Agridoce

1 Capítulo Único


Of all the money that e'er I spent

I spent it in good company

And of all the harm that e'er I've done

Alas, it was to none but me

For all I've done for want of wit

To mem'ry now I can't recall

Apesar de sentir todo o seu corpo implorando por descanso, Wanda apenas sorriu e cruzou os braços, encarando as dezenas de soldados, entre britânicos e americanos, aproveitando abandonadamente as festividades de Natal.

Por sorte, tinham encontrado um vilarejo alemão, que já estava de posse dos oficiais Aliados e, ainda que fossem completamente estranhos, a linguagem mais leve e comemorativa era universal. Por apenas um instante e nada mais, podiam ser apenas homens — e algumas mulheres — vivendo aquela data, bebendo, comendo e dançando como queriam sob a música que podiam fazer.

Alguns oficiais carregavam instrumentos e, na pequena praça do vilarejo, eram os responsáveis por criar a trilha sonora que embalava as danças desengonçadas dos demais, chegando a arriscar até mesmo algumas canções típicas da época, que a ruiva já conhecia, mas como clássicos natalinos.

Era como ver um grande quadro de guerra se desenrolando à sua frente, a trégua sendo aproveitada sob as luzes amareladas da praça e dos pubs abertos, especificamente, para aquele momento. Fazia muito frio, mas ainda não nevava, o que era bom, pois a neve colocaria fim às comemorações mais rapidamente e todas aquelas pessoas mereciam alguma paz, um momento de contemplação entre tantos bombardeios, tensões e morte. Era agridoce, mas, ao menos por um instante, naquela data, o mundo parecia segurar a respiração e permitir.

— Ei… — Suas reflexões foram interrompidas por Sam, que se aproximava em seu típico tom preocupado. — Você está bem?

Por mais que estivessem presos nos anos 40 por tempo indeterminado, até aquele momento, não haveria pessoa melhor com quem pudesse contar. Desde o início, Sam e ela estavam inteiramente comprometidos um com o outro e com a missão e, por isso, era grata a ele. A única diferença é que, com o passar das semanas, passara a precisar dele mais do que o contrário e isso a desagradava completamente. Não apreciava ser um fardo para ninguém.

— Sim.

Cruzou os braços, se encolhendo contra si mesma para combater o frio. Sentia a própria imunidade se esvaindo lentamente de seu corpo, a deixando mais e mais fraca, embora não tivesse verbalizado nada sobre isso a ninguém (especialmente Sam, que conhecia a causa de sua fragilidade física mais recente).

— Tem certeza? Está apoiada contra essa pilastra como se dependesse dela para sobreviver. — É claro que o novo Capitão era ótimo em observar tudo ao seu redor, no que ela se forçou a sorrir.

— Sam, não se preocupe. — O olhou com convicção, sentindo a brisa fria atacando seu rosto limpo. — Vá comemorar com os outros. Você deveria ir checar Steve, ele estava na décima cerveja quando saí do bar-hospedaria.

Ele fez uma careta e se inclinou, abaixando o tom.

— Quem imaginaria... Sorte a dele que o soro não o deixa ficar bêbado. — Wanda apenas sorriu e voltou a analisar a cena à sua frente. Havia algumas mesas de oficiais jogando cartas e diversos outros tipos de jogo valendo dinheiro de verdade, o que a surpreendeu. Eles tinham pouco, mas a diversão era algo que não se podia medir naquele momento. — Está mesmo tudo bem com você, Wanda?

A ruiva suspirou e abaixou o olhar. Não havia porque esconder o próprio estado, já que Sam era o único que poderia conhecê-lo no fim das contas e tinha certeza que não entraria em detalhes com ninguém, já que haviam combinado de manter segredo sobre suas verdadeiras origens. Além disso, estava tão cansada.

— Não sei por quanto tempo meu corpo vai aguentar continuar neste tecido temporal.

Sam a examinou de forma preocupada, nada surpreso pela sinceridade. Ele já sabia que, em razão da magia, Wanda estava sendo afetada pela viagem temporal que fizeram e não tinha como encontrar uma maneira de amenizar os efeitos colaterais disso — senão voltar para o próprio tempo ou, simplesmente, combater o que a deixava daquele jeito.

— Nós vamos dar um jeito nisso. — Ele a puxou para um abraço lateral fraterno.

— De qualquer forma… aproveite a sua noite, Capitão. — O cutucou levemente na costela. — É Natal, finalmente… Podemos ter alguma paz, não é?

