Notas iniciais
Sejam bem vindos!

Seis anos depois.

***

— Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, então?

A sala já estava vazia, todos os alunos saíram no instante em que o assim que o sinal tocou. Ficou apenas Leandro, o aluno mais aplicado do ensino fundamental, da turminha quinhentos e doze da professora Antônia. Enquanto apagava o quadro e esfregava a mão suja de caneta preta na calça, ela ouvia seu aluno e ria com ele.

— Pedro Álvares de Cabral chegou ao Brasil com as caravelas. — Antônia pontuou. — Mas viviam pessoas aqui antes disso, lembra?

Leandro ficou pensativo e depois concordou.

— Os índios! — ele exclamou sorridente.

Antônia sorriu largamente e colocou sua bolsa no ombro.

— Exatamente. Se você está em casa e uma pessoa chega sem ser convidado, você irá dizer que ele descobriu sua casa? Ou é dono dela? — a professora questionou enquanto deixava a sala com Leandro.

O menino ficou pensativo de novo.

— Não. — ele afirmou devagar. — Isso seria falta de educação, podiam até comer o que tem na geladeira.

Antônia gargalhou.

— Eu concordo. — a professora disse com ternura.

— Leandro sempre me fazendo esperar nas sextas-feiras. — uma mulher alta aproximou-se. — Olá, professora. Vamos, filho?

Leandro assentiu com a cabeça e ajeitou a mochila de rodinhas.

— Olá, dona Fátima. — Antônia a cumprimentou.

Fátima era a mãe de Leandro e já estava acostumada com o filho ficando uns minutinhos a mais na sala de aula nos dias de sexta-feira.

— Tchau, tia! — Leandro acenou animado e saiu arrastando sua mochila de mãos dadas com sua mãe.

Antônia acenou de volta com um sorriso. Dar aula na Projeto do Amanhã, escola particular situada em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, era um prazer imenso para Antônia e uma ótima oportunidade que tinha surgido poucos anos atrás. Ótimo salário, que a ajudou a conseguir mudar-se para um apartamento próprio, bons materiais e boa reputação, porém ficava um pouco de onde morava, mas nada que alguns ônibus e força de vontade não resolvessem.

Antônia ajeitou o lenço azul que usava em seu cabelo e tirou os óculos redondos para limpar as lentes, quando os pôs de volta viu uma das funcionárias da limpeza de mãos dadas com um menininho que chorava. Como uma professora normal, Antônia conhecia todos os rostinhos agitados daquela escola e já havia visto várias vezes aquele menininho de cílios longos e olhos pretos correndo por ali. Mas nunca o viu chorando antes. Antônia olhou no relógio, já passava das seis e o período da educação infantil, que vem um pouco depois do maternal e antes do ensino fundamental, acabava às cinco em ponto.

— Olá, dona Ilda. — a professora aproximou-se com cautela da funcionária da limpeza e do menino. — Olá, menininho.

A criança a olhou e não sorriu, continuou a chorar. Ilda olhou Antônia com pesar.

— O pai dele está há mais de uma hora atrasado, não conseguimos contato e o pobrezinho não para de chorar. — ela contou com tristeza.

O rosto da professora fechou-se como em uma tempestade. Mas que homem irresponsável, ela pensou.

— Preciso ir fechar as salas e terminar a louça, a escola já vai fechar. Pode ficar com ele um pouco, professora?

— Claro. — Antônia afirmou imediatamente e sentou-se ao lado do menino.

Ilda sumiu pelos corredores depois de alguns segundos. Antônia tomou coragem para falar com o menino que fungava.

— Meu nome é Antônia. — ela começou a dizer com um sorriso tímido. — Qual é o seu nome?

O menino a olhou. Seus olhos estavam inchados e os cílios compridos totalmente molhados.

— Carlos Henrique. — ele disse borocoxô.

Com delicadeza Antônia limpou as lágrimas do rosto da criança.

— Então, você prefere Carlos Henrique, Carlos, Henrique ou Henrique Carlos? — a professora brincou.

