Against The Death
1 Prólogo - Samantha Black
Notas iniciais
Tento levantar-me da cama, mas desisto após a pontada de dor que sinto no joelho esquerdo. Merda, quem diabos larga uma cadeira de rodas no meio da rua? Se bem que, na situação em que o mundo se encontra... um problema como uma cadeira de rodas impedindo a passagem é o menor que podemos encontrar. Afinal, quem poderia dirigir em uma cidade completamente bombardeada?
Levanto-me lentamente da cama, meu joelho ainda resistindo. Não importa quanto Whisky eu tenha tomado ontem, a dor não passa, nem com a ressaca. Mancando, vou até a cozinha improvisada com alguns coolers e um fogão elétrico portátil, numa cabana abandonada afastada de qualquer cidade americana.
Merda, cadê o Adam e o resto do pessoal?! Penso meio desesperada, quando vejo que nosso estoque de água já esta quase no fim. Com a minha perna nesse estado, não pego nem uma mosca para comermos no almoço. O resto da equipe saiu para conseguir nutrientes e fazer o reconhecimento da área, mas não voltaram desde então. Por mais que seja comum que essas “missões matinais” demorem um pouco, eu ainda tenho a péssima impressão de que algo de ruim vai acontecer.
Escuto um barulho metálico vindo de algum lugar fora da cabana, e meu coração acelera. Meu instinto quase me fez gritar e perguntar quem era, mas eu sabia que não era seguro. Nunca se sabe quem pode ser, não importa quão remota seja a região.
Pego um facão de dentro de uma caixa na “cozinha” e saio lentamente, arrastando a perna esquerda – cujo ferimento devia ter aberto já que eu podia sentir o sangue no pano, agora úmido – com a pulsação a mil. Lembro-me das palavras do General Joe, “Caso tenha qualquer problema, não os encare, apenas fuja, você já fez o suficiente.”, mas eu simplesmente não posso escutá-lo, eu não tenho para onde correr. Ou melhor, eu não tenho como correr. Por pura insanidade, ficarei para lutar caso seja necessário. A menos que seja uma horda...
Balanço a cabeça, tentando afastar o pensamento negativo, e agacho-me quando chego à porta. É agora ou nunca, Samantha. Coloco apenas parte do meu rosto para fora, o suficiente para que meus olhos possam captar algum movimento.
Deserto...
Todo o cenário estava seco, com plantas mortas e sem sinal de vida, apenas alguns pequenos e médios arbustos e cactos teimavam a continuar vivendo. Novamente ouço o barulho de metais se chocando, e desta vez pude perceber de onde vinha o som. Segui-o, encostada na parede da cabana, tão agachada quanto o meu joelho ferido permitia. O som parecia de latas se chacoalhando... Pode ser alguém da equipe com comida.
Mais uma vez, escondi meu corpo e dei uma espiada rápida. Senti minha pulsação falhar, o suor frio descer pela minha espinha e aquela ansiedade proporcionado pela adrenalina. Lá estava em pé um homem em pé, com seus aparentes trinta anos, usando roupas surradas, rasgadas e sujas de diversas coisas – inclusive sangue –, com as mãos sem alguns dedos e olhando para mim.
Ouvi o grunhido baixo saindo de sua garganta e não pude conter um pequeno gemido de horror. Oh meu Deus, que merda! Pensei, xingando-me de todos os nomes que conseguia pensar. O homem – que por sinal deveria estar morto – olhou mais fixamente para mim. Eu sei que a espécie deles não enxerga muito bem, já que a visão é um dos primeiros sentidos a ser prejudicado, mas aquele ali parecia saber muito bem o que estava vendo: comida.
Rapidamente, seu rosto passou de mórbido para um animalesco e se agitou em minha direção. Apertei o cabo do facão até o nó dos meus dedos ficarem brancos e me preparei para dar uma facada em seu pescoço e decapitá-lo de uma vez – que é o mais indicado. Mas, como o esperado de mim, deu errado.
Com o movimento, o facão acabou preso na quina da cabana, apenas impedindo que a boca grotesca do morto-vivo não chegasse até mim – o que já estava de bom tamanho. Tentei fugir, mas suas mãos agarraram meus ombros e os apertaram com força. Eu o estapeei – muito inteligente de minha parte – tentando me soltar, mas apenas fiz com que ele arranhasse meus braços e rosto.
