Notas iniciais
Inicialmente, isso era suposto ser um capítulo pequeno e tal. Mas aí decidi que todas as personagens tinham direito a aparecer nem que fosse por um pouco, então acabou CRESCEEENDO MUUUIIITO. Whoops. heheh. Enfim, boa leitura!

“Onde estou…?”

Fora essa a primeira pergunta que surgiu na sua mente quando acordou. Levou as mãos à cara, esfregando-as no seu rosto como que tentando acordar de um profundo sonho. Olhou em volta, procurando alguma dica de onde estava. Parecia a sala comum de Hope’s Peak. Essa fora o seu primeiro pensamento, contudo, haviam algumas diferenças. Maior parte da mobília era branca. O aquário, em vez de peixes, continha uma visão de um prado gigantesco cujo fim não era visível, com pétalas de cerejeira caindo, vindas de lugar nenhum.

Várias perguntas surgiam na sua mente. Porque estava ali? Qual havia sido o seu destino depois de tudo o que acontecera? Apertou o sofá onde acordara com força, apenas para mais perguntas surgirem na sua mente. Aquele sofá… estava frio.

— Oh? Eufrat! – Chamou uma voz feminina, que a garota não demorou a identificar como pertencente a um dos seus colegas. Não era, contudo, uma pessoa com quem ela alguma vez falara muito ou sequer conhecia direito, mas a sua simples presença ainda aumentara mais as dúvidas que vagavam na sua mente. – Que sorte sua que eu por acaso decidi passar por aqui…! Está tudo bem com você?

— Nata…sha…? – Inquiriu a empresária, numa expressão confusa. A garota acenou-lhe afirmativamente, com um sorriso de canto a canto da boca. Estava exatamente como se lembrava, com o seu uniforme verde, o cabelo loiro comprido e os olhos azuis numa expressão alegre. Bom, talvez a parte da expressão alegre não fosse algo que Eufrat tivesse tanto na mente, mas ela com certeza estava lá. – Você não…?

— Morreu? – Completou a outra, num sorriso compreensivo. – Sim. E você também. Não se preocupe, eu compreendo a confusão. Suas memórias devem estar um pouco trocadas, todas as nossas memórias estavam. Já já elas voltam.

Por algum motivo, a garota não se sentiu minimamente incomodada ao receber a notícia de que estava morta. Normalmente, teria rido da cara da outra, dizendo que era impossível e que Natasha com certeza estava ficando louca. Porém, apesar de saber perfeitamente que seria assim que ela deveria reagir, ela não o fez. Sentia que não havia necessidade para isso. Que calma era essa que a mesma estava sentindo…?

Em poucos momentos, recordações de momentos que preferia esquecer surgiram-lhe na mente. Lembrou-se dos seus atos mais vis, de como ela traíra a melhor amizade que alguma vez tinha criado com alguém, e de como isso inevitavelmente levara à sua morte. Contudo, não era apenas a sua morte que todos aqueles eventos lhe haviam trazido. Também haviam lhe trazido uma paz de espírito que nunca esperava encontrar. Pela primeira e última vez em muito tempo na sua vida, Eufrat havia sido sincera com ela mesma. Mas agora, já tinha acabado.

— Onde est…

— Onde estamos? – Completou Natasha novamente, dando uma risadinha ao ver a ligeira frustração de Eufrat ao ser interrompida a meio de novo. – Desculpe, desculpe. Esse lugar aqui, bom, acho que você poderia chamar de Hope’s Peak. Basicamente, depois de… Morrer, digamos assim… Você acorda no lugar onde mais esperava acordar. Por isso é que todos nós acordamos aqui. Fui confusa? Ehh, não sei explicar melhor… Espero que não tenha problema.

— Na verdade – Começou a empresária, corrigindo a americana com delicadeza – Eu estava me perguntando onde estaria Ai.

Natasha abriu os olhos em surpresa, pega desprevenida pela pergunta. Depois, deu uma risadinha leve. Não é como se ela estivesse sendo chata. Na verdade, estava sendo bastante amigável por explicar a situação a Eufrat, e por isso a mesma estava grata. Porém, ela tinha outras coisas na cabeça naquele momento.

