Agonia
2 Torturado parte 1
Notas iniciais
–Tenho certeza que aquela vadia falou.
Tim presta atenção ao seu "futuro" torturador enquanto os jovens organizam seus instrumentos de tortura, que vão desde agulhas até as facas fabricadas especialmente para causar serias feridas em um Mutável Arbuser. Não é uma surpresa, afinal de contas Timothy é um Arbuser. Todos os outros Mutáveis ficam aterrorizados só de sentir os pulsos presos, imaginando-se completamente a mercê de seu captores. Tim os olha furioso fazendo uma promessa silenciosa de retaliação assim que conseguir sair dali.
–Gosto do seu senso de humor, Arbuser.
–Disponha.
Tim acompanha com os olhos todos os movimentos que o homem faz, notando pela primeira vez a total falta de pelos no corpo e a estranheza de seus olhos translúcidos. Exatamente da mesma maneira que os Colector* responsáveis por filtrar e classificar as informações de acordo com sua importância. Isso vai doer pra caralho... pensa ao ver que o homem pega uma faca reta testando a lamina em um dos dedos.
–Íamos permanecer com ela por mais tempo, sabia? O problema era que ela não era mais necessária...
Tim tenta ataca-lo, mas foi inútil. As correntes são novinhas em folha e resistentes como o diabo. Como a maior parte de todo o material que os Intensificadores usam esta corrente também tem seiva de Quintre* em sua composição. Umas poucas gotas tornam as correntes tão resistentes quanto Otsyk* e por isso são utilizadas para conter os Mutáveis mais fortes e perigosos. Tudo o que consegue da tentativa de atacar seu captor é um olhar de vitória do mesmo e pulsos avermelhados. Não dá pra fugir agora – pensa Tim com mais raiva que antes.
–Creio que pode ver em primeira mão, não é?
O olhar de expectativas pela chance de torturar o Intensificador que chegou perto de executar a lei sob eles junto ao prazer de quebrar o inimigo traz uma satisfação além de qualquer outra tortura já praticada ali. A admiração não disfarçada em seus rostos faz os olhos azuis renovarem sua promessa de retaliação e ódio.
–Quem lhe disse onde procurar, Arbuser? – pergunta fazendo um grande corte pelo tronco de Tim, uma demarcação para começar o estrago em diagonal. — Sou forçado a admitir, foi o que chegou mais perto de me capturar. E isso me intriga.
O corte foi profundo o suficiente para alcançar a camada muscular, a dor que a ferida causa faria qualquer coração fraco dizer tudo o que querem saber. Tim, ao contrario dos outros, esta completamente alheio ao corte em seu corpo. Não é que ele não sinta a dor, simplesmente se recusa a sofrer pelo corte fresco infligido contra sua pele. Perceber os cortes não o ajudará a sair dali, sentir a dor só vai dar o que ele quer e Tim não deseja fazer isso da maneira mais fácil. Seu inimigo sabe disso tão bem quanto ele.
–Que pena... – o sarcasmo em sua voz faz seu captor se sentir extremamente diminuído.
Toda a admiração que deixara transparecer foi substituída por raiva. Mais cortes foram furiosamente desferidos contra seu corpo, no entanto Tim não demonstra estar sentindo nenhum deles.
–Talvez isso refresque sua memória um pouco. — diz fazendo outro corte profundo.
Tim não demonstra conhecimento da ferida em seu corpo, o que deixa seu torturador com raiva. Ele pega uma das facas curvadas em “J” e abre ainda mais o primeiro corte que fez em diagonal. Ainda sim, tudo o que viu foi um sorriso sarcástico de sua suposta vitima. Isso o deixa furioso pra caralho.
–Vamos tentar de novo, que tal? - pergunta com um tom sarcástico.–Quem lhe disse onde procurar, Arbuser? Quem?
–Estava fazendo alguma coisa antes?– pergunta o Instituidor, curioso. -Por que eu só sinto cocegas...
O torturador afasta a pele e a camada muscular, para ter acesso à camada gordurosa que reveste os órgãos. Ele corta a gordura de sua posição original e não vê uma reação de dor da parte de Tim. O sangue arroxeado do Arbuser escorre dos cortes formando uma poça no chão, os braços ficam pálidos e as pernas começam a fraquejar, no entanto o Arbuser ri como louco. Sua mente encontrara refugio em uma lembrança relativamente feliz para afastar-se da dor de suas feridas e protege-lo de si mesmo. A dor pode fazer um Mutável dizer tudo que o interrogador deseja saber e Tim não pode entregar a pessoa que lhe deu a informação.
...
“Estamos no ginásio dos Intensificadores, onde um grupo de mulheres pratica seus movimentos enquanto as mais jovens se alongam. O alongamento visto de onde estou é simplesmente o céu, traseiros redondos e durinhos, coxas definidas, seios redondos quase escapando dos tops e das regatas quando elas alongam a coluna... Deixei escapar um suspiro, olhando-as com desejo. A melhor tarde da minha vida, pensei com um sorriso cheio de intensões.
