Ahd al-Ramad
3 O jogo dos espelhos
Às nove da manhã, o sol em Marraquexe já se tornava uma presença física e escaldante. Caminhar com Renesmee pela Medina era como observar a impossível mistura entre o óleo e a água; mesmo com o calor pulsante das dunas vibrando sob minhas botas, sua pele seguia emanando um frescor irritante e persistente, como um floco de neve que se recusava a derreter no epicentro do deserto.
O silêncio entre nós era denso, quase ferino. Exerci minha função de guiá-la pelos labirintos de óleos, tecidos e especiarias com a cortesia distante de um nativo orientando uma turista desconhecida. Por um momento ou dois, permiti-me observar a calma com que ela se comunicava com os vendedores: era carismática e disciplinada. Seus passos tinham a segurança de quem pertencia àquela terra, mesmo sem nunca ter pisado nela antes.
A reação dos nativos foi ainda mais impressionante. Eles a encaravam com a última centelha de esperança, ignorando seu árabe carregado de sotaque e sua origem estrangeira. Antes mesmo de assumir a coroa, o povo já a aceitava como uma liderança.
Naquela manhã, Renesmee havia escolhido uma seleção poderosa e incomum de óleos como perfume. Ela cheirava ao deserto de forma tão densa que nem mesmo a confusão do mercado, com seus aromas de couro curtido, hortelã e poeira, era capaz de mascarar a fragrância que emanava dela. Era uma barreira sensorial que eu ainda não conseguia decifrar.
Próximo ao início da tarde, o retorno ao palácio me trouxe um alívio sombrio. Cruzar os arcos de mármore e saber que estava em casa era tão reconfortante quanto era desesperador saber que a dinâmica com os Cullen se estenderia pelos próximos vinte dias — e com ela, pelo resto da eternidade. Não me forcei a seguir a etiqueta; ignorei o convite silencioso para o salão de narguilé e segui em direção ao jardim dos fundos, recolhendo-me entre a vegetação densa para recuperar o fôlego.
Foi na transição entre a luz alaranjada do crepúsculo e as sombras da noite que eu os vi.
Renesmee e Edward alcançaram os fundos da casa, sozinhos. A proximidade entre eles fisgou minha atenção imediatamente. Ele parecia tentar envolvê-la com sua presença, os olhos dourados analisando-a com uma potência assustadora, quase febril. Sob o olhar dele, a postura dela se transformava; a Sultana inabalável que enfrentara a Medina comigo desmoronou sutilmente. Seus ombros relaxaram e sua respiração mudou de ritmo ao encontrar o toque dele.
Houve um segundo em que a mão de Edward roçou o braço dela — um toque que durou mais do que o regulamento social permitia e muito além do que a fraternidade justificava.
Quando o último fio de luz do entardecer pousou sobre o rosto de Edward, vi em sua expressão uma adoração desesperada que beirava o religioso. Na presença dela, era como se ele pudesse se tornar uma criatura viva novamente. Eles estavam a uma distância segura; longe o suficiente para que não notassem meu cheiro ou minha presença, e longe demais para que minha audição captasse seus sussurros.
Mas eu não precisava ouvir. Seus corpos gritavam para mim que compartilhavam um segredo tão íntimo que nenhum outro membro daquele clã poderia partilhar.
Eles não se alongaram por mais do que seis ou sete minutos antes de retornarem para o interior da casa. Eu os segui pouco depois. Edward havia se juntado aos homens na sala de narguilé, enquanto o rastro de Renesmee parecia ter seguido em direção à ala de hóspedes. Por fim, decidi me juntar aos outros e analisar o caçula da família Cullen.
Reivindiquei meu lugar entre Billy e Carlisle; ambos estavam sentados com as pernas cruzadas, recontando aos anciãos algumas de suas aventuras juntos no século anterior. Minha única comunicação com o grupo foi um breve aceno de cabeça quando a piteira de prata me foi oferecida.
Edward estava na extremidade oposta quando nossos olhares se cruzaram. Não houve fingimento de fraternidade ou um cumprimento discreto. Ele sustentou o olhar no meu com uma fixidez predatória. Para além da máscara de mártir civilizado que ele e a família ostentavam, seus olhos dourados escureceram dois tons acima do habitual, em uma hostilidade puramente territorial. Ele não me encarava como o futuro Sheik, tampouco como um futuro membro de sua família; o vampiro me encarava como se eu fosse um inimigo prestes a roubar seu tesouro mais precioso. A possessividade em sua postura era tão física e real quanto o calor que atingia meu peito.
O caçula dos Cullen era um leitor de mentes formidável, segundo a própria "irmã"; eu sabia que ele estava captando cada imagem do jardim que latejava incessante em meus pensamentos. Ele sabia que haviam sido vistos e compreendia, melhor do que ninguém, o sinal de alerta que o lobo dentro de mim soava diante de seu comportamento. Ainda assim, ele não recuou; nem por um minuto sua expressão vacilou.
