Agradável Ameaça
2 Cap. 2: Ameaça!
Notas iniciais
...
Ele era muito bonito e ao mesmo tempo muito irritado. Seus cabelos loiros caiam sobre seus olhos pretos como carvão, que espelhavam raiva. O encarei enquanto ele abria sua bolsa e conferia se não tinha quebrado nada. Assim que terminou, fechou a mesma e encarou o professor enquanto ele fazia a chamada.
-Mel Smart – chamou o professor.
Ergui a mão no ar ao mesmo tempo em que vários olhos viravam-se para mim, inclusive os do garoto ao meu lado. Acho que ele não havia percebido minha presença até àquela hora. Abaixei a cabeça, apoiando-a nas mãos até que o professor disse:
-Daniel Aslani.
O garoto ao meu lado ergueu a mão. O encarei perplexa. Ele era uma Aslani? Herdeiro das indústrias e condomínios Aslani? Ele voltou-se para mim e eu desviei o olhar. “Cara, ele é rico pra caramba!”, pensava.
O professor começou a aula tranquilamente. Observava ele falando e gesticulando coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Logo o sinal tocou. Peguei minhas coisas e sai porta afora, esquecendo de falar com o Daniel sobre o trabalho em dupla para próxima aula.
Estava no meu armário quando ele se aproximou.
-Precisamos conversar sobre o trabalho. – ele disse, calmamente.
-Claro. – respondi, indicando a ele um banco próximo.
Sentamos e eu logo peguei meu caderno para começar a anotar.
-Bem, o tema não é tão complicado assim, certo? – ele perguntou. Fiz que sim com a cabeça, recolhendo-me a minha insignificância de não ter entendido o conteúdo – Certo, então, podemos fazer um relatório e apresenta-lo semana que vem. O que acha?
-Por mim tudo bem. – respondi.
-Ok, na sua casa ou na minha?
-O que? – assustei-me.
-O trabalho. – ele respondeu, erguendo as sobrancelhas.
-Ah, na escola, depois da aula, quarta –feira – respondi.
-Ta bom. – ele disse, ao mesmo tempo em que o sinal tocava. – Tenho que ir, aula de português.
Ele se levantou e saiu. Fiquei sentada durante um tempo até que ele se afastasse. Levantei-me e segui para a sala 123, onde teria aula de geografia.
--------2 Horários Depois------
Estava sentada, observando os outros jogarem. Era aula de Educação Física. Sentia-me desconfortável, pois estava usando um micro-short. Assim que fui chamada, levantei-me e puxei o short o máximo que pude. Andava em direção ao meio da quadra enquanto meus cabelos presos em um rabo de cavalo balançavam atrás de mim. Como era vôlei, posicionei – me atrás da rede e preparei para acertar a bola.
Uma garota loira sacou a bola, que voou pela rede e foi atingida por outra morena, que a jogou para o outro lado. E assim, começou o ping-pong. Meninas se jogavam e acertavam a bola com o que podiam (mãos, braços, busto). Como era a primeira aula, a professora nos deixou jogar sem regras, então valia de tudo. Acertei a bola umas duas vezes quando a professora encerrou a aula.
Voltei para o vestiário, onde me despi e entrei de baixo do chuveiro. Era a primeira vez que tomava um banho quente.
Mas achei estranho nenhuma menina estar ali. Então percebi que estava no vestiário masculino. A diferença era obvia: era tudo azul ao invés de rosa. Quando ia saindo, vários garotos entraram muitos só de toalha. Voltei para dentro do box, desliguei o chuveiro e tranquei a porta. Enrolada na toalha, sentei-me e esperei.
Como eles eram repuguinantes. Muitos gritavam, outros xingavam... Argh!
-Gente, tem muita menina bonita aqui! — falou um. Meu estomago embrulhou.
-É, mais acho que o Daniel que se deu bem! – falou outro, vários riram.
-O que? – perguntou uma voz familiar.
Tapei minha boca. Era Daniel.
-Aquela ruiva. Vou te contar, ela é bem bonita! – falou outro.
Corei e mordi o lábio para não rir.
-Nada a ver. Ela só é minha parceira de laboratório, idiota.
-Sei, tomara que ela te ensine química! – falou outro, enquanto os outros riam.
Ouvi Daniel ser zombado até que outros saíram. Ele permaneceu lá, não sei por quê. Abri a porta deixando uma brecha para poder observa-lo. Ele não estava com o uniforme da aula e observava um medalhão. Vi seus olhos marejarem. Envergonhada, arrastei-me dali e segui para o vestiário certo.
-------Ao Final das Aulas------
Passei pelo meu armário logo depois que o sinal da última aula tocou. Larguei os livros no armário, tranquei-o e segui pelo corredor em direção ao portão. Quando estava quase ultrapassando este, senti uma mão tocar meu ombro. Virei-me e me deparei com aqueles olhos pretos cintilantes.
-Oi. – falou Daniel.
-Oi. – respondi. Ele estava me seguindo?
-Só queria te lembrar de amanhã.
-Ah, tudo bem. Vou falar com meu pai sobre isso. Então... vou indo.
-Você mora aonde?
-Bem longe daqui. – disse, olhando ao longe.
-Em um dos municípios?
-Sim.
Tentei desvendar sua reação: espanto, medo ou “ela é pobre?”.
-Nossa... – foi o que ele disse. Contendo-me para não revirar os olhos, respondi.