Sam abriu a boca em um meio sorriso para retrucá-la, afinal eles tinham um Capitão logo ali novamente, mas o momento foi interrompido pela voz em tom desconfiado logo atrás deles.

— Dar um jeito no quê?

Como duas crianças flagradas fazendo algo errado, ambos se voltaram no mesmo instante para encarar Bucky, que corria os olhos de um para outro com bastante afinco, esperando por uma resposta.

— Sam… — Ele levantou a sobrancelha. — Ele gostaria de ter acesso a correspondência… Para ver se… Uma pessoa específica o escreveu, mas está muito longe da base do batalhão.

— Tenho certeza que Steve pode pedir que elas sejam remetidas para cá… — Observou como ele deu de ombros e sentiu que já não parecia dar mais importância ao assunto. Notava que era como se não tivesse se decidido sobre a sinceridade de Sam, ou a falta dela, especialmente em relação ao exército americano, por isso era um tanto mais receoso sobre ele, o que irritava o Wilson ao extremo. — Ou para onde quer que esteja.

— Vou verificar com ele. — Ignorou o tom irônico e inclinou a cabeça para eles, se despedindo sem elaborar muito.

Por um momento, Bucky e ela apenas o acompanharam com os olhos, observando quando passou a interagir com uma roda de oficiais britânicos, rindo e fazendo piadas sem a menor dificuldade de se misturar. As coisas com ele eram assim, não demorava para que ele encontrasse uma forma de se infiltrar, de se conectar com as pessoas ao seu redor. Era um dom que Wanda gostaria de ter, já que não dependia de qualquer super habilidade, apenas da pessoa que Sam Wilson era.

Sorriu brevemente, escondendo as mãos nos bolsos, antes de desviar o olhar para o sargento, que havia permanecido ao seu lado, meio que nas sombras da pilastra da igreja parcialmente destruída por um bombardeio recente.

So fill to me the parting glass

Good night and joy be with you all

— E você… — Bucky apenas a fitou, solicitamente. Se ajeitou contra a pilastra para olhá-lo de frente, gostava do modo como parecia sempre estar prestando atenção no que dizia. — Está esperando cartões de Natal de alguém especial?

— Er… Não, a única que me escrevia era Rebecca, mas depois que ela se casou as cartas diminuíram de frequência. — Wanda estreitou os olhos, mais rápido e indignada do que planejara a princípio, o que Bucky pareceu acompanhar satisfeito a julgar pelo brilho divertido que sustentava no olhar ao se inclinar na direção dela. — Minha irmã mais velha.

— Ah…

A ruiva abaixou os olhos, se sentindo tola pela breve onda de ciúmes e indignação instantânea, que a tomara. Nunca havia passado por sua cabeça que ele tinha uma família naquele tempo, mas, de qualquer forma, não se surpreenderia que Bucky se correspondesse com alguém enquanto estivesse na guerra, pois Steve havia contado que ele fazia sucesso com as garotas antes mesmo de entrarem para o exército.

Ainda que fosse justificada — o que não era, já que não tinham nada, apenas aquele algo abstrato e inominável pairando sobre ambos desde que chegara naquele tempo -, sabia, racionalmente, que não podia se deixar levar. Sua permanência nos anos quarenta era indubitavelmente frágil e breve.

— Tenho algo para você.

Notou que a onda de humor que sentia correr dele para ela realmente habitava o rosto bem desenhado naquela noite e não conseguiu evitar engolir em seco para enganar o suspiro que queria soltar sempre que tinha os olhos dele em si. Só então, ele tirou os braços das costas, mostrando o que vinha escondendo até aquele momento.

— Onde conseguiu isso?

Perguntou surpresa, alcançando a garrafa de vinho tinto e, sob a pouca luminosidade das fogueiras que os soldados prepararam para a noite fria, percebeu que o rótulo era francês, o que a surpreendeu ainda mais. Uma vez que todos bebiam versões baratas de rum e uísque escocês, era um grande feito conseguir um item como aquele, já que o comércio não era livre entre os países adversários na guerra.

— Conheço alguém que conhece alguém, sabe como essas coisas funcionam.

Ele deu de ombros em falsa modéstia e Wanda mal pode conter o próprio sorriso. Tinto era o seu favorito, havia contado a ele semanas antes. Se lembrava perfeitamente da noite em que os soldados de Steve encontraram um barril de cerveja, esquecido em um vilarejo abandonado onde passaram a noite, e fizeram a festa a noite toda.