O menino quase soltou uma risadinha.

— Meu pai me chama de Carlinhos, mas quando fica bravo me chama de Henrique. — ele contou.

Antônia assentiu.

— Vou te dar um apelido, então. O que você acha? — a professora sugeriu.

Carlos Henrique soltou um sorrisinho pouco perceptível.

— Tá bom. — ele concordou.

Antônia pensou um pouco.

— Do que você gosta?

O menino ponderou um pouco e tirou do bolso dois bonequinhos em miniatura de Harry Potter.

— É de Harry Potter. — ele mostrou os bonequinhos e falou o nome de uma forma engraçada. — Eu gosto muito. É o filme preferido do meu pai, ele que me mostrou.

Aquele embuste, Antônia pensou.

— Então você gosta do bruxinho Potter? — Antônia pegou um dos bonequinhos e observou de perto, era o Harry de pijamas. — Vou te chamar de Potter. Você gosta?

Carlos assentiu com um sorriso bastante visível.

— Carlos Henrique! — uma voz urgente invadiu o pátio vazio.

O homem alvoroçado atraiu os olhares de alívio da criança e de irritação de Antônia, ambos se levantaram de imediato. Carlos Henrique correu para os braços do pai. Antônia cruzou seus dois braços observando a cena.

— Isso são horas, senhor? — ela disse com indignação.

Quando o homem pôs a criança no chão, Antônia pôde analisá-lo melhor com seu olhar crítico. Ele era alto, branco e de cabelo preto, bastante liso e bem arrumado com gel. Sua barba estava bem feita e sua roupa social estava impecavelmente bem passada, ainda que sua gravata estivesse meio torta.

— É a professora dele? — ele perguntou.

Ainda com a insatisfação bastante expressa no rosto, Antônia negou.

— Eu sou uma professora da escola e fiz companhia para Carlos Henrique enquanto o senhor não chegava. — ela explicou. — Agora com certeza perdi o meu ônibus.

O amargor na voz de Antônia era incontestável.

— Sinto muito. Eu estava em uma reunião através da internet, a rede caiu muitas vezes, meu celular descarregou, fiquei preso no trânsito...

A forte revirada de olho da professora fez o homem calar-se imediatamente.

— Já entendi suas desculpas esfarrapadas. — Antônia cortou-o de vez. — Agora...

— Alto lá, senhorita! — o pai irritou-se. — Tente ser um pai solteiro, que trabalha e precisa dedicar-se sozinho ao filho!

Antônia soltou uma gargalhada debochada.

— Mães solteiras vivem essa vida todos os dias e não largam seus filhos durantes horas na escola. — ela rebateu de braços cruzados.

O homem respirou fundo e coçou a barba. Carlos Henrique os olhava sem entender.

— Tudo bem. Sinto muito, novamente. — ele disse com mansidão ainda que Antônia não perdesse a postura impaciente. — Sou Vicente, pai do Carlinhos. Podemos começar de novo?

Antônia bufou irritada de forma sutil, mas prezou por ter paciência. Afinal, já tinha perdido centenas de ônibus àquela altura.

— Sou Antônia, professora de história da escola do seu filho. — ela apresentou-se enfim.

Vicente assentiu.

— Eu levo você em casa, pelo atraso que causei. — o homem se ofereceu.

A professora negou de imediato.

— Não mesmo. — ela disse. — Além do mais, não moro perto.

— Não será sacrifício. — Vicente insistiu.

Antônia apertou as têmporas.

— Eu não estou interessada. — ela pôs um ponto final. — Boa noite para o senhor e boa noite, Potter.

Ao referir-se a Carlos Henrique, Antônia botou um sorriso no rosto e lhe fez um carinho no cabelo macio. A professora começou a caminhar para fora da escola.

— Por favor, Antônia! — Vicente a seguiu trazendo o filho pela mão.

Antônia já estava na calçada quando notou que Vicente se aproximava.

— Vai pra casa, senhor Vicente. O seu filho está exausto, leve-o pra casa. — a professora pediu também já cansada.