Meu joelho falhou e eu caí para trás, sentada de frente para a criatura. Ele, com os olhos fixos em mim e a boca ensanguentada sempre aberta e pronta para atacar, tirou o facão da parede e o atirou para longe.
Puta que o pariu.
Virei-me e engatinhei o mais rápido que pude, pois meu joelho não tinha força para me levantar... E nem para engatinhar, mas notei isso tarde demais. Pude sentir uma mão áspera me puxar, arrastando o meu joelho ferido no chão irregular, fazendo-me gritar de dor. A coisa agarrou minha camisa e inalou o cheiro do meu sangue, que escorria pelo ferimento. Quando ele se aproximou de minha perna ferida para uma mordida, usei a perna boa para chutá-lo no rosto, fazendo com que ele caísse de lado, libertando-me. Chupa essa!
Corri para os arbustos procurando o facão, a única arma que eu tinha em meio a, literalmente, um deserto. Encontro-o sem muita dificuldade, mas também acho algo que talvez eu não quisesse... Os amiguinhos do homem que me atacou.
Era, ao todo, uma horda de cinco mortos-vivos. Isso significava que aquele era meu último dia de vida. O cheiro de sangue estava forte, e eu estava ofegante, não demorou muito para que eles me notassem. Na verdade, foi quase instantâneo. Um deles gritou, um grito seco e faminto, e eu gritei de volta, um grito desesperado e estridente. Virei-me para correr, em puro pânico – agora já não ligava para a dor agonizante em meu joelho. Ainda assim, eu estava mais lenta que o normal, e um deles alcançou o meu cabelo, puxando-o com força, mas somente isso não foi o suficiente para me fazer parar. Sacodi a arma improvisada para trás aleatoriamente, torcendo para atingir nem que fosse meu cabelo. Com sorte, a dor em meu couro cabeludo cessou, e meu cabelo ainda parecia longo. Um grito agudo ecoou atrás de mim, o que significava que eu tinha cortado sua mão.
Bem feito.
Mudei a direção para longe da cabana. Eu ia morrer de qualquer forma, então que eu ao menos levasse a horda para longe do resto do grupo, é o máximo que eu podia fazer por eles naquela situação. Minhas pernas começaram a falhar, e eu notei que eu não aguentaria correr mais do que aquilo. É isso, chegou a hora de enfrentar esses sacos de carne ambulantes.
Rezei para algum Deus minhas últimas preces e torci para que todo o ensinamento de Joe fosse suficiente. Assim que me virei para enfrenta-los, um deles já estava quase me alcançando, e com um rápido giro com os braços, eu o decapitei. Fiquei tão surpresa porque deu certo que encarei a cabeça ensanguentada aos meus pés por alguns segundos, até que outro grunhisse para mim.
Pensei ser capaz de matar os que sobraram, num leve surto de esperança, mas errei. Meus golpes saíam errados, e meu facão no máximo os causava alguns arranhões, o que era péssimo. Uma ordem clara que nós estabelecemos é que não se fere um Doente – assim que nós os chamávamos –, a menos que seja para matar. Criamos a doença dos mortos-vivos para ser altamente contagiosa, então com apenas o contato de algumas gotas de sangue de um contaminado na ferida de um são, a doença era transmitida. E eu estava esbanjando sangue pelo meu joelho completamente aberto e ralado.
Um deles me agarrou por trás, e eu fui capaz apenas de sacodir o facão desesperadamente, tentando atingi-lo, enquanto os outros se aproximavam com cautela. Consegui apenas gritar histericamente pela minha vida, enquanto sentia as lágrimas descerem pelo meu rosto. Meus braços doíam, minhas pernas tremiam, o medo e a adrenalina se misturavam em uma dor agonizante e eu estava prestes a desistir... Até que ouvi o barulho de um tiro.
