Aham, é amor

19 Mineral ou vegetal?


PERCY (Point of View)

Tudo estava indo bem, até a parte onde nós teríamos que acender a churrasqueira. Quer dizer, nada estava mal naquele instante, pois tínhamos o Leo. Se nós dependêssemos de mim, aí sim estaríamos com problemas, e claro, ficaríamos sem churrasco hoje. É que nos churrascos que frequento, eu não sou o cara que fica atrás da churrasqueira, virando a carne de um lado para o outro, e servindo os convidados. Na real, eu quase sempre sou um dos convidados.

Alguns de nossos amigos, e Annabeth (por que Annabeth não é apenas uma amiga para mim), estavam sentados nas cadeiras metálicas do jardim da minha mãe, que ficavam no quintal dos fundos. As garotas conversavam, descontraidamente. Jason fora até seu carro, que estava estacionado em frente à minha casa, para pegar seu violão, e ainda não havia voltado. É amigos, esse pequeno churrasco até que não vai ser tão ruim.

Leo analisou a churrasqueira por alguns instantes, parado, e com a mão no queixo. As garotas, quando perceberam o silêncio, pararam de conversar, e prestaram atenção na cena que fora iniciada há poucos segundos. Eu pensei que ele daria uma desculpa esfarrapada e cairia fora dali, mas não.

– Onde está o carvão? – o magrelo me perguntou, olhando para mim.

– Hm, nas jazidas de carvão, cara? – perguntei, sorrindo. Algumas das garotas também sorriram. E eu tive a impressão de ter ouvido aquela risada gostosa da Annabeth.

– Não seja idiota, Perseu! – Leo falou, sorrindo. Ele geralmente era o piadista do grupo, ao lado de Andrew, e pareceu achar graça da minha piada.

– Certo, certo... Espere. – falei, e fui em direção aos fundos do quintal. Há uns dez metros dali, ficava um cômodo separado da minha casa. Era uma espécie de lugar onde nós, eu e minha família, guardávamos tudo que nos pertencia, e que não estava em nossa casa. Era lá que ficavam as ferramentas de jardinagem da minha mãe, e o carvão da churrasqueira, entre outras coisas não úteis à todo momento – Qual tipo você prefere? Mineral ou vegetal? – gritei de dentro da mini construção. As garotas voltaram à sorrir.

– Traga logo um diamante, Perseu. – Andrew respondeu, também gritando, e as garotas continuaram sorrindo. É, eu sei fazer as garotas sorrirem. E talvez Leo consiga isso também. E Andrew.

– Infelizmente, eu não possuo essa variação de carbono. – gritei novamente, enquanto pegava um saco de carvão mineral, pois o mesmo possui mais concentração de carbono 12. Sim, eu serei químico em um futuro não tão distante. E muitos ainda me consideram lesado ou retardado, não entendo essas pessoas. Tá, talvez eu seja um pouco, mais só um pouco, distraído. Não mais que isso.

Voltei para onde estava há poucos minutos, e notei que Jason também já havia voltado com o violão. Ele até já arriscava tocar algumas notas, arranhando o violão. Mas de boa, ainda faltava muito para o cara começar à tocar. Joguei o saco de carvão no chão e o abri.

– Agora é com você, churrasqueiro. – falei, e Leo me olhou como se não acreditasse.

– Qual é, Perseu! Você tem músculos, é mais forte que eu! – ele disse, puxando a manga da camisa do braço direito e mostrando os seus “músculos”. É, eu sou muito mais forte que ele. E mais bonito. E mais gostoso.

– Ah cara, você tá precisando de massa muscular, velho! – disse Andrew, olhando para Leo. Eu assenti sorrindo, e pegando o saco de carvão, despejando todo o conteúdo na churrasqueira.

– Ei Percy, você tem bebida alcoólica aqui né? Cerveja, vodka, whisky? – Jason perguntou, ainda segurando seu violão. Eu apenas assenti. Tinha tudo aquilo e mais um pouco – Muito bem, espero que ninguém fique tão “alegre” quanto o Nico, do último domingo.

Jason tinha razão. Nico estava muito “alegre” mesmo na pequena festa da Calipso, do domingo passado. Espero que hoje o cara se controle e... Eu sabia que estava esquecendo de alguém.

