Aham, é amor

14 Dúvidas e incertezas


ANNABETH

–Narrator-

Annabeth tentava organizar seus pensamentos e emoções enquanto Perseu levava-os de volta até o condomínio onde a garota começara a viver desde ontem. Depois que deixaram a mansão da Calipso, os dois não se falaram ou trocaram olhares em momento algum. Aquelas ações só confirmavam a imagem qual Annabeth havia atribuído à Perseu: um garoto que usava as garotas e depois largava-as. E quando não conseguia fazer o que queria com elas, irritava-se. Com certeza ele só estava levando Annabeth de volta ao condomínio por que eles eram vizinhos, e ele deveria saber que em um ou outro momento, mesmo se eles parassem de se falar, iriam se encontrar. E claro, Annabeth já tinha ideia do que causara tudo aquilo.

Ela quase beijara seu novo vizinho esta noite. Com certeza, Perseu adoraria ter saído do “quase”. Mas algo preocupava Annabeth. Ela ainda não havia conseguido entender: como os rostos dos dois adolescentes ficaram tão próximos naquele instante? Porém, no momento em que seus lábios seriam selados, ela pareceu despertar do transe à que fora induzida pelos olhos verdes e profundos do garoto, e então separou-se rapidamente. E Perseu claramente estava irritado, ou simplesmente aborrecido. Mas, no entanto, a garota não estava preocupada apenas com isso.

Annabeth se preocupara, realmente, pelo fato de saber sobre o tipo de garoto que Perseu supostamente era, e mesmo assim, ter quase o beijado. Se não houvesse se distanciado naquele instante, talvez ela até tivesse retribuído o tal beijo que teria acontecido, por causa do calor do momento.

Isso era perigoso. Annabeth já sofreu por amor antes. E segundo Thalia, Perseu também poderia fazê-la sofrer. Por esse motivo, ela passou à olhar o garoto com outros olhos. Se ela estivesse observando-o dessa maneira desde mais cedo, com certeza não haveria nem aceitado o tal convite à essa tal festa, que por sinal fora bastante divertida.

*****

– Bom... Desculpem a minha grosseria, mas agora eu tenho que ir. – disse Percy, levantando e puxando Thalia junto – Minha mãe nos chamou para almoçar.

Os momentos da manhã do dia anterior voltaram à mente de Annabeth.

– Você quer ir junto, Annabeth? – perguntou Thalia, tentando se soltar das mãos de Percy. Annabeth olhou para seu pai, pedindo permissão à ele. Frederick apenas assentiu.

– Se não for um incomodo. – a garota loira falou, enquanto olhava para Thalia e Percy.

– Claro que não, certo Percy? – Thalia dirigiu a pergunta para ele, e quando Annabeth olhou para o rosto do garoto, pôde notar que Perseu estava completamente vermelho.

Um “pegador” com certeza não coraria por motivo tão banal... Isso soma-se aos pontos de defesa de Perseu.

– Uh, c-claro que não. – ele disse, sem olhar para a loira.

– Muito bem, vá na frente Percy, vou falar algo com Annabeth antes... – disse Thalia, puxando Annabeth para o quarto da loira, deixando Perseu sozinho com Frederick, na sala de estar.

E então, chegaram ao quarto de Annabeth.

– Acho que Perseu não é o cara certo para você. – falou Thalia, naturalmente, após fechar a porta do quarto da loira, concluindo que ali teriam mais privacidade.

– O-o que você quer dizer com... – Annabeth estava surpresa, como se um segredo seu tivesse sido revelado. Ela ainda tentava formular a pergunta.

– Não tente negar, Annabeth. – Thalia sorriu maliciosamente, após falar – Vi que você ficou sem jeito perto de Perseu. Olha, eu não estou querendo queimar o meu primo ou algo do tipo... Eu sei que você sofreu muito por causa do Ethan, só quero o melhor pra você... Saiba que Perseu não é do tipo que fica apenas com uma garota. – Annabeth apenas corou ao ouvir todos os argumentos da melhor amiga.