Capturei o exato momento em que sua cabeça se inclinou e seus lábios o acompanharam em um leve repuxar... era um desafio. Sem pronunciar uma única palavra, ele confirmava que eu tinha motivos de sobra para desconfiar da sua dinâmica com Renesmee.
Apertei a piteira de prata com tanta força que senti o metal ceder levemente sob meus dedos. A fumaça ao meu redor parecia estagnar.
— Jacob? — Meu pai chamou minha atenção, a voz rouca rompendo o transe. — Carlisle quer saber como a filha se saiu na Medina.
Pisquei por alguns momentos antes de articular uma resposta adequada.
— Ela se saiu bem — respondi, minha voz vacilando mais do que o planejado.
Levei a mão ao bolso, afagando o lenço de Isabella. Parecia hipocrisia caçar os segredos deles quando eu tinha os meus próprios, mas era a audácia de Edward naquela sala que me enfurecia. Éramos extremos opostos. Enquanto eu herdava um fardo que exigiria o sacrifício da minha vida, ele era apenas um bebedor de sangue que parecia ignorar os fardos da coroa. Ainda assim, a forma como me enfrentava apenas com o olhar parecia nos colocar em um estranho e perigoso pé de igualdade.
Quando fomos convidados a nos dirigir para a refeição e alcançamos a sala de jantar, ocupei meu lugar à cabeceira da mesa lateral. Mantive uma postura rígida, um contraste seco com a fluidez quase líquida e antinatural dos Cullen. Billy e Carlisle lideravam a conversa; uma troca amena de memórias e promessas políticas que flutuava sobre a mesa como a fumaça das velas. Mas meus olhos estavam ancorados no centro daquela farsa.
O jantar foi regido por uma dissimulação refinada. Enquanto os pratos de cerâmica pintados à mão eram preenchidos com carne de cordeiro que exalava o aroma denso de açafrão, eu me sentia um espectador em uma peça de teatro onde todos, exceto eu, já conheciam as falas.
Ao meu lado esquerdo, Renesmee estava sentada entre Edward e Esme. Ela agia com a propriedade de quem já possuía o lugar, exatamente como fizera na Medina. Uma diplomata nata, respondia aos meus tios com a dose exata de modéstia e inteligência, enquanto reservava um tom mais amável às mulheres da casa. Para mim, cada uma de suas palavras soava filtrada; não havia ali uma naturalidade genuína, apenas uma performance impecável.
No entanto, era a postura de Edward que tornava o ar irrespirável.
Assim como os demais vampiros da família, ele não se alimentava; a presença deles à mesa era apenas um véu social, uma cortesia para os vivos. A atenção dele estava inteiramente voltada para o perímetro da híbrida. Toda vez que ela se inclinava para falar, ele acompanhava o movimento. Toda vez que ela sorria para um dos anciãos, ele relaxava os ombros de forma quase imperceptível. Era uma gravidade distorcida: ela era o sol, e ele, um planeta condenado a orbitar em torno dela, ignorando as leis da natureza e do tratado que nos unia.
Capturei o momento em que a mão dela buscou a taça de cristal — ela era a única entre eles que realmente comia e bebia — e, por um breve segundo, seus dedos roçaram o pulso de Edward sobre a toalha de linho. Foi um toque fugaz, mas a reação dele foi imediata. Edward fechou os olhos por um milésimo de segundo, absorvendo o contato como se fosse oxigênio puro. O olhar que ele lançou a ela logo em seguida não era o de um irmão orgulhoso; era o olhar de um homem faminto diante do último banquete da Terra.
— Jacob, querido, você mal tocou no seu Tajine. — A voz de Sarah cortou minha linha de visão, suave e maternal. — Não está do seu agrado?
— Estou sem apetite, mama — respondi, meus olhos pregados em Edward. — Acho que meu estômago está sentindo a agitação do dia.
Pela primeira vez, Edward ergueu o rosto em minha direção. Seus olhos tinham uma clareza cortante. Ele era o único naquela mesa que sabia que minha atenção estava em cada um de seus gestos possessivos, tentando decifrá-los ponto a ponto. Alimentando a guerra fria entre nós, ele se inclinou na direção de Renesmee em uma demonstração clara de intimidade. Em nosso diálogo mudo, ele ressaltava que, independente de quem ocupasse a cabeceira e o reinado, o controle emocional da futura Sultana estava nas mãos dele.
A tensão era uma corda esticada entre nós dois, soltando mais um fio da trama a cada risada de Carlisle ou comentário de Billy. Renesmee percebeu. Vi quando ela endireitou a coluna e lançou um olhar de advertência para Edward — um comando silencioso que ele obedeceu apenas parcialmente, recuando milímetros na cadeira.
Eu era o noivo. O futuro Sheik. Mas ali, sob as luzes dos candelabros do meu próprio palácio, eu me sentia o intruso em uma intimidade que precedia séculos e clãs. No meu bolso, o lenço de Isabella parecia pesar uma tonelada; uma âncora de culpa que me impedia de gritar a verdade para aquela sala.
