Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

18 Capítulo XVII: Cartas Para Fernanda


Notas iniciais
Sejam bem vindos.

Sentada o mais afastada possível e se vendo enfim sozinha, Antônia chorou na sala de embarque. Sentiu vontade de ligar para Nanda e pedir perdão, dizer enfim que não ia ler nada e que tudo poderia ser esquecido. Mas não podia. Antônia não poderia viver ao mesmo tempo junto de Vicente e junto de mentiras que o envolviam até o pescoço — e ele se quer sabia disso.

Tomou um susto quando ouviu o chamado do seu voo, levantou-se de imediato e seguiu até a fila, tentou o máximo que pôde durante aqueles minutos eliminar os pensamentos que faziam de sua cabeça um inferno. Pensou em viagens que queria fazer, em trabalhos que deixou em casa pra corrigir, alunos que gostava, alunos que não gostava, pensou no natal que estava perto. A fila já tinha acabado e Antônia já estava no corredor de embarque, logo depois já no avião. Achou seu assento e sentou-se, afivelou o sinto. Suspirou como se tirasse um peso das costas. Antônia faria uma escala em São Paulo e só depois seguiria até Juazeiro, aquele voo duraria pouco mais de uma hora.

O avião já estava no ar. Antônia encostou a cabeça no assento e respirou fundo, puxou a bolsa que estava nos pés e ficou tentada a abri-la. As cartas estavam ali, tão perto. Mas não conseguiu. Jogou a bolsa nos pés e ficou observando a janela do avião, as nuvens cobriam todo o sol.

O pouso aconteceu e Antônia foi uma das últimas a deixar o avião. Enquanto seguia para a sua escala, ela ligou o celular e observou as muitas ligações perdidas de Nanda, seu coração apertou. Deixou uma mensagem para Vicente e outra para Eduarda. Desligou o celular novamente.

Embarcou no avião com destino direto à Juazeiro do Norte no Ceará, aquele voo duraria pouco mais de três horas. Sentou-se em seu assento, um dos primeiros da aeronave, afivelou o cinto e esperou a decolagem. Trinta minutos depois da subida, Antônia puxou sua bolsa e tirou de lá os dois pacotes de carta, conclui então que o pior dos males já estava feito: era uma ladra. Arrancou a fita velha que unia um bolo de cartas e pegou a primeira correspondência, num envelope bastante amarelado com um selo gasto endereçado à Fernanda Beatriz – dona Nanda. O envelope estava rasgado e bastante desgastado, como se quem o possuía tivesse o revirado centenas de vezes e Antônia podia apostar que Nanda tinha feito isso. Apertou o envelope antes de abrir e quando finalmente abriu, seus dedos não tremeram ao puxar a carta para fora:

Rio de Janeiro, 15 de julho de 1988

Querida Fernanda,

Estou morrendo de saudades de você, meu amor. Fechei negócio e consegui o imóvel, vou abrir uma loja, um bazar de coisa de casa, com o dinheiro que ganhei. Têm muitos homens trabalhando na rua aqui no Rio, estão vindo do Nordeste. Não era isso o que eu queria no início, mas acho que vai dar certo. Depois você pode sair daí e vim morar comigo, estou começando a construir minha casa, vai ser perto da loja. A gente vai casar e vai ser feliz aqui, é um lugar tranquilo pra criar criança também. Eu sei que você tem medo, mas você pode fugir, você me tem pra te ajudar. Se você quiser podemos passar um tempo em São Paulo com sua família até tudo se acalmar. Posso te ajudar com dinheiro. Vou estar aí o mais rápido possível. Eu não tenho medo dele, Fernanda, é só um homem, eu também sou homem. Eu te amo.

Adeus. Não esqueça de mim.

José Carlos

Antônia colocou a carta de volta no envelope e sentiu como se uma pedra caísse em seu colo. Pegou outra carta.

Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1988

Querida Fernanda,

Eu não consegui me despedir de você e isso me assombra todos os dias. Sempre que me lembro que a última vez que te vi foi ouvindo som de tiro e correndo desesperado, eu sinto vontade de chorar e de matar aquele homem com um pedaço de pau. Eu sei que arriscamos muito naquela tarde, ficando junto tão perto daí, os camaradas dele estão em todo lugar, meu amor. Depois de pensar muito tenho quase certeza que nos viram na praia. Penso que devemos ir atrás da polícia, mas sei que você tem medo. Eu já vi foto dele no jornal um monte de vezes, estão o procurando há anos e eu tenho fé de que vão achá-lo, e quando isso acontecer, você estará livre. Sinto vontade de largar tudo e ir te buscar. Eu te amo todos os dias, Fernanda.

