Ahd al-Ramad
1 O preço da coroa
A mistura densa de oud e sândalo criava no ar um aroma quase opressor. Era o tipo de fragrância cara que minha mãe costumava reservar apenas para as ocasiões mais solenes, mas ali, naquela noite, o cheiro parecia querer me sufocar. Nada era por acaso; cada detalhe havia sido milimetricamente planejado para compor uma experiência sensorial completa. A decoração vibrante prendia o olhar, a música tradicional abraçava a audição e o banquete farto dominava o paladar. Tudo ali fora arquitetado para ser um momento inesquecível, uma vitrine de poder e tradição.
Pelo canto do olho, senti o peso do olhar do meu pai. Ele estava no centro do salão, cercado pelos líderes de outras casas, todos devidamente acomodados entre as almofadas bordadas do Majlis. A postura dele era de triunfo, a de quem finalmente selava o destino que tanto protegeu.
Meus primos — Quil e Embry — foram os primeiros a se aproximarem. Ambos pareciam ter sofrido uma amnésia coletiva, ignorando cada conversa desesperada que tivemos nos meses que antecederam aquela data. Assumindo um papel de falsa animação que me dava náuseas, eles me cercaram com tapinhas nas costas e elogios vazios, repetindo como eu parecia um "verdadeiro sucessor" naquela túnica impecável. Para eles, era como o início de uma nova era.
Em meio ao burburinho incessante, minha língua dançava na boca, pronta para disparar uma resposta atravessada aos dois, mas o toque gentil de minha mãe em meu braço esquerdo me conteve. As cores de seu vestido e do lenço que envolvia sua cabeça ornavam com o luxo do ambiente, enquanto seu perfume suave de jasmim tentava, em vão, mascarar o odor marcante de incenso e política que impregnava o ar.
— Jacob precisa respirar, meninos. — A voz dela era amena, delicada como seda pura. — Por que não vão até o buffet e me deixam ter um momento a sós com ele?
Quil e Embry assentiram prontamente, aliviados pela dispensa; ninguém ousaria questionar a mulher que governava aquela casa nos bastidores. Sem perder tempo, Sarah posicionou-se à minha frente. Suas mãos, adornadas por joias de ouro antigo, alcançaram o colarinho da minha túnica, garantindo que a impecabilidade do traje escondesse o caos que eu sentia por dentro.
— Você está deslumbrante, meu filho. — O sussurro veio carregado de um orgulho genuíno. — Está crescido. Tem o porte de um rei.
— Sou como um cordeiro sendo adornado para o sacrifício, mama. — Respondi, mantendo o tom baixo. — Cresci ouvindo sobre a importância da linhagem e, agora, caminho para uma vida de aparências.
O movimento das mãos dela cessou. Seus olhos atentos mapearam o perímetro, certificando-se de que nenhum líder de outra casa — ou o meu próprio pai — estivesse perto o suficiente para captar nossa confidência. Ela não usou autoridade; em vez disso, acolheu meu rosto com a palma quente e afagou minha bochecha, como fazia quando eu era criança e me perdia em teimosias.
— Antes que você assuma esta casa e se torne o Sheikh, escute-me como um filho deve escutar sua mãe. — Ela suspirou, e por um breve instante a máscara da Sultana caiu, revelando a matriarca exausta. — A paz é uma construção cara, Jacob. Na maioria das vezes, o preço é o que temos de mais precioso.
Ela fez uma pausa, recuperando o fôlego antes de desferir o golpe final.
— Eu sei sobre a garota Swan, Jacob. Sei que seu coração está enfeitiçado por ela.
Senti o sangue congelar, um contraste violento com a minha pele febril. Isabella era meu segredo mais íntimo, o único lugar onde eu não era um título.
— Então me ajude — implorei, despido de qualquer orgulho. — Fale com o baba. Ele não nega nada a você, sabe disso.
— Tentei intervir por você muitas vezes, meu querido. — O sorriso dela era uma cicatriz de tristeza. — Mas nossa obrigação é impedir que você se torne um homem comum. Você nasceu para ser um escudo para o nosso povo. Isabella é como um vento forte do deserto; intenso e devastador, mas passageiro. O que você construirá com a filha de Carlisle será fundamentado sobre rocha; um amor nascido da necessidade de duas espécies.
Sarah ficou na ponta dos pés, depositando um beijo em minha testa. O gesto de carinho soou como uma sentença de morte.
