Agilidade

12 Capitulo 12 - Ataque


Eu estava me sentindo o máximo, afinal, tinha descoberto o assassino e ele ainda confirmou que estava certa. Aí a criatura sumiu.

— As Parcas estão zoando da minha cara, só pode... — murmurei. E logo em seguida a imagem de três velhinhas desdentadas rindo atravessou a minha mente. Parcas malditas!

Todos naquela sala olhavam a cadeira vazia fixamente. Acho que demorou cerca de dois segundos para os cérebros voltarem a funcionar, não posso culpa-los, até eu que sou a genialidade em pessoa fiquei abismada.

— Guardas! — Ilithya gritou — Vasculhem todos os corredores! Qualquer um que estiver no perímetro da escola deve ser trazido até mim.

Só para confirmar, dei uns socos na cadeira, eu queria ter certeza que ele não estava usando um feitiço da invisibilidade ou algo do tipo. Vai que a criatura surripiou a capa do Harry Potter. Mas a cadeira estava vazia, infelizmente.

Quando eu encontrar essa praga... vou jogar molho de tomate nele e vou dar para Idia comer. Idia adora macarronada.

— Eu não acredito — Vanessa estava em estado de choque. Não posso culpa-la, o namoradinho dela era um assassino psicopata e ela pensa que ele matou o pai dela.

Vanessa pegou a cadeira e jogou ela no chão. Vários pedaços de madeira afiada voaram pela sala, Sam por azar, quase foi empalado por uma estaca voadora. A ruiva saiu da sala correndo e bateu a porta, e também, quebrou a porta com a batida.

Tive pena da porta. E da cadeira.

Hum... talvez quando eu encontrar Ian, no lugar de dar ele para Idia eu posso amarrar ele e dar de presente para Vanessa. Ela vai adorar socar ele e enfincar estacas nele.

“Psicopata” Alec pensou.

“Ah, meu querido vampirinho” coloquei o máximo de irônia possível. “Então você, o bondoso Santo Alexander, vai dar clemencia ao assassino?”

“Claro que não, milady”. Ele retrucou.“ Primeiramente, eu vou esfola-lo, depois vou arrancar as unhas, depois jogar água fervendo nele, depois...”.

“E eu que ainda sou a psicopata?” interrompi.

“Eu sou um anjo” Ele protestou.

“Sei o tipo de anjo que você é”

“Qual tipo?” E ele ainda tinha a ousadia de se fazer de inocente.

“Um anjo psicopata. Se anjos pudessem ser psicopata você seria um anjo”.

“Assim você me ofende...” Ele falou, mas estava rindo. “Chris, eu até poderia pensar em alguma coisa para te dizer a respeito de anjos. Mas você jamais seria um anjo por que no céu eles não admitem pó de mico e pregos”.

Não seria necessário admitirem. Eu esconderia na bolsa. Cara, desde quando eu fiquei tão perversa a ponto de imaginar como eu colocaria pó de mico nas asas de um anjo?

Aos poucos, todos os alunos saíram da sala. Só ficou eu e Ilithya lá. A feiticeira me encarou, possivelmente se perguntando por que fiquei lá.

— Ilithya — disse.

— Fale — ela disse com cautela.

No corredor não tinha ninguém ali, bom, pelos menos ninguém iria ouvir o que eu iria dizer.

— Não foi Ian que matou Gideon, certo? — perguntei.

Ela não ficou surpresa, provavelmente já desconfiava.

— Não foi o garoto — Ela afirmou.

Pisquei. É, eu já esperava isso.

— Por que você matou ele? — perguntei, embora já soubesse o motivo, mas foi só para confirmar.

Ilithya também não ficou surpresa quando falei isso.

— Se você soubesse o que ele fez — A feiticeira sorriu — Você mesma mataria ele. Eu só estava esperando o momento certo para me vingar.

Eu sabia, e provavelmente também mataria ele. Mas não era necessário Ilithya saber disso.

[...]

A primeira coisa que ouvi foi o estrondo. Mas meu travesseiro estava tão aconchegante, a minhas cobertas estavam tão quentinhas que nem me importei. Então ouvi o barulho de ferro caindo. Pera, isso não é Vanessa tendo um ataque histérico.

Levantei-me da cama. Vanessa estava dormindo. Depois ouvi um som familiar... flechas?

Pensei que estivesse louca. Estava quase decidindo que seria melhor ir dormir, mas então uma flecha flamejante entrou rompeu a janela e quase se enfincou no meu braço.

Virei a jarra de água encima do meu travesseiro, onde a flecha tinha ficado presa e evitei que minha cama pegasse fogo.

Como uma flecha em chamas vai entrar pela janela do meu quarto?

Desculpem a minha lerdeza, após levantar eu fico lerda, é trágico mas dura pouco tempo.

— Vanessa! — Sacudi ela — O Campo de Treinamento está sendo atacado!

