Agilidade

28 Capítulo 28 - Quais são seus piores medos?


Perspectiva de Mary

A perna de Mary estava doendo muito e ela estava desesperada para fazer essa dor passar. Só tinha um problema: A única pessoa ali que podia curar os outros, estava se segurando para não enforca-la.

Ser rebelde não era tão legal quanto Sam a fizera acreditar. Principalmente se uma perna machucada é o que se ganha de bônus. Ah, ela não deveria ter feito isso.

— Vocês não são só adolescentes irresponsáveis — Ilithya falou friamente enquanto analisava os ferimentos.

Enquanto dormia, Mingau murmurou alguma coisa que soou como “pudim”.

Mary desejou secretamente que Ilithya falasse algo como “Vocês são irresponsáveis, mas são corajosos. Mataram um monstro, sozinhos.”. É claro que ela não falaria isso, era pedir demais.

— Vocês são imbecis — A feiticeira suspirou e se sentou em uma pedra — Até compreendo esse desejo de querer mostrar que podem matar um monstro, já fui adolescente, sei como é querer chamar a atenção. Mas vocês são idiotas. Por que não levaram o gato?

Sam ficou vermelho, Mary não o julgou, por que sentiu suas bochechas queimarem.

Parabéns, Mary, ela pensou, até a sua professora acha que você é idiota.

— Oras, Ilithya... er... — Sam ficou tempo demais pensando em uma resposta — Nós queríamos mostrar que podíamos matar um monstro , sozinhos. Se levássemos Mingau, ele iria matar o monstro sozinho.

Ilithya analisou a camiseta ensanguentada e rasgada de Sam.

— Acho que acertou o fígado.

— O que? — Sam piscou.

— A garra do bichinho acertou seu fígado. Acho que você tem uns cinco minutos de vida. Não é divertido? — Ilithya riu — E você, Mary, que decepção, pensei que você era mais inteligente que isso. Aposto que o corte na sua perna poderia deixar você aleijada pela vida inteira.

Ilithya podia ser fria, calculista e má, mas temos que admitir que ela era mestra na arte de assustar as pessoas.

— Cinco minutos? — Sam parecia incrivelmente pálido agora.

— É, você sabe como é, hemorragia interna. Pode doer bastante — A feiticeira sorriu.

Mary torceu para que ela estivesse brincando. Mesmo.

Sam tombou no chão de joelhos. O elfo parecia incrivelmente pálido e um filete de sangue escorria pelo canto dos seus lábios. Mary se ajoelhou no chão ao lado dele e evitou que ele batesse a cabeça na pedra, apesar da sua perna queimar enquanto ela se abaixou. Não, Ilithya não estava brincando.

— Sam? — Mary sussurrou.

Ilithya suspirou dramaticamente.

— Pois é, eu estava certa — E ela parecia muito satisfeita com isso — É um milagre ele ter aguentado andar até aqui e ficado de pé esse tempo todo. Quando chegar em casa, vou pesquisar mais sobre a resistência dos elfos. Acho que estou ficando desatualizada.

Mary olhou para a camiseta dele. Estava ensopada de sangue. Ela se amaldiçoou por não ter levado isso á serio. Sam não estava bem, Mary não era médica, mas era esperta suficiente para perceber quando alguém estava se segurando para não chorar de dor. Ela abraçou o elfo, embora com cuidado para não encostar no ferimento.

— Ilithya?

— Hum?

— Você pode curar ele? — Mary sentiu os olhos dela queimarem e rezou para não estar chorando de desespero.

— Ah, não sei se quero fazer isso — Ilithya sorriu — Vocês saíram para caçar monstros, á noite, enquanto eu dormia. Agora lidem com as consequências.

Eram consequências cruéis.

— Por favor... — Mary estava prestes a implorar.

Então Ilithya começou a gargalhar tanto que quase caiu da pedra.

— Sério que você acreditou nisso? — Ela enxugou os olhos — Eu devo ser uma atriz brilhante, talvez eu tenha algum futuro em Hollywood. Não sou fria e cruel o suficiente para deixar uma criança morrer na minha frente. Embora ele seja uma criaturinha irritante.

Mary não sabia se chorava de alivio ou se tentava matar Ilithya.

— Você vai curar ele?

— Não, eu vou jogar ele em um tanque de tubarões.

Ilithya se ajoelhou ao lado do elfo caído e pousou as mão ao lado do corte. Mary não percebeu nada de diferente, nem uma luz brilhando e nem fogos de artificio, mas a pele de Sam começou a voltar a tonalidade normal e em pouco tempo, olhos da cor da grama estavam encarando ela.