— Vá ao lavabo e recomponha-se. — Ela limpou uma lágrima que eu sequer senti rolar. — O cortejo dos Cullen chegará em instantes.
O lenço rosa de Bella no meu bolso, que antes era um amuleto, agora pesava uma tonelada. Queimava contra minha coxa como um lembrete constante do que eu estava deixando para trás. Caminhei em direção ao lavabo sob o olhar crítico de meu pai; ele não vigiava meu porte, vigiava minha fuga. Cada passo meu era calculado por ele antes mesmo de eu cogitá-lo.
Ao fechar a porta, o azulejo azul claro amparou minhas costas. O gelo da cerâmica tentava domar minha temperatura febril, sem sucesso. Meus dedos deslizaram pelo celular com um desespero cego, digitando a última tentativa de resgate:
“Eu não posso fazer isso comigo, Bella. Eu não posso fazer isso com a gente.”
A resposta veio no instante em que a entrega foi processada. Curta. Rápida. Letal.
“Não é como se você tivesse escolha.”
Antes que eu pudesse me atrever a digitar uma tréplica, notei que a música e o burburinho das conversas lá fora foram subitamente engolidos por um silêncio cortante. O vácuo sonoro foi preenchido pelo rosnar de motores potentes vindos do pátio. A dedução era óbvia: os Cullen haviam chegado.
Devolvi o aparelho ao bolso direito — o mesmo que abrigava o lenço rosa de Bella — como quem esconde a prova de um crime. Encarei o espelho por uma fração de segundo; eu aparentava ter dez anos a mais do que minha idade real. O cansaço e a escuridão em meus olhos encarregavam-se de expor meu espírito em frangalhos. Saí do lavabo e atravessei o corredor, cada passo me afastando do homem que eu desejava ser e me empurrando para o Sheikh que eu era obrigado a me tornar.
Eu os vi pela primeira vez ao alcançar a galeria superior. O ar parecia ter esfriado vinte graus diante de suas presenças, como se eles tivessem o poder de banir o calor de Marraquexe para todo o sempre.
Os Cullen não caminhavam; eles desfilavam. Eram oito pessoas ao todo, avançando em uma sincronia predatória, como se cada passo tivesse sido exaustivamente ensaiado. À frente, liderando a marcha, vinha o casal que aparentava estar na casa dos vinte e poucos anos: um homem loiro e uma mulher com cabelos cor de mogno, ambos com olhos de um âmbar polido e intimidador. Carlisle e Esme Cullen. Enquanto ele sustentava uma máscara diplomática impecável, ela ostentava o sorriso gentil que se esperaria de uma mãe de contos de fadas, mas que em um vampiro soava quase sobrenatural.
Na fileira seguinte, mais dois casais exibiam uma graça letal. A loira alta e o rapaz musculoso — Rosalie e Emmett — ladeados pela baixinha de cabelos espetados e o homem cujo semblante carregava uma expressão de dor contida: Alice e Jasper. Por fim, na retaguarda, o filho mais novo, Edward, escoltava a noiva com a proteção de quem se atiraria na frente de uma bala para poupá-la de um arranhão.
Todo o clã vestia tons de cinza, prata e azul-meia-noite. Pareciam uma pintura renascentista trazida à vida, deslocada e fascinante sob as luzes quentes dos nossos candelabros.
Renesmee estava agarrada ao braço de Edward, mas não havia nada de infantil ou assustado em seu toque. Ao contrário de seu bando, sua pele não era tão pálida ou polida; ela possuía uma vitalidade irritante que contrastava com a estática dos demais. Até sua vestimenta era um ato de rebeldia visual: um vestido verde-esmeralda, fluido como águas profundas, que destoava completamente da paleta fria da família. O detalhe mais perturbador, no entanto, era a escolha dos adornos. Ela usava jóias de ouro pesadas e tradicionais, como se já estivesse reivindicando o seu lugar como uma mulher marroquina. A híbrida vibrava em uma frequência diferente; ela era o único ponto de calor entre eles.
— É um imenso prazer receber vocês em nossa casa. — A voz de baba soava firme e cortês, reverberando pelas paredes de pedra. — Sejam muito bem-vindos. Espero que tenham uma estadia proveitosa e próspera.
