Ago(u)ra
73 Essa mentira de verdade, a luz clara do Sol
Notas iniciais
Eu me lembro de como eu via o amor há duas horas atrás, atravessando os quartos da casa e saindo pela porta da frente. O cachorro caminhava cansado pelo meu quintal, e eu sentia sono como sempre. Uma tarde antes, eu nunca teria cogitado a ideia de sair de casa no lugar de descansar, sóbrio, com a calma a cada segundo se aproximando. Aquela casa me estressa. Até hoje. Eu pensei que no dia em que as coisas mudassem, as minhas convicções também se evaporariam. Mas parece que não é assim.
Minha irmã devia saber, se possível por mim, que isso que ela admira tanto é como aquela punheta que passa despercebida pela memória, os quarenta segundos, e puf! A impureza desgovernada. E a culpa. E o remorso. E o desejo de esquecer. E a vontade de repetir. “Foi dado a nós o livre arbítrio” e para quê? Ninguém sabe usar, e ninguém tá se lixando pra isso. Essa ideia é vista como o paraíso, mas eu não saberia se o paraíso é o que faz admirar ou que te faz sorrir. Sorrir, se me entende. Eu não saberia de nada. Só sei o que induzem saber. O que eu deveria saber? Eu não sei.
Eu odeio não saber. E ela sabe muito bem disso.
O Sol me acaricia. Eu nunca sentia o Sol de verdade perto dela. Sol, Sol, Sol, Sol. Sempre em letras maiúsculas eu irei citá-Lo. É o que Ele sempre mereceu. E o que eu nunca devia ter dado a ela.
Espero, desde os doze anos, que você esbarre em mim sem querer, e deixasse suas folhas escorrerem pelos seus esguios dedos. Aqueles sonhos bestas que a gente tem. E mesmo no dia em que algo perto disso – perto longe – aconteceu, meu nome, pra você, era chacota. Sua pinhata. Você, tão fútil, e eu nunca vi, ou nunca fiz questão. A segunda opção resume tudo. E eu te aceitava, com o meu coração partido, a cada palavra que proferia a meu respeito. Eu nunca devia ter chorado. Eu nunca devia ter passado minhas tardes ouvindo “I don’t Love you”, me afogando em My Chem. Nos dias em que você olhou por cima da venda e encontrou a pinhata, eu passei a admirar o gosto único do mar que sai pelos meus olhos.
E todos os dias eu quero te encontrar. Assim, do nada. “Que tempão, hein?”, você diria depois de me chamar de idiota. Sem oi, nem olá, ou saudação alguma. “É, eu viajei”, eu responderia, com um oi oprimido já mais de mil vezes. Mas eu vivo a ilusão de que esqueci você. De que você pelo menos pensa em alguma coisa a meu respeito. Eu sei que você estava com o intuito de partir meu coração. Vi nos seus olhos. Mas você sabe como quebrar uma bola de cristal na hora certa. Mas eu acho que eu agora sou... o quarto? Quinto?
Foi Humberto, Tobias, Caio, Caio e eu. É, quinto. Eu gosto de tentar deixar uma marca na vida de algumas pessoas, e eu tentava isso sempre com você. Mas eu fui o quinto. Daqui uns anos a filha que eu sonhava ter contigo vai te perguntar: “Mamãe, quais os nomes dos teus namorados?” E eu aposto todo o meu dinheiro que você se esqueceria do meu nome. Mesmo comigo tendo te dado tantas coisas pra se lembrar. Eu aposto tudo que você ia esquecer.
Eu chego. Viaduto Santa Teresa. A batalha de rap estava correndo solta, e o cheiro da maconha dava pra sentir da Andradas, ali. Você sabe, perto da Serraria. Eu ficava lá contigo, e dizia que preferia uma roda de samba a isso. E você negava insistentemente, e me fez jogar meu dinheiro fora pra ouvir seu sertanejo de merda. E eu odiava cada som feito, mas eu acho que devia ser amor. E na tarde depois dessa noite você estava estranha. E nem estava perto pra me dizer na cara. Caralho, por computador? Não tinha modo mais desonroso não? Mas de quê adianta eu perguntar, se tu não vai ler. Não ia me responder mesmo. Não espontaneamente. Nunca houve uma resposta de verdade. Nunca houve um início, nem um fim pra ser justificado pelo meio.
Ela não disse oi, nem esperou eu me levantar pra se despedir.
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