Agulhas, Panos e Linhas
6 Passividade
– Não precisa explicar mais nada, estou satisfeita. Agora, tudo faz muito sentido. E então, vamos nos livrar desse corpo? Não quero que comece a feder em meu quarto.
Emília gargalhou. Estava feliz por sua dona estar feliz.
– Vamos – Emília confirmou – sua avó foi com a tia Nastácia ao Arraial dos Tucanos. O tio Barnabé as levou.
– Elas não notaram a minha falta, hoje de manhã?
– Na verdade, sua avó veio aqui, mas a porta estava trancada e ela chamou para tomar café da manhã. Eu disfarcei a voz e respondi por você que iria mais tarde, estava com sono.
Narizinho riu, e disse:
– Vamos, então.
Enquanto Emília carregava o grande homem nos ombros, Narizinho ia planejando como fariam para se livrar dele. Era como se as duas fossem acampar perto do rio, tamanha era a empolgação da menina.
– Eu sei onde o tio Barnabé guarda o querosene que ele usa para acender as lamparinas. A gente queima o corpo, não vai haver nenhum vestígio.
– Fogo. – Emília refletia – o elemento da destruição. O que o homem constrói em séculos, o fogo destrói em minutos. É a opção mais viável, realmente.
– É – Narizinho sorriu – depois, a gente leva as cinzas pra roça que o tio Barnabé queimou um dia desses.
Narizinho e Emília foram até o casebre do velho Barnabé e surrupiaram duas latas fartas de querosene. Foram até bem longe, correndo infantilmente, até acharem uma vala perto do pasto. A mesma vala que era usada para queimar animais sacrificados por doenças, agora incineraria os restos do pai de Narizinho.
– É aqui mesmo — Emília disse. Narizinho assentiu, procurando algumas folhas secas e galhos ali por perto. A boneca jogou o corpo no chão com tanta força que as duas puderam ouvir o som de vários ossos se quebrando ao mesmo tempo.
Enquanto Narizinho lançava os gravetos e as folhas dentro da vala, Emília preparava o corpo. Vasculhou os bolsos da calça e do colete, procurando algo que poderia resistir ao fogo. Achou algumas poucas quinquilharias metálicas e deu a Narizinho, para que as guardasse.
– Pode jogar o papai agora. – Narizinho disse a Emília, naturalmente. E foi isso que a boneca fez.
Cada uma das duas despejou uma lata de querosene sobre o corpo do homem, até que a calça e o colete ficaram completamente encharcados.
– Vamos, Emília! Acende logo! Trouxe a caixa de fósforos, não é? – Narizinho dizia, fingindo impaciência.
Emília sorriu, cúmplice. Ela esperou que o vento se enfraquecesse um pouco e acendeu o palito de fósforos. Ao lançá-lo, as duas presenciaram um verdadeiro espetáculo fúnebre: chamas azuis se misturavam à fumaça das roupas, embaladas pelo chiado de um cadáver sendo queimado. Emília estava tranquila. Parecia que sua dona, enfim, teria paz. Emília se sentia, praticamente, flutuando. Na verdade, estava indo na direção do fogo, involuntariamente. Narizinho a havia empurrado.
– Eu percebi que meus pensamentos só foram compartilhados com você até o momento em que você os sugou, não é verdade? – Lúcia perguntou, enquanto via sua boneca preferida estatelando-se em meio ao fogo.
– Sim! – Emília respondeu, assustada. Ela não se perguntava o porquê de ter sido jogada, mesmo que quisesse muito saber. Ela indagava a si mesma como não previra o próximo movimento de sua dona.
As roupas da boneca falante iam sendo consumidas pelo fogo, e Narizinho prosseguia com o discurso. Emília já havia desaparecido nas cinzas.
– Agradeço por tudo o que você fez por mim, Emília. Serei eternamente grata. Mas acho que sua missão acabou por aqui. – Narizinho falava, sempre com um sorriso no rosto. Ela pôde sentir uma lágrima caindo, e a dor do tapa em seu rosto voltava aos poucos. Ela sentia dor, novamente. E estava feliz por isso. – Como, Emília, como eu viveria sem ter a possibilidade de chorar, de me emocionar negativamente? Eu viveria entorpecida por um sentimento falso! Infelizmente, ter roubado esses sentimentos de mim foi a única maneira de me salvar. Mas agora tudo está bem, meus dois pais estão mortos... Minhas duas mães também. Todos engolidos pelo fogo. O ciclo acaba por aqui. Toda essa “magia” irá com a fumaça para longe. Agora irei recomeçar a minha vida. E serei bem feliz, pode ter certeza. Agora terminem de queimar, tenho que levar suas cinzas para um lugar adequado.
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