Against the odds

2 01. A Lei de Murphy é uma merda, mas é uma merda porque sempre funciona


Notas iniciais
Aaaa estou ansiosa para apresentar à vocês essa nova versão de Algel!!!!!!!! Não vou enrolar nas notas, então. Espero que gostem! P.S: Jia Chang pertence à violet hood, que me emprestou rapidinho pra fazer um par com a Dominique por aqui! Inclusive, leiam Woman (https://fanfiction.com.br/historia/794511/Woman/) e todo o mundinho CILAW!!!

— Eu prefiro morrer a ir naquela festa e dar de cara com o Ryan. Já é um milagre eu conseguir sequer assistir às aulas com ele depois daquela vergonha monstruosa que eu passei. Eu deveria ter ligado pra minha mãe e pedido um atestado pra me liberar dessa reta final, isso sim. Depois, eu poderia dar um jeito de trancar a faculdade e fazer aquele intercâmbio pra França que tia Fleur vive insistindo que eu faça. Então não, não vou sair desse quarto por nada neste mundo.

Já falei sobre como Rose era uma grande drama queen?

— Nem por uma pizza com queijo extra? — Scorpius cantarolou, batucando os dedos na porta que nos separava da dramática da minha prima.

Conhecendo Rose, aquilo teria um certo efeito sobre ela. A pausa para reflexão indicava que eu estava certo e que a sugestão de Scorpius havia sido certeira. Trocamos um sorriso, mas logo Rose resmungou, com a voz um pouco abafada — aposto que ela havia se jogado na cama, torturando-se ao tentar decidir se poderia deixar de lado a sua vergonha por alguns pedaços de pizza.

— Scorpius. Foi o mico do ano.

— Você vai precisar se esforçar — sussurrei para Scorpius, que cruzou os braços e franziu o cenho, tentando pensar. — Oferece pizza doce também. Ela ama a de chocolate, principalmente se vem meio queimadinha.

— Como ela pode gostar daquilo? — ele sussurrou de volta, fazendo uma careta. — Nós nunca pedimos.

— Exatamente por isso você precisa oferecer — afirmei, colocando a mão no ombro dele. — Nós podemos sobreviver a uma ou duas fatias de pizza de chocolate queimado. Ou podemos deixar tudo pra ela também.

— Bom, não é uma pizza tão ruim assim.

Um fato sobre Scorpius: ele era alguém difícil de dar o braço a torcer e nunca, absolutamente nunca, recusava comida. Ele não pediria de forma deliberada algo que não gostasse, mas, se estivesse disponível, ele simplesmente precisava provar. Por quê? Um olho maior que a barriga e pouco amor ao próprio paladar.

— Oferece logo — resmunguei e ele revirou os olhos, respirando fundo.

— Podemos pedir mais coisas… — Scorpius tentou, num claro apelo de fazer com que Rose tivesse uma ideia sobre qualquer outra coisa exceto a maldita pizza de chocolate queimado.

— Scorpius! Mandei vinte e quatro áudios enquanto estava bêbada pro cara que tinha me dado um pé na bunda público. Vinte e quatro. E todo o campus sabe. Nada vai me convencer a sair daqui.

Nós nos entreolhamos novamente e lancei o meu olhar mais severo para que ele oferecesse logo a porcaria da pizza. Scorpius fez uma expressão de dor, colocando a mão sobre a própria barriga, enquanto cantarolava de novo:

— Nem por aquela pizza de chocolate? — apesar da entonação animada na voz, a expressão enojada de Scorpius entregava tudo. Precisei segurar o riso e a vontade de fazer um som de nojo. Felizmente, poucos instantes depois, a porta se abriu e Rose nos encarou com desconfiança.

Vocês querem comer aquela pizza?

Ela tinha os braços cruzados e usava o moletom da faculdade, com os cabelos ruivos soltos, mas claramente embaraçados. A máscara de argila verde mantinha a expressão dela endurecida, porém era nítido que ela havia franzido a testa demais, já que a região estava bastante marcada com a argila ressecada. Senti que Scorpius daria risada e estragaria tudo, então dei alguns passos para ficar no campo de visão de Rose e a segurei pelos ombros.

— Não vou mentir pra você, eu e o Scorpius não queremos comer aquela pizza — ouvi o protesto do meu amigo, mas ignorei e esbocei um sorriso para minha prima —, mas nós dois queremos você feliz. E, se isso significa quebrar nossa promessa de que nunca mais deixaríamos você pedir aquela atrocidade, então que seja.