— Oh, é claro. Você quer vê-la, não é? – A moça piscou o olho alegremente – Vejamos, ultima vez que a vi, ela estava falando com o Evan… Mas não sei dizer ao certo onde que ela foi. Pode ficar descansada, ela deve estar por aqui. Concordámos todos que ficaríamos em Hope’s Peak por enquanto.

Eufrat se levantou imediatamente, ainda um pouco hipnotizada pelo aquário que se posicionava no centro da sala comum. A outra se aproximou, compreendendo a fascinação da mais velha.

— É bonito, não é…? – Inquiriu ela, num tom melancólico – Para mim, o que está sendo mostrado dentro desse aquário é um céu repleto de estrelas. Só que as constelações… Estão todas trocadas. Em vez de serem as normais, vejo-as formando rostos. Minha família. Meus amigos. Evan. Cada vez que volto a olhar, um rosto diferente aparece. O que você vê?

— Um belo lugar no campo. – Respondeu Eufrat com sinceridade – Perfeito para a hora do chá.

Em resposta, Natasha deu uma risadinha leve e murmurou algo do tipo “como esperado de você, Eufrat”. A mente da morena ainda dava voltas e voltas, tentando compreender ao certo o que se passava. Contudo, ela sentia uma profunda calma. Algures dentro de si ela sabia que podia ficar ali quanto tempo quisesse. Nada ia se perder caso ela o fizesse.

— Porque é que decidiram ficar todos nesse lugar…? – Inquiriu finalmente, voltando-se para a astrofísica. – Seria de se esperar que quereriam sair o mais brevemente possível.

— Ahh, nós saímos, para ir ter com nossos familiares. – Admitiu a outra, com um risinho nervoso – Mas depois voltámos para cá. Você sabe, aqui é um bom lugar para nos encontrarmos. A partir daqui, podemos ver o que se passa lá em baixo, e esperar que mais alguém venha cá ter. Como você.

A expressão dela entristeceu-se um pouco.

— Apesar de tudo, esperamos sempre que dessa vez, seja a última pessoa a chegar… Mas até agora, sempre veio mais alguém depois.

Significava que eles viram tudo o que acontecera? Saberiam, de certo, dos acontecimentos mais recentes. Eufrat acenou afirmativamente com a cabeça, dando a entender que tinha compreendido. Após mais uns ligeiros momentos, ela finalmente soltou a pergunta que queria fazer, mas que esperara a fim de satisfazer a sua curiosidade primeiro.

— E então, onde estão Evan e Ai? – Inquiriu, num tom taciturno. Natasha limitou-se a olhar na direção do corredor.

— Acho que devem estar pelo refeitório. – Disse, encolhendo os ombros. Soltou mais uma risadinha de leve, piscando o olho. – Vamos, pode ir. Não lhe vou impedir.

— Agradeço sua ajuda, Natasha. – Sorrindo-lhe de volta com delicadeza, a empresária despediu-se e partiu para o refeitório. Quando lá entrou, contudo, apenas encontrou Evan, lendo um livro numa das mesas.

Se teve coisa que Eufrat notou, é que aquele lugar também parecia diferente. As janelas, que estavam sempre cobertas pelas enormes placas de metal, agora demonstravam também a mesma visão que a garota tivera dentro do aquário. Um enorme e belo campo, com pétalas de cerejeira caindo. Olhar para lá lhe transmitia uma sensação de calma e sossego que lhe agradava.

— Evan! – Cumprimentou, sorrindo-lhe educadamente. Normalmente, esse sorriso seria falso, mas não havia mais motivo nenhum para tal. Ela já estava morta de qualquer jeito, e tinha aprendido a sua lição. Agora, ela já conseguia ser amável de forma genuína. O evangelista encarou-a, sorrindo-lhe do mesmo jeito que ele sempre fizera. E pensar que a última vez que o tinha visto, ele estava completamente caído no desespero…

— Olá, Eufrat. Eu gostaria te dizer “que bom te ver por aqui”, mas, er… Isso não seria muito apropriado, não é mesmo? – Coçou a cabeça, numa expressão nervosa – Ahh… Bom, de qualquer jeito, é bom poder falar com você de novo.