Carlisle sorriu — um sorriso carismático e gélido que fazia contraponto à amabilidade genuína de sua esposa. Ele abriu os braços, cumprimentando meu pai com a gestualidade exata de um homem árabe. Parecia uma peça de teatro de baixo custo; criaturas forjadas na Europa tentando mimetizar os costumes do deserto.
— Agradecemos a hospitalidade. Que este encontro seja o alicerce de uma era de prosperidade entre nossas casas, Billy. — O patriarca do clã gesticulou para as figuras atrás de si. — Sei que já os conhecem por foto, mas esta é a minha família. Minha esposa e meus filhos.
"Filhos". Uma palavra forte demais para o que aquela formação de fato representava. Homens e mulheres transformados em predadores sedentos em algum ponto de suas existências humanas; com exceção da híbrida, concebida por Esme em sua vida anterior, um parto que quase a levara à morte para dar luz àquela criatura. Senti meu estômago revirar diante do pensamento.
— Jacob, junte-se a nós. — O chamado de minha mãe não abria espaço para contestações.
Ao me aproximar do círculo, as mãos dela alcançaram meus ombros, um lembrete silencioso da minha obrigação. Respirei fundo, lutando contra o nó na garganta, e caminhei em direção aos convidados.
— É um prazer finalmente conhecer meu futuro genro. — Carlisle estendeu a mão. Trocamos um aperto rápido; o choque térmico entre nossas temperaturas era um lembrete físico de nossas naturezas irreconciliáveis. — Permita-me apresentar sua futura noiva.
Escoltada por Edward, ela deslizou entre os outros membros do clã, posicionando-se entre o pai e a mãe. De perto, o cheiro dela era uma emboscada sensorial: não havia o adocicado enjoativo dos vampiros. Renesmee exalava uma mistura incomum de baunilha e terra molhada pela chuva. Seus olhos, de um âmbar profundo, ergueram-se para os meus. Neles, não encontrei a timidez de uma noiva arranjada, mas um desafio silencioso, latente.
— Jacob Al-Aswad. — A pronúncia do meu sobrenome foi perfeita, sem o sotaque ou a hesitação que se esperaria de uma estrangeira. Seus lábios moveram-se com uma rapidez que olhos humanos jamais capturariam. — Estou feliz por finalmente conhecê-lo.
Houve um hiato de silêncio absoluto. Todos ao redor pareciam hipnotizados pela primeira interação entre os noivos. Estávamos ali, diante de duas linhagens milenares prestes a se fundir em uma única e perigosa aliança.
A hospitalidade árabe é um traço indelével, uma arte que exige tempo e rituais. Capturei o exato momento em que meu pai dispensou os convidados, sinalizando o retorno ao banquete; eu o conhecia o suficiente para saber que seu objetivo era nos isolar. Com um aceno sutil, ele nos indicou o pátio interno — um refúgio de colunas de mármore e trepadeiras de jasmim que, naquela noite, parecia menos um jardim e mais uma cela de interrogatório.
A multidão se dissipou com uma velocidade impressionante, como se o próprio ar os expulsasse. Edward foi o último a sair, trocando um olhar longo e impenetrável com Renesmee antes de permitir que eu a conduzisse ao local indicado. O som da fonte central, onde a água vertia sobre pedras polidas, era a única coisa que preenchia a lacuna de silêncio entre nós.
Ela ignorou minha presença ao se sentar na borda da fonte. Renesmee exalava uma autoconfiança que parecia pulsar de seus poros, e aquilo me irritava. Diferente de mim, ela não parecia deslocada ou oprimida pela tradição; ela absorvia a arquitetura e o ambiente, integrando-se à paisagem como se tivesse nascido sob aquele sol, e não nas florestas gélidas de Washington.
— Você é mais calado do que eu esperava, Al-Aswad. — Ela falou sem se virar, a voz suave misturando-se ao som da água. — Meus pais disseram que sua linhagem era conhecida pela eloquência e pela paixão.
— Carlisle e Esme te contaram sobre a história do meu sangue, não sobre o que eu penso a respeito deste noivado. — Retruquei, a rispidez tingindo cada palavra enquanto eu me escorava em uma pilastra oposta. — Você não espera paixão de um laço definido por um pedaço de papel e um selo de cera, espera?
Renesmee virou-se lentamente. A luz da lua filtrava-se pelas folhas, projetando sombras que dançavam sobre suas feições perfeitas. Para meu incômodo, sua expressão não era de mágoa; ela mantinha a diplomacia gélida de seu pai.