Ela ouviu tudo, surpresa. Estava tão assim na cara que ela tivera uma queda por Percy logo que o viu? Bom, não foi uma “queda”. Ela apenas admirou os olhos verdes e profundos do garoto. Mas Thalia notou isso.

Mesmo irritada pelo fato de Thalia ter percebido o que ocorrera, Annabeth ficou agradecida. É verdade, Annabeth sofreu muito por Ethan, seu ex-namorado que conhecera em seu colégio, enquanto ainda morava em São Francisco. Ethan traiu-a com outra, e fora Thalia quem ajudara Annabeth à se fortalecer novamente. Desde aquele dia Annabeth prometeu não se apaixonar mais tão facilmente, mas essa promessa parecia estar começando à ser desfeita.

Parecia, mas Annabeth era uma garota forte. Ela não queria se entregar facilmente. Ela não poderia se entregar facilmente. Ela não queria sofrer mais uma vez.

– Não fiquei sem jeito, Thalia. – falou Annabeth negando, ainda corada, após suspirar – Mas, de qualquer modo, fico grata pela informação. – Thalia assentiu, e então elas deixaram o quarto da loira, para irem à casa do vizinho da frente de Annabeth, o garoto pelo qual ela começara à se apaixonar.

Aquelas lembranças daquela conversa com Thalia invadiram a mente de Annabeth. Definitivamente, ela não queria mais se machucar por amor. Annabeth começara a admitir à si mesma que “começou à gostar” de Percy, assim que o viu, na frente da sua casa. E agora há pouco, eles quase se beijaram. Mas ela não queria mais se machucar por amor.

Mas aí, Annabeth lembrou-se da manhã do dia corrente. Quando ela acordara, estava “em cima” de Perseu. Isso mesmo, eles haviam dormido juntos em um sofá, na casa do garoto. Annabeth rapidamente espantou-se, pensando que teria quebrado sua tal promessa de não se entregar mais tão facilmente como fez uma única vez com Ethan, porém eles não haviam ultrapassado o limite de beijos quentes. Annabeth estava preocupada. Será que além de quebrar a promessa sobre se entregar em beijos, eles haviam avançado um nível à mais? Perseu garantiu que eles não haviam transado nem nada do tipo, e Annabeth ficou aliviada. Por algum motivo, ela acreditou no garoto. Segundo as palavras de Perseu, ele não queria manda-la para casa, por causa da chuva que havia começado à cair intensamente na noite do dia anterior, para que ela não pegasse um resfriado. E então, dormiu junto de Annabeth para aquecê-la, no sofá.

Se fosse qualquer outro, o tal garoto com certeza teria se aproveitado de Annabeth. Afinal, ela era uma garota linda. Nenhum garoto da idade de Perseu resistiria à ela. Mas Annabeth soube que não precisava se preocupar, pois Perseu garantiu que nada aconteceu, e enquanto explicava, olhava no fundo dos olhos da garota. Apenas as pessoas que detém a verdade têm coragem de falar olhando nos olhos de alguém. E isso fez Annabeth voltar atrás: será que Perseu era mesmo desse tipo de garoto que só usa as garotas, e que joga-as fora depois? Se ele fosse, com certeza haveria se aproveitado dela na noite anterior.

Mais pontos para defesa de Perseu.

Porém, mesmo com todos aqueles argumentos, Annabeth ainda tinha suas dúvidas. Será que ela seria só mais uma na lista de Perseu? Será que ele era mesmo do jeito que Thalia descrevera na conversa da manhã anterior?

Como Annabeth estava afundada nesses pensamentos, nem notou que já haviam chegado ao condomínio. Melhor, ela nem notou que Percy já havia aberto a porta do lado do passageiro para ela descer. Eles estavam na garagem da casa de Perseu, e a casa da garota ficava do outro lado da avenida. Annabeth amaldiçoou-se silenciosamente. Há quanto tempo ela estava ali, parada, afundada em seus pensamentos, olhando para o nada, enquanto Perseu estava em sua frente, esperando-a descer?

– Chegamos. – Percy falou, apreensivo. Isso fez Annabeth pensar que não fora tanto tempo assim, pois ele falou uma única vez, calmamente.

