Agridoce
4 Quatro
Notas iniciais
LOUISE
A fachada do "Café Mágico" era desanimadora. Parecia um restaurante temático: a fonte cursiva com vários arabescos, estrelas, pequenas canecas de café coloridas e um escrito minimalista que indicava que a "Café Mágico" tinha exatamente o café perfeito para você e que estava ali há quase oitenta anos.
O estabelecimento ficava na esquina bem no meio, dando um ângulo de perspectiva.
Pensei em dar meia volta, passar em algum mercado, comprar meu próprio café e fazê-lo na cozinha que eu compartilharia com minha nova vizinha temporária.
Mas eu estava cansada demais, precisava de uma injeção de ânimo. Ou melhor, de café.
Quando empurrei a porta um sininho tocou anunciando minha entrada e uma vozinha, exclamando:
"Coffee Time!"
Argh. Minha Nossa Senhora.
Percebi que alguns rostos curiosos se viraram para me olhar, mas não se demoraram muito, voltando para suas conversas quase que instantaneamente.
Caminhei até o balcão, onde uma mulher estava de costas preparando o café do moço que esperava o seu pedido.
Os cabelos loiros estavam presos em um coque extremamente desfigurado no alto da cabeça e suas mãos eram ágeis passando o copo grande de uma máquina para outra.
Eca, ela estava acrescentando tanta coisa que aquele café deveria estar com um gosto nojento.
Analisei o homem ao meu lado de cima a baixo, tentando ver encontrar algum sinal de que ele tomava uma bebida daquelas.
O homem apenas mexia no celular, despreocupado com a atrocidade que estava se desenrolando atrás do balcão.
A mulher se virou com o copo em mãos, o boné bege escrito mug-nificent com um desenho de uma xícara, e um sorriso enorme e, para minha surpresa, genuíno.
O homem levantou a cabeça e estreitou os olhos para ela, a mulher mordeu o lábio inferior, apreensiva, enquanto ele levantava a tampa do copo e sentia o aroma, com uma expressão neutra.
Então ele sorriu, como se não tivesse acabado de sentir o cheiro da coisa mais repugnante da sua vida e a balconista deixou os ombros caírem em alívio. Como se a opinião dele fosse muito importante.
— Pelo visto vai me surpreender hoje, querida.
Ela sorriu, como se não tivesse prestes a cometer sua pior vigarice contra o estômago do pobre homem, e respondeu:
— Sempre. Depois me conte o que achou. — Se ele ainda estivesse vivo para contar. — Ah, quase ia me esquecendo do seu brownie.
— Ah, eu amo época de arrecadação dos escoteiros. Sinto falta desses brownies o ano inteiro. — O homem colocou as notas sobre o balcão, agradeceu e foi embora.
Finalmente.
Ela virou para mim. Os olhos azuis eram tão desconcertantes que só fui perceber que ela me fez uma pergunta na segunda vez, quando disse:
— Olá?
— Oi.
Ela sorriu. Qual era o problema de todo mundo naquela região de ficar sorrindo do nada?
— O que gostaria de pedir? Ou gostaria de uma surpresa?
Por um momento achei que ela estava falando com outra pessoa e não comigo. Olhei por cima do ombro, mas não tinha ninguém atrás de mim.
Voltei a encará-la:
— Surpresa…?
— Sim! — ela respondeu animada. — Posso tentar fazer o café perfeito para você ou pelo menos um que goste. Temos um cartão de fidelidade que depois de cinco pedidos você ganha um Café Mágico, ou seja um café de graça. Só que teoricamente ele vai ser um que combine especialmente com você e…
— Só um café preto, por favor. — Eu a interrompi.
Não tinha tempo nem disposição para aquela ladainha de atendente.
— Tem certeza? Parece que acabou de chegar na cidade e garanto que é uma experiência…
— Só um café preto. Sei que está trabalhando, mas estou cansada. E honestamente, se o tal do Café Mágico for minimamente parecido com o veneno que preparou para o cliente que acabou de sair daqui, eu prefiro ficar sem magia mesmo.
Ela me olhou com uma expressão ofendida, magoada, ou sei lá o que, porém eu só queria tomar aquele café e esquecer que aquele dia existiu.
Um tanto sem graça e fazendo com que minha consciência pesasse um pouco, ela engoliu em seco e colocou o sorriso no rosto de novo.
Só que dessa vez ele não refletia em seus olhos. Era apenas pura educação.
— Claro. Perdão pela inconveniência.
DIANA
Uau, que pessoinha mal educada.
E que cheiro era aquele? Apesar de ser bem bonita, sua aparência no geral parecia que ela tinha lutado com um banheiro químico de um show e perdido a luta.
