Agridoce
1 Na floresta
Notas iniciais
— Bom dia, lobo! — falou a menina alegre. Quantos anos tinha, treze? Doze. Muito magra, muito pequena. Mas ingênua o suficiente para voltar, quando mais ninguém andava por ali. Sorriu sem mostrar muito os dentes.
— Olá, garotinha — disse com voz macia, estendendo a pata. — Achei que não podia falar com estranhos.
A menina pegou sua pata com sua pequena mão rosada. Sua pulsação o chamava, seu sangue era quente, mas de que adiantava, se ela, sozinha, mal lhe serviria como refeição?
— Você não é mais estranho — falou a garota, os olhos grandes na cabeça inclinada. — Você é meu amigo. Cuidou de mim. E eu gosto de você.
— Fico feliz em saber — falou ele. Não sabia se estava feliz mesmo, porque era frustrante ver outra vez uma possível refeição sem poder comê-la. Mas ela iria engordar, e quando isso acontecesse, precisava voltar ali, então ele tinha que incentivá-la. — Você já é uma garota crescida, não é? Pode tomar suas próprias decisões. Não pode fugir para sempre do desconhecido.
Os olhos dela brilharam para ele, que ficou satisfeito. Aquela pequena humana não tinha medo. Voltaria.
— O desconhecido é melhor que eu imaginava — falou a chapeuzinho vermelho. Para que a capa, afinal, se nem estava frio? Talvez toda aquela pele exposta fosse a responsável: humanos não tinham pelos que os protegessem. Tanto melhor para ele, que não tinha que tirá-los na hora de comer. — Não se importa que eu volte, não é? Você... — e ela baixou os olhos para o chão. Corava. — Você conversa comigo. E quase não converso com ninguém...
— Você quer um amigo? — perguntou ele. A garota assentiu, e ele abriu um sorriso, pequeno outra vez. — Bom, eu estou sempre aqui. Venha quando sentir vontade.
Ela sorriu, muito feliz, e beijou-o na cara. Ele se assustou imediatamente — ela se atrevia a chegar tão perto da boca, que seria seu caminho para a morte? Mas controlou-se. A garota não era corajosa, apenas ingênua. Sorriu de volta.
— Vá para casa — falou em tom de conselho. — Vá, descanse, e volte quando quiser me ver de novo. E traga alguma coisa para comer quando vier — ordenou. — Bastante. Se quiser conversar muito, vai ter que comer bastante. Não quero você fraca, nem com fome por minha causa. Tudo bem?
Ela fez que sim.
— Trago alguma coisa para você também — disse a menina, e se afastou, olhando para trás a cada passo, não querendo ir embora.
O lobo sorriu. Seria fácil. Em meses, talvez, ela ganhasse corpo, e poderia enfim ser a refeição que ele queria. Voltou à toca cantarolando. Comia sempre muito bem, mas tinha que admitir: era animadora a possibilidade de se alimentar de uma humana, para variar.
. . .
— Chapeuzinho? — chamou o lobo, e ela ergueu a cabeça. Havia algum tempo que ele a chamava assim, Chapeuzinho Vermelho, por causa da capa que usava. Ela adorava o nome. — Me diga uma coisa, estou curioso — falou ele enquanto ela mordia seu sanduíche. Tinha engordado desde que começara a vê-lo, mas ele sempre a elogiava, dizendo que parecia mais bonita à medida que ganhava peso. Ela o amava cada dia mais. — Como consegue vir tanto aqui, se sua mãe não gosta que chegue perto da floresta?
Ela terminou de engolir.
— Tenho uma avó que mora aqui perto — falou ela animada. — Sempre digo que vou visitá-la, e mamãe ficou ainda mais feliz quando comecei a trazer a comida. Ela mora sozinha, sabe, sem vizinhos por perto, e mamãe sempre está dizendo que vovó precisa de companhia e de quem faça alguma coisa por ela, e que fica feliz por eu ser tão corajosa e disposta a atravessar toda a floresta — contou a garota, abrindo um sorriso cúmplice para o lobo. Assim que olhou para ele, achou sua expressão estranha, mas logo depois ele a recompôs.
— Uma boa justificativa — concordou ele. Era aquilo o que ela gostava: ele nunca dizia que ela estava errada, nem a julgava. — Você é mesmo corajosa, voltando à floresta dia após dia, para encontrar um lobo que mal conhece.