— Hã? — Ela me encarou.

Joguei o restinho de água da jarra na cara dela. Sei que foi muita falta de sentimentos, já que a pobre garota perdeu o pai (Por mais louco que ele seja) e que o ex-namorado dela é um assassino, mas se eu não fizesse isso ela iria ficar dormindo até uma flecha acertar ela.

Abri as cortinas do quarto e olhei a janela. O portão tinha sido derrubado e um exercito esta invadindo o Campo de Treinamento. Ilithya tinha falado uma vez sobre barreiras, mas não importa, se tinha barreiras, bem, elas já caíram.

— Ferrou — foi a única coisa que fui capaz de murmurar.

Felizmente eu não fui a única que estava acordada. Aos poucos vi alguns alunos e professores indo barrar o exército.

— Vanessa, vá procurar sua tia e faça o que ela te mandar fazer — disse.

Ergui meu colchão e tirei o punhal que ficava abaixo dele. Ser atacada por diversas criaturas me fizeram desenvolver um bom senso de defesa pessoal, apenas isso. Nunca se sabe quando vão de atacar.

Peguei o punhal e atravessei a porta.

Me aguarde, querida Trivia.

[...]

Aquilo não era um exército normal. Havia cobras gigantes, escorpiões feitos de terra e todo o tipo de aberrações que você possa imaginar. Juro que vi um animal com cabeça de lobo e com corpo de leão, sem mencionar as asas feitas de chamas.

Tinha alunos e professores do Campo de Treinamento lutando. Vi uma cobra ser engolida por chamas negras, uma visão boa, mas também vi uma ninfa ser fatiada por um lobo. Graças aos deuses não era Mary, mas mesmo assim senti um calafrio.

Segurando o punhal na minha mão eu me senti mais forte. Aquelas criaturas estavam invadindo a minha casa! Minha visão ficou avermelhada e então ataquei.

Não me lembro de muita coisa. Quando luto, entro em modo automático. A única coisa em que consigo pensar é nas brechas que o adversário está me dando, quando posso atacar e é claro, tento não ser fatiada. Minha mão agia voluntariamente.

Lembro-me de ter rasgado um lobo gigante de olhos vermelhos no meio. Sempre gostei de cachorros, mas aquela coisa não era um cachorro. Era uma criação de Trivia.

Uma espécie inusitada de cobra voadora tentou cuspir acido no meu braço. Me desvie do ácido e arremessei o punhal. A arma se fincou na barriga da aberração e poucos segundos depois tinha uma cobra estatelada no chão.

O pior é que nem todos eram aberrações. Tinham ninfas, vampiros e feiticeiros que tinham se aliado a Trivia. Só era possível reconhece-los pelo “T” desenhado nas armaduras deles. Um elfo tentou me apunhalar, só conseguiu fazer um arranhão nas minhas costas, mas ele perdeu a cabeça logo depois.

Em algum ponto o meu punhal pegou fogo e encontrei uma lança caída no chão. Provavelmente a lança pertencia a alguém que morreu engolido por alguma aberração, mas não importava. Nunca gostei de lutar com lanças, mas aquela era incrivelmente boa para trespassar aberrações.

Eu desviava de golpes com a haste e perfurava com a ponta pelas brechas das armaduras. Prefiro tridentes, mas aquilo já era o suficiente.

Em certo momento vi uma onça familiar e um tigre rasgarem animais gigantes com as garras, isso me fez sorrir.

Perdi a conta de quantas aberrações foram mandadas para o mundo inferior por mim. Era tão fácil mata-las, bom, pelo menos parecia. Nunca me cansava, sentia como se estivesse pegando fogo e rasgar aqueles seres era um alivio. Não que eu estivesse pegando fogo, pelo menos tive a decência de me desviar de chamas lançadas por dragões.

Dragões... Eles sempre me pareceram fantásticos nos livros, mas agora quando tentavam me queimar eles não pareciam tão divertidos. Um dragão não gostou quando arranquei uma pata dele, e ele tentou me queimar. Felizmente ele parecia ter uma mira ruim e acertou outro dragão. Seria uma cena de comedia se não tivesse tanta gente morrendo ao redor.

Eu tinha acabado de esmagar a cabeça de uma mulher-cobra contra um muro da escola quando ouvi alguém me chamar.

— Olá Christine.

Na minha frente estava Ian. Aquela praga detestável!

O ser vestia uma armadura negra, não tinha o símbolo de Trivia, mas acho que não era necessário um símbolo para reconhecê-lo como inimigo. Os olhos dourados faiscavam como ouro derretido em chamas.

Ele também me odiava, percebi. O sentimento era reciproco.

— Olá psicopata.

Ele não ficou ofendido, bom, ele era um psicopata mesmo, provavelmente já sabia disso. Segurei a lança com força e arremessei ela na direção dele. Mirei certinho, a lança iria trespassar o peito dele, bem onde ficava o coração, mas não, a lança virou cinzas antes de encostar nele.