— Você insulta a minha inteligência, Jacob. — Sua fala era sóbria, desprovida de grosseria, o que a tornava ainda mais cortante. — Acreditou mesmo que eu atravessei o oceano na expectativa de um romance de outono?
Suas mãos pequenas e delicadas mergulharam na água da fonte, criando círculos rítmicos. Aquela indiferença me atingiu mais do que qualquer insulto.
— Eu prezo pela minha família, Al-Aswad. — Ela falava com uma calma quase imperial. — Prezo pelo meu legado e, acima de tudo, pela manutenção da paz. Posso ter a fisionomia da minha mãe, mas é no meu pai que me espelho. Além disso, você deveria ser grato: esta união é a garantia de sobrevivência da sua espécie.
Soltei uma risada amarga que ecoou pelo pátio, um som seco que não carregava humor algum. Encarei-a, chocado. Ela não estava ali para pedir meu afeto; estava demarcando território.
— Achei que os Cullen prezassem o livre-arbítrio acima de tudo — resmunguei, a irritação subindo pela minha garganta como fogo.
— Gostaria de parafraseá-lo, se me permitir. — Ela esboçou um sorriso irônico e, num movimento superior à velocidade humana, mas ainda abaixo da rapidez vampírica, encurtou a distância entre nós. — Seus pais devem ter lhe contado sobre os princípios da minha casa, mas não sobre o que eu penso da situação. Eu vim para manter a ordem e governar um povo, Jacob. Se quer sofrer pela perda da sua liberdade como um tolo, faça-o. Mas faça em seu tempo privado. Em público, assuma a postura que se espera do herdeiro desta casa e cumpra o seu dever.
Pela primeira vez, senti o calor que emanava dela — aquele traço de humanidade que a separava do resto do clã. Ela estava a poucos centímetros de mim, obrigando-me a encarar seus olhos acobreados. Percebi, enfim, que ela era uma força da natureza: uma tempestade de areia e gelo que não tinha o menor interesse em ser domada.
— Eu não sou, nem pretendo ser sua inimiga — ela concluiu, a voz baixa e firme. — Então, pare de me tratar como tal.
As palavras dela me atingiram com a precisão de um chicote. Renesmee não gaguejou, não desviou o olhar e sequer recuou. Sua indiferença era uma muralha, provando que eu não possuía armas capazes de ferir seus princípios ou abalar sua estrutura. O som do meu coração martelava contra as costelas com uma violência tamanha que eu tinha certeza de que os sentidos apurados dela podiam contar cada batida descompassada. O lobo, inquieto sob a minha pele, queria rosnar, querendo reivindicar o domínio daquele pátio que ela acabara de conquistar sem disparar um único tiro.
— Você tem confiança demais para alguém que mal conhece a vida — respondi, minha voz vibrando em uma oitava baixa, perigosa, como o trovão que antecede a tempestade no deserto.
— E o que você sabe da vida, Jacob? Além do que o seu orgulho te permite enxergar? — Ela rebateu, a voz mantendo um tom cristalino que me enfurecia.
Dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com uma agressividade que faria qualquer homem recuar. O frescor gélido que ela exalava colidiu com o calor febril que meu corpo irradiava. Éramos um paradoxo físico: eu era uma fornalha em plena combustão, e ela, a neve eterna que se recusava a derreter, mesmo sob o toque do fogo.
Minha mão deslizou para o bolso da túnica, um movimento quase instintivo. Meus dedos buscaram o tecido macio e gasto do lenço rosa de Isabella, apertando-o como um amuleto, um último ancoradouro para o meu lado humano. Aquele pedaço de pano era a única coisa que ainda me mantinha são, o único rastro de uma escolha que um dia foi minha.
Suspirei pesadamente, o ar saindo quente dos meus pulmões. Eu não tinha mais munição para aquela discussão e, pela primeira vez, senti que as palavras eram inúteis contra uma mulher que já havia aceitado seu destino muito antes de eu descobrir o meu. Girei sobre os calcanhares, dando as costas para o frescor da fonte e para o enigma que era Renesmee, e caminhei de volta para o interior da casa, onde a farsa do banquete me aguardava.
