha irmã desejaria que o fizesse, tal como ela faria — sorrio com alívio. Certamente que não haveria perigo para aqueles que viveram no abrigo, mas havia perigo para mim e para a Madi.

—Zowi kom Trikru, eu acredito em ti como Heda — concluo a conversa por mim e saio do quarto com o meu serviço prestado. Decido ir dormir um pouco. Quando chego ao quarto, a Madi dorme, visto uma roupa para dormir, dou-lhe um beijo na testa e deito-me.

Ver a Zoe faz-me pensar em como a Lexa estaria orgulhosa se estivesse aqui. Ela nunca me tinha falado de uma irmã, mas eu sei que esta miúda é irmãzinha dela. As parecenças não deixam margem para dúvidas, bem como a tatuagem, não a do conclave, mas outra que ela tinha bem no fundo das costas. Pelo que a Lexa me contou, era a tatuagem da família dela.

Seja como for, independentemente de qualquer outra proposta promissora, como os dois Natblidas do meu povo, a Zoe terá o meu voto como a nova Heda, e espero que a maioria dos votantes pense comigo. A Lexa sempre me disse que escolheria sabiamente, e sei que esta é a escolha mais sábia que ela faria no momento, sei que é a escolha que ela fez.

Ela fez esta escolha no dia em que a Zoe sobreviveu, no dia em que ela entrou pela porta dentro e anunciou a sua identidade. Os Comandantes vivem a partir da chama, mas neste momento sei claramente que a Lexa também vive na sua irmã, na pequena grande promessa que temos de ter paz como povo e tratarmos cada um como igual.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.