— E você está gastando todos os seus favores por minha causa? — Abraçou a garrafa ao cutucá-lo o pé dele com a ponta de sua bota, no que Bucky apenas a analisou com os olhos estreitos e deu de ombros.

— Bem… Não todos.

Wanda riu, não pela primeira vez, constatando que ele era tão charmoso que fazia tudo em seu interior se movimentar em expectativa. Não era assim com o Bucky de seu tempo e, agora que estava ali, se perguntava se ele era mesmo uma pessoa tão diferente do homem que passara a conhecer nos anos quarenta.

Olhou novamente para o vinho, o rótulo antes branco parecia mais amarelado sob a luz das fogueiras da pequena praça central. Imaginou, por um momento, o que havia feito, de concreto, para merecer um presente de verdade no Natal quando todos estavam vivendo como podiam naquele lugar, e sentiu seu coração apertar e os olhos arderem. Ao mesmo tempo em que não queria machucá-lo nem se machucar, pois conhecia o destino de Bucky, queria mais dele, cada vez mais.

— Eu não comprei um presente para você. — Respirou fundo ao levantar os olhos, percebendo que ele meramente a observava, mantendo as mãos nos bolsos em uma postura respeitosa. — E… Não tenho os contatos que tem.

— Obviamente. — Bucky atalhou de maneira pomposa, a fazendo sorrir.

— Mas eu realmente… — “Amei”, a palavra veio à sua mente como uma explosão e Wanda o olhou como se tivesse ouvido, mas havia sido só para ela. — Realmente adorei.

Com a garrafa totalmente segura entre os dedos, cedeu ao impulso e se aproximou de verdade, o puxando para um abraço apertado. Fechou os olhos, apreciando a maneira como ele a acolheu imediatamente, afundando o rosto em seus cabelos com um suspiro pesado, como se estivesse tão cansado quanto ela, mas ao mesmo tempo apreciasse o breve “agora” daquela noite.

Ainda que fosse o tempo todo relutante, algo que ele parecia ter consciência, a presença de Bucky naquele tempo vinha sendo tão reconfortante que não conseguia se impedir de recorrer à sua companhia silenciosa, sua voz ou seu abraço e, quando percebera, já se encontrava irremediavelmente enredada nele.

Ficaram assim, alimentando o silêncio e o conforto por tempo suficiente para parecer estranho para qualquer um, menos para eles — especialmente Wanda, que se deixara realmente sentir a dor que invadia cada um de seus membros, bem como a dor de cabeça nas têmporas, que se recusava a passar e a deixava levemente zonza há alguns dias.

Oh, if I had money enough to spend

And leisure time to sit awhile

There is a fair maid in this town

Who surely has my heart beguiled

Her rosy cheeks and ruby lips

I own, she has my heart enthralled

— Sei como pode devolver o presente.

— Achei que não iria cobrar.

Murmurou baixo contra ele, sentindo o breve estremecer quando Bucky se arrepiou pelo hálito quente em seu pescoço. Então, ele se afastou levemente para fitá-la, os olhos percorrendo todo o seu rosto por um segundo, dos cabelos aos lábios. Naquele instante, desejou que o sargento estivesse fazendo um exercício para guardá-la na memória, embora soubesse quão inútil seria, pois constantemente fazia isso com ele.

Engolindo o nó quase constante em sua garganta, o sentiu alcançar sua mão em meio ao abraço, os dedos mais quentes entrelaçados firmemente aos seus, aparentemente se recusando a quebrar o contato tanto quanto ela.

— Então, senhorita… — Inclinou brevemente a cabeça, como um gentleman, e Wanda enxergou perfeitamente o jovem sobre o qual Steve contava histórias. — Você me concede esta dança?

Estreitou os olhos, notando o divertimento no fundo dos dele. Depois de tantas semanas vivendo junto com soldados comandados por Steve, era como se qualquer tratamento formal fosse completamente desnecessário — especialmente entre eles.

A ruiva se virou brevemente aos oficiais entoando uma faixa triste de rememoração e despedidas, o que tornava todos um pouco melancólicos. No fim, o Natal tinha dessas: era uma data intrinsecamente agridoce, onde comemorações e saudades se encontravam sem permissão.

— Essa não é uma canção para dançar.