E não era um exagero, realmente havíamos feito um pacto. Foi no início da faculdade, após uma festa que decidimos comer uma pizza em um lugar que ainda não conhecíamos. Apesar de ser madrugada e o estabelecimento não ser dos mais visualmente agradáveis, a pizza era boa. Massa na crocância certa, molho temperado perfeitamente, queijo na quantidade perfeita… Exceto a pizza de chocolate que Rose insistiu em pedir (e amou).

Não muitas horas depois, ela vomitou horrores. Até hoje, Rose diz que foi pelo álcool, afinal não estava acostumada a beber, mas, nesse caso, nem eu e nem Scorpius estávamos, e não vomitamos. Ela foi a única a comer, em doses exageradas, a tal pizza, então parecia lógico. Por isso, fizemos um pacto de jamais pedirmos. E Rose, a contragosto, acabou aceitando, embora sempre tentasse nos ludibriar no pós-festa a cometer um crime contra nossos paladares e estômagos.

— Vocês juram? — ela tinha os olhos cheios de lágrimas e nos puxou para um abraço apertado. Tremi de aflição com a sensação da argila verde na minha bochecha e dei tapinhas levemente desesperados nas costas dela, como forma de consolo, mas também para indicar que o momento podia se dar por encerrado. Eu não era muito fã de abraços, então aquele em específico já estava preenchendo a cota do mês.

— Claro — Scorpius respondeu, apoiando o queixo na cabeça dela, por ser mais alto que nós dois. Virei meu rosto para encará-lo e sibilei um “obrigado”, o qual Scorpius retribuiu com uma piscadela antes de Rose nos libertar daquele abraço que não parecia ter fim. — E eu garanto que ninguém mais se lembra daquele pequeno incidente, Rosie.

Eu não chamaria enviar vinte e quatro áudios bêbada como um pequeno incidente, contudo eu não estava ali para deixar minha prima ainda mais para baixo, por isso apenas sorri amarelo, sentindo pena da expressão envergonhada dela.

Apesar de ser dramática e ter um péssimo gosto para comida, Rose era uma das melhores pessoas que eu conhecia. E não por ela ser minha prima, por Deus, não, afinal tenho inúmeros outros primos e certamente não os colocaria em tal posição. Não que eu desgostasse deles, mas, veja bem, família era família. Era difícil cultivar uma relação próxima com alguém da família. Podia gostar dos meus primos, porém não iria sair com eles para festas, contar sobre quantos caras beijei ou sobre experiências sexuais bem ou malsucedidas. Família era uma coisa; amigos outra completamente diferente.

Não dizem que os amigos são a família que escolhemos? Nesse sentido, Rose era mais que família e mais que uma amiga. Não era fácil encontrar uma melhor amiga, muito menos no próprio âmbito familiar. Gostava de pensar que tinha ela em uma caixinha diferente das que coloco as outras pessoas. E, por isso, recusava-me a vê-la se escondendo por aí, justamente quando ela era a energia de todo lugar que pisava.

Rose sempre fez o que queria desde criança, o que deixava minha tia Hermione de cabelos em pé. Tio Ron ria das situações, no entanto eventualmente também era pego de surpresa por ela. Em desempenho escolar, ela era ótima, mas em comportamento… Só não recebia tantas detenções como James costumava receber, pois tinha uma cara de santa que enganava quase todos os professores.

Quando decidimos ir para a faculdade, era natural que estudássemos juntos, então entramos em Hogwarts, eu para Direito, a fim de seguir os passos do meu pai, e ela para Jornalismo, com a boa oratória que tinha e o hábito de ser fofoqueira (que ela jurava de pé junto se tratar apenas de curiosidade e de coleta de informações).

Em menos de um ano depois, Rose percebeu que Jornalismo talvez não fosse de fato o que ela queria e resolveu trocar para Literatura. Foi lá que Rose conheceu Scorpius. No início, achei que ele estivesse apaixonado por ela. E pode ser que estivesse, mas eventualmente formamos um trio, Rose começou a namorar, terminou, namorou e terminou de novo, enquanto Scorpius engatou em um relacionamento aberto e, agora, dois anos após, aparentemente não estava mais apaixonado.