O ginásio é organizado por: espaço acolchoado para treinos corpo a corpo e sacos de cascalho na área norte; alvos e treinamento armado na área leste; treinamento de sentidos e habilidades na área oeste e confecção de objetos necessários para o seu cargo (o que pode ser desde as armas até aos okular recorder, tudo que o empregado vai usar para fazer seu trabalho) na área sul. No meio do ginásio tem um ringue para as disputas de cargos dentro dos departamentos. Hoje o treinamento será na área norte por que é a unica parte que falta pra elas completarem o básico e serem direcionadas aos outros departamentos.
Jaks me chamou para ajuda-lo com suas alunas iniciantes, fazendo uma demonstração de combate corpo a corpo. Claramente ele se esqueceu de dizer que este ano as garotas são realmente gostosas.
–Jaks, quem é aquele morango ali? – perguntei assim que chegamos ao ginásio, apontando para a garota loira do grupo que está se alongando sozinha.
Cara, isso é sacanagem! Este filho da puta passa todas as tardes neste harém? Como é que ele consegue este “trabalho de Deus” enquanto o resto de nós esta pondo o rabo em risco para manter todo mundo a salvo? Isso não é justo!- pensei, sem tirar os olhos da garota loira.
–Aquela é a Bluesky. Se formou há alguns meses, ainda não completou o treinamento em combate.
–Por quê?
–As pessoas ficam meio distraídas perto dela. Tipo você, agora.
Merda, ele tinha que notar... pensei revirando os olhos.
–Jaks, ela é uma viagem que estou disposto a encarar. –disse com um sorriso malicioso. –Mal posso esperar para prova-la...
–Eu também quero provar aqueles morangos...
Ouvir o comentário dele me deixou irritado, serrei os dentes para me impedir de surra-lo. Ele não vai tocar um dedo na minha mulher, pensei fechando os punhos com força.
–Afaste-se devagar. Ela é minha. –diz com um olhar de poucos amigos.
–Tim se acalma cara.
Ah merda! Eu não disse isso, não é? pensei, olhando com o mesmo choque com o qual ele me encara a alguns constrangedores minutos. Arbusers somente tem uma companheira real em toda a sua vida, e aquela simplesmente não pode ser a minha. Eu só vi a vadia uma vez e já fiquei todo territorialista? Tenho que sair daqui...
–Desculpe, não sei de onde essa porra veio. Não vou fingir que não aconteceu, mas não faço a mínima ideia de onde veio...
Jaks engoliu a minha “desculpa”, deixando uma mão confortadora em meu ombro. Aquilo deve acontecer muito ao redor dela, pois ele não relaxaria tão rápido. Ele é um Colector, instintos são um modo de vida para eles.
–Não se preocupe. Todo mundo fica assim quando ela está por perto. Por isso não tem homens na turma. Imagina o caos que seria?
Ele ri, mas posso imaginar a cena com clareza. É a turma se perderia fácil.
–Você não é afetado...
–Tenho a minha garota, cara. Por isso fui escolhido pra essa função. –diz dando ombros.
Pensando por este lado, ele é a única escolha dentro do departamento capaz de treinar este harém sem acabar se perdendo. Colectors são fieis jamais se soube de um que cometeu um ato de traição e acho que não o farão agora.
–Por que merda estou aqui então?- perguntei sério. — Obviamente sou afetado por ela.
–Verdade. Você consegue manter o foco nas situações inusitadas. -comenta dando alguns tapas fortes em minhas costas. — E outra: Foi o chefe quem mandou ”.
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Rysa ouviu a última gravação no okular recorder de Tim e tenta ao máximo reconhecer a voz daquele que o levou. Não era do suspeito que vigiavam, tão pouco era desconhecida. Algo está muito errado, pensa deixando os objetos de Tim cair sob a mesa. Uma merda muito seria aconteceu ali e ela não para de se culpar. Se tivesse feito o que ele queria... nada disso teria acontecido.
Rysa esta tão concentrada que não escuta a aproximação perto dela. Em seus anos como parceira de Timothy, esta é a primeira vez que sente como se voltasse suas costas para seu parceiro. Jamais dê as costas a alguém que deveria andar a seu lado, filha. Isso é imperdoável dentro dos seus costumes familiares.
–Agora já é tarde... -murmura apoiando a cabeça nas mãos.
–Com licença, Intensificadora Rysa? — a voz de um jovem chama sua atenção, como se não quisesse interrompe-la. — Aqui estão os relatórios dos Arbuser que investigaram a área e o dos colector que investigaram todos os suspeitos gravados nos okular recorders...
–Obrigada Zkrair.
Rysa sequer olhou o jovem que lhe trouxe os relatórios, sua mente esta totalmente focada em encontrar o seu parceiro antes que o criminoso comece a cultivar oplak no corpo dele. No momento é só isso que importa, pensa ela folheando o relatório do Arbuser e pulando direto para o interrogatório. Todos sabem que ela tem uma queda por seu parceiro de trabalho e o único motivo pelo qual Tim não vê é por que ainda pensa em sua esposa morta. Um desperdício, mas ela não pode fazer nada ainda. Levaram uns 5 minutos pra ver que Zkrair ainda esta ali aguardando algo em vez de prosseguir com seu trabalho.