— Não me chame de senhor, por favor. — Vicente pediu. — Você também está cansada. Vou chamar um táxi pra você.

— Ah, mas não é possível. — Antônia murmurou com incredulidade.

Enquanto desbloqueava o celular, Vicente soltou um sorriso.

— Deixarei você em paz assim que me disser o endereço para qual deseja ir. — ele disse mostrando-a a tela do aplicativo de táxi. — Eu prometo.

Carlos Henrique apenas os observava, em silêncio. Antônia olhou a criança e o pai, eles eram tão distintos e ao mesmo tempo tão semelhantes.

— Tudo bem. — ela cedeu. — Mas nunca mais faça o que fez hoje, Vicente.

O homem assentiu tomando-se de culpa.

— Prometo ser bom como uma mãe solteira. — ele tentou de forma falha arrancar um sorriso de Antônia.

Vencida pelo cansaço, a professora passou seu endereço e Vicente lhe chamou um táxi. Com um beijinho no rosto Antônia despediu-se de seu amigo Potter, e com um aperto de mão singelo se despediu do pai.

O dia na cidade maravilhosa acabou com chuva.

***

Faltavam dez minutos para às oito da noite quando o táxi que trazia Antônia estacionou em frente à pensão de Nanda. Quando desceu do veículo, a professora ajeitou a bolsa no ombro e deu uma olhada no Bumba Meu Boi que estava movimentado como sempre e com uma funcionária nova: Clara Magalhães. Enquanto observava as pessoas bebendo e conversando no quiosque viu, dentre tantos rostos, um que desejava não ter posto os olhos. De imediato, Antônia virou as costas e em passos duros foi em direção a entrada da pensão.

— Eu vi você chegando de táxi! — Nanda exclamou afastando-se da janela quando Antônia passou pela porta da frente.

Dois anos antes, um ano após começar a trabalhar na Projeto do Amanhã duas vezes na semana ao mesmo tempo que trabalhava em outra duas escolas na Freguesia, Antônia conseguiu um apartamento próprio que ficava há vinte minutos da pensão. Desde então, Antônia visitava Nanda com frequência – que havia se tornado sua única família – e por vezes dormia aos finais de semana em seu antigo quarto na pensão. Nanda sofreu com a mudança de Antônia que havia também se tornado mais que uma hóspede. Solitária, a dona da pensão acolheu a também sozinha menina do interior.

— Longa história sobre o táxi. — Antônia soltou o lenço azul de seu cabelo e enrolou em seu pulso. — João Guilherme está dançando animado no seu quiosque.

A professora sentou-se no sofá descansando suas costas e respirando fundo. A sala era amarelada e tinha cheiro de bolo, os móveis eram antigos e de madeira. Nanda observou Antônia e negou devagar. Através da janela era possível enxergar João Guilherme tomando uma cerveja e papeando com Clara.

— Já faz algumas horas que ele chegou. — disse Nanda. — Ora minha filha, ele gosta tanto...

— Não! — Antônia a cortou com irritação e levantou-se do sofá. — Ele não gosta.

Nanda negou e olhou pela janela, avistou João aproximar-se da casa.

— Eu sei que você está magoada. — a mulher disse afagando o braço de Antônia.

A professora negou devagar.

— Estou irritada. — foi sucinta. — Na verdade, estou muitas coisas.

A porta de entrada fez o característico barulho enferrujado revelando uma figura bonita, alta e de olhos castanhos. João Guilherme era um mês mais novo que Antônia. Carioca, flamenguista, despojado, tinha gírias horríveis e estava sempre vestindo suas regatas de cores claras e bermudas tactel. Antônia odiava centenas de coisas sobre João Guilherme, com exceção do rapaz em si. Era inteiramente apaixonada.

— Antônia, será que...

— É o dia dos imbecis?! — ela exclamou impaciente pegando sua bolsa e disparando em direção ao seu quarto.