Então, como alguém que sempre soube o que queria, Rose foi pega de surpresa quando se envolveu com Ryan McLaggen, há um ano. Ela nunca teve problemas em se desapegar de ex-lancinhos ou ex-namorados — isso a fazia tão boa quanto eu nas questões amorosas -, assim, quando eles tiveram o primeiro término, eu dei a história por encerrada. Não esperava que Rose fosse correr atrás do cara e entrar em um relacionamento ioiô-ioiô desgastante com um babaca que, claramente, estava usando o apego emocional dela para tê-la na palma da mão.

Por conta dele, Rose desistiu do intercâmbio para a França. Por conta dele, Rose parou de ir às festas sem ser acompanhada exclusivamente por ele. Por conta dele, Rose chorava mais do que eu me lembrava dela ter chorado durante a infância inteira.

Um mês antes, eles terminaram pelo que parecia ser definitivo. Rose estava indo bem, até ver Ryan com uma nova namorada. Namorada essa que estava completando três meses de namoro com ele.

Nesse ponto, eu entendo porque Rose surtou. Não bastasse o relacionamento de merda, ela ainda havia levado um chifre. Então, na época, eu apoiei toda a tática de vingança que ela traçou. Fui eu quem descobriu que, além da namorada, Ryan também tinha mais algumas amantes. Fui eu quem reuniu as duas amantes, a então namorada e Rose no mesmo lugar, para um confronto ao estilo Todas contra John, que Rose assistiu obsessivamente durante três dias, junto com mais algumas comédias românticas de gosto questionável e uma ou outra de fato boas.

Quando o momento se encerrou, acreditei que tudo estava resolvido. Rose havia conseguido sua vingança e eu, como primo e melhor amigo, havia exercido meu papel de maneira formidável. Até o incidente dos vinte e quatro áudios, resultado do furacão Dominique, que sempre deixava uma bagunça por onde passava. Se não fosse a visitinha dela ao campus e a encheção de saco para que Rose afogasse as mágoas no álcool, deixando-a irresponsavelmente com o celular na mão nada disso teria acontecido — todo mundo sabia, ou pelos os bons amigos de verdade sabiam, que a premissa básica ao ver alguém bêbado de coração partido era esconder o celular o mais longe possível, justamente para evitar situações como aquela.

Era o preço que se pagava por deixar alguém da família que achava que possuía intimidade com você influenciar nas suas decisões. E, para ser sincero, eu não era o maior fã da Dominique, por isso exigi que ela desse um jeito naquela situação. Dar uma festa na casa em reforma de Vic e Teddy não era a primeira opção que eu teria em mente, mas só aceitei essa loucura como um “pedido de desculpas” porque a festa não teria pessoas de Hogwarts. Em outras ocasiões, eu recusaria uma festa com os idiotas da Durmstrang sem pensar duas vezes. Outro ponto pelo qual eu não era muito fã da Domi, afinal a rivalidade entre instituições elevava tudo a outro patamar.

Sem contar que corria o risco de esbarrar com o meu irmão e ter que interagir com os colegas idiotas do time de rugby, do qual ele era capitão e essa era uma situação que eu sempre procurava evitar ao máximo. Mas Rose, de maneira inacreditável, animou-se. Até descobrir que um pessoal de Hogwarts iria, o que muito provavelmente incluía Ryan, que apesar de proibi-la de sair sozinha enquanto namoravam, vivia aparecendo nas festas de Durmstrang, como Dominique acabou revelando.

Além do mais, não seria nada ruim se a cara do Ryan acabasse encontrando minha mão eventualmente. Era o que ele merecia por ter feito um remix com os áudios que Rose havia mandado para ele e postado no TikTok. E por ter sido um babaca desde o início daquele relacionamento.

— Talvez você tenha razão, Scorp… E o que de tão ruim pode acontecer, não é? Não é como se desse para ficar pior.

Regra número um de todos os filmes de terror. Aliás, regra número um da vida: nunca dizer que algo que está ruim, não pode piorar.

Porque pode piorar. E vai.

Eu não era um cara supersticioso, mas acreditava em coisas com embasamento empírico (nunca que iria contrariar a palavra da minha própria mãe sobre como comer bolo quente era a receita certa para dor de barriga; uma vez na infância já havia sido o suficiente) e também acreditava na lei de Murphy que dizia que qualquer coisa que possa dar errado, vai dar errado, no pior momento possível.

Então, apenas abri um sorriso inocente para a minha prima, que retribuiu e retornou ao quarto para se trocar para a festa, olhei para o meu relógio, que marcava sete horas e quarenta da noite, e passei a contar quanto tempo levaria para tudo dar errado.

