Agridoce

1 Vinho a dois


Notas iniciais
Escrevi com muito carinho, espero que gostem. Boa Leitura!

AGRIDOCE

Escrita por Coffee

Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce

1. Vinho a dois

As suas mãos suavam. Ela já havia secado-as na calça que usava e na barra de sua blusa tantas vezes que de minuto em minuto conferia se eles não haviam ficado ensopados também.

Suas mãos – além de suadas – tremiam, assim como suas pernas e o resto do seu corpo. Ela já havia checado a comida quinze vezes e a sua aparência onze. Sua boca estava seca, sua garganta aranhava e ela tinha aquela sensação de sufocamento.

Olhou ao redor, seu apartamento estava mais arrumado do que geralmente estaria, tudo estava limpo demais e organizado demais e ainda sim suas mãos continuavam a suar.

Seu coração batia tão fortemente que ela tinha a sensação que ele sairia do seu peito a qualquer momento.

Calma Sakura.

Respire fundo.

Um, dois, três.

Um, dois, três.

E lá foi ela novamente, na cozinha conferir sua preparação, havia uma toalha branca, duas taças vermelhas e os pratos brancos sobre a mesa. Sua comida estava descansando no forno para não esfriar, e os talheres estavam devidamente colocados ao lado dos pratos.

Ao voltar para sala encontrou um de seus livros sobre a mesa de centro, e correu para tirá-lo de lá o colocando na estante, e aproveitando o caminho para se olhar no espelho pela décima terceira vez.

E lá estava o sufoco garganta, a ansiedade, o nervosismo.

Calma, é só o Sasuke.

Somente Uchiha Sasuke.

Uchiha Sasuke vindo jantar na minha casa.

Ela podia desmaiar naquele momento, afinal seu coração não aguentaria por muito mais tempo. Ela iria enfartar se ele batesse mais rápido. E nem ao menos enviar chakra para lá estava resolvendo, afinal ela nem ao menos conseguia controlar seu chakra.

E ela olhou o relógio.

De novo.

E havia se passado dois minutos desde a ultima vez que olhara.

Respire inspire. Respire inspire. Respire inspire.

E então, no meio da sua falsa meditação ela amaldiçoou Naruto, afinal era muito mais fácil jantar com Sasuke quando o loiro e Kakashi estavam presentes.

É um encontro, idiota.

Sua mente lembrou-a. E mesmo assim ela xingou o loiro por tê-la deixado sozinha nessa. Afinal sem Naruto para fazer com que Sasuke interagisse o que ela falaria? Como o receberia? Sobre o que conversariam?

Sasuke nem ao menos conversava.

Ela devia dizer oi ou boa noite? Ou estou feliz por você estar aqui?

Qualquer coisa que ela pensasse lhe parecia patético ou ridículo.

Droga. Droga. Droga.

E enquanto praguejava a campainha tocou. Seu corpo paralisou e ela soou frio.

Ela quis correr para atender, mas suas pernas não saíram do lugar.

Como é mesmo que se anda?

Quando voltou ao controle do seu corpo – pelo menos era isso que pensava – andou tão apressada em direção a porta que seu pé se enroscou no tapete e ela cambaleou rumo ao chão, não o atingindo por ter colocado sua mão nele antes que todo o seu corpo o encontrasse.

Levantou-se depressa, abrindo a porta de supetão. E lá estava ele, tão bonito que ela se sentiu envergonhada.

Endireitou a coluna depressa e ajeitou os cabelos desgrenhados.

— Oi... Quer dizer, noite... boa é feliz você aqui... E...

O QUE? Tanto tempo pensando o que dizer para sair isso?

O QUEEEEEEEE?

Suas mãos foram instantaneamente para os cabelos, afagando-os assim como Naruto costumava fazer. Ela podia jurar que suas bochechas estavam coradas, e sua mente procurava palavras para concertar sua burrice.

Mas ao contrario do que pensou que aconteceria Sasuke não a chamou de patética. Ele acenou positivamente com a cabeça como se a cumprimentasse e sorriu levemente de canto.

Ela se esgueirou para o lado, como um animal assustado, e deu espaço para que ele entrasse em seu apartamento. Mesmo tendo um bom espaço na sala de estar, ela de repente pareceu pequena demais para os dois.

Ficaria muito estranho se eu saísse pela porta agora que ele entrou?

Ela o observou, com aquela admiração que sempre tinha, e viu que ele observava sua sala, o sofá claro, o abajur de pé ao lado do mesmo, a estante pequena demais para seus livros que se amontoavam até em cima da mesma, a mesa de centro com pequeno vaso de flores...

E sua garganta secou.

Como se respira?

— Estou feliz que veio.

Disse, depois de alguns minutos ensaiando mentalmente.

Ele recaiu seu olhar sobre ela.

E sorriu.

Ok. Minimamente, de canto, mas seu coração se aqueceu.

— Venha, vamos comer.

Andou até a pequena cozinha, com a mesa arrumada, esperando que ele a seguisse e foi exatamente o que ele fez a seguiu e parou em frente à mesa que ela havia meticulosamente preparado para essa noite.

Virou-se para pegar a comida no forno, e antes, apontou para a garrafa de vinho tinto sobre a mesa.

— Pode abri-la, por favor?

Perguntou, e continuou andando. Não que ela fosse uma daquelas mulheres que não tinham força para abrir uma garrafa, afinal, se sua própria força não funcionasse ela poderia muito bem aplicar um mínimo de chakra, e abrir, ou estoura-la.

Mas ela havia pedido para que ele o fizesse apenas para mantê-lo ocupado, afinal era embaraçoso demais imaginar ele a perseguindo com o olhar, observando seus movimentos.

Quando pegou sua refeição e a colocou pela mesa, observou-o já sentado, e os copos cheios. Notou o olhar dele sobre si e a bandeja tremeu levemente sobre suas mãos.

Ela o serviu primeiro, perguntando sobre a quantidade e o modo como queria os alimentos dispostos. E depois, ainda com tudo tremendo sobre sua mão, serviu a si mesma, embora tivesse certeza que não iria comer quase nada.

— Conversou com Tsunade sobre o braço protético?

Perguntou, depois de muito pensar, novamente.

— Sim, ontem.

Ele respondeu, entre uma garfada e outra.

— Mas ainda não decidi.

Acenou positivamente com a cabeça, com um sorriso triste.

— Não tem que ficar se punindo a vida inteira, Sasuke.

Desta vez, ele acenou com a cabeça.

— Como foi sua... Viagem?

— Cansativa, mas... Valeu a pena.

— Se sente melhor?

Ele acenou, enquanto comiam, e conversaram sobre a redenção, sobre experiências, e sobre banalidades.

E eles se entendiam, com poucas palavras, com tremedeira, com coração batendo rápido, com seus acenos de cabeça, com seus olhares, e com seu silencio.

Ela o entendia. Cada palavra, cada olhar.

— Vamos para a sala.

Ela disse, um tempo depois quando acabaram de comer. Ele olhou para os pratos vazios e tombou tão levemente a cabeça pro lado que ela tinha certeza que ninguém no mundo, além dela, entenderia aquilo.

— Eu lavo depois.

Respondeu. E mesmo contragosto ele se levantou, com aquela pose de Uchiha, com a coluna ereta e aquela postura perfeita, andando pelo seu apartamento pequeno como se tanta beleza e elegância em uma única pessoa fossem algo normal.

Ele se sentou no canto do sofá, e ela se sentou ao seu lado, não muito perto, envergonhada. E por mais que quisesse abraça-lo, aninhar-se sobre ele, manteve a distancia, para que não o deixasse desconfortável. Ela sabia muito bem o quanto ele estava se esforçando, em ter vindo ali, saído do conforto de sua própria casa, em ter respondido cada uma de suas perguntas...

E ela se sentia grata.

— E então...

Começou um tempo depois, sabia que suas bochechas estavam vermelhas, porque elas formigavam sem parar.

— Você... É... Vai voltar... Quer dizer, viajar novamente?

Sua garganta secou, e sua voz acabou saindo mais fina e mais desesperada do que esperava.

Inicialmente notou os ombros dele endurecerem e seu maxilar ficar tenso, e depois foi relaxando aos poucos sobre o seu sofá. E então a resposta finalmente veio.

— Vou ficar.

— Quer dizer, aqui? Não vai mais viajar, ou-

— Sakura – Ele a interrompeu pela primeira vez naquela noite.

Esperou pacientemente – ou pelo menos era o que achava – mas sua mão tremia, e suava, e seu pé tinha um tique em que ela não conseguia parar de balança-lo.

— Aqui é a minha casa agora.

Seu pé parou de se mexer imediatamente, e seu sorriso veio fácil. Acenou positivamente, feliz.

Ela queria muito dizer algo, expor sua felicidade, mas acabou por ficar em silencio, ela sabia que ele o entenderia.

Eles sempre entendiam um ao outro.

— Quer um café? Um chá talvez?

Perguntou alguns bons minutos – ou horas – depois, ela já não sabia.

Ele olhou incerto para o relógio na sua parede.

— Está tarde, devo ir.

Ele respondeu, e seu coração bateu triste. Levantou-se com ele, acompanhando-o até a porta.

— Obrigada por ter vindo.

Disse, quando a abriu e ele passou por ela. Ele acenou. E se aproximou.

Seus lábios se roçaram tão leves, tão doces.

E ele se afastou, viu-o descer as escadas, indo embora.

Seu coração ia – novamente – sair pela boca, mas ela ficou lá, encostada no batente da porta, sorrindo pelo leve roçar de bocas.

Ela entendeu.

Eles não estavam prontos para algo a mais. Ainda.

Era o suficiente.

Notas finais
Caso gostem, escreverei outros desses! Feliz Natal! Visite também: http://fanfiction.com.br/historia/579105/Falcao/