Porém, ao mesmo tempo, seus dedos se entrelaçavam aos dele em um aceite tácito, o que foi o suficiente para satisfazê-lo, voltando a enlaçar sua cintura.

— Pode ser, se você aceitar.

Wanda anuiu e passou o braço que ainda segurava o vinho pelo ombro dele, aproveitando para descansar o rosto por ali enquanto começava a seguir o ritmo lento dos passos dele. Ao longe, pode ver quando Sam captou o movimento atípico e estacou, entre os oficiais, para acompanhá-los por um longo instante, fixando os olhos nos dela com tanta condescendência que se sentiu quebrar. Ele sabia o que aquilo significava, ela também.

Não conseguiu impedir que uma lágrima teimosa rolasse por seu rosto, terminando no tecido do uniforme de Bucky e, por isso, fechou os olhos se concentrando na melodia agridoce da tradicional canção natalina enquanto se deixava apoiar ainda mais contra ele.

— Sabe, você… Parece me olhar como se soubesse de algo que eu não sei… e estivesse prestes a me dizer, mas… — Inevitavelmente sentiu a tensão tomá-la, mas Bucky manteve o lento ritmo entre eles. — Por algum motivo, sempre muda de ideia.

Wanda respirou fundo e se afastou para encará-lo, seus olhos como reflexos dos dele, percorrendo o rosto bem desenhado e tão menos carregado do que o que conhecia em seu tempo, que quis transportá-lo para o outro Bucky. Ambos mereciam mais contemplação, menos fardos.

Levou os dedos à têmpora dele, tomando tempo para contornar a linha dos fios castanhos e sorriu pelo fato de vê-lo, simplesmente, inclinar a cabeça para sua mão, apenas aproveitando o contato cuidadoso enquanto a mantinha junto de si pela cintura.

— Às vezes, gostaria que pudesse entrar na minha mente. — Murmurou, calculando bem as palavras. — Para você poder ver com seus próprios olhos como eu te vejo. E sentir, por si mesmo, como eu sinto.

Os olhos tempestuosos, iluminados pelas chamas das fogueiras dos soldados, se abriram para encontrar os dela, desta vez determinadamente sérios, o que a fez engolir em seco. Sabia que isso era possível, embora sentisse a fragilidade latente dos próprios poderes e embora soubesse que não poderia, simplesmente, conceder isso a Bucky, como concedia uma dança.

Ainda assim, naquele momento, naquela noite em específico, sob a neve que começava a precipitar nas cabeças de todos os oficiais, prestes a deixar as chamas cada vez mais opacas e levar as rodas de risadas, jogos, música e comemorações para dentro dos pubs e demais construções do vilarejo, soava decisivo demais.

O próprio Bucky levou os dedos aos seus cabelos, afastando com suavidade os fios que a brisa tirava do lugar antes de encaixá-los na pele quente em torno de seu pescoço, tomando tempo para dar tempo a Wanda, mas, àquele ponto, depois de tantas semanas se vendo cair por ele, não conseguia mais recuar.

— Você… — Ele piscou, franzindo o cenho enquanto a fitava. — Não parece real.

Bem, a questão é que Wanda, realmente, não se sentia real naquele tecido temporal e Bucky era, sim, inteiramente real — embora não soubesse disso. Então, se esticou nas pontas dos próprios pés e fechou os lábios nos dele, sentindo seu interior ser totalmente esmagado pela fatalidade do que estavam destinados a ser.

So fill to me the parting glass

Good night and joy be with you all

Bucky reagiu no mesmo instante, escorregando os dedos pelos fios ruivos até firmar sua nuca para beijá-la apropriadamente. O arrepio que a tomou no momento em que suas línguas se encontraram, como se fossem antigas conhecidas, foi tão acentuado que ofegou alto demais e se deixou pendurar mais e mais contra o soldado.

Os dedos dele se fecharam no cinto do sobretudo pesado que ela usava e Wanda fincou a mão livre na gola do uniforme escuro enquanto a boca de Bucky percorria um caminho pecaminoso e molhado em direção ao seu pescoço e, no instante em que encontrou sua orelha, teve certeza que suas digitais ficariam para sempre na garrafa de vinho que ainda mantinha perfeitamente segura entre seus dedos.

— Nós… Temos que sair daqui. — Voltou a ficar na ponta dos pés para conceder mais espaço a ele, mesmo que sua roupa não permitisse tanto contato, mal conseguindo manter distância.