Exatas duas horas e treze minutos.

Mas estou me adiantando na história.

Mal havíamos chegado na casa de Vic e Teddy — que estavam na Grécia e não faziam ideia que Dominique havia invadido o imóvel, que estava sendo reformado para a chegada do novo bebê da família, para uma festa com universitários bêbados — e as coisas se desenrolaram de uma maneira… estranha.

Haviam muito mais pessoas de Hogwarts do que eu havia previsto, o que claramente deixou Rose nervosa, afinal, por mais que fossem apenas áudios, a voz estridente dela como narradora oficial dos jogos no campus desde a época em que ainda fazia Jornalismo era inconfundível.

Foi aí que a primeira suposição da noite caiu por terra: as pessoas ainda se lembravam do incidente, que não tinha absolutamente nada de pequeno. Isso só fez minha mão coçar ainda mais para bater na cara do idiota do Ryan, mas infelizmente também fez com que Rose voltasse a se sentir insegura.

— Rose, você não fez nada de errado — Scorpius tentou tranquilizá-la ao perceber que os olhos dela estavam marejados. Eu e ele conduzimos Rose para um canto um pouco mais afastado, próximo de uma fonte (que eu tinha certeza que havia sido incluída na reforma por tia Fleur, porque aquilo não era nada a cara da Vic ou do Teddy) enquanto ela respirava fundo e olhava para o alto, tentando impedir as lágrimas de caírem. — Ele que é o idiota e ele quem deveria estar com vergonha, não você.

— Não foi ele que virou um meme viral, Scorpius — Rose resmungou, abanando o rosto.

— Você não virou um meme viral, Rose — tentei rebater, porém o som do remix de Rose soando a poucos metros dali, seguido de risadas altas me contradisse no ato.

Respirei fundo, fechei os olhos e contei até cinco, pensando em como resolver aquela situação sem socar cada um dos idiotas que estavam rindo. Quando finalmente me virei, vi que Scorpius já havia tomado partido da situação, pegando o celular de um cara que, apesar de ter a mesma altura que ele, era com certeza muito mais forte, e jogando-o na fonte.

Houve um breve momento de silêncio incrédulo, até vozes alteradas começarem a se levantar e dois caras virem na direção de Scorpius.

— Você maluco, cara? Porra, meu celular! — o idiota pegou o aparelho, completamente enxarcado, da fonte e se virou com raiva para nós três, especificamente Scorpius, que mantinha o queixo erguido, o maxilar travado e as mãos cerradas. — Você vai pagar por isso, ah vai.

— Não vou gastar um centavo com um babaca como você.

— Então vamos ter que resolver de outro jeito.

No momento em que o cara ergueu a mão para descer um soco em Scorpius, eu e Rose tentamos segurá-lo, enquanto Scorpius parecia pronto para revidar. Não conseguimos. Na realidade, quem o fez foi uma das últimas pessoas que eu gostaria de ver naquela noite.

— Que porra você pensa que tá fazendo, Crabbe?

— Aquele idiota jogou meu celular na porcaria da fonte.

James arqueou a sobrancelha para nós três e questionou Scorpius o porquê de ele ter feito aquilo. Scorpius apenas olhou para Rose de forma protetora, que retribuiu de uma maneira intensa e eu revirei os olhos. Péssimo timing para conexões profundas da alma ou o que quer que estivesse acontecendo ali.

— Ele tava ouvindo… — abaixei um pouco o tom, para que apenas James ouvisse. Não que fosse fazer diferença, porque Rose e Scorpius ainda estavam trocando olhares esquisitos e certamente não estavam prestando atenção no que eu estava dizendo. — O remix da Rose.

— E quem não estava? — o babaca teve a coragem de questionar, rindo.

No instante seguinte, a risada dele foi interrompida pelo soco de James em sua boca, que foi ao chão.

Isso definitivamente atraiu a atenção de Scorpius e Rose. Por Deus, o que estava acontecendo ali?

— Que porra é essa, Potter?

— Ela é minha prima, seu desgraçado. E ninguém mexe com a minha família — James falou naquele tom que costumava usar durante os jogos de rugby e que geralmente me fazia revirar os olhos, mas que, naquele momento, fizeram-me vibrar em comemoração. Não era tão ruim ser irmão dele. Às vezes James fazia coisas que prestavam, como agora. — Se eu pegar você reproduzindo esse áudio de novo, é suspensão por duas semanas. — Claro que o babaca em questão era do time de rugby também. Por que eu não estava surpreso?