–Hei, Rysa. Olhe aqui... — pede colocando uma mão sob o ombro dela. Após alguns minutos de hesitação, ela o olha nos olhos para ouvir o que ele tem a dizer.- Nós vamos achar o Tim.
–Esse não é o problema Zkrair.
–Então por...
–E se for tarde demais? – pergunta ela, a voz carregada de tristeza.
–Todos estão fazendo... -começa o jovem, mas é interrompido.
–Tudo ao alcance. Sim já ouvi o discurso do chefe. E se não for o suficiente?
O que acontecer com ele é minha culpa... Rysa deixa suas lágrimas escaparem por um instante, sem fazer barulho ou alarde por estar deixando sua tristeza preenche-la por aquele instante. Minha culpa, minha culpa...
Desde que se afastara da arvore para entrar na casa que Tim obviamente não queria entrar, sentia como se um pedaço de si mesma tivesse ficado pra traz. Um vazio que não existia antes e que agora a oprime com força. Zkrair a abraça meio sem jeito, para dar a ela a chance de esconder seu rosto em sua camisa caso ela não queira que os outros a vejam chorar.
–O sumiço de Tim pode ser por um motivo completamente diferente do qual esta pensando agora, sabe disso né?-comenta o rapaz, vendo o olhar de confusão e esperança no rosto marcado por lagrimas que o encara. — Pode ser um caso antigo, afinal seu parceiro não é conhecido pelo seu "tato social"...
É isso! Tem que estar envolvido com o caso de oplak, ou não levariam apenas Tim.
Zkrair deixa a frase morrer ao ver que ela teve uma ideia. Rapidamente ela afastou dele e começou a rabiscar números em uma folha de papel e a estendeu.
–Consiga esses arquivos para mim. -diz espalhando uma pilha de papeis sob o chão.
–Rysa, no que esta pensan...?
–E traga tudo o que temos sobre as outras vitimas do caso Oplak. -pede retornando sua atenção ao relatório em suas mãos. -Acho que sei por onde começar.
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–O que acha do arbuser?
Ambos trocam um olhar curioso, vendo o quanto se parecem. Ambos tem pouco mais de 1,70 m, olhos castanho fosco e cabelos verde canário. Ambos ainda possuem corpo de adolescente, podem ser diferenciados por que um dos dois tem uma cicatriz de 5 cm na bochecha esquerda. A unica herança que receberam de seus pais antes de serem abandonados. O que não possui cicatriz fora nomeado de Lotch, uma maneira irônica de seus pais lhe dizerem que ele é o gêmeo defeituoso e não seu irmão Foirf. Foram resgatados por um estranho careca que exigiu obediência em troca de comida e conhecimento. Uma oferta que não puderam simplesmente deixar de lado, afinal poderiam morrer de frio e fome nas ruas .
–Este filho da puta ta durando tempo demais. — resmunga Lotch, pegando outro objeto descartado pelo chefe.
–Tenho que tirar o chapéu, Timothy. –diz o líder, admirado. — É o primeiro que dura tanto tempo.
Tim faz um pequeno inventario das feridas pelo seu corpo antes de abrir os olhos. Grandes cortes paralelos pelo tronco, braços e pernas. Todos bem profundos e extremamente dolorosos, com uns fios saindo de dentro de cada ferida. Isso não será nada bom, pensa ao abrir os olhos. E o que viu fez sua expressão plácida ficar assustada.
–Ora, mas quem diria... posso ver que reconhece isso. –diz colocando o objeto quadrado perto dos fios que saem das feridas abertas.
Conecta todos os fios que saem do tórax de Tim ao objeto quadrado com uma lentidão surpreendentemente apavorante. Aos poucos notou apenas o vermelho das paredes, respirando para ganhar o controle de sua própria mente e sentindo o pavor do que vai acontecer. Porra devia ter previsto isso... pensa Tim, conseguindo demonstrar a calma que obviamente não sente.
–Visto que durou tanto tempo, acho que merece saber quem esta fazendo tamanho trabalho de arte em seu belo corpo. — o sarcasmo em sua voz nutre ainda mais a raiva de Tim. -Chamam-me de Berkano.
E essas foram suas ultimas palavras a Timothy antes de ligar o ultimo fio a bateria e eletrocutar seus órgãos por alguns instantes. A dor foi além de tudo o que já sentiu na vida, seu grito de dor foi como balsamo para Berkano.
–...Isso deve doer! -murmura Foirf virando o rosto.
–Ainda bem que ele ta do nosso lado.
Tim tenta se livrar daquilo se sacudindo, forçando as correntes para todos os lados desesperado. Tenho que sair daqui... A agonia de ser eletrocutado sem poder fazer nada para evitar, só torna seus gritos cada vez mais altos. E o sorriso de felicidade de Berkano fica cada instante maior enquanto ele aumenta a voltagem.
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