– Falando do Nico, onde ele está? – Annabeth perguntou, e olhou para mim – Você não convidou ele, Perseu?

Não faz assim, Annabeth! Perseu não! Nós já discutimos sobre isso, mulher! Bom, na verdade ainda não discutimos sobre isso. Eu apenas protestei. Mas de boa. Voltando... Eu havia esquecido de chamar o Nico. Eu sou um bom amigo, sei.

– Vocês acabaram de me lembrar que o Nico existia. – disse, enquanto olhava para o meu celular que havia tirado do bolso agora mesmo, e procurava pelo número do cara na agenda. Tudo isto depois de despejar o carvão na churrasqueira e jogar o saco do material no lixo, é claro.

– Nossa, que bom amigo você é. – disse Andrew, sarcástico. Mas eu nem precisava dizer.

– Eu sei, quem precisa de um amigo melhor do que eu? – perguntei, enquanto levava o celular ao ouvido. Chamou algumas vezes, mais algumas vezes... Outras vezes... Até que o “alegre” atendeu. – E aí cara? Tudo de boa?

– E aí Percy.

– Bom, é que nós estamos tentando fazer um churrasco... – falei, enquanto sentava em um dos bancos metálicos de jardim da minha mãe – Eu chamei todo mundo, só que esqueci de te chamar mais cedo. E aí, o que você acha de vir aqui e ficar um pouco “alegre”?

– Sua sinceridade me encanta. – Annabeth comentou, olhando para mim. Eu sorri. Tenho outra coisa que também costuma encantar e surpreender, princesa. Mentes sujas levaram essa frase para o duplo sentido, com certeza.

– É bom saber que eu sou o mais lembrado de todo o grupo. Mas eu vou aí sim, tô sem nada melhor pra fazer. Sua casa, certo?

– É cara. – disse, sorrindo.

– Ok, até mais.

– Até. – desliguei o celular, e todos me olhavam.

– E aí? – Silena perguntou – Ele ficou irritado por você ter o esquecido?

– Espera, eu? – perguntei, fingindo indignação. Mas infelizmente, tenho que concordar com a Annabeth em que eu não sou um bom ator — Vocês poderiam tê-lo chamado, não é?

– É, você. – dessa vez foi minha princesa quem falou, sorrindo. Ah, que sorriso lindo... — E não, você quem organizou o churrasco. Quem deve convidar todo mundo é você. — certo, você tem argumentos, Annabeth.

Se ela estava irritada comigo pelo o que aconteceu mais cedo, não demonstrava. Nesse momento, todos nós estávamos conversando animadamente, mesmo sem nem o churrasco ter começado ainda. Annabeth e eu até trocávamos alguns olhares de vez em quando.

– E aí, Leo? – Jason perguntou depois de algum tempo, deixando o seu violão de lado. Acho que ele desistiu de alegrar a festa – Esse churrasco começa ou não?

– Acabei de tocar fogo no carvão. – ele se virou para nós, e abriu os braços, sorrindo. Leo estava completamente coberto por um pó negro, com certeza a poeira do carvão. Sua cara, sua camisa, sua bermuda. Tudo mesmo.

Todos nós começamos a sorrir. Ele só se ligou que estava tomado pelo pó escuro quando olhou para suas mãos, e sua camisa branca, que agora não estava mais tão branca. E aí parou de sorrir. Muito bom, hein Leo?

– Ah, qual é pessoal! – Leo protestou – Isso não tem graça!

– Claro que tem! – Andrew disse, ainda sorrindo.

Depois de algum tempo, quando nos recuperamos e paramos de sorrir, um silêncio quase que absoluto tomou conta da nossa pequena reunião de amigos. Tal silêncio só foi quebrado minutos depois.

– Bom... Leo, o que estamos esperando? – Samara perguntou, enquanto olhava para Leo e se segurava para não começar à sorrir de novo.

– Eu coloquei fogo no carvão. Agora temos que esperar. – Leo disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Esperar... Pelo que? – Silena parecia intrigada. Com certeza ela nunca teve aulas de como colocar fogo na churrasqueira e começar um churrasco.