— Você não é mais o capitão, Potter. Não tem mais autoridade pra decidir porra nenhuma.

Os olhos do desgraçado brilhavam em provocação, mesmo que seu lábio inferior estivesse inchado, sangue escorresse pela boca e ele permanecesse estirado no chão. Era patético.

— Mas eu tenho.

Aqui nesse ponto, eu preciso ressaltar algumas coisas.

Em qualquer outra circunstância, eu teria vibrado com aquele momento. Afinal, eu estava envolvido em uma onda de adrenalina por ver Scorpius fazendo algo que não era nada Scorpius para defender a Rose, meu irmão sendo uma pessoa decente e um babaca recebendo o que merece.

Então, ver um cara lindo se metendo em algo que nem tinha relação com ele para fazer algo justo deveria ter me deixado mais que eletrizado, a ponto de que eu, provavelmente, daria um jeito de beijá-lo até o fim da noite, entre outras coisas mais.

Mas minha reação instantânea foi revirar os olhos e soltar:

— Era só o que me faltava. Você perdeu o título de capitão pra ele?

E, ele, no caso, era Rigel Thomas-Finnigan.

Se James era pretensioso, Rigel era mais. Se James me tirava do sério, Rigel me tirava mais. Se James era o campeão mundial de drama, Rigel era o campeão universal.

Injustamente lindo, o que quase me enganou da primeira vez em que eu o vi lá em casa.

James, eu, Rose, Lily e Hugo frequentamos a mesma escola primária e fundamental mais ou menos ao mesmo tempo. Lily e Hugo eram tranquilos, viviam com as suas turminhas, deixando eu e Rose em paz a ponto de nem parecer que tínhamos primos e irmãos mais novos estudando na mesma escola.

O problema mesmo era James, atazanando nossas vidas. Demos graças aos céus quando, no ensino médio, ele optou por uma escola com um programa esportivo mais completo.

Parecia a resposta para os meus problemas, até ele aparecer em casa na primeira semana de aula.

Rigel era o colega de time e de sala de James e, coincidentemente, filho de um casal de amigos de longa data dos meus pais. Não preciso dizer que a presença dos Thomas-Finnigan se tornou praticamente obrigatória em casa, não é?

E olha que eu tentei fazer esses encontros pararem. Descobri que mamãe e Dean — à época apenas Thomas -, namoraram antes de ela conhecer o meu pai na faculdade. Casualmente tentei trazer à tona a informação, na esperança que talvez isso encerrasse as coisas, mas subestimei a calma do meu pai, que, ao saber da história, não demonstrou um pingo de ciúmes sequer; pelo contrário, fez questão de saber como era a minha mãe nos tempos de escola. E com isso precisei ouvir longas histórias sobre a época grunge da minha mãe, que pareciam não ter fim, o que acabava virando uma desculpa para novos encontros e, dessa vez, na casa deles, com Lily cada vez mais próxima das gêmeas Thomas-Finnigan, Lyra e Aurora (que eram mais novas que ela, mas tinham em comum o amor pelo ballet e viam na minha irmã uma inspiração).

A família Potter e Thomas-Finnigan estavam se dando muito bem. Mas Rigel e eu éramos algo à parte.

A primeira vez que o vi, quase acreditei que ele poderia ser legal. Que talvez tivesse sido ludibriado a gostar de James, que não eram amigos de verdade, que logo Rigel poderia perceber o quão James era um chato e provavelmente virar meu amigo.

Mas então James resolveu jogar FIFA, como sempre fazia quando levava amigos em casa. Eu saía de perto quando era o caso, porque, embora adorasse jogar FIFA, James nunca me convidava, especialmente com mais pessoas em casa, não importasse se nos mini campeonatos que eles organizavam estava faltando alguém.

Contrariando as probabilidades, Rigel me convidou para jogar videogame com ele e com James. E parecia o início de uma amizade promissora. Até mesmo aparentava uma melhora na minha relação com James, que aceitou sem reclamar. Joguei-me no sofá ao lado dele para começarmos a partida e nunca me esqueci do olhar faiscante e do sorriso debochado que ele me deu ao dizer:

— Espero que esteja preparado pra perder.

E, veja bem, antes que me chamem de dramático ou exagerado, não foi o que ele disse nem como ele disse, mas sim o que se desenrolou a partir daquilo.

