Afundando
1 Capítulo I
Notas iniciais
“Ele não se importa”.
Você repete para si mesma, como um mantra, inúmeras vezes. Para tentar se convencer a seguir em frente e esquecer. Essas palavras tão cruéis, que destroem seu coração, mas ainda assim tão necessárias. Pois você precisa de algo impactante para criar coragem. “Ele está lá, vivendo a vida dele, e você? Por quanto tempo mais vai continuar se deprimindo? Por que chorar por alguém que não merece suas lágrimas”? No fundo você sabe. Você sempre soube, mas foi covarde o suficiente para se esquivar da verdade e insistir. Cegou-se, iludiu-se. “Tudo vai ficar bem, é questão de tempo”. Mas não era. Você só estava se enganando novamente. Uma bela mentira é melhor que a dolorosa verdade. Às vezes, é melhor fingir não saber. A ignorância é uma benção afinal. É o escape perfeito até que a máscara caia. E quando isso acontece, você desmorona. Porque o seu mundinho perfeito está se despedaçando e não adianta o que você faça, os caquinhos dele estão perdidos para sempre.
Você sangra, você grita, você chora. Implora por clemência, arrasta-se para alcança-lo em uma trilha carmesim. A dor é física e emocional. Seus pulsos latejam, o coração palpita. Você sabe que não consegue sozinha. Você sabe que não quer conseguir sozinha. O futuro solitário é sombrio e assustador. Você se agarra a uma ínfima esperança, insiste em querer tentar por algo perdido. As palavras que ouve são cruéis, mas você não se importa. “Faça o que quiser, contanto que não me deixe”. Sim, você se rebaixou a esse nível. É constrangedor lembrar o tamanho do seu desespero. Mas no momento, quem se importa? Você só sente um buraco negro se abrindo em seu peito, sugando toda a sua felicidade. É triste demais, dói demais. E você continua batendo na mesma tecla. “Eu não consigo, eu não consigo”. Porque sabe que criou uma dependência doentia dele e é mais fácil se entregar ao vício a combatê-lo.
Ele sabe disso e muito mais. A pior parte de lidar com a rejeição, é saber que ele sabe tudo o que você sente e ainda assim te ignora. Como pode? Não é injusta a calmaria diante do seu sofrimento? A determinação em te jogar novamente na sarjeta apesar de seus apelos? Ele é cruel e você sabe. Você tem que se afastar. Você precisa se afastar. Isso não lhe faz bem. Logo você, que já é um ser tão fragilizado, tão mais sensível, tão mais vulnerável que a maioria das pessoas. Você sabe que é questão de tempo para desistir de tudo. Por isso se agarra tão desesperadamente a qualquer esperança de estar com ele. Você acha que ele lhe dá um motivo para viver. Que piada, você é tão estúpida.
Ele se vai. E leva com ele uma parte de você. Você se sente incompleta e vazia. Você chora copiosamente todos os dias. Você desperta os outros com seus soluços e seu desespero. Faz pessoas importantes sofrerem junto. Daí você cansa da vulnerabilidade. Você quer ser forte e sabe que não é, mas descobre que é fácil fingir. Você sofre em silêncio o tempo inteiro, mas não demonstra. Não demonstra o quanto outros casais lhe afetam, como você procura ele na multidão, como você espera encolhida junto a janela que ele passe com aquele sorriso encantador que te conquistou. Você não deixa que vejam seu sorriso bobo ao escutar aquela música (Beba de mim quando estou tão sedento) ou como você busca forças naquela outra (Eu não vou quebrar novamente. Não posso continuar afundando). Porque você não quer ser fraca. Você não pode ser fraca e nem ao menos sabe o porquê.
Você buscou ajuda, à sua maneira, mas buscou. Você se dopou de remédios para esquecer. Era seu pedido de socorro. Foi parar no hospital da primeira vez. Na segunda, quase morreu. Teria sido um bônus. Você não teme a morte, você a acolhe. Ela eliminará sua existência e levará todas as dores para longe. Mas ainda não é o momento. Você desperta e a realidade recai sobre seus ombros. Você está bem viva. A dor te lembra disso. Depois, os remédios se tornam desnecessários. Eles só aliviam temporariamente o seu sofrimento. Você precisa de alívio permanente. Seus dias se tornam um martírio. Um dia a menos para se viver, é isso que lhe dá esperança. “Logo”, você pensa, “Só mais um pouco”. E você nem sabe pelo quê anseia.
Você sofre impiedosamente. Você vem sofrendo há muito tempo, mas a abstinência é a pior sensação que já sentiu. Você precisa da sua droga, mas onde conseguir mais? Não adianta buscar em outros; você tentou e não deu certo. E se odiou por isso. Depois de um período insuportável e inacabável, vem a dormência. Você torna a se sentir vazia e sem perspectiva. Não há sentido na vida. Você é só uma passageira sem rumo. Você pensa nele às vezes, mas apenas com rancor e mágoa. Você nunca o esquecerá e sabe disso. Não pelos momentos especiais ou pelos segredos que compartilharam, mas pelo ódio efervescente que ele despertou em si. Como qualquer viciado em abstinência, você tem recaídas. Você chora e sangra, até as lágrimas secarem e o coração se tornar vazio. E é aí que você percebe. Você está morta por dentro.
Você quer vingança. Por tudo o que dedicou, pelos momentos que sacrificou, pela forma como se entregou. Você tem uma certeza. “Ele volta”. E isso é um novo começo. Novamente você moldará sua vida em torno do homem que a destruiu, mas agora seus objetivos são diferentes: Você quer destruí-lo. Quer retaliar a desilusão, quer derramar sua dor sobre ele, fazê-lo sentir na pele o que você sentiu. Quer descobrir o quanto ele pode suportar. Porque você o ama, mas o odeia. Você o despreza, sente nojo, sente raiva, sente paixão, sente ciúme, sente mágoa e toda essa miscigenação de sentimentos que te deixam a beira do abismo da loucura. Você sabe que não pode mais ser a mesma. Que não conseguirá seguir em frente. Mas se for para afundar, você quer leva-lo junto para o fundo do poço.
No final, você acreditou que as consequências foram culpa sua. Ele a fez crer que era você quem sempre errava. Ele poderia coloca-la para baixo quando quisesse. Destruí-la aos poucos se isso o interessasse. Ele podia ser tão convincente quando o convinha! Tão irresistivelmente encantador para sugerir que se jogar da ponte era uma ideia tentadora. Mas agora você finalmente está acordada e enxerga com clareza. O ódio te acorrenta a um mundo de sombras, mas lhe afere mais liberdade do que nunca. Você sabe quem é o responsável pela sua dor. E repudia a ideia de que ele os tenha guiado para a ruína e escapado ileso, enquanto você carregará as cicatrizes para o resto de sua vida. Não importa como, não importa quando, não importa onde. Você quer vê-lo queimar.
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