Que horror!
Preparei o café puro e sem graça dela tentando não tremer minhas mãos; ela olhava impacientemente de mim para o seu relógio de pulso e, quando achava que eu não estava notando, se esticava toda: provavelmente para verificar se eu não estava colocando algum "veneno" no seu café.
Foi só depois de alguns minutos que percebi que era a mesma mulher que eu tinha visto na plataforma C e que seu Carlos tinha me contado que estava sendo um poço de ignorância com todo mundo na rodoviária.
Tentei ter alguma empatia por ela, pelo visto seu dia não estava sendo nada bom, mas foi uma tarefa frustrada pois a mulher simplesmente pegou o café quase que no mesmo instante que eu colocava a tampa em seu copo, atirou as notas de dinheiro no balcão, sentiu o aroma do café com uma careta e não espero nem mesmo que eu colocasse seu nome no copo como fazia com todos os clientes.
Simplesmente murmurou um "obrigada" de má vontade e saiu do Café Mágico batendo o pé.
A sineta falou "Coffee Time" quando ela passou pela porta e pude perceber que alguns fregueses observavam a cena tão chocados quanto eu.
Dei um sorrisinho amarelo quando os olhares se voltaram para mim para ver minha reação.
Que a estadia daquele pessoa extremamente agradável em Bela Ventura fosse bem curta.
Peguei o celular no bolso e resolvi mandar mais uma mensagem para minha nova colega de casa perguntando se estava precisando de alguma orientação, já que ela tinha ficado em silêncio nas últimas horas.
Eram quase oito da noite quando fechei a cafeteria e não tinha recebido nenhuma resposta de L. Martins.
O medo de ela ter desistido me atingiu porque ir para o banco pedir empréstimo para passar mais um mês só assinaria minha sentença de morte.
Ou pelo menos de sem teto.
Não, eu não pensaria nisso. Ainda não.
A noite em Bela Ventura estava bem agradável, a brisa fresca e a noite estrelada eram um convite para me dar uma folga, mas eu ainda tinha muita coisa para analisar e organizar.
A campanha "Café Perfeito" estava com um início um tanto lento porém constante. Enquanto eu tinha fregueses que não hesitavam em arriscar e experimentar algo novo, a maioria deles preferia se manter no cafezinho usual de cada dia.
Depois da visitante apontar que parecia mais que eu estava preparando um veneno, de costas para todos, tentando fazer a melhor combinação possível, talvez fosse melhor ajeitar alguns ingredientes no balcão e interagir mais com o cliente enquanto preparava o café especial.
Acho que isso lhes daria mais segurança de que eu não estava fazendo nada suspeito com a bebida deles.
Cheguei na frente do portão de casa e percebi que a luz estava ligada.
A luz do meu lado da casa.
Milhares de cenários começaram a se desenrolar na minha mente já que tinha explicado para L. Martins que a sua chave estaria dentro da caixa de correspondência do lado direito.
Abri o portão tentando não fazer muito barulho e procurando algum sinal de quem poderia estar ali além dela.
Não vi nenhum carro estacionado, nem nenhuma mala ou bolsa, nem roupas jogadas. Minha casa estava uma bagunça, eu tinha usado toda a minha energia para arrumar a casa ao lado.
Percebi grunhidos, respirações pesadas vindo do corredor que levava ao quarto e ao banheiro.
Ainda nenhum sinal de alguém que havia acabado de chegar de viagem.
Quando cheguei na porta do banheiro pude perceber a voz dizer baixinho e com esforço.
— Não. Não. Não. Por favor, o dia já foi difícil o suficiente.
O barulho de água corrente e a pessoa puxando alguma coisa (que se soltou com um "pop") me fez franzir a testa.
Apoiei a caixa que estava em minhas mãos no chão junto com minha bolsa.
Dei duas batidas na porta, mas a pessoa não pareceu notar o barulho da água ficando cada vez mais alto.
— Droga, droga, droga!
— Oi, eu sou a Diana e…vou tentar entrar para te ajudar, está bem? — Comecei a mexer na maçaneta.
— Ah, oi! Eu não tô te ouvindo muito bem. Mas só vou dar um jeito nisso aqui e… — ela berrou exasperada do outro lado.
Tudo aconteceu quase no mesmo instante.
Senti a água passar pela porta e encharcar os meus pés, a maçaneta cedeu em minhas mãos mas a porta fez uma pressão e só abriu num ímpeto quando tentei empurrá-la com os meus ombros.
No instante seguinte, duas pessoas gritaram: eu e a suposta L. Martins, quando eu me desequilibrei e sem querer a puxei comigo para o chão praticamente inundado.
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