Notas iniciais
Sejam bem vindos.

Quando chegou em casa já não chorava mais. Botou a cabeça no lugar e ligou pra escola, a municipal da Freguesia, e avisou que precisava tirar folga na segunda-feira. Depois disso, sentou-se pacientemente no sofá e pesquisou por passagens de avião. Era novembro, as passagens não estavam caras. Comprou ida e volta, viajaria no sábado pela manhã.

Agora a cabeça de Antônia estava cheia de novas preocupações, mas as anteriores ainda eram reais. Estava confusa e mal sabia com o que surtar primeiro. Então, ferveu água e fez um chá. Sentou-se no tapete da sala e abriu uma portinha da sua estante, pegou um álbum de fotos. Tinha algumas fotos de Marília, na época que o padrinho de Antônia — falecido antes mesmo que sua mãe — a deu uma câmera fotográfica das antigas. Demorou semanas até juntar dinheiro pra conseguir revelar as fotos e como naquela época não se conseguia ver que foto estava revelando, muitas fotografias borradas e sem foco acabaram no álbum.

Ali no meio de tantas fotos da casa de infância de Antônia, sua rua, si mesma quando criança e sua mãe, tinha uma foto do seu pai. Tirada muito tempo antes de todas aquelas outras. Zé estava de costas e o lugar parecia uma roça. Ele estava com o pé apoiado numa pedra, uma mão estava no chapéu de palha que usava e a outra segurava um cordão que estava entrando em contraste com sua sombra. Aquilo era tudo o que Antônia sabia sobre seu pai. Talvez por toda a emoção que estava vivendo, e também pelo dia não estar sendo fácil, ela desabou de novo. Tornou a chorar e ficou assim durante algumas horas.

***

Eduarda sentou-se no banquinho de bar da padaria e pediu um café pingado, bem quente e com pouco açúcar. Estava passando jornal naquele horário. Tomou seu café, pensou em sua namorada, acompanhou a notícias e maldisse o Presidente da República. Já eram quase sete horas da noite.

— Oi. — Gabriela apareceu do nada e se sentou ao lado da irmã.

Eduarda a olhou. Gabriela vestia saia longa e sapatilha.

— Oi. — respondeu. — Tudo bem com você?

Gabriela assentiu.

— Daqui há pouco tenho culto. O que você tem pra falar comigo? — foi curta e grossa.

Eduarda tinha muita vontade de dar na cara da irmã. Mas respirou fundo como sempre.

— Tem uma vaga de emprego lá no restaurante que a Helena trabalha. — ela começou a dizer e também não foi de rodeios. — Se você quiser, a vaga é sua.

Gabriela ficou atônita. Eduarda respirou fundo.

— Gabi, não seja orgulhosa. — Eduarda juntou toda a sua força de vontade e disse com carinho. — Você está precisando. Conversa com a Helena e...

— Eu quero. — Gabriela foi sucinta. — É naquele restaurante na esquina da rua da floricultura, não é?

Eduarda ficou surpresa e assentiu devagar.

— É sim. — afirmou. — Helena tá lá todo dia menos sexta. Passa lá e conversa com ela.

Gabriela respirou fundo e desceu do banco com pressa.

— Obrigada, irmã. Fica com Deus. — disse e saiu da padaria tão rápido que quase tropeçou no calçamento da rua.

Eduarda a observou ir em direção à igreja.

— Vai com Deus, irmã. — ela sussurrou baixinho e virou-se.

Pediu mais um café e ficou ali assistindo a novela das sete.

***

Aquela primeira semana de novembro foi lenta e significativa, por muitas razões. Toda noite, depois da novela das nove, Vicente ligava para Antônia. Segunda-feira ele ligou com a desculpa de acertar os detalhes do endereço de sua casa para o jantar de sexta-feira e a pegou com a voz chorosa. Ligou na terça-feira pra ter certeza de que ela estava bem. Na quarta-feira ligou para dizer que Carlinhos tinha falado dela naquele dia. Mas quinta-feira Vicente disse que estava com saudades. Antônia abraçou aquelas palavras sem pestanejar, sentia falta de Vicente tanto quanto ele sentia a sua e os dois estavam velhos demais para fazer joguinhos adolescentes.

Antônia superou em dois dias todo o drama avassalador que a contemplou naquela semana, e embora estivesse inteiramente ansiosa para viajar no sábado, ainda não tinha contado pra ninguém. Sexta-feira à tarde, enquanto estava na fila do mercado com as compras do jantar que daria à noite, Antônia ligou para Nanda e a contou tudo – sem nem de longe mencionar Vicente ou o jantar daquela sexta-feira. A dona da pensão ficou feliz em saber que Antônia finalmente estava em contato com sua família de sangue novamente. No fundo, Nanda estava feliz que a professora se afastaria por uns dias.

Na quinta-feira pela manhã Gabriela esteve no restaurante Sabor Carioca procurando por Helena. Saiu do estabelecimento empregada e agora lavaria louça, limparia mesas e ficaria no caixa se necessário. Começaria na sexta.

Sexta-feira chegou e Antônia estava colocando duas garrafas de vinho e algumas latinhas de cerveja na geladeira quando seu celular apitou, era uma mensagem de Helena.

Oi, gata. É que horas mesmo, o jantar? É que a Duda me disse que ia chegar cinco horas e já é quase seis, a gente pode se atrasar um pouco. Não que eu ache que você vá se incomodar de ficar sozinha com o... como você chamou ele naquele dia mesmo? Maluco?

Antônia gargalhou sozinha e digitou de volta.

Helena, você fala muito!

Depois de alguns segundos recebeu a resposta.

Ai, amiga, eu sou sagitariana! Mas sério, a gente pode atrasar um pouquinho só. A Duda bem me disse que podia rolar um parto de uma leoa ou sei lá.

Antônia assentiu sozinha e respondeu:

Tudo bem, a gente tinha marcado às oito, mas não tem problema não. A gente espera vocês pra jantar.

Helena enviou emojisde risada com lágrimas.

Tudo certo então, princesa. Até mais tarde. Beijo.

Antônia digitou por fim:

Beijos.

Antônia desligou e ficou rindo sozinha, dali foi tomar um banho quente e pensou numa forma despojada, mas bonita, de se arrumar pra ficar em sua própria casa naquela noite.

***

Por vezes Vicente tinha medo de estar sendo um sem noção, pois estava ali, escolhendo a melhor roupa para vestir seu filho e levá-lo consigo para a casa da mulher com quem estava... saindo? Conhecendo? Se apaixonando? Vicente não sabia definir o que estava acontecendo, mas tornou-se um romântico incorrigível depois de uns anos.

— Pai, posso levar um brinquedo? — Carlinhos perguntou depois de calçar seu tênis do Homem Aranha.

Vicente assentiu.

— Um só, filho. Escolhe aí, o papai vai terminar de se arrumar.

Vicente seguiu para o próximo cômodo apenas para passar perfume e escolher o sapato. Olhou-se no espelho e arrumou o cabelo com a mão direita, num movimento rápido demais para fazer qualquer diferença.

— Vou levar meu avião! — Carlinhos entrou no quarto cheio de energia correndo com a peça na mão e depois se jogou na cama.

Vicente pegou a chave do carro e a carteira na cômoda. Colocou a mão no bolso e conferiu se algo que tinha guardado mais cedo estava lá.

— Tá bom, agora vamos. — chamou pelo filho que rapidamente lhe deu a mão.

Faltando um pouco para às sete, Vicente e Carlinhos saíram de casa.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.