— Só mais um pouquinho.

Ele voltou a beijá-la com afinco em meio ao seu sorriso e pode ver de relance como os olhos azuis pareciam leves e aéreos, ainda que não sorrisse como ela. O estado era tão ofegante e seus lábios tão avermelhados e inchados quanto os seus, além de fazer questão de mantê-la totalmente junto de si, com as mãos firmemente estacadas em sua cintura,

— E agora? — Perguntou quase sem voz contra os lábios de Bucky, suas respirações se misturando e os narizes se tocando. — Vai me deixar na porta do meu quarto, como um cavalheiro?

— É claro. — Bucky deu de ombros descompromissadamente e ainda a encarou por um momento, novamente sustentando a sensação de que guardava a imagem dela em sua mente, como Wanda fazia com ele naquele momento, antes de depositar um breve selinho aproveitando cada segundo de contato, e se afastar, tomando sua mão sem cerimônias. — Vamos, a neve está mais forte.

Só então a ruiva notou que, de fato, a tempestade de neve passara a cair com maior intensidade, tornando o ar mais frio e rarefeito do que antes, o que não notara, pois estavam protegidos pelas paredes da igreja destruída e por si mesmos, um contra o outro, enquanto as pessoas nas ruas se ocupavam em correr para conseguir abrigo.

O bar-hospedaria em que Wanda ficara era inteiramente para feminino, quase religioso de tão rígido, mas, como diversas pessoas corriam para sair da neve, a dona estava inteiramente focada em atender a todos de trás do balcão e sequer viu ambos passando e seguindo pela escadaria de madeira a passos rápidos, os dedos firmemente entrelaçados uns aos outros, até chegar ao terceiro e último andar.

Steve fizera questão de colocá-la em um quarto apropriado, para tomar banho e fazer sua higiene pessoal depois de tantas semanas como a única mulher entre um grupo muito diverso de soldados. Não tinha problemas na convivência diária, mas privacidade era, sim, uma benção, assim como uma cama de verdade e um banheiro com água quente.

Então, se voltou ao sargento assim que chegaram à porta com o n°. 12 já desgastado na madeira e respirou fundo, consciente de que a expectativa nos olhos azuis eram as mesmas que habitavam os seus.

— Obrigado.

— Eu que agradeço. — Ele levantou a sobrancelha e Wanda riu, o empurrando levemente pelo ombro.

— Eu estava dizendo… Pelo vinho.

— Depois me diga o que achou, posso conseguir mais. — Estreitou os olhos para ele, desconfiada. — Eu juro, é legítimo… Apesar de francês.

— Em algum momento você vai me contar como conseguiu isso? — Perguntou desconfiada.

— Não posso revelar minhas fontes. — Então, o observou se aproximar até que estivesse completamente encostada à porta. — Quero que venha até mim quando precisar de mais.

Bucky apoiou um dos braços na superfície atrás dela ao murmurar e a ruiva brincou com a parte da frente do uniforme dele, já completamente bagunçada por seus dedos ansiosos repletos de anéis, compreendendo perfeitamente o que o sargento queria dizer. Estaria morta no minuto seguinte, se ele continuasse com aqueles flertes que deixavam suas pernas completamente sem forças.

— Acho que o vinho não é necessário para isso.

No instante seguinte a boca dele estava na sua novamente, assim como todas aquelas sensações inexplicáveis percorrendo seu corpo. Eram as mãos em sua cintura, então em seus cabelos ou em sua nuca ou em seu rosto, conduzindo-a da forma como queria, ou em seus quadris, prensando-a um pouco mais contra a porta.

Wanda não se importava nem um pouco com a pressão do corpo dele contra o seu, pelo contrário. Os lábios seguiam a mesma tendência lasciva das mãos, especialmente quando o deixou afundar uma das pernas entre as dela, adorando o fato de usar calças sob o casaco grosso, algo atípico para os anos quarenta.

A língua se movia contra a sua como se conhecesse sua boca e pudesse fazer o que quisesse — o que, naquele ponto, era inteiramente verdade, por isso se esticou nos próprios pés para prender o lábio inferior dele entre os dentes, fazendo-o se afastar brevemente com um ofego sôfrego.

— Acho que… — Bucky pigarreou e piscou para focar seu rosto. — Já é Natal.

Wanda olhou na direção das escadas, também um pouco atordoada, vendo que as comemorações estavam mesmo mais animadas no térreo, o que não tinham percebido até então, e segurou o braço dele para verificar o relógio de pulso analógico. De fato, já passava da meia-noite.