— Pronto — Ilithya tirou a mão e onde tinha um corte antes, agora era apenas um cicatriz fina — Salvei a vida de um elfo irritante. Não me faça arrepender disso, Sam.

Depois, Ilithya colocou a mão na perna machucada de Mary. Uma sensação estranha, como se tivesse levando um choque de cem volts, percorreu a perna dela. Ela podia ver a magia de cura trabalhando na perna dela, o sangue parando de escorrer e a pele se juntando.

— Ótimo, os dois tem trinta minutos para descansarem — A feiticeira falou e se deitou no chão, aparentemente, magia de cura a cansava — Por que estou sentindo uma presença se magia, e não está muito longe daqui. Temos que chegar lá logo.

[...]

Descendentes de deuses poderosos podiam sentir magia á distancia. Desde que Ilithya chegou lá, ela estava guiando Mary e Sam na direção daquele foco de magia que ela acreditava que era onde Rowena estava aprisionada. Mary não sentia nada.

Bom, pelo menos ela não sentia nada até agora.

Não tinha nenhuma mudança no ambiente, as árvores continuavam as mesmas, havia pedrinhas no chão, grama e barro em certas partes. O céus continuava limpo como não existisse nuvens. Mas ela sentia algo diferente. Como se estivesse uma eletricidade no ar.

— Está sentindo isso? — Sam perguntou — Ou é um efeito colateral de quase morte?

Mary riu.

— Estou. E Sam, eu poderia apreciar se você não me desse um susto deste nunca mais.

O elfo corou e sorriu. Sam ficava incrivelmente bonitinho quando corava. Não que Mary fosse admitir em voz alta.

— Hum... mas gosto de te assustar. Se toda vez que eu quase morrer, você me abraçar, posso me sentir muito tentado a sair pulando telhados por aí.

Ilithya, que estava caminhando na frente deles, revirou os olhos.

— Parem de flertar, já estamos chegando.

Alguns metros á frente, tinha uma mulher deitada no chão. Ela era jovem, cerca de uns vinte e dois anos, no máximo. Os cabelos dela eram tão loiros quanto os de Trivia e a pele dela era pálida como porcelana. Não estava morta, pois estava respirando.

Essa devia ser Rowena, a mãe de Trivia.

O chão estava barrento por causa da chuva, mas ao redor de Rowena, a terra estava firme e seca, formando uma circunferência. Apesar de estar ventando, os cabelos platinados não se moviam.

Ilithya olhou ao redor. Mary sabia o que ela estava procurando: Monstros, demônios ou qualquer coisa que fosse o guardião do corpo da mulher.

— Está fácil demais — Ilithya avisou — Tomem cuidado, por que...

Mal deu tempo dela concluir a frase. Tudo escureceu.

Perspectiva de Ilithya.

Ilithya odiava o escuro. Odiava não poder ver um palmo a sua frente.

Uma risada ecoou pelo lugar. Não era uma risada de filme de terror, muito menos assustadora, mas foi o suficiente para Ilithya sentir como se suas veias tivessem virado água gelada. A risada era suave e rouca, mas o pior de tudo era que ela conhecia aquela voz.

E ela queria matar o dono daquela voz. Mas não se pode matar um deus.

— Érebo — ela murmurou o nome dele como se fosse uma praga. Talvez fosse mesmo — Pare com seus joguinhos.

A risada ecoou novamente, e ela quis quebrar os dentes dele.

O local se iluminou subitamente, e Ilithya estava em um salão. O piso era mármore dourado e as paredes eram de pedras negras com fiapos de bronze adornando-as. A estrutura interna era semelhante à de um templo grego de antigamente, e havia um trono no final do salão.

O trono era feito de mármore negro e havia entalhes em ouro percorrendo toda sua extensão. É claro que tinha ouro, Érebo adorava ouro.

— Gosta da minha casa? — Ilithya o escutou falar, bem atrás dela.

Não foi surpresa nenhuma quando ela se virou e Érebo estava bem atrás dela.

Os olhos e o cabelo dele eram tão dourados quanto o ouro que adornava o trono. Ilithya adoraria arrancar os olhos dele, e adoraria mais ainda se arrancar o sorriso dele viesse como bônus.

— Vá se foder — Ela falou em alto e bom som. Séculos atrás, ela jamais falaria palavras tão grosseiras, mas Érebo a fazia perder a paciência.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Aimée sempre me disse que você era educada e polida. Ela deve ter se enganado.

O pouco de paciência que ela tinha, evaporou. Ela bateu os punhos no peito dele com toda a força que conseguiu.

