Ah, droga
1 O dia em que o "anjo" pisou na escola
Notas iniciais
"Sim, me mostre um bom amor
Faça isso direito
Preciso de doçura em minha vida
Açúcar"
–Sugar, Maroon 5
Oi, tudo bem? Meu nome é Jennifer, prazer. Eu sou estranha, tenho um maldito cabelo vermelho fogo, sardas por todo esse bujão de corpo, orelhas e nariz desproporcional a todo o resto do meu rosto e meu desenho preferido é Sarah & Duck. A única coisa que me salva são meus olhos cor-de-mel.
Nossa, que ótimo início.
Mas ok, porque eu tenho uma família maravilhosa: Uma mãe mais desmiolada que a filha e uma gata que nunca está em casa. "E seu pai? Ah, deixe-me adivinhar, ele morreu ou é viciado em trabalho, então não te dá atenção." Só que não, querida. Ou querido, enfim. Só porque a sinopse é clichê não quer dizer que eu também seja.
Mary, minha mãe, namorou um só carinha a vida toda, pois seus pais eram conservadores e, tipo, ela gostava dele desde pirralha. Então, no dia de seu, sei lá, 10° aniversário de compromisso ela descobriu o desgraçado com outra. Ela tinha 25 anos. Pela primeira vez na vida se rebelou, fugiu de casa, fez uma tatuagem (Asas nas costas, super maneiro) e foi para a gandaia. Conheceu um cara legal e fez o que qualquer indômita bêbada faria numa madrugada de sexta. 9 meses depois cá estava esta orelhuda que vos fala.
Ela não lembra sequer o nome dele, então tem me criado sozinha nestes purpurinados 16 anos. E, sinceramente, eu nunca quis conhecê-lo. A minha vida é maravilhosa do jeito que está tipo, eu posso fazer quase qualquer coisa e tenho meu próprio negócio particular. Quem precisa de pai? Mas agora que as devidas apresentações estão feitas, vamos começar logo essa bagaça.
Quando o despertador do meu celular começou a tocar "Sugar — Maroon 5", ás 6h15, eu já estava brincando com meu patinho de borracha na banheira. Sim, eu tenho um patinho de borracha, me amem. Não é como se adiantasse grandes porcaria usar cremes, maquiagem ou qualquer coisa assim, então só peguei qualquer coisa no armário e desci para o café da manhã.
O cheiro de café inundou meu olfato com mais... Alguma coisa... Um cheiro doce, familiar, de... Chocolate! Corri para a cozinha, que fica ao lado da escada. E, caramba, parecia que o leite condensado tinha tentado fazer uma revolução, tipo “Nunca mais seremos abusados por essa louca! Yaaaaa!”. Mesmo sendo loiro, podia ver alguns fios de doce no cabelo de minha mãe.
–Nossa, que bagunça. Você é muito problemática. –Disse, abraçando-a. Ela só riu e continuou a mexer o brigadeiro que estava fazendo(tentando). Como a certinha que é, checou o relógio de pulso.
–Você está atrasada. –Cutucou-me as costelas e apontou para a beirada da mesa, que estava uns 5 metros atrás de nós. Lá estava uma latinha cheia de chocolate quentinho, junto com torradas e café recém-passado.
–Ai! Sua estranha. Eu sei muito bem a que horas devo sair. –Botei-lhe a língua, alcançando o potinho e levando a primeira colher daquele pedaço comestível de Paraíso á boca. Hummm... Havia um leve gostinho de queimado, mas estava bom. Ela acertou a colher de pau na minha cabeça. –Caramba! Tá bom, tá bom, eu já vou.
–Tenha cuidado! –Gritou, pegando um xícara que estava por ali. Eu acenei com a cabeça. Sim, ela é anormal mesmo.
Não podia entender a pressa de minha mãe, pois a escola ficava á quatro quadras da nossa pequena casinha, então cheguei uns 5 minutos para a primeira aula. Sentei-me lá na frente, ao lado de minha melhor amiga: Julia. Podia ser monga, mas estudava. Eu ficava encostada na parede da porta, e as grandes janelas ficavam do outro lado, delas vinha uma matinal brisa quente e aconchegante, podia-se ouvir o canto dos pássaros nas árvores do pátio.
–E aí? –Chamei, Julia, que estava na carteira ao lado, com a cara enterrada nos braços. Ela parecia tremer. –Nossa, o que aconteceu? O Will terminou com você?
Ri. Era impossível que alguém terminasse com Juli, ela era a coisa mais fofa do mundo! Suas bochechas eram grandes e coradas, o rostinho era redondo e a pele parecia de porcelana. Seus olhos pareciam duas brilhantes bulicas castanhas e seu cabelo era na altura dos ombros, bem cacheadinho.
F-O-F-A.
Repentinamente ela se levantou, pegou meu braço e correu para o banheiro feminino, á alguns metros dali. Seu movimento foi tão brusco que mal pude ver seu rosto, parecia vermelho e... Molhado? Entramos no dito e o cheiro de Veja e cloro me trouxe uma passageira e leve vertigem.
–Cupido! O que eu faço?! –Ela gritou, apertando meu pulso. Seu rosto estava inchado e mostrava claramente que andara chorando. Oh, God. Puxei-a para mim e abracei-a por algum tempo. Ela não retribuiu ou me afastou. –O que eu faço?...