Ela se encheu de vaidade. Cada elogio dele a deixava nas nuvens, e ela estendeu a mão para tocá-lo.
— Conheço seu coração — falou ela cheia de ternura. — Sei que não me machucaria.
O lobo sorriu.
— Sabe, gostaria de visitar sua avó — comentou ele, deixando a menina surpresa. Ele riu ante sua expressão. — Você está deixando de visitá-la para me ver, não é certo. Então posso acompanhá-la. Juntaremos as duas coisas.
Chapeuzinho se encheu de medo.
— Mas minha avó nunca vai aceitar você!
O lobo fez uma cara triste.
— Nem se você disser que sou seu amigo? Que você gosta de mim, que confia em mim?
O coração da menina chegava a doer. Ela o amava. Queria que ele fosse parte de sua vida para sempre. Mas o que diria a avó quando trouxesse um lobo para a casa dela?
— Eu... eu não sei — falou ela hesitante, incapaz de dizer não. — Não sei se daria certo... Eu...
— Tudo bem — interrompeu ele, parecendo muito chateado. Chapeuzinho sentiu-se culpada. — Já está mesmo tarde. Pode ir para casa, nos vemos depois. Eu... — e ele se levantou, dando a ela as costas. — Acho que vou dormir um pouco, estou cansado.
— Espere! — pediu ela, levantando-se também. Ele se voltou para ela e os dois se encararam. — Não... Não fique com raiva, eu...
O lobo abriu um sorriso triste.
— Não estou com raiva — tranquilizou-a. — Gosto muito de você, Chapeuzinho. Você foi a melhor coisa que já me aconteceu, mas parece que sua família acha que eu não faço bem a você. Vou respeitar isso, então vá para casa. Volte para me ver... Se puder.
Ele foi embora e a deixou ali com o coração cheio de culpa. Depois de juntar suas coisas, Chapeuzinho considerou se deveria chamar por ele e consolá-lo, mas de que adiantaria? Era verdade, sua família a proibiria de vê-lo se soubessem que eram amigos.
Ela pegou a cesta de piquenique que passara a carregar e foi andando de volta para casa, terrivelmente em dúvida. Deixar o lobo triste era mesmo uma alternativa melhor? Tudo o que ela queria fazer era protegê-lo, tinha certeza que a mãe não o aceitaria. Mas ele dissera que ela era o melhor de sua vida até agora. Aquilo enchera seu coração de alegria, e não podia ignorar uma declaração tão grande. Ele praticamente dissera que a amava, e ela queria fazer algo a respeito, mas o que? Ele queria conhecer sua família, que nunca o aceitaria, nunca. Ela sabia que a mãe o receberia com quatro pedras na mão.
Mas talvez a avó não fosse tão severa. Sempre fora uma senhora compreensiva, apesar de ter certa dureza. Talvez compreendesse. Se não, eles sempre poderiam fugir. Ela poderia aprender a viver da floresta, comendo frutos e raízes se necessário. Não se importaria, desde que vivesse com ele. E se ele a amava, ficaria triste pela reação da família, mas o sacrifício maior seria o dela, então ele aceitaria tudo para ficar ao lado dela. Sorrindo, Chapeuzinho deu meia volta e refez o caminho até a toca, ansiosa para se declarar e contar ao amado sua solução para ficarem juntos.
. . .
Na caverna, o lobo sorria diabolicamente. Uma avó! Por magra que fosse, junto com a neta daria uma refeição decente. Sim, era uma carne velha, mas fazer o que? O ideal seria a mãe, mais jovem e provavelmente não tão magra, mas ela e Chapeuzinho moravam num vilarejo, cheio de homens e armas, que o perseguiriam e o matariam se o vissem. Mas a avó morava sozinha. Se conseguisse atrair a menina para a casa da avó — e ele conseguiria, tinha certeza, depois de ver toda a culpa no olhar dela -, teria ali a refeição que precisava.
O lobo matou um coelho e comeu. Depois se aconchegou, satisfeitíssimo, à parece da toca, divagando:
— Primeiro a avó, depois a menina... O prato principal está sendo preparado — e ele riu. — Ela já engordou bastante. E vai me levar direto ao prato de entrada...
O lobo se espreguiçou. Um coelho não matara sua fome, mas o faria aguentar até que estivesse menos cansado.