A praga nem se mexeu.

— Não ouse dizer o nome dela! Você não tem o direito de falar qualquer coisa sobre minha irmã! — Ilithya tentou dar um tapa no rosto dele, mas o deus se desviou — Você a iludiu e matou ela.

Érebo lançou um olhar cético para ela.

— Eu não matei Aimée. E não ouse dizer que a iludi.

Ah, se ela pudesse matar um deus. Ela só tinha o visto três vezes e o odiava. Na segunda vez, foi no funeral da sua irmã... Na primeira, ela o viu entrando no quarto de Aimée e agora era a terceira.

— Você deu aquele maldito vaso de presente de aniversário para ela — Ilithya disse, se recompondo — Indiretamente ou não, você é o culpado.

Então Ilithya se lembrou da primeira vez que o viu. E se ela soubesse todos os problemas que o deus da escuridão ia causar na sua família...

E talvez esse “E se...” fosse pairar eternamente sobre ela.

Era inverno e Ilithya sempre gostou do inverno. Principalmente por causa dos chocolates quentes que Aimée fazia. Bem, ela não fazia necessariamente, mas comprava de uma loja e se recusava a falar que loja era. Era tão típico dela.

Então, Ilithya foi visitar Aimée. Por mais chata que ela fosse, ainda era sua irmã.

Era a ocasião perfeita, Aimée tinha deixado Vanessa, que era um bebê de dois meses, com a babá e Gideon, o seu cunhado idiota, estava viajando para algum lugar na china. Seria tão bom poder sentar com sua irmã enquanto bebiam chocolate quente e conversar sobre seriados. Uma coisa banal, pelo menos. Administrar o Campo de Treinamento estava a deixando neurótica, sem brincadeira.

A mansão Kroell estava vazia e Ilithya entrou nela sem bater, já que a porta estava aberta.

Não tinha nada demais nisso, claro. Não que ela fosse prever o que iria acontecer.

Já na frente do quarto de Aimée, Ilithya estendeu a mão para abrir a porta, mas a porta se abriu antes da mão dela chegar até a maçaneta e um loiro saiu do quarto da sua irmã.

Ele era bonito, senão perfeito. Os olhos eram como ouro derretido, do mesmo tom que o cabelo. A pele era impecável e pálida. Os traços do rosto eram perfeitos, e ele era alto e tinha um corpo escultural. Ele tinha cerca de vinte e cinco anos no máximo.

Mas não foi a beleza dele que deixou Ilithya sem ar. Foi a aura dele.

Ás vezes, Ilithya conseguia medir o nível de poder de alguém, quase como uma aura. Descendentes de deuses fortes davam uma sensação de eletricidade no ar. Mas quando ela viu aquele homem, foi como se um raio tivesse caído na cabeça dela.

Ela tinha sentido isso só uma vez na vida, quando esteve perto de Perséfone. E essa aura nele era dez vezes maior.

Não, não era só um deus menor.

Mas ela não se importou muito se era um deus ou não, empurrou ele para o corredor, entrou no quarto da sua irmã e trancou a porta.

— Aimée Lowe — Ilithya nunca se acostumaria a chama-la de Aimée Kroell — Você pode explicar por que tinha um deus no seu quarto.

E quando Ilithya percebeu que Aimée estava nua debaixo dos lençóis, bom, ela percebeu que o deus não foi lá para tomar chocolate quente. Definitivamente não.

Aimée revirou os olhos negros.

— Acho que você percebeu o porquê.

É, estava bem óbvio o que ele foi fazer. Aimée se enrolou nos lençóis e entrou no closet. Se Aimée fosse uma feiticeira, era só estralar os dedos e a roupa apareceria. Mas ela nasceu uma vampira por que puxou o pai dela, e Ilithya nasceu feiticeira, embora Aimée tivesse poderes relacionados a telecinese e fosse boa em criar escudos invisíveis.

— Então, ele era quem? — Ilithya perguntou enquanto se esparramava na cama da irmã. É obvio que ela tirou os lençóis de lá, já que não sabia o que os dois tinham feito nos lençóis — Apolo? Zeus? Poseidon?

Aimée saiu do closet rindo.

— Você percebeu que ele era um deus? — Era mais uma afirmação do que uma pergunta — Wow, seu radar não falha, irmãzinha.

Ilithya sorriu com o elogio.

— Era Érebo.

Ilithya quase caiu da cama.

— Um primordial?

— É.

Elas ficaram paradas por alguns segundos, se encarando. Bom, no mínimo, pegar sua irmã em flagrante com um deus primordial, é no mínimo embaraçoso.