— Igualmente. – Respondeu a outra. Ele sempre fora assim tão amigável e fácil de conversar, ou era ela mesma que ignorara a sua bondade aquele tempo todo? – Me perdoe a questão, mas por acaso não viu a Ai…?

— Ela acabou agora mesmo de sair. – Informou o loiro, suspirando levemente – Se quer que eu lhe seja sincero, ela parece um pouco… Amedrontada de te ver.

— Oh? – Não era o que ela esperava ouvir. Significava que Ai estava, de facto, a evitá-la? Porque é que a ativista alguma vez faria tal coisa?

— Oh, bom… Ela se sente um pouco culpada pelo que aconteceu. – Explicou-se Evan, levando a mão ao queixo numa expressão pensativa. – Quando ela se apercebeu que fora enganada pelas palavras de Monokuma, bom, a pobrezinha ficou um pouco sentida. Ainda nem sequer foi visitar o pai e a mãe de tão em baixo que ficou. E agora que você chegou…

Parecia típico de Ai fazer uma coisa dessas. Certamente, ao descobrir que tudo aquilo só acontecera e que a mesma pusera em risco a vida de várias pessoas porque fora enganada pelo Monokuma… Eufrat podia apenas imaginar o sentimento de culpa que devia assolar o coração da menina. Contudo, ela ainda queria vê-la, e procurá-la-ia até aos confins daquele lugar até achá-la. Por muito boa que fosse a se esconder, a empresária já a conhecia bem o suficiente para saber onde e como procurá-la.

— Obrigada. Mas então já sabiam que eu tinha acordado? – Inquiriu, numa expressão confusa. O loiro acenou afirmativamente.

— Aqui, as notícias de quem acabou de chegar e acordar viajam depressa. Não é necessário que alguém te conte ou que você presencie tudo, pormenores como esses simplesmente… Bom, simplesmente sabem-se. Assim como sabemos que é perigoso por a mão no fogo sem sequer experimentarmos… É algo desse tipo.

— Compreendo. – Eufrat ia falar mais alguma coisa, mas subitamente foi abraçada por trás, surpreendendo-a por completo. Quando se virou, o rosto sorridente de Kayo encarava-a.

— Eufrat! Você chegou, hihi. – Disse ela, com uma risadinha leve – Estava pensando que você nunca mais acordava! Demorou tanto tempo desde a sua, err… Morte… Ok, isso não saiu como eu queria.

Evan soltou uma risada leve antes de explicar a situação.

— Após algum tempo, falar de nossas mortes se torna uma coisa muito mais banal do que parece, Eufrat. – Disse, desistindo finalmente de ler o livro que lia e o posando na mesa. Quando a empresária voltou a olhar, o livro não estava mais ali. – Por isso não se ofenda com comentários desses. Com certeza Kayo não queria falar desse jeito.

— De verdade! – Natasha entrou pelo refeitório a dentro, com uma expressão risonha. Sentou-se no colo do evangelista, que a abraçou carinhosamente – Você NÃO IMAGINA a cara que o Evan fez quando ele chegou e eu falei “Nossa que irónico, ambos morremos afogados!”

Todos riram da situação, menos Eufrat. Sentiu-se um pouco constrangida, não entendendo ao certo onde estava a graça na situação. Se fosse ela, ficaria terrivelmente ofendida… Provavelmente. Não havia muito o porquê de ficar assim, afinal de contas, ela já estava morta.

— A minha morte… E a situação em que ela ocorreu, não é uma coisa que eu me orgulhe. – Disse Evan, numa expressão séria – Eu ainda me sentia um pouco consternado de ver a pessoa que eu tinha assassinado na minha frente, e ela ainda chegou lá e soltou essa piada.