Isso não teve graça.

— Acha que vai conseguir me matar com uma lança? — O olhar dele era de desdém.

Okay, talvez com uma lança não, mas com uma faca sim talvez. Chutei a faca da mulher-cobra fazendo ela se levantar no ar e apanhei com a mão esquerda, que na minha opinião, é a minha mão mais forte. Girei a faca no ar e avancei para cima dele.

Estava tão fácil. Ele estava desarmado e com um único golpe eu poderia arrancar a garganta imunda dele. Mas assim que a faca se encostou na garganta dele, ela virou cinzas.

Acho que minha cara devia estar engraçada porque ele riu.

Senti minhas costas se chocarem contra a parede. Mas como? Ele nem tinha encostado em mim. Mas é claro, ele é um feiticeiro.

Me concentrei fixamente. Já vi Ilithya fazer essa magia, fazer o alvo ser atingido por energias até se desintegrar. Fazer Ian se desintegrar me parecia uma ideia excelente

Se ele não pode ser morto com lâminas, tudo bem, sempre posso fazer alguma magia, certo?

Imaginei ondas prateadas acertando ele tantas vezes que ele virava pó. Senti uma onda de energia se libertar da minha mão. Está dando certo! Eu mal esperava para poder contar a Ilithya o que eu tinha conseguido fazer.

Fios prateados atingiram ele como flechas. Esperei que ele começasse a se desintegrar.

— É um excelente truque — Ele levantou a sobrancelha — Mas não se pode matar um deus.

O que ele disse? Ele falou que é um deus?

Dessa vez fui eu que ri.

— Você é louco — afirmei.

Senti a mão dele se fechando envolta da minha garganta, isso foi tão rápido que nem percebi ele se aproximando.

— Não sou louco, querida irmãzinha — Ele riu de escarnio — Nossa mãe nunca te contou que você não é filha única e que grande parte dos seus outros irmãos são imortais?

Nyx nem precisava ter me contado. Já tinha lido vários livros de mitologia grega e, é claro que já sabia que minha mãe tinha outros filhos que eram deuses. Mas nunca pensei que iria encontrar um.

— Você está mentindo — afirmei. Ele tinha mentido todo esse tempo inteiro, para mim, para meus amigos e para Vanessa. Então por que não mentiria agora? Ele devia querer apenas me aterrorizar, era isso.

Tentei chuta-lo. Mas minhas pernas ficaram imóveis como se tivessem sido petrificadas. A sensação de petrificação se espalhou para o meu corpo e tive que olhar meu braço para ter certeza que não tinha virado pedra.

Os olhos dourados estavam próximos de mim. Percebi que ele estava me examinando.

— Você não se parece com a nossa mãe — ele concluiu — Mas tem o mesmo olhar desafiador dela. Isso é detestável.

— Você que é detestável! — Tentei gritar, mas a pressão sobre minha garganta deixava isso difícil.

Então senti como se minha garganta estivesse sendo esmagada. Cada arranhão que eu tinha conseguido durante as lutas e cada corte doíam dez vezes mais. Senti como se facas estivessem me cortando várias vezes e o pior, parecia que eram facas fervendo. Me recusei a gritar. Não queria deixar aquela praga feliz. Mordi o lábio inferior pra não gritar, mas algumas lagrimas escaparam dos meus olhos teimosamente.

Então era isso, pensei, vou morrer aqui, assassinada por um irmão imortal que nunca conheci. Que morte patética!

Felizmente eu não morri. E quando olhei novamente para os meus braços percebi que não tinha nenhum sinal de perfuração por facas, estavam apenas arranhados e com cortes pequenos.

Era uma ilusão. Mas era uma ilusão terrível.

Olhei novamente para aqueles olhos dourados. Ele definitivamente não era mortal. Ele apenas estava brincando comigo.

— Sempre pensei que a filhinha favorita da nossa mãe seria mais forte — Ele riu — Mas me enganei.

Eu queria soca-lo. Eu queria esfaqueá-lo com facas em chamas de verdade para ele sentir como é bom.

— Qual...? — Tentei perguntar qual deus ele era, mas não conseguia, minha garganta doía muito. Isso me fez ficar ainda mais furiosa.

Ele pareceu entender, por que riu.

— Thanatos, o deus da morte.

Não importava quem ele fosse e o que ele era capaz de fazer. Jurei para mim mesma que iria me vingar dele, faze-lo engolir tudo que tinha falado para mim.

— Foi muito divertido conversar com você — ele disse — Mas tenho coisas mais importantes para fazer do que acabar com sua vidinha insignificante.

Então ele sumiu. Menos de um segundo depois, o átrio esquerdo do Campo de Treinamento se desintegrou em cinzas. As pessoas, construções e tudo que estavam ali viraram pó.

Notas finais
E aí, o que acharam?