— Ah, pequena do chapeuzinho, você foi mesmo a melhor coisa que já me aconteceu. Assim que você voltar, terei você e a vovó, e então você nunca mais vai reclamar da falta de um amigo — e ele arranhou o chão com as garras, fazendo um barulho alto. — Imagine só o sangue quente, escorrendo embaixo das patas... Maravilha — e ele cantarolou baixinho, rindo ocasionalmente, até adormecer:
— Eu sou o Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau, eu pego as criancinhas para fazer mingau...
. . .
Na entrada, Chapeuzinho tinha os olhos arregalados de horror. Ele queria matá-la! A ela e à avó! Ficou muito tempo ali paralisada, morrendo de medo de se mover e acordá-lo, até que seu coração partido substituísse seu pavor. Ele nunca gostara dela. Dissera que ela era a melhor coisa que já acontecera a ele, mas falava da boca para fora. Ela era apenas a comida. Surpreendia-se por ele demorar tanto tempo para decidir-se por matá-la, mas obviamente achava que ela sozinha não serviria nem para uma refeição decente. A dor foi tanta que ela desprendeu-se do chão e correu, chorando, pela floresta. Não queria mais vê-lo. Não aguentava nem pensar nele, e respirar era quase impossível em meio aos soluços, à correria e à dor em seu peito.
Ao alcançar os limites da floresta, ela chegou ao seu próprio limite. Chapeuzinho sentou-se no chão e abraçou os joelhos, apavorada. Teria ele coisas suas na caverna? Colecionava seus objetos, a seguia quando ia para casa? O terror a engolfava. Tinha que proteger sua família, a avó, a mãe, o vilarejo. Seria ele capaz de matar a todos? Ela apertou as costas contra a árvore. Queria conforto, mas ele fora seu único conforto. A menina estava sozinha.
Chapeuzinho olhou para trás, para a floresta, e teve uma sensação terrível de perda. Seus dias eram um amontoado de nada, a vida não tinha graça. Seus momentos de aventura estavam todos ali, em que ela corria para o perigo de braços abertos. A saudade durou pouco. Assim que o terror que a cegava foi substituído, ela percebeu que ele na verdade não se importava com ela. Se não sabia onde era a casa da vovó, nunca a tinha seguido. E ela não vira nada seu na caverna; ele se livrara de todos os presentes que ela lhe dera. O lobo não se tornara obcecado por ela; ele apenas fazia questão que ela voltasse, mas para conferir seu crescimento, para ver se ela já estava no ponto. Chapeuzinho sentiu um arrepio de desprezo. Ele mentira até mesmo no que não dissera. Nem sequer a achava atraente: era o objetivo final dele que o movia a fazer toda a encenação de carinho e preocupação. Ele provavelmente também estava entediado, e ela até o tinha divertido um pouco. Mas agora que a refeição estava completa, o jogo acabara. Simples assim, sem pesar, sem sentimento. Aquilo era muito pior que o terror: ela agora via que amava alguém que, tirando o fato de querer matá-la, era completamente indiferente a ela.
Assim que a imagem do lobo voltou à sua mente, a menina sentiu uma raiva desmedida, e sua única vontade era que ele sentisse tudo o que ela sentia naquele momento.Então não foi para casa de imediato. Alimentou a raiva, enchendo de ódio cada uma das lembranças com o lobo, e elaborou um plano. Matá-lo seria o mínimo necessário para proteger sua avó, mas não era o suficiente. Então decidiu agir sozinha, sem envolver os homens de seu vilarejo. Sabia que ele não a amava, então nunca seria capaz de sentir a mesma dor, mas chegou à conclusão que podia fazê-lo sentir um terror tão profundo que a deixaria satisfeita, e faria alguma coisa por aquele enorme desejo de vingança que era a única coisa que a preenchia agora.
Não tinha mais um pingo de medo; na verdade, sorria. Ele era a coisa mais interessante que tinha lhe acontecido; qual era o sentido de fugir? Aquela realidade era dolorosa, mas ela não tinha mais onde se esconder, porque seu único refúgio era o lobo. Não correria. Mesmo sabendo que quando ele morresse, ela voltaria ao nada que sempre vivera, e toda a garota crescida que se sentira morreria junto, ela aceitava, pela vingança. Se esse fosse o preço por jogar o jogo dele pelo menos uma vez, ela queria matar a menina que se tornara. Mataria junto o amor que a mudara, e também o amor que ele não sentia. Desde que isso lhe desse as cinzas de quem só lhe dera migalhas.
Quando abriu a porta de casa, a menina sabia o que fazer.
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