Nanda massageou as têmporas pensando em todos os hóspedes ouvindo aquilo. Silenciosamente, João Guilherme seguiu Antônia.

— Podemos conversar? — ele fechou a porta atrás de si ao entrar no quarto.

Aquele cômodo tinha o doce sabor de memórias. A cama bem arrumada, as paredes verdes, uma escrivaninha cheia de livros e um guarda-roupa antigo, ali tudo era lembrança de uma vida que parecia ter sido há um milhão de anos. Ao menos a cortina havia sido trocada duas semanas atrás.

Antônia olhou João e quis chorar até os olhos saltarem.

— Não. — ela disse com firmeza olhando-o nos olhos. — Eu não quero mais isso.

João esfregou o rosto e bufou.

Isso nem deveria ser uma questão, Antônia. — ele se aproximou. — A gente se gosta e se dá tão bem há tanto tempo.

Ele pegou em sua mão. Tentada entre ceder e gritar, a professora ficou alguns segundos naquela posição, à penumbra do quarto com o homem que amava tão perto. Antônia grunhiu e puxou a mão, caminhando para o outro lado do cômodo.

— Não! — ela repetiu e agora gritava.

Segurou o choro o mais forte que pôde e não cedeu nenhuma lágrima.

— Ah, pelo amor de Deus! — João Guilherme irritou-se e sentou à cama.

Ele apoiou os cotovelos na perna e segurou a cabeça com as mãos enquanto Antônia o olhava. O silêncio durou pouco.

— Eu quero você, Antônia. — João afirmou com a voz baixa. — Eu gosto de você. Eu a...

— Não ouse. — ela o interrompeu erguendo seu dedo indicador.

João suspirou com força.

— Você me quer, você gosta de mim, você me deseja na minha cama. — Antônia começou a se aproximar. — No meu apartamento, numa cidade distante na viagem exótica que você inventou, no sofá da pensão, no Bumba Meu Boi, na praia.

João negou devagar já sabendo onde aquela conversa chegaria.

— Você nunca me quis na sua casa. — ela disse com amargor forte na boca ajoelhando-se no chão em frente a ele. — Você nunca me quis na sua cama. Transou comigo no banheiro e me trouxe pra casa antes da sua mãe chegar. Você não me assume. Você não me leva pra ver os seus amigos e as namoradas brancas deles.

João Guilherme levantou-se exasperado e Antônia também. O silêncio durou mais um pouco.

— Meus pais são tradicionais demais. — ele começou. — Você é geniosa, têm todas essas ideias, pensamentos modernos, coisas que não cabem na minha família. E os meus amigos... você nem iria gostar deles mesmo.

Antônia apertou os lábios e negou. Fechou os olhos com força como se pudesse acordar de um pesadelo e tapou o rosto com as mãos. Segurou o choro de novo.

— Vai embora daqui, João Guilherme. — ela apontou para a porta e o olhou com a ferocidade de uma leoa. — Nunca mais volte aqui e nem volte ao quiosque. Não quero ver você nem perto do meu apartamento.

João balançou a cabeça desnorteado.

— Antônia, não precisa ser assim. A gente...

— A gente já deu. — ela disse ainda apontando pra porta. — São anos vivendo dessa forma. Amo você há tanto tempo que já nem sei o que é me amar.

Aquela última frase acertou João Guilherme em cheio.

— Eu amo você, de verdade. — o rapaz disse com a mão na maçaneta da porta.

Antônia segurou as lágrimas novamente.

— Não é o suficiente pra mim. — proferiu com uma firmeza que desconhecia. — Sai.

João Guilherme sustentou o olhar por mais alguns segundos fatídicos que ficariam marcados para sempre e saiu do quarto. Antônia deitou na cama e chorou com força, era como se os seus pulmões estivessem a ponto de se desintegrarem e ela nunca mais fosse conseguir puxar o ar novamente, era como se afogar. Nanda entrou no quarto, sorrateira, com um copo de leite e um pedaço de um bolo em mãos.

Levaria tempo para amar-se novamente, mas teria de começar.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.