Ao cruzar o limiar do salão principal, o calor das tochas e o aroma de cordeiro assado com especiarias me atingiram como uma parede. O silêncio que se seguiu à nossa entrada foi breve, mas carregado de um julgamento milenar. Renesmee caminhava ao meu lado; eu não a tocava, mas sentia o rastro de frescor que ela deixava no ar, como uma brisa estranha cortando o abafamento do Marrocos.
— Sorria, Jacob — ela murmurou, os lábios mal se movendo sob a máscara de serenidade. — Os líderes das sete casas não vieram apenas para comer; vieram para ver se o futuro Sheikh tem o controle da sua Sultana ou se ele é apenas um prisioneiro dela.
Engoli a seco, forçando uma expressão que eu esperava parecer dignidade, e não desespero. Sentamos à mesa principal, em poltronas de madeira entalhada que pareciam tronos. Meus pais e os Cullen ocupavam as posições de honra.
À nossa frente, bandejas de prata transbordavam com cuscuz, tâmaras e carnes ricas. Mas eu não tinha fome. Meus sentidos estavam todos voltados para a mulher ao meu lado. Renesmee manuseava os talheres e se servia com uma delicadeza que hipnotizava os convidados. Ela respondia às saudações em um árabe perfeito, com um sotaque que traía seu estudo cuidadoso.
— A futura sultana possui a voz do deserto, mas a pele da montanha — comentou um dos anciãos, o Sheikh Omar, observando-nos com olhos astutos. — É uma união curiosa, Billy. Como o fogo e a neve.
— O equilíbrio é a base de todo grande império, Omar — meu pai respondeu, erguendo sua taça, mas seus olhos dispararam um aviso silencioso em minha direção.
Eu sabia o que ele queria. Sob o tampo da mesa, minha mão buscou a de Renesmee. No momento em que meus dedos quentes envolveram a pele gélida dela, um choque percorreu minha espinha. Era uma sensação elétrica, incômoda e fascinante ao mesmo tempo. Renesmee não recuou. Ela entrelaçou seus dedos nos meus, apertando-os com uma força que me surpreendeu.
— Veja, Sheikh Omar — Renesmee disse, voltando-se para o ancião com um sorriso radiante que não chegava aos seus olhos. — O calor de Jacob é o que garante que eu nunca congele, e minha presença garante que ele nunca perca a cabeça no calor da batalha. Somos o que o outro precisa.
Aquilo foi o ápice da atuação. Para os convidados, éramos a promessa de uma nova era. Para mim, a pressão da mão dela era um lembrete constante de que eu era apenas um acessório em seu plano de governo.
Enquanto as risadas e os brindes dos anciãos preenchiam o salão, o aperto de Renesmee em minha mão não suavizou. Era um lembrete físico de que, naquele tabuleiro, eu era a peça que precisava de contenção. Eu olhava para os convidados, mas minha mente ainda tateava o lenço rosa no bolso, sentindo-o como uma brasa que insistia em me queimar, denunciando que meu coração pertencia a outro continente.
De repente, o ar pareceu vibrar. Do outro lado da mesa, Edward Cullen repousou sua taça de cristal com uma lentidão deliberada. Seus olhos dourados, antes focados na conversa diplomática com meu pai, cravaram-se nos meus. Não havia o sorriso ensaiado de Carlisle ou a amabilidade de Esme em seu rosto. Havia apenas uma barreira de gelo absoluta.
Ele estava ouvindo. Lembrei da fala de meu pai sobre o dom incomum do filho caçula da família. Edward captava os pensamentos à sua volta.
Ele ouvia o eco do nome de Isabella em meus pensamentos; ouvia o meu nojo pela farsa que contávamos e a minha vontade de arrancar minha mão da de sua irmã. Edward inclinou levemente a cabeça, um desafio mudo que atravessou o ruído do banquete. Ele não era apenas o irmão; ele era o vigia da minha consciência.
— Jacob — Renesmee sussurrou ao meu ouvido, sua respiração fresca enviando um calafrio pelo meu pescoço, interrompendo o meu duelo visual com Edward. — Mantenha seus fantasmas em silêncio. Meu irmão não é tão paciente quanto eu.
Naquele momento, percebi que a minha prisão não tinha apenas as paredes de mármore deste palácio. Ela tinha guardiões que podiam ler as minhas intenções antes mesmo que elas se tornassem atos. O banquete continuou, as luzes brilharam e a aliança foi celebrada, mas, para mim, a noite apenas começava a escurecer.
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