Adeus. Não se esqueça de mim.

José Carlos

Antônia chorou o mais disfarçadamente possível. A mulher que estava sentada ao seu lado a olhou de soslaio perguntando-se se deveria oferecer consolo, mas ficou calada. Fungando, Antônia pegou outra carta.

Rio de Janeiro, 22 de maio de 1989

O nome dele apareceu pela primeira vez na televisão, no jornal da noite. Estava lá, Raimundo dos Santos Amaral, conhecido como Carrasco. Houve um confronto lá pelas bandas dele, muito tiro, passou tudo no jornal. Agradeci à Deus que você está em São Paulo, mal consigo acreditar que deu tudo certo e você fugiu. Mas Fernanda, eu não estou tranquilo, irei visitá-la daqui umas semanas para discutirmos algumas coisas, mas quero adiantar que tenho medo. Esta criança estará ameaçada enquanto este homem viver, Raimundo sabe que você fugiu grávida, depois que você entrou no ônibus eu fui perseguido. Ouvi tiros e os homens dele só não me pegaram por que tive muita sorte, foi uma correria horrível até eu entrar no trem, eles não conseguiram entrar atrás de mim. Ele deve imaginar que você está em São Paulo, meu amor, eu tenho tido pesadelos imaginando-o indo atrás de você. Fiquei feliz com as notícias da carta anterior, terei uma filha com você, o amor da minha vida. Ela se chamará Natasha. Estarei em São Paulo em breve.

Adeus. Não se esqueça de mim.

José Carlos

Antônia soluçou, sentiu que ia engasgar-se com o ar.

— Mãe da Natasha. — a professora abaixou o olhar e sussurrou para si mesma. — Ela é mãe da Natasha.

Ainda que Antônia estivesse em choque, ela já sabia que aquela era a única verdade plausível. Mas ainda assim, chorou em cima de todos as cartas enquanto as mãos tremiam e o ar lhe faltava.

— Avó... avó...

Antônia respirou fundo e calou-se quando percebeu que falava sozinha dentro de um avião e a mulher ao seu lado já a olhava estranho há muitos minutos. Tentou se recompor e pegou mais uma carta.

Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1997

Querida Fernanda,

Imagino que você saiba as novidades e as esteja comemorando. Eu sei que é ruim agradecer a morte de alguém, mas esse homem nos prendeu durante anos. Mas, finalmente, vejo passar no jornal da noite a notícia de sua morte. Porém, o tempo não volta, meu amor. Há 7 anos tomamos uma decisão muito difícil, que partiu muito mais de você do que mim, mas ainda assim uma decisão difícil que acreditamos ser para o bem e de uma forma ou outra fizemos o certo, pois Natasha está saudável e feliz. Eu estive em São Paulo no último mês, nossa filha está linda e é muito inteligente, muito boa de matemática na escola. Sua madrinha mandou lembranças a você e disse que irá escrever quando puder. Estou enviando também fotos novas de Natasha, tem uma do carnaval e ela está de joaninha. Estarei aí em breve, pois estamos livres. Amo você.

Adeus. Não se esqueça de mim.

José Carlos

Antônia abriu o outro pacote de cartas e tirou uma de lá.

Rio de Janeiro, 23 de julho de 1999

Eu sinto muito não ter podido visitá-la nas últimas semanas, mas sei que entende. Estou muito feliz que sua pequena pensão na praia está dando certo, seus hóspedes parecem muito amigáveis. A ideia do bar na areia também é ótima, acredito que será uma excelente gerenciadora. Estive com Natasha no aniversário dela, estou lhe enviando as fotos, estão muito bonitas. Amo você.

Adeus. Não se esqueça de mim.

José Carlos

Antônia sentiu o peso da mudança de tom de José Carlos ao passar dos anos, ainda mais após o nascimento da filha. Continuou remexendo nas cartas e haviam tantas, em anos diferentes e sob perspectivas diferentes, e num estalo, Antônia sentiu culpa. Tinha acabado de ler uma vida inteira de Fernanda e sentia que tinha a velha amiga totalmente exposta à sua frente, a mesma velha amiga que era um enigma indecifrável até muito pouco tempo atrás. Porém, ainda que soubesse de detalhes sórdidos do passado de Nanda, muitas coisas ainda eram misteriosas para Antônia, mas já não aguentava mais lidar com aquilo naquele momento então enfiou todas as cartas, totalmente bagunçadas, de volta na bolsa. Encostou as costas no assento e tomou uma água, sentiu-se pesada de segredos. O avião pousou.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.