— Sim… Quer entrar?

Bucky piscou, surpreso, e processou o convite até que sorriu, um tanto maravilhado, e levou a mão aos seus cabelos novamente. Sabia, há tempos, como os fios ruivos o fascinavam e esta, talvez, fosse a única coisa em comum com o soldado do tempo dela. Notava como ele a encarava por tempo demais, quando seus cabelos estavam soltos, sem que sequer percebesse o próprio instinto sempre que achava que estava distraída.

— Você disse até a porta do seu quarto. — Ele a beijou brevemente enquanto sussurrava, o que fez com que um forte arrepio a percorresse da coluna à nuca. — Eu sou um cavalheiro.

— Eu não posso tomar este vinho sozinha. — Seus dedos rodearam a mandíbula dele, que ainda a pressionava contra a porta. Então, o ruído de passos arrastados começaram a soar na escada e ambos encararam o lugar por um breve instante. — A Sra. Mirtle faz rondas. Para checar se tudo está como deveria nos quartos das garotas.

— Deus, você vai me matar.

O observou fechar os olhos por um instante e olhar para cima, como que tentando retomar algum controle e a própria respiração, embora pudesse sentir como ele também se encontrava em um estado totalmente irreversível. Wanda sorriu, pois fazia muito tempo que não fazia algo tão espontâneo, e se esticou para depositar um beijo casto no canto dos lábios dele.

— Feliz Natal.

Se virou para destrancar a porta do quarto de n°. 12, apreciando a intimidade dos braços a rodeando, da falta de espaço entre seus corpos e da boca a fazendo estremecer ao explorar aquele pequeno espaço entre sua orelha e a nuca, mal se importando com seus fios no caminho. Fechou os olhos, apenas desfrutando da sensação completamente mundana enquanto respirava fundo, e entraram no quarto modesto sem se desgrudar.

Of all the comradеs that e'er I've had

Thеy are sorry for my going away

And of all the sweethearts that e'er I've had

Would wish me one more day to stay

But since it falls unto my lot

That I should rise and you should not

I'll gently rise and I'll softly call

Wanda mal teve tempo de descansar a garrafa intacta de vinho sobre a escrivaninha antes de Bucky fechar a porta com um baque seco e virá-la para ele, a analisando com cuidado, talvez procurando algum sinal de incerteza em seu rosto, apenas para, lentamente, começar a desfazer o nó do cinto de seu sobretudo.

Alguém ainda fazia questão de tocar uma melodia natalina em algum lugar lá embaixo e, de relance, sob o último resquício da iluminação das residências restantes do vilarejo, pode ver que a neve caía ainda mais convictamente do lado de fora, mas seus olhos e toda a sua certeza estavam no homem à sua frente.

E, enquanto Bucky deslizava o casaco por seus ombros e braços, não conseguiu resistir em segurar seu rosto, fascinada pelos olhos azuis firmes nos seus e pela barba por fazer, para alcançar os lábios inchados — também por seus lábios -, a calmaria inesperada do gesto fazendo com que seu coração disparasse contra o dele.

— Feliz Natal, Wanda.

Ele murmurou em sua boca, deixando-a sem fôlego. Podia deixar de lado, só por um momento, toda a problemática de estar em um tempo que não era o seu, com alguém que não deveria, sem pensar nas consequências práticas disso. Estremecendo, fechou os olhos e só conseguiu pensar em Bucky e nas sensações que a tomavam pelo resto da noite.

Good night and joy be with you all

Good night and joy be with you all

Notas finais
Simplesmente, não resisti e fiz mais uma fic de Natal, que começou a ser escrita antes do Natal, mas só terminou depois. Enfim, o que importa é a intenção e todos ainda estamos no clima de fim de ano, não é mesmo?

A história é inspirada na música The Parting Glass, que é um clássico meio folclórico, na versão do boygenius e acho que essa melancolia combina demais com a Wanda daqui. Ela sabe que não está no tempo dela, mas não pode evitar os sentimentos que tem sentido, o que eu acho LINDO e ótimo de se explorar.

É basicamente a cena de uma fic maior, então... Tenho planos para uma possível continuação (quem sabe?), embora ela funcione sozinha!

Comentários são importantes, então me deixem saber o que acharam da história e desses dois aqui!

Até a próxima e feliz 2024 ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!