–Ei, ei. Calma, ok? Primeiro me conte o que-
Fui cortada pelo sinal da primeira aula. Os olhos de Juli cravaram-se nos meus e pude perceber que diziam “Não, não vamos. Eu não quero ir”. Mas eu somente sorri gentilmente fomos para a sala. As horas se arrastaram depois disso.
Dong Dong Dong
Era o sinal para o intervalo. E voltamos como jatos para o banheiro, com Juli ainda de olhos úmidos.
–Jen, me diz... Não, Cupido, me diz o que eu faço? –Ela segurava minhas mãos, tremia mais que as folhas das árvores. “Caramba ela realmente amava ele, não é? Ou talvez ser rejeitada pela primeira vez...” Analisei a situação.
–Ok, primeiro sente-se aqui. Isso, agora me conte o que diabos aconteceu. –Ela se acomodou na ponta da pia, enquanto soltava uma risadinha “Tão carinhosa”. Cupido entrava em ação.
–Estávamos bem, tipo, nuns amassos bem quentes na casa dele. –Olhou para mim- Eu achei que fosse aquela noite. M-mas então ele me afastou e começou com um papo de “Estamos indo rápido demais, eu preciso de espaço” e blá, blá, blá. E-eu realmente... Realmente, sabe?
–Realmente estava pronta, não é? Pela primeira vez na sua vida... –Ponderei em voz alta, Juli assentiu com as lágrimas lhe brotando nos olhos. –Ai meu Deus, Juli! Pare de ser tão dramática, caramba! Droga, menina! Você é linda, tem uma fila de garotos querendo namorar com você. Olha, você tem só 16 anos, tem a vida inteira para achar seu “alguém”, e vai acha-lo, ok? Pronto, pronto...
Abracei-a novamente, e depois de alguns instantes, ela se recompôs. Balançou a cabeça, novamente confiante. Agradeceu e disse que iria se esforçar, informou também que no dia seguinte me pagava os cinco cents da consulta.
–Nem precisa. Você estava precisando, é... Cortesia, ok? Mantenha a cabeça erguida, você é uma diva!
–Sim! Huhuull! –Celebrou, erguendo os braços e indo comprar seu lanche. Suspirei, feliz por vê-la “Juli” novamente. Todo mundo é mais lindo quando alegre, até um desastre como eu.
Talvez você esteja se perguntando que droga é essa de Cupido, mas se você já descobriu ~Palminhas~ Isso aí! (/*3*)/. Ta parei. Lembra do meu “Negócio particular”? Pois é. Agora deixe-me contar o que significa.
Quando eu tinha uns 12 anos, toda vez que minhas amigas tinham algum problema ou insegurança amorosa (tipo, “como eu vou saber se ele gosta de mim?”) eu dava alguns conselhos e, na maioria, funcionavam. Por isso começaram a me chamar de Cupido e eu comecei a cobrar 5 centavos por consulta, coisa pouca. Aí, até alguns meninos, começaram a me procurar e cá estamos nós, colegicamente conhecida esbanjando R$ 25, 00 por mês. Ah, está bom demais até, né? Me dirigi ao telhado, o meu ‘consultório’. Já se formava lá uma pequena rodinha de meninas, murmurando e dando risadinhas.
–Então, quem é a primeira?
***
O intervalo passou rápido demais. Por causa da inesperada consulta da Juli, não pude atender mais que três meninas e um garoto, e aqueles foram papos rápidos.
–Nossa, você sempre está tão ocupada nos dias de serviço. –Julia reclamou enquanto guardava as coisas no armário, que fica ao lado do meu.
–Seu recalque bate nas minhas orelhas e volta, meu bem. –Fiz cara de diva, como que tirando pó da roupa. Ela riu e bateu no meu ombro. –Ei, vou chamar meu segurança. Então, vamos juntas para casa?
Ela assentiu, fechando a porta metálica. O vento que passava por nós era refrescante, e os pássaros formavam uma música calma com o farfalhar das árvores, com nossas risadas de fundo. Ao passar pela biblioteca, rumando o pátio, demos de cara com alguém. Tipo, eu literalmente dei de cara com a porta de madeira. A maldita da Juli ficou só rindo “Nossa, que diva! Hahaha”.
–Oh, perdoe, por favor. Não vi que tinha alguém aí. –Ele se abaixou um pouco, para que pudesse olhar bem para mim. Seus olhos azuis fitaram-se nos meus. Senti meu rosto queimar, ele estava perto demais. –Você está bem?
–A-ah, sim. Q-quem é você? –Afastei-me, escondendo a boca com a mão. Seus gestos eram pequenos e rápidos, quase angelicais, por mais que fosse bem alto. Tipo, ele dava duas da Juli (por mais que ela seja nanica).
–Eu sou o novo professor de literatura. –Riu graciosamente, desculpando-se por não se apresentar formalmente. –Meu nome é James.
–James... –O nome saiu inconscientemente de ambas bocas, minha e de Julia. Olhei-a de soslaio e parecia hipnotizada pela beleza dele, por mais que parecesse ter uns 28 anos. E, deveras, eu também estava. –B-bem! Que bom, então! N-nós já vamos indo!
–Eh? –Julia quase me suplicava com os olhos “Ah, não vamos.” Mas deixou-se levar por mim. Meu coração estava batendo rápido e meu rosto quente.
Naquele momento, eu ainda não sabia que estava prestes a começar o momento mais obscuro da minha vida.
Fale com o autor