Notas iniciais

Zoro nunca odiou tanto ter dado um presente a Sanji. Ele já não dava muitos, e quando o fazia ainda era uma tremenda dor de cabeça. Não porque o cozinheiro tivesse detestado, pelo contrário, ele odiava que Sanji tivesse gostado tanto daquilo.
Afinal, Zoro deu aquela coisa a Sanji justamente porque era horrível.
Em pleno Halloween, ele havia ganhado o tal objeto ganhado como prêmio de consolação após perder para Usopp numa barraca de tiro ao alvo cuja dona insuportável gostava de dar prêmios fofos para os participantes. Ela disse que ele poderia ficar com aquilo já que tinha perdido para o amigo, mas acertado um número razoável de alvos. Zoro não sabia em que planeta um fantasma linguarudo tão feio seria considerado fofo mas levou o prêmio mesmo assim.
Então apenas chegou em casa e jogou a coisa no colo de Sanji dizendo Kokku. Presente. E esperava que o maldito fosse reclamar, ou atirar o bicho de volta na sua fuça, mas ele definitivamente não esperava isso, não esperava que Sanji fosse realmente passar a dormir com ele.
Na primeira noite, achou que Sanji estivesse fazendo de brincadeira, como uma vingança por ter ganhado aquilo. Um jeito de dar uma lição em Zoro o trocando pelo seu próprio presente feio na hora de dormir.
Era irritante, claro, especialmente pela forma com que ele agarrava o bicho utilizando seu corpo todo. Mas o cozinheiro idiota já havia feito coisas bem mais insuportáveis, Zoro podia aguentar aquilo só por uma noite sem perder a paciência.
Com o tempo, entretanto, Zoro percebeu que Sanji não largava mais aquele fantasma. Assim que lia um pouco do seu livro e descansava os óculos de leitura no criado-mudo, as mãos do cozinheiro iam parar direto naquele bicho, agarrando o fantasma apertado com o corpo inteiro num abraço amoroso. As pernas compridas apertavam forte a pelúcia e Sanji enfiava o rosto no bicho para dormir, virando de costas para Zoro.
Era insuportável.
Atualmente Zoro odiava até olhar para aquela pelúcia em cima da cama, seus olhos esbugalhados o encarando como se estivessem comemorando sua vitória.
Ele precisava de uma maneira de fazer Sanji se livrar daquilo, sem ser exatamente sincero com relação ao porquê, claro. Mas não é como se ele pudesse apenas esconder um troço gigante como aquele sem Sanji descobrir.
Ainda assim, toda vez em que estava na cama ele jogava o bicho de pelúcia no chão, não realmente refletindo sobre o quão infantil estava sendo.
E cada vez que Sanji o procurava e colocava de volta na cama irritava Zoro ainda mais. Como se o cozinheiro não conseguisse mais dormir sem aquela coisa feia e estúpida.
"Esse bicho é muito grande. Atrapalha." Zoro tentou dizer sem transparecer todo seu ódio pela pelúcia.
"A cama é espaçosa o suficiente, marimo, pare de reclamar." Sanji disse e Zoro sabia que ele tinha razão, o que não queria dizer que ficasse menos puto por isso.
Ficou em silêncio mais alguns segundos antes de dar o braço a torcer e murmurar rabugento sua verdadeira implicância com o fantasma.
"Você não me abraça mais."
"Se te incomoda tanto por que você não me abraça?" Sanji rebateu.
"Porque você vai continuar agarrado com essa coisa." Zoro estava muito perto de fazer um biquinho, mas não iria se rebaixar a tal tolice.
"E daí?!!"
"Você é meu."
Sanji ficou em silêncio por um momento.
"Marimo... É um fantasma. De pelúcia." Ele parecia perplexo.
"Não interessa."
"Às vezes eu não acredito que eu me casei com você." O riso contido na fala do marido não passou despercebido por Zoro.
Ele apenas continuou bufando de braços cruzados, encarando o teto com uma carranca horrível.
"Está com medo que ele seja melhor de cama que você, hm?" Sanji disse se esfregando no fantasma de pelúcia de forma obscena, tendo sucesso em fazer Zoro finalmente encará-lo para fuzilar ele e o bicho com o olhar.
Sanji apenas sorriu e desatou as pernas da pelúcia, colocando-a com cuidado atrás dele enquanto abraçava Zoro no lugar.
"Você que me deu." Sanji começou e seu tom parecia estranhamente envergonhado para alguém que estava o provocando há segundos. "Eu só... achei que iria gostar que eu dormisse com ele."
A respiração de Sanji fazia cócegas na pele exposta de Zoro enquanto o cozinheiro murmurava as palavras, mas não era por isso que Zoro havia se arrepiado.
"Os braços são meus, ele fica com as pernas." Zoro cedeu, por fim.
Sanji era fofo demais quando era sincero para ele recusar.
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