Afterthought
1 Afterthought
why think separately
of this life and the next
when one is born from the last
(life and death)
I. Era uma época em que não se contava os anos como contamos hoje. Uma época de maravilhas e terrores, de contos épicos em que não conseguimos mais acreditar, de monstros e heróis, de deuses e demônios.
Eles tinham o poder de mover o mar, de comandar os ventos, de começar guerras, de mudar a história. Ele era selvagem e imprevisível. Ele era o navio que afundava e o que devolvia os marinheiros, seguros, para os braços de suas esposas. Ele era a tempestade e a calmaria. Um sorriso quente, olhos faiscantes. Ele era as pegadas que seguiam, infinitamente, pela areia da praia, sem rumo e sem autor.
Ela era a precisão de um artista, o poder de uma palavra, a violência da guerra. Ela era a voz de um comandante, a voz de um bardo, a voz de um cantor. Sua beleza se equiparava a uma escultura e a uma espada. Ela era decidida com um mapa, tinha o ímpeto de um épico, e a complexidade de um poema.
Eles estavam constantemente em choque.
II. O mundo era um lugar diferente, mas seus poderes não haviam mudado o suficiente para alarmar. Ela era venerada, ele temido. Ela criava impérios, ele os limitava. Ela era a ordem, ele o caos. Ela era a pluma vermelha em um elmo, ele era as ondas que batiam no casco de um navio. Ela era uma discussão em um aposento cheio, ele era o sonho de liberdade.
Eles reconheciam um ao outro, e mantinham distância.
III. O mundo acreditava em magia, em monstros, em demônios, em heróis, mas aquela não era uma era para deuses. Ela tinha consciência de que já fora mais. Ele tinha a dignidade daqueles que caíram sem nunca desistir. Ela entrava escondida em mosteiros, lia textos proibidos, patrocinava artistas. Ele treinava esgrima em um rochedo perto do mar, andava em deques escorregadios, lutava por uma causa em que não realmente acreditava. Ela sussurrava no ouvido de reis. Ele discursava para guerreiros.
Eles uma vez se encontraram, trocaram um olhar de desgosto e um suspiro de resignação, e seguiram caminhos separados.
IV. No mundo predominava a razão, a precisão, medidas exatas e palavras contadas. Ela se sentia perfeitamente acomodada, mas não sabia dizer por quê. Ele não gostava do estilo que florescia a seu redor, mas o achava estranhamente reconfortante. Ela se vestia de homem para entrar em ateliês de mestres, em oficinas, em palestras. Ele se debruçava sobre plantas de navios, sonhava em atravessar oceanos, e sentia que deveria se dar mais valor a sentimentos puros e incontidos.
Seus caminhos se cruzaram mais de uma vez. Ao ver o trabalho dele, ela se impressionou. Ao conhecer o homem por trás das obras, não entendeu exatamente o porquê de sua admiração ter um gosto levemente desagradável. Quando a conheceu, ele apreciou seu espírito, mas seu orgulho não permitiu que o admitisse.
V. O mundo crescia, e ela dava seu melhor para traçar um caminho nele. Sua cabeça continha mais ideias do que outros consideravam apropriado. Ela se sentia presa, e queria mais.
Ele era completamente livre. Em seu deque, a palavra de ninguém valia mais do que a dele. Ele tinha uma espada e uma pistola no cinto, tinha uma pena no chapéu, e o mar aberto a sua frente. Não havia lei que precisasse seguir ou algo que não pudesse tomar.
Ele viveu sua vida no mar, e ela nas cidades que se formavam. Eles chegaram perto um do outro, uma, duas, três vezes, mas nunca estiveram exatamente no lugar certo e na hora certa para ter um vislumbre de uma vida passada.
VI. O mundo mudava rápido demais. Ela era apenas mais uma em uma multidão. Ele se conformara com uma vida calma em uma pequena cidade litorânea. Ela lutava por direitos. Ele acordava cedo para pescar. Ela carregava livros embaixo do braço, e era uma das únicas mulheres em sua classe. Ele procurava emprego em uma loja de barcos.
Ela publicava artigos. Ele os lia no jornal, e tinha a sensação reconfortante de conversar com um velho conhecido.
VII. Era uma tarde de inverno no fim do ano de dois mil e dezesseis. Ela pediu um cappuccino e um croissant e escolheu a mesa ao lado da janela para aproveitar a vista para o mar. Abriu o notebook, colocou os fones de ouvido, selecionou a playlist com suas músicas clássicas favoritas, e começou a escrever.
Não era uma tarefa fácil, escrever um livro; principalmente não um livro bem feito, com as personagens bem desenvolvidas e as palavras escolhidas com cuidado. A tarefa exigia toda sua concentração, e era estranho que seus olhos insistissem em se voltar na direção da janela, da praia vazia, do mar gelado.
Ela se sentou para escrever no mesmo lugar durante uma semana, e nunca encontrou ninguém na cafeteria além do mesmo casal de idosos. Foi só no sétimo dia que seu olhar deslizou para o mar, como sempre fazia, e ela o viu correndo pela areia.
Ela já havia perdido um instante pensando em como logo suas pegadas na areia se tornariam um mistério, sem dono e sem destino, antes de desaparecem também, quando ele desacelerou e andou na direção da cafeteria.
O sino na porta tocou. Ele andou até o balcão, comprou uma garrafa d’água, se virou para sair. Seus olhos – tão verdes – encontraram os dela – cinza e tempestuosos – por um instante, e então ele puxou a maçaneta e saiu da loja.
Ele já havia dado alguns passos pela areia quando parou, franziu a testa, e olhou para trás.
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