Eu retribui de uma maneira à altura, civilizada e com uma gracinha também sobre ser ele o perdedor, porque afinal, é isso que pessoas competitivas fazem: provocam-se. Eu era competitivo, Rigel claramente também.

Porém, eu estava errado. Rigel não era apenas competitivo. Era um nível além. Se envolvia com a partida como eu nunca havia visto antes e pior: xingava como eu nunca havia visto antes. Até mesmo James ficou surpreso, embora eu pudesse escutá-lo conversando consigo mesmo dizendo como essa energia competitiva seria de excelente uso no campo. É claro que seria… Se James quisesse que alguém fosse morto durante o jogo, porque aquele olhar de Rigel era bem capaz disso.

Eu senti que precisava competir com Rigel à altura, o que não mexeu exatamente em um lugar muito calmo dentro de mim. Então, preciso fazer um adendo ao que disse anteriormente: a minha família sempre dizia que eu era calmo e paciente… Mas todos concordavam que, quando o assunto era Rigel Thomas-Finnigan, tudo mudava.

Naquela primeira vez que jogamos FIFA, nós dois nos xingamos, pausamos o jogo para discutir lances e para responder provocações. Levamos um ao outro ao ápice da raiva. Até que, ao fim de uma tarde de partidas, com pedidos de revanche e eu prestes a chegar às vias de fato com aquele desgraçado após a maldita dança da vitória que Rigel fez, acompanhada de uma música irritante que ele e James inventaram no meio do dia para me sacanear sempre que eu perdia, Rigel se virou para mim, rindo e disse:

— Deveríamos fazer isso mais vezes, Albie. Você é uma figura.

E foi aqui que eu descobri que o maldito rosto bonito de Rigel Thomas-Finnigan, na verdade, escondia um sádico.

Quem passa a tarde inteira ofendendo alguém, tirando onda, agindo feito um perfeito babaca, para depois dar a porcaria de um sorriso de lado e agir como se nada tivesse acontecido? Ou, pior, como se fôssemos melhores amigos?

Que porra?

E que porra era Albie?

Fazer aquilo mais vezes? Só nos sonhos sádicos dele.

Nem sequer pensei duas vezes quando soltei, praticamente estraçalhando o controle na mesa de centro — o que me fez abrir mão da minha mesada durante dois meses para comprar um novo para o James:

— Nossa, vai tomar no seu cu.

Para registrar, meus pais e os pais dele capturaram aquele momento em específico. Não viram Rigel sendo um belo de um pé no saco, cuzão e escroto comigo o tempo todo. Claro que não. E foi assim que, além da minha mesada cortada, também ganhei um mês de castigo — o mais injusto da minha vida, considerando que, quando James bateu o carro do meu pai, ficou o mesmo tempo. Quero dizer, em que mundo Ginny Weasley Potter, a responsável por definir todos os nossos castigos — já que dizia que meu pai sempre dava castigos leves demais — poderia achar que mandar um babaca tomar no cu era tão ruim quanto um acidente de trânsito? Depois ela não sabe de onde eu tirei a ideia de que James é o favorito.

E, sim, talvez o fato de eu ter recebido um castigo injusto por conta dele, apenas me fez detestá-lo ainda mais. O que ironicamente fez com que eu me detestasse todas as vezes que ele ia lá em casa, sugeria mais algumas partidas e eu, consumido pela sede de revanche e pelo espírito competitivo quase animal que Rigel despertava em mim, acabasse aceitando e me deixando levar mais uma vez.

O ciclo parecia sem fim: partidas em que nos xingávamos, meu sangue fervia, o desgraçado ganhava e depois agia como se fôssemos melhores amigos, querendo conversar até de madrugada sobre quadrinhos, já que, com frequência, Rigel vinha dormindo na minha casa e eu, infelizmente, dividia quarto com James na época. Inclusive, culpo essa época da minha vida como o ponto que fez com que meu e irmão entendêssemos que, de fato, não dávamos certo um perto do outro e buscássemos uma distância expressiva. Se a intenção de minha mãe era nos unir ao nos dar o castigo de dividirmos quartos, ela só piorou a situação. Foram os piores dois anos da minha vida, e tudo por conta de um leve desentendimento natural entre irmãos que não se bicavam, mas que, acidentalmente, ocasionou uma lesão (e foi acidental mesmo, sério, mas convencer Ginny Weasley Potter de algo que ela já tem a opinião formada era impossível, e convenhamos que eu e James dávamos motivos para isso, embora não tenha sido a questão).