– Depois de colocar fogo no carvão, temos que esperar ele queimar, para que ele vire cinzas. – Annabeth disse, tranquilamente – Não é o fogo em si que assa a carne, mas o calor proporcionado pelas cinzas.

– Interessante. – eu falei encarando-a, e nossos olhares se encontraram, mais uma vez. Ela ficou meio que sem jeito, e juro que a vi corar.

– Muito interessante mesmo. – disse Leo, analisando minha loira, e depois olhando de volta para mim, com aquela cara de cientista maluco. O que esse filho da puta acha que está fazendo?

– Ei garotas, o que acham de ir até o refrigerador pegar os bifes para o churrasco começar? – Andrew falou, e elas se entreolharam – Suponho que estejam no refrigerador, certo “Sheldon”?

– Ah sim, em uma embalagem plástica que possui uma etiqueta que informa: “Bifes para o churrasco” – falei, e os caras sorriram. Ah, gente que assiste The Big Bang Theory, com certeza é outro nível.

– Tudo bem, vamos garotas. – Piper falou, sem mostrar resistência. Eu acho que elas queriam mesmo um momento apenas delas pra falarem o quanto eu sou lindo e gostoso, sem deixar os namorados delas tristes e enciumados. Sou irresistível, eu sei.

Elas levantaram ao mesmo tempo.

– Já volto. – disse Sophia, olhando para Andrew. Ele sorriu.

– Logo estarei de volta também. – Piper falou, dando uma piscadela para Jason.

Silena saiu sem dizer nada, assim como Annabeth e Samara. Logo, estávamos apenas eu, e os três patetas, em um silêncio até que legal. O silêncio com certeza era muito melhor que ouvir aqueles idiotas falando besteira. Não que eu também não fale besteira. Mas não tanta besteira. Ah, deixa pra lá.

– E então, Perseu... – Andrew começou – Qual é o lance com a loirinha?

– Ahn? – perguntei. Me fiz de desentendido, claro. Não foi tão difícil...

– Não se faça de idiota! – Leo falou, e todos os três de repente pareciam curiosos sobre a resposta da pergunta de Andrew – Bom, idiota você já é! Mas não queira ser mais!

– Ela é só minha vizinha nova, tá legal? – falei, e não tenho certeza se isso foi o bastante para fazê-los acreditar. Eles são idiotas, mas conseguem ser espertos quando querem. Pokémons também têm esse poder, não é?

– Vizinha, claro, claro. – Jason falou.

– Até você, cara? – perguntei, e ele deu de ombros.

– Vamos Perseu, admita que você sente algo por ela. – Leo disse, ainda coberto de poeira de carvão. Ele parecia até um espírito daquele jeito – Notei a troca de olhares de vocês, agora há pouco.

– Não houve nenhuma troca de olhares! – falei, querendo negar os tais argumentos. Se esses imbecis desconfiassem mesmo que eu estava gostando da Annabeth, eles não me deixariam em paz, sério – De boa galera, não tem nada entre a Annabeth e eu. – os três assentiram ao mesmo tempo, com sorrisos cínicos na cara de cada um. É, acho que não soei convincente o bastante. Que legal.

– E aí, bando de idiotas! – mais um idiota juntou-se à nossa agitada e longa reunião. Era o “alegre”.

– Fala, pinguço. – falei, e Nico fechou a cara, sem graça. Não sou apenas eu o ator ruim da história.

– Perseu disse que tem bebida alcoólica, mas não exagera tanto, certo cara? – Jason falou, e Nico ficou ainda mais sem graça. Nós sorrimos.

– Eu vou na cozinha pegar algo pra gente beber. – falei – Volto já.

– Aproveita e puxa a loirinha pro seu quarto, cara! – Andrew gritou – A gente sabe que você tá na seca, faz duas semanas que você e a Drew acabaram, certo?

– Vão se foder, seus filhos da puta! – falei, eles começaram à sorrir. Mas sorrir mesmo.

Meio que irritado, levantei da cadeira metálica onde estava sentado, e cruzei o quintal indo em direção à porta dos fundos da minha casa. Eu até considerei a ideia de puxar a Annabeth pra um canto. Mas não pra gente ficar. Ou transar. Eu queria mesmo era entender o que estava acontecendo.