Annabeth notou que aquele não era o garoto divertido e descontraído com quem ela saíra do condomínio há algumas horas. Perseu parecia preocupado com algo. Com certeza, não estava apenas aborrecido por causa do beijo que não se tornara real. Parecia estar com medo de como Annabeth passaria à trata-lo depois daquilo, depois que deixaram a festa.

A garota loira o observou tímida, mas logo desceu. Ela voltou à questionar-se se Percy era mesmo do jeito que Thalia descrevera. Quando deixaram o condomínio, ele havia a tratado com cavalheirismo e respeito. Perseu parecia tão atencioso e carinhoso, um verdadeiro cavalheiro, mesmo agora depois do que aconteceu na tal festa, ou melhor, depois do que não aconteceu na tal festa, quando Annabeth não deixou momento seguir e o beijo acontecer. Garotos do tipo que Thalia descrevera com certeza não agiriam assim, com tanto cavalheirismo e apreensão depois do que acontecera, em situação semelhante.

Mais pontos para defesa de Perseu.

Mas então, mais pensamentos invadiram a mente de Annabeth. Ela lembrou que Ethan também era carinhoso e cavalheiro inicialmente, e acabou traindo-a depois.

É, essa competição de pontos corridos está acirrada.

Perseu e Annabeth andaram lentamente, um ao lado do outro, até a porta da casa da loira. A avenida estava deserta, e as outras casas já estavam apagadas, sem nenhuma iluminação. Eram aproximadamente 23h27 da noite, todos já estavam dormindo, ou dentro das suas casas com as luzes apagadas. Chegando à casa de Annabeth, a garota abriu a porta, entrou na casa, e encarou Perseu. Os olhos verdes e a expressão facial séria do garoto faziam Annabeth voltar à questionar-se se Percy seria mesmo daquele tipo de garoto “pegador”, que só faz usar as garotas por puro prazer e diversão. Faziam Annabeth voltar à questionar-se se Percy teria coragem de traí-la, se ela desse uma chance para ele.

E então, uma ideia surgiu em sua mente.

– Boa noite. – disse Percy seriamente, virando-se de costas à Annabeth, voltando para sua casa.

– Espera, Percy... – Annabeth falou, e o garoto parou de andar, mas ainda estava de costas, apenas ouvindo – Você não quer entrar? – Percy virou-se para encará-la, mas não fez menção de voltar ao lugar que estava agora há pouco, em frente à porta de Annabeth.

– Não acho correto. – ele falou, seguro. Annabeth surpreendeu-se – Já está tarde, Annabeth. Você nem me conhece direito. Não é certo convidar um cara que você não conhece para entrar na sua casa depois das onze, sabia? – ele sorriu, mas logo voltou à ficar sério. Ele parecia estar mesmo se importando com ela. Annabeth começara à tirar suas conclusões sobre ele.

– Você não abusaria de mim. Você não é desse tipo de garoto. – Annabeth falou, também segura. Ela não estava fazendo um questionamento, ela estava afirmando. Finalmente ela havia tirado suas conclusões sobre o seu vizinho, e a nova imagem que ela atribuiu à ele era completamente diferente daquela que Thalia havia descrito na manhã do dia anterior – Eu sei que não é. – Percy sorriu enquanto balançava a cabeça, negativamente.

– Não abusaria, e nunca abusarei de você, princesa. – Percy falou, aproximando-se novamente de Annabeth. Ela corou – Nós dormimos juntos ontem, e mesmo assim eu não me aproveitei de sua inconsciência. Não sou desse tipo de cara.

– Sei que não é... – Annabeth sussurrou, aproximando-se de Perseu. Seus rostos estavam praticamente colados, como mais cedo, na festa. Mas agora, as circunstâncias eram completamente diferentes. As dúvidas que Annabeth tinha sobre o garoto foram esclarecidas. Ela tinha certeza que poderia fazer aquilo.

E então, em um movimento simultâneo, ambos aproximaram-se e deram fim à distância que separava seus lábios.