Então não, Rigel não me impressionava e não tinha como eu ficar de bico calado com o Thomas-Finnigan tentando bancar o herói e dando a cartada de novo capitão do time de rugby.

E era óbvio que ele não deixaria isso passar batido, pois esboçou aquele maldito sorriso repuxado e me lançou um olhar faiscante, com a sobrancelha esquerda arqueada — que possuía uma falha devido a um corte sofrido no jogo de estreia dele e de James ainda no ensino médio.

— Albie, é sempre revigorante ver a sua animação quando nos encontramos. Vejo nos seus olhos como você fica ansioso pela nossa próxima partida de FIFA. Mas sempre podemos jogar algo mais tranquilo. Como vai a sua fazenda no Stardew Valley?

Sim, ele gostava de exibir que era melhor que eu em absolutamente todos os jogos. Chegava a ser doentio: Rigel entrava na conta da Steam do James para verificar minhas conquistas e o que eu vinha jogando só para ter o prazer de jogar também e mostrar que me superou. Para facilitar a vida triste dele, acabei adicionando ele como amigo e comecei a entrar nesse jogo também. Eu estava cada vez mais perto de ter mais conquistas que ele em Overcooked e muito provavelmente o passaria naquele mesmo final de semana se Scorpius resolvesse colaborar e jogar comigo. Eu sempre precisava implorar para que ele aceitasse, inacreditável.

— Excelente.

— Presumo que você já tenha coletado todos os itens pra restauração do Centro Comunitário?

— Falta o esturjão — admiti a contragosto.

— Hm — ele abriu um sorriso largo.

Aquele peixe era uma desgraça para pegar e ele sabia muito bem disso. Fez a porcaria de uma live para os seguidores idiotas dele na Twitch (qual o apelo em ver jogadores de rugby, futebol ou basquete jogando videogames? Eu nunca ia entender essa nova onda) até pegar o maldito peixe. A live durou mais de seis horas.

— Espero que não esteja perto do final do inverno e consequentemente do final do segundo ano no jogo… Você até pode pescar ele depois, mas não conta exatamente como vitória se for depois de dois anos, não importa o que as pessoas digam por aí — finalizou.

Travei o meu maxilar, respirando fundo. Como esse cara conseguia me tirar do sério falando sobre Stardew Valley, literalmente o jogo mais good vibes que eu estava jogando? Sério, ele estragava todas as experiências para mim.

— Argh, chega! Eu às vezes esqueço que vocês são dois nerds de videogames — James resmungou, balançando a cabeça, ao mesmo tempo em que Rigel e eu rebatemos:

— Cala a boca.

Pelo menos em uma coisa nós concordávamos, e isso geralmente envolvia mandar James calar a boca ou se foder, o que fosse mais adequado para a ocasião. Nessa, poderia ter sido qualquer uma das duas.

Com aquele ar de intimidade forçada que Rigel sempre tinha depois de me provocar por alguma coisa idiota, ele piscou para mim antes de se virar para o Nott, que agora já havia se levantado e parecia extremamente contrariado.

— Faço a ameaça do James a minha. Não é a sua primeira cagada essa temporada, Crabbe. Espero que não aconteça mais nenhuma.

— Tanto faz — rebateu irritado, afastando-se com os outros dois.

— Ok, não tem nada pra ver aqui — James falou alto, para dispersar as pessoas que haviam ficado por ali desde o momento em que Scorpius jogara o celular de Crabbe na fonte. — Vamos, entrem logo.

— Eu deveria ter desconfiado que o motivo de metade da festa parecer mais entretida com outra coisa eram vocês — Dominique saiu do fluxo de pessoas que entravam na casa com a namorada, Jia Chang, enroscada em seu pescoço.

Jia era tão legal, como podia namorar Dominique que, por ser amiga de James e de Rigel, era chata por tabela? Por exemplo, Jia nos cumprimentou com um sorriso e um aceno, enquanto Dominique mantinha aquela cara blasé irritante.

— Rose, que cara é essa? tudo bem?

— É claro que não, Dominique. O que você acha? — respondi revirando os olhos.

Era bom que Dominique parecesse preocupada com a situação, afinal foi ela quem causou tudo aquilo. Ela me fuzilou com os olhos, indicando Rose com a cabeça, e foi só então que reparei que, enquanto eu e Rigel nos provocávamos de leve (porque aquilo não era nada comparado ao que já dissemos um ao outro), Ryan havia dado as caras e estava aparentemente tentando conversar com Rose, mas sendo impedido pela muralha humana que era o Scorpius.