Como uma miragem, pude ver o General Johhan Heffman se aproximando, um homem ruivo e barbudo de roupas gastas, com uma arma na mão direita e algo que parecia ser um pé-de-cabra na esquerda. Mais um tiro e ele acertou em cheio a mulher que se debruçava em minha frente. Ainda correndo, deformou a cabeça de outro morto-vivo, que ia em sua direção, com um golpe gracioso do pé-de-cabra. Um deles teve o azar de estender o braço para tentar agarrá-lo, mas Joe aplicou um golpe rápido, deixando-o de joelhos, e deu um tiro em sua nuca. Outro aproveitou a brecha e se aproximou, estava perto o suficiente para mordê-lo, mas mais uma vez o General foi mais rápido e atravessou o pé-de-cabra – que obviamente tinha sido afiado – pela sua boca, atravessando-lhe a garganta. Sobrou apenas o doente que me agarrava pelos ombros e pescoço.
– Abaixe-se! – Gritou, com sua voz rouca, mas imponente.
Assim que assimilei a ordem, praticamente me joguei no chão, pois sabia que o morto-vivo não aguentaria meu peso. Esperava que o Joe desse um tiro, mas ele apenas ficou parado, encarando-me com seus olhos verde-oliva. Um barulho de pancada ecoou atrás de mim, e eu entendi que alguém havia chegado por trás. De canto de olho, vi o corpo estirado no chão, com a metade do rosto completamente deformada, e uma onda de alívio tomou o meu corpo. Joe se aproximou o suficiente para que eu sentisse o ar quente de sua respiração enquanto ele arfava de cansaço.
– O que pensa que está fazendo, garotinha? Pensei ter sido claro quando disse ‘fuja caso dê merda’.
Não aguentei e desabei, cobrindo meu rosto com as mãos sujas de areia, terra e sangue.
– Samantha! Sam! – A voz de Adam Huntman se aproximava, até que eu pude sentir seus braços envolvendo-me. – Sua idiota! Mas que merda aconteceu aqui?! Você está bem? – Ele tirou as mãos do meu rosto e me examinou. – Você está...
– Ferida. – Completou Natasha Schlabtz. – Solte-a. Ela está coberta de sangue, e duvido que ele seja somente dela. – Pude ouvir nojo e dor em suas palavras.
– A-as feridas... Não estão sujas. O s-s-sangue deles está somente nos meus braços e na minha perna direita, n-nada atingiu a perna esquerda. – Minha voz tremia, assim como eu. Nunca cheguei tão perto de morrer, apesar de já ter feito muitas besteiras.
– Vinte e quatro horas. Dê-nos vinte e quatro horas para ver se os sintomas vão aparecer. – Suplicou Adam, ainda me segurando forte.
– Adam, eu sei que você quer salvá-la, mas somos uma das últimas equipes de cientistas que sobraram para achar a cura. Nós não podemos nos arriscar desse jeito! –Nat retrucou, sempre negativa. Por mais que tentasse passar uma imagem imponente, a sua voz falhava, denunciando sua insegurança. – E se ela se transformar? E se ela matar a todos?
– Nat, não se preocupe. O que ela precisa é de um banho, e de um curativo nesse joelho horrendo – Alex Fletcher, surgindo de algum lugar, apareceu com mais dois oficiais do seu lado. – A operação foi um fiasco, e acredito que todos estão exaustos. Adam, Carter, me ajudem com Samantha.
Os dois me levantaram, e o Alex teve o cuidado de impedir que o sangue dos doentes no meu corpo chegasse até a feria exposta. Dei uma última olhada no Adam, procurando conforto em seus olhos.
– Vai ficar tudo bem – ele sussurrou, segurando em minha mão e andando ao meu lado.
Tentei acreditar em suas palavras, repetindo-as para mim. Depois, procurei pelo Joe, que fumava seu singelo cigarro, observando a cena de longe.
– Joe... não sei como te agradecer, de verdade. Você salvou minha vida... – Minha voz falhou.
Ele me encarou por alguns segundos, e se aproximou.
– Pode me agradecer não se arriscando de novo – ele pôs a mão em minha cabeça, alisou-a bagunçando minha franja e saiu em direção à cabana.
Merda de zumbis, murmurei para ninguém em especial.
Com apenas algumas amostras do vírus modificado de forma errônea, eu transformei uma arma química letal em uma poção mágica para fazer mortos-vivos, pessoas com uma doença cerebral tão forte que sobrevivem apenas com seus instintos, transformadas em verdadeiros animais irracionais.
Droga de Terceira Guerra Mundial. Se todos conseguissem viver em paz, nenhuma daquelas bombas teria sido explodida, a humanidade teria sido poupada... E eu não teria começado o Apocalipse.
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