Quando o jantar finalmente se deu por encerrado, entendi que seria minha melhor oportunidade. Renesmee anunciou a necessidade de caçar e Edward, prontamente, se ofereceu para acompanhá-la. Achei que seria de bom tom intervir.
— Eu vou — anunciei, levantando-me antes que ele pudesse protestar. — Conheço estas terras melhor do que ninguém. Edward pode descansar; eu mesmo acompanharei minha noiva.
Mama recebeu meu gesto de proatividade com aprovação, assim como Billy e Carlisle. Dentre os pais, Esme era a única que parecia intrigada com minha súbita cortesia para com Renesmee. Edward, por outro lado, mantinha uma expressão dolorosa, como se eu tivesse enterrado uma adaga em seu coração de gelo. O lobo dentro de mim sorriu; era a minha primeira vitória.
Diferente da energia vibrante do dia, a noite no deserto era um domínio de sombras prateadas e um frio absoluto. Mesmo sendo a estrangeira, Renesmee assumiu a dianteira com um caminhar predatório quase impossível de processar. Ela não precisava de luz artificial; seus olhos captavam as movimentações noturnas apenas com o auxílio da lua, lembrando-me, a cada passo, de sua natureza inumana.
Parei sob a sombra de um afloramento rochoso. O cheiro de areia seca e vento era limpo, mas a tensão entre nós tornava o ar espesso e difícil de tragar.
— Ele é apaixonado por você, não é? — A pergunta saiu sem preâmbulos, cortando o silêncio como um tiro.
Renesmee parou de costas para mim, parecendo, por um momento, uma estátua esculpida na própria pedra. Lentamente, ela se virou. Sua expressão estava protegida pela escuridão, restando apenas o brilho dourado e fixo de suas íris.
— Onde você planeja chegar com esse assunto, Jacob? — Sua voz, suave como veludo, trazia um tom velado de aviso.
Soltei uma risada seca, sem qualquer vestígio de humor.
— Não foi preciso que eu pronunciasse uma única letra do nome dele para você saber a quem me refiro. — Dei um passo à frente, endireitando a postura em uma tentativa vã de intimidá-la. — Acho que a resposta é "sim".
Pela primeira vez, ela se moveu em minha direção, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o frio emanando de sua pele. Sua expressão não se abalou por uma fração de segundo.
— E qual o seu interesse sobre esse tópico, Al-Aswad? — Ela inclinou a cabeça, os olhos me mirando com uma precisão cirúrgica. — Creio não ter lido a cláusula que diz que o acordo prevê fidelidade emocional. Eu deveria revisá-la?
— Renesmee, tenha em mente que eu não aceitarei ser feito de idiota dentro da minha própria casa — rosnei. — Eu tenho o direito de saber com quem você está se deitando. Se eu tiver que fazer parte disso, o mínimo que espero é não ter que conviver com seu amante. Está claro que ele te ama, e não estou falando de amor fraternal.
— Amante? — Ela sibilou a palavra, a máscara de diplomata finalmente caindo para revelar a criatura poderosa por baixo. — Edward é o meu lar. Ele é a única verdade que tive em dezenove anos de uma vida planejada por outros. Mas, se você está tão preocupado com segredos e sombras, talvez devêssemos falar sobre o que você carrega nesse bolso.
Minha postura fraquejou e senti meus ombros cederem. Eu não estava preparado para aquele contragolpe; não quando estava tão convicto do meu discurso. Senti meu sangue congelar. Minha mão subiu instintivamente ao tecido da túnica, onde o lenço de Isabella estava escondido como uma prova de crime.
— Sabe qual a única diferença entre nós, Jacob? — Ela continuou, a voz carregada por um veneno gélido que sabia exatamente onde acertar. — É que, quando as cortinas se abrem, eu exerço o meu papel com maestria. Eu sei quais são minhas responsabilidades. Você quer me julgar por buscar conforto nos braços de quem me ama antes de ser enterrada viva neste deserto? Pois a humana em sua cabeça está mais viva dentro desse tratado do que Edward jamais estará. Olhe para si mesmo, Jacob. Você é um hipócrita tentando punir em mim o vazio que não consegue preencher na sua própria vida.
A raiva me atingiu como uma onda de calor insuportável. Soquei a rocha ao meu lado, sentindo a pedra ceder sob a força do meu punho. O som do impacto ecoou pela vastidão vazia.
— Nunca mais, em toda a sua existência, pense em falar sobre ela. — sibilei, meu dedo indicador indo de encontro à face dela. Ainda assim, ela não titubeou.
— Então recolha-se em sua insignificância e não questione meus sentimentos, ou os dele, Al-Aswad — ela rebateu, imperturbável. — Este casamento é um negócio; uma barreira contra os Volturi. Se você quer que os seus lobos continuem respirando, seja homem e poupe-se da humilhação. Se quiser buscar abrigo com a humana, vá. Mas seja tão discreto quanto eu sou, e não deixe que o povo saiba quem realmente deita em sua cama.
Ela se virou e desapareceu na escuridão das dunas, deixando-me sozinho com o eco das minhas próprias mentiras e o cheiro de mirra que, agora, me sufocava mais do que nunca.
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