— Rose, eu posso explicar…

— Explicar o quê? — Rose tinha a voz num misto de riso e choro que me deixou preocupado. Não era um bom sinal. — A porcaria do remix já diz tudo, Ryan.

— Não fui eu quem fez. Foi a maluca da Mindy.

— E ela postou no seu TikTok também? E no seu Instagram? E no seu Twitter?

— Exatamente! — o sorriso dele só indicava o quão burro ele era por achar que a Rose estava caindo naquele papinho furado. — Na verdade eu gostei dos áudios. Mesmo. Foram sinceros e… — ele deu um passo na direção dela, mas Scorpius deu outro, encarando-o com firmeza. — Que porra você pensa que é? Eu tentando falar com a minha namorada.

— Ex-namorada — Rose corrigiu, saindo de trás de Scorpius e peitando Ryan de queixo erguido.

— Isso tem um potencial de ficar interessante — Rigel, que por algum motivo desconhecido ainda estava do meu lado, comentou aos risos e eu lhe dei uma cotovelada.

— Isso é interessante pra você? A Rose precisa de ajuda — fiz menção de ir até ela e Ryan, mas Rigel me segurou pelo braço com delicadeza. Meu instinto imediato foi me desvencilhar, sentindo minha respiração falhar pelo susto do toque repentino, no entanto Rigel manteve o aperto firme.

— Eu não acho que ela precise de ajuda.

Virei-me lentamente para observar a minha prima, sem precisar me desvencilhar do aperto de Rigel, que deslizara a mão e me soltara, e a ouvi dizer em claro e bom som:

— Eu sou sua ex-namorada, McLaggen. E esse, é Scorpius Malfoy, alguém que você sonha em ser.

Não era exatamente a frase de efeito que eu teria dito, contudo já era um avanço e tanto Rose estar dizendo aquilo, ainda mais considerando que uma semana atrás ela estava enviando áudios xingando-o, mas pedindo para voltar.

Ver Rose se posicionando diante do papo furado do ex-namorado dela foi surpreendente, ainda mais porque cerca de duas horas antes ela sequer queria pôr o pé para fora de casa. Porém, o que eu não esperava nem em meus sonhos mais loucos, era que Rose fosse se virar para Scorpius e puxá-lo para um beijo.

Meu queixo foi ao chão, assim como o de Jia, enquanto Domi e James começaram a ovacionar e bater palmas. Rigel, por sua vez, limitou-se a gargalhar e se inclinar na minha direção, sussurrando no pé do meu ouvido:

— Eu disse que isso ia ficar interessante.

Eu poderia ter muitas críticas a Rigel Thomas-Finnigan e sua forma sádica de observar o mundo, mas ele tinha um talento nato para perceber o potencial nas coisas. Então, ignorando o arrepio que percorreu minha espinha ao sentir o hálito quente de Rigel tocar minha pele, apenas assenti lentamente, tendo a impressão que havia perdido cinco anos de vida só com aquele gesto. E ele, é claro, não deixou de abrir um sorriso largo ao perceber que havia ganhado mais uma de nossas pequenas batalhas.

Notas finais
AH, A RIVALIDADE POR CONTA DE JOGOS!!! Ícones competitivos. Quando pensei qual seria o motivo para o Al não ir com a cara do Rigel, eu quis que fosse algo relativamente pequeno, mas ainda sim com fundamento (porque jogos podem sim acabar com amizades e até mesmo casamentos, juro, já vi um casal discutir feio por jogo e o cara levantou da mesa E FOI EMBORA, simples assim). Já estou esperando palpites sobre como o Rigel enxerga essa relação!!! Quem já leu TAIITS (https://fanfiction.com.br/historia/794409/The_Answer_Is_In_The_Stars/) ou a versão maravilhosa do casal que recebi da prongs no amigo secreto evermore (https://fanfiction.com.br/historia/801358/Dancing_is_a_Dangerous_Game/) talvez imagine o que está por vir kakakak Eu quis apresentar o Al aqui como sendo alguém muito focado em ajudar os amigos, no caso a Rose, que além de prima é a melhor amiga dele, mas que, eventualmente, pode acabar se colocando em segundo plano. É bom tem em mente isso e o que o Al contou no prólogo. Espero que tenham gostado ♥ O segundo capítulo deve sair no começo da semana que vem! Beijos e até mais ♥