Notas iniciais
Sejam bem vindos.

Nanda passou a noite inteira em claro no maior quarto da pensão. Ela virou de um lado pro outro na sua cama de casal durante horas, rezou o terço três vezes e chorou durante bastante tempo. Quando o sol estava subindo, mais ou menos às seis da manhã, ela se rendeu ao cansaço e à dor de cabeça, e cochilou. Mas às oito da manhã, bateram à sua porta.

— Nanda? — a voz sussurrou com cautela ao fechar a porta.

A dona da pensão sentou-se à cama.

— Bom dia, querida. — ela disse com um sorriso.

Antônia se aproximou devagar e sentou-se à beira da cama.

— A senhora está bem? — a professora questionou com medo.

Nanda fechou a cara e levantou-se da cama num supetão. Abriu as janelas trazendo luz ao quarto.

— Por que não estaria? — perguntou brutalmente enquanto separava uma toalha para tomar banho.

Antônia suspirou.

— Não precisa mentir pra...

Ficou calada apenas com o olhar que recebeu.

— Eu estou bem. — Nanda decretou. — Você que me parece estranha, aonde estava ontem?

Antônia levantou-se.

— Fui jantar com um amigo. — ela disse com displicência.

Nanda assentiu.

— O pai da criança que ficou aqui na pensão? — a mulher perguntou com simplicidade. — Não somos uma creche.

Antônia enrijeceu as sobrancelhas. Aquele não era um comportamento habitual de Nanda.

— Solange que se ofereceu para ficar com ele, o Carlinhos ia com a gente. — tentou justificar-se ainda que se sentisse contrariada. — Não vai se repetir.

O rosto tenso de Nanda quebrou por um segundo.

— Antônia, eu não dormi bem, estou cansada e preciso tomar um banho. — disse apontando pra porta. — Conversamos mais depois.

***

Nanda e Antônia não conversaram mais naquele dia. A professora voltou para o seu apartamento e passou o resto do sábado corrigindo provas. No dia seguinte, acordou tarde e assistiu filmes pelo resto do dia, esperando, sutilmente, uma ligação de Vicente – que não aconteceu. Na segunda feira, acordou cedo e foi trabalhar, mas desta vez na escola municipal da Freguesia. Deu quatro aulas, substituiu um colega que faltou e tomou um café frio e forte na sala dos professores. Pegou um ônibus na saída que não levou nem dez minutos pra passar e decidiu descer três pontos antes do final, pois iria passar na pensão. Quando estava chegando no final da rua, começou a andar pela areia, de tênis mesmo. Era segunda à noite, o movimento estava fraco no Bumba Meu Boi, Clara servia apenas à um casal jovem que petiscava peixe frito com batatas.

Antônia acenou para Clara que acenou de volta. Deixando a areia, começou a andar no asfalto em direção a pensão e caminhou devagar dentre as plantas de Nanda, sentiu vontade de chorar ao esbarrar nas samambaias e lembrar-se do desentendimento que tiveram dias atrás. Espantou os pensamentos sensíveis e abriu a porta de ferro da casa aconchegante. A visão revelada foi da sala cheia, já passava das seis da noite e quase todo mundo já tinha chegado do trabalho.

— Boa noite. — Antônia sorriu.

— Oi, linda. — Rafael sorriu de volta, assim como Fabiana.

— Tá vindo da escola? — Amanda perguntou, abaixando o som da TV.

Estava passando a novela. Antônia assentiu.

— Acabei de passar um café, menina. Solange e Dirceu estão tomando agorinha lá na cozinha. — Luciana avisou.

Todos na sala fizeram a mesma cara, inclusive Antônia.

— Isso aí vai dar em coisa, viu gente. — ela riu e deixou a bolsa pesada na poltrona vazia. — Vou lá atrapalhar um pouquinho.

Risadas sutis surgiram na sala e Antônia seguiu para cozinha. Dirceu era um dos hóspedes mais recentes da casa, tinha se mudado há oito semanas e seu claro interesse por Solange movimentava as fofocas da Pensão da Dona Nanda – e provavelmente movimentava outras coisas na própria Solange.

Quando entrou na cozinha, sorrateira, Antônia os viu sentados lado a lado tomando café nas xícaras amarelas da pensão, trocando olhares discretos e conversando baixinho. Ambos pareciam envergonhados.

— Boa noite! — Antônia falou com extravagância.

Dirceu tomou um susto na cadeira e quase derramou o café.

— Oi, menina. — ele sorriu sem graça e colocou a xícara na mesa.

— Olá, querida. — Solange sorriu. — Adivinha quem tá aí hoje.

Antônia arqueou as sobrancelhas e pegou uma xícara, encheu-a de café e sentou-se à mesa junto aos dois. Dirceu as olhou e levantou.

— Está na hora da novela. — ele disse e seguiu para a sala.