— Eu sei, eu sei. Desculpe. – Disse a outra, abraçando o evangelista e fazendo um beicinho. Estava claramente arrependida do que fizera, mas pelo jeito ambos estavam se dando particularmente bem, tendo em conta tudo o que lhes aconteceu – Eu não volto a repetir.

— Ahh, mas a verdade é que isso realmente dá uma história engraçada para contar, não é mesmo? – Evan deu uma risada, recuperando o seu humor rapidamente.

Eufrat deu, também, uma risadinha leve, cobrindo os lábios com a mão de forma educada. De certa forma, começava a conseguir perceber porque é que eles estavam tão alegres, apesar de tudo o que acontecera. Naquele momento, também ela se via livre de preocupações. Bom, de quase todas – menos uma em específico: Ai.

— Então, o que você pretende fazer agora, Eufrat? – Kayo deu um risinho amigável, e quando Eufrat piscou os olhos, Ichiro havia tomado o seu lugar – Tem algum assunto pendente com seus parentes? Ou talvez queira falar com Ai?

— Sim, eu procuro Ai e adoraria ver meus pais e irmãos de novo… Você…?

— Ah, sim, deixa me explicar. – Nem precisou de terminar a pergunta para que ele percebesse a onde que queria chegar – Aqui, você não tem um corpo, saca? Logo, tecnicamente, a visão que você tem das pessoas aqui é subjetiva. Você vê as pessoas na forma às quais você mais as associa, e essa visão muda de pessoa para pessoa. Só que como você me conheceu em duas formas diferentes, e tecnicamente eu sou ambas ao mesmo tempo, bem…

Mais uma vez, ele mudou. Agora, quem falava era Kayo, em vez de Ichiro.

— Basta eu mudar ligeiramente meu jeito de estar ou falar que você subitamente vai passar a me ver na minha outra forma, hihi. – Ela deu uma risadinha leve – Se eu falar de um jeito mais feminino, por exemplo, você vai me ver como Kayo, porque você vai associar essa minha forma de ser a ela. Caso contrário, vai ver Ichiro, pelas mesmas razões. Entende?

Era um pouco confuso, mas Eufrat sempre se orgulhara das suas capacidades cognitivas, pelo que não tivera muitas dificuldades em compreender a situação. Evan também decidiu intervir.

— Às vezes, alguns de nós vêm-no como Ichiro enquanto os outros a vêm como Kayo. – Disse, rindo levemente – Bom, tecnicamente, nenhum deles está errado, porque ambas as personalidades fazem parte da mesma pessoa.

— Acho que você podia me chamar de Kayo Suzuki ou Ichiro Mitsui, hihi! – Disse a Vlogger, piscando o olho numa expressão alegre. – Já pensei em arranjar um nome que englobasse ambas as personalidades ao mesmo tempo, mas nah. Prefiro assim, mesmo.

— Mas hey. – Ichiro ficou sério, alternando rapidamente para a sua forma masculina – Você não estava procurando Ai não? Acho que ela desceu para o andar de baixo. Não tenho a certeza, mas pode ir lá dar uma olhada.

— Oh, obrigada. – Agradeceu a empresária, que logo se despediu de todas as pessoas e dirigiu-se até à porta. Antes de o fazer, olhou para trás. Os três ficaram conversando animadamente, felizes. Era uma sensação tão agradável que a moça nunca esperara presenciar. Deu por si sorrindo para si mesma, pelo que abanou a cabeça e murmurou algumas vezes “O que se passa com você, sua boba?” antes de sair finalmente.

Quando desceu para o andar inferior, encontrou mais três pessoas. Natsuri, Shizue e Eikichi conversavam todos animadamente, com Eikichi aparentemente fazendo umas perguntas indiscretas à génio que corava violentamente. Shizue ria da situação, lágrimas lhe vindo aos olhos. Mais uma vez, uma situação que a empresária não esperava de todo encontrar. Teriam eles mudado tanto assim?

— Oh! Eufrat! – Eikichi deu um sorriso perverso, piscando-lhe o olho – Hah, Eufrat, Eufrat… E pensar que minhas suspeitas de que havia algo de errado com o seu CORPO estavam certas.