— E Gideon? — Ilithya falou, indo direto ao ponto — Anos atrás, quando vocês se casaram, você disse que amava ele.

— Gideon me traiu — Aimée falou com um frieza surpreendente. Nem triste e nem com raiva — Aí resolvi que seria legal colocar uns chifres nele também. O que você acha que ele foi fazer na China?

Essa era Aimée. A falta de sentimentos era substituída por sarcasmo.

Aimée se jogou na cama, fazendo as madeixas negras se espatifarem pelo travesseiro e riu.

— Bom, ele deu sorte de eu não ter resolvido castrar ele.

Ilithya resolveu encerrar o assunto. Se sua irmã estava chifrando o marido, não era da conta dela.

— Vanessa é filha de Gideon?— Ilithya tentou soar normal. Havia várias histórias que diziam que a próxima filha de Érebo seria Trivia reencarnada. E Ilithya não queria ter uma feiticeira histórica e psicopata na família.

Aimée fez um gesto de desdém.

— É sim — Ela suspirou — Só comecei a dormir com Érebo duas semanas atrás.

Bom, a bebê tinha dois meses. E era uma vampira, não uma feiticeira. Ilithya estava satisfeita em saber que não tinha nenhuma feiticeira psicopata na família — além dela mesma.

— Ah, dane-se minha vida sexual — Aimée riu — Vamos tomar um chocolate quente?

Ilithya iria sempre sentir falta de Aimée, do humor negro dela e do jeito impetuoso dela. Meses depois Aimée teve outra criança. E graças aos deuses, era um menino vampiro. Ilithya não se importava se era filho de Gideon ou de Érebo, não era uma feiticeira psicopata, e isso já bastava.

Se ela soubesse que Trivia viria para Rowena, ela não teria ficado tão preocupada com Aimée.

Aimée. Era impossível não lembrar dela, não lembrar das suas piadas e seu sarcasmo. As vezes Ilithya sabia que Vanessa estava pulando a janela do seu quarto para fazer coisas indevidas e pensava, “Isso é tão... cara da Aimée”. Ela via Alec fazendo piadinhas irônicas e lembrava da mãe dele.

E o pior de tudo : Ela nunca mais iria tomar chocolate quente com sua irmã. E a filha da mãe morreu sem dizer onde comprava o chocolate quente.

E era tudo culpa daquele maldito deus que estava na sua frente.

Se ele não tivesse dado aquele vaso de presente, o vaso nunca teria se quebrado e libertado aquele monstro que matou Aimée.

— Sabe o que é mais engraçado de tudo — Érebo falou, quebrando o momento de lembrança de Ilithya — Parece que as mulheres da sua família sentem uma atração irremediável por deuses. Aimée, e agora sua sobrinha.

Ilithya fez uma nota mental de ter uma conversa com Vanessa sobre nunca aceitar vasos de deuses, por mais bons que eles fossem na cama.

— Olha, Érebo, por que você não vai para o inferno?

— Não dá — Ele olhou para ela com desdém — Aimée era muito mais simpática que você.

Isso era até engraçado. Aimée podia ter um senso de humor negro que era engraçado, mas nunca poderia se referir à ela como simpática. Ilithya era a delicadeza e a simpatia se fosse comparada à Aimée que era tão fria quanto o inferno de Dante.

— Eu estava até pensando em poupa-la das visões que o escudo causava — Ele sorriu — Mas não. Pode se divertir com seus maiores medos. Só um aviso: Às vezes, eles viram realidade.

[...]

Ilithya não estava mais no maldito salão de Erebo.

Era um quarto luxuoso e dava para perceber isso só pela porta, piso e parede. O piso era de mármore negro e as paredes eram brancas, provocando um contraste quase alucinante. Ela estava de frente para uma porta preta de mogno.

E então ela se virou, por que encarar uma porta não era divertido.

E se ela soubesse, teria preferido ficar encarando a porta pela eternidade.

Raphael estava deitado em uma cama king-size, e parecia dormir tranquilamente. Mas ele não estava dormindo. Tinha um punhal cravado no seu peito.

Ilithya se controlou para não se desesperar ou começar a chorar. Não... aquilo não podia estar acontecendo. Ela tinha perdido seus pais, Aimée e agora isso.

É só uma visão idiota. Só isso. É Érebo brincando com a minha mente. Isso não vai acontecer. Nunca.

Notas finais
Sei que vocês querem me assassinar pela demora. Mas eu fui viajar e esqueci da vida. E então? O que estão achando da história?