Solange o seguiu com os olhos. Dirceu era extremamente recatado e tímido.

— Quem apareceu? — Antônia questionou enquanto bebericava o café.

Queimou a língua no primeiro gole.

— O homem do chapéu. — Solange disse como se contasse um segredo.

Antônia assentiu vagarosamente aproximando os lábios da xícara assoprando o café. O homem do chapéu se chamava Ernesto, era o que dizia Nanda. Ernesto visitava Nanda desde sempre. Ninguém nunca conversava com ele, apenas a dona da pensão. Ele chegava, – usando um chapéu diferente toda vez, parecia ter saído de um filme de época — acenava para todos e se recolhia com Nanda, seja no próprio quarto dela ou em seu escritório que ficava no final do corredor debaixo. Ficavam trancados por horas. Ninguém sabia se era um namorado ou um familiar, Nanda apenas dizia que era um velho amigo, porém, nunca o apresentou ou o convidou para datas comemorativas. Ainda assim, de vez em quando ele aparecia.

— É tudo tão esquisito com ela. — Antônia disse como se estivesse tirando um fardo das costas. — São tantos mistérios, segredos, tantos “não pergunte”.

A professora ficou emburrada e até esqueceu seu café. Solange segurou sua mão.

— Eu sei, querida. Mas realmente não é da nossa conta. — a mulher foi sensata.

Solange havia se mudado para a pensão na mesma época que Antônia, tendo então convivido durante muitos anos com as particularidades de Nanda.

— Eu sei, Sol. — Antônia admitiu. — Mas Nanda é como se fosse minha mãe, não há nada sobre mim que ela não saiba. Às vezes sinto que ela não me deixa saber nada da vida dela por que não confia em mim, sabe?

Solange piscou os olhos azuis e negou.

— Não, meu bem, não é isso. — ela disse com ternura. — A Nanda é muito reservada, talvez ela não queira que você se preocupe com nada. Mas ela te ama muito, você é a família que ela tem, é a filha que a orgulha desde o dia que chegou aqui.

Antônia chorou com sutileza e logo limpou o canto dos olhos. Solange levantou da mesa quando viu Nanda entrar na cozinha, atrás dela estava Ernesto, com o seu chapéu baixo deixando seu rosto nebuloso, mas ainda era possível ver seus olhos escuros. Nanda virou-se e lhe deu um abraço breve, sussurrando algo em seu ouvido. Ernesto assentiu e deixou a cozinha, segundos depois passou pela sala e despediu-se singelamente de todos, deixou a Pensão após isso.

— Ah, mas que isso, uma menina tão bonita chorando. — a dona da pensão caminhou até a mesa após ver Ernesto bater a porta.

Solange deixou a cozinha.

— Quanto drama. — Antônia respirou fundo e limpou o rosto.

Nanda puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado, pegando em sua mão com carinho.

— Querida, me desculpe pela forma como eu te tratei naquele dia, de manhã. — Nanda pediu. — Eu estava apenas cansada. Sinto muito.

Antônia fungou e a olhou com os olhos castanhos ainda úmidos.

— Tudo bem, a senhora estava certa. — admitiu. — Eu não deveria ter deixado uma criança desconhecida aqui.

Nanda ponderou.

— Eu gostaria que não se repetisse. — ela pontuou. — Não gosto de pessoas estranhas aqui. Além do mais, pelo que eu soube você mal conhece o sujeito.

Antônia respirou fundo e tentou não fazer nenhuma careta. Aquele comportamento de Nanda não era típico de forma alguma, ela costumava ser afetuosa e aberta às novas pessoas, era exatamente por isso que sua pensão dava tão certo. Por fim, Antônia apenas assentiu, um tanto controversa, mas não queria discutir.

— Então, Ernesto esteve aqui hoje. — mudou de assunto.

Nanda esforçou-se para não mudar de expressão.

— Veio fazer uma visita, sim. — Nanda levantou-se da mesa. — Vai ficar para o jantar?

Nanda também mudou de assunto rapidamente. Antônia negou e também se levantou.

— Eu já estou indo. — ela disse e abraçou Nanda com delicadeza.

A dona da pensão abraçou-a com força.

— Tudo o que eu digo é pro seu bem. Cuidado com as companhias. — Nanda sabia que conseguia ser bastante persuasiva e usava isso ao seu favor. — Amo você, querida.

— Também te amo, Nanda.

Numa noite quente da primavera, Antônia deixou a pensão. Viu Clara solitária no Bumba Meu Boi de relance e repreendeu-se por sentir alívio: ainda bem que João Guilherme não está ali. Espantou o pensamento e apertou o passo para chegar ao ponto de ônibus mais rápido e durante a viagem curta até seu apartamento seu celular tocou. Ligação de Vicente.

No mais belo instante do primeiro toque, ela sorriu. Não conseguia nem se lembrar das palavras de Nanda.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.