— Olá. – Murmurou Natsuri baixinho, de uma forma quase inaudível e mantendo uma expressão séria. Contudo, estava definitivamente mais faladora do que a Natsuri que conhecia antes – Não ligue para Eikichi. Mesmo depois de morto, ele continua sendo um chato.

— Ohh, não seja assim! – Eikichi deu uma risadinha – É, tem razão. Eu sou um filho da puta mesmo, e tenho orgulho nisso.

— Eu… Não esperava vê-los aos três aqui, conversando com tamanha animação. – Afirmou a empresária – Suponho que isso seja algo comum para todos aqui…?

— Não pense que eu e VOCÊ vamos ficar amigas assim do nada, princesinha. – Negou Shizue antes mesmo que Eufrat pudesse dizer alguma coisa. Contudo, ela conseguia ver que a justiceira estava apenas a forçar a atitude irritada, mas que não se sentia realmente assim. Ela mesma, em vida, odiava a outra. Naquele momento, contudo, não sentia necessidade, por isso apenas soltou um risinho leve.

— Não esperava outra coisa de você, querida. – Respondeu, num tom desafiador. Shizue cerrou os punhos e parecia que estava pronta a dizer alguma coisa, mas Eikichi logo apareceu para interromper.

— Ahh, vá. Essas duas aqui – e apontou para as duas garotas ao seu lado – já fizeram as pazes, então já deu para perceber que nesse lugar nada é impossível.

— Nada é, de facto…

— É um pouco triste ver uma pessoa nova chegando aqui. – Mencionou a génio, mudando o assunto abruptamente. – Especialmente sabendo o que aconteceu…

— Bom, estarmos aqui só por si é uma coisa triste. Significa que nosso tempo em vida já terminou. – Afirmou Chiyeko, suspirando pesadamente – Mas no nosso caso, ainda é mais triste porque foi por causa daquele maldito urso… SE EU PUDESSE VÊ-LO DE NOVO, EU…!

— Esse parece ser um belo local para ficar, contudo. – Comentou Eufrat, olhando em volta. Mais uma vez, as janelas mostravam o belo prado, e a mobília em tons brancos e límpidos davam-lhe uma sensação de calma. Apesar de ser, de facto, Hope’s Peak, aquele local transmitia-lhe um sentimento completamente diferente da outra.

— Todos nós ficámos, no fundo, com alguma coisa incompleta na nossa vida. – Explicou-se Eikichi pesadamente – Por isso que temos todos algum sentimento um tanto melancólico de vez em quando. Só que não podemos fazer nada por isso… Kyoishi…

Encarou o chão, murmurando algo para si mesmo num tom baixo. Todavia, logo elevou o rosto numa expressão risonha e trocista que sempre tinha.

— Só que não tem problema. Agora, temos literalmente todo o tempo to mundo, não é? – Riu-se levemente – Então não há problema em esperar. Podemos ficar simplesmente aqui, observando e apoiando todos eles.

— Sinceramente, fico feliz com o jeito como as coisas correram para o meu lado. – Confessou Shizue, ainda tentando manter uma expressão irritada mas falhando redondamente – Se eu tivesse sido bem-sucedida… Toda a esperança se desvaneceria. Monokuma ganharia. Acho que todos os que fizeram o mesmo que eu se sentem assim, lá no fundo. Por isso, o mínimo que podemos fazer é mantermo-nos aqui, apoiando-os e acolhendo quem quer que acabe aqui por causa daquele urso maldito.

Eufrat deu a si mesma um momento para pensar em como deixara a sua vida. Com certeza, ela também se sentia grata por não ter conseguido ser bem-sucedida, apesar de isso ser possivelmente um dos planos de Ai desde o início. Contudo, não deixava de ponderar o que seria feito de Isao. De facto, ele fora uma das pessoas à qual lhe custara mais mentir e enganar. Durante todo aquele tempo, ele a apoiara, ele a chamara de amiga – uma coisa que a moça nunca