-Então, tchau.
-Tchau.
Virei-me e segui meu caminho direto para minha casa, ou pelo menos, era o que eu achava.
------Depois do Primeiro Ônibus-------
Estava atravessando a rua para poder chegar à parada. Esperei um minuto até que os carros cessaram. Passei por uma faixa, duas, e quando cheguei a terceira um carro parou em minha frente, bruscamente. Parei e o observei. Era preto e me lembrava uma vã. Um homem grande saiu da mesma, tapou meus olhos com uma touca e jogou-me dentro da mesma. Tentei gritar, mas minha voz não saia. Tentei chorar, mas as lágrimas congelaram. Logo, senti o carro entrar em movimento.
Não conseguia me mexer, pois ele havia prendido minhas mãos. Não enxergava nada, pois a touca era totalmente preta.
Passados muitos e longos minutos, o carro parou e fui arrastada para fora. Ainda presa pelas mãos, me carregaram para dentro de um local. Ouvi o barulho de portões rangendo ao se abrirem. Prisão? Conselho Tutelar? Não, meu pai era um ótimo homem e eu nunca havia roubado nada.
De repente, fui forçada a sentar em uma cadeira. Meus braços, já separados, foram novamente presos, mas desta vez nos braços da mesma. Tentava olhar através da touca, mas não conseguia enxergar nada.
Depois de alguns segundos, ouvi o ranger de portas. Depois de um sussurro, o barulho de uma pessoa sentando-se em uma cadeira, acho que na minha frente.
-Deixe-a me ver. – falou uma voz feminina.
Rapidamente, removeram a touca de minha cabeça. Pisquei algumas vezes para poder me acostuma com a claridade. Logo, eu a vi.
Uma mulher extremamente clara, os cabelos presos em um coque no alto da cabeça. Seus olhos cintilavam e seu sorriso brilhava intensamente. Seu vestido amarelo com um girassol no alto do busto a valorizavam. Ela era realmente linda.
-Olá, querida! – ela disse, sua voz soando como uma pluma. – Esta com fome?
Mãos apareceram em minha frente, cada uma com um prato ou comida diferente. Desconfiada, fiz que não com a cabeça.
-Ótimo. – ela disse, enquanto as mãos recolhiam-se. – Qual é seu nome, meu bem?
-Mel. – respondi, endurecendo a voz.
-Que nome lindo. Bem, como você esta Mel?
-Porque estou aqui? – perguntei, mudando de assunto e indo ao que me interessava.
Ela arrumou-se em sua cadeira, cruzou as pernas e disse, sorridente:
-Bem, antes de tudo, meu nome é Medelaine Aslani.
-Aslani? – perguntei, surpresa. Agora que ela falou, percebi uma semelhança entre seu rosto e o de Daniel.
-Sim, Aslani. – ela respondeu, orgulhosa. – Esposa de Marcos Aslani e mão de Daniel Aslani.
-Daniel? – perguntei, indiferente.
-Sim. E basicamente ele é o motivo de você estar aqui.
-Ótimo. O que quer: aulas particulares?
-Não, pago pessoas para isso. Mas, simplesmente pelo fato de você ter falado com ele. – ela fez uma pausa. – Sabia que você foi a primeira menina com a qual Dani falou intencionalmente?
-Foi por causo do trabalho.
-Sei, sei. Vocês conversaram sobre ele durante o intervalo, então, para que falar novamente?
Pensei em perguntar como ela sabia daquilo, mas a conversa já estava estranha demais.
-E?
-E que ele precisa de alguém mais próximo, se é que me entende.
-Não, não entendo.
-Bem, é o seguinte: cada vez que uma pessoa vai assumir tudo da família Aslani ela ou ele precisa se casar.
Epa, pra onde esta conversa esta indo?
-Então, precisamos arranjar alguém para Daniel, que, como já lhe disse, não se relaciona bem com mulheres... – ela franziu a testa. – Mas você, ele falou com você!
-Mas... – comecei.
-Não, uma simples “oi” já me basta. Logo, você já me basta.
-Esperai! Você não pode me obrigar! – cuspi.
-Sabia que você iria falar isso.- ela disse, seu sorriso desaparecendo. Ela se aproximou de mim e, bem próximo ao meu rosto, falou. – Soube que você mora no município 2, certo?
Congelei.
-Ah, a coragem evaporou. – ela disse, sorridente. – Então vamos fazer o seguinte: você pelo menos namora com o Daniel e eu não explodo sua maldita casa!
Encolhi-me. Sempre que vi a família Aslani eles pareciam-me tão... legais.
-Combinado?
Meus olhos marejaram, mas engoli as lágrimas. Não ia dar esse gostinho a ela.
-Certo. – sussurrei.
-Ótimo. Tragam o contrato.
Contrato? Como assim contrato? Rapidamente um pergaminho longo foi jogado ao chão, abrindo-se.
-Desculpe, tenho muito com que negociar. – ela disse.
Apontaram para a última transcrição do pergaminho. Tremula, peguei a caneta. Não podia assinar. Entregar minha vida de bandeja. Mas não tinha escolha...
Mel Smart
Rabisquei no papel.
-Maravilha. Agora repare no meu broche, vai precisar para suas instruções. – ela disse.
Olhei para o mesmo. Um coração Pink com uma flecha e uma flor. Ridículo.
-Instruções... – comecei.
-Levem-na.
E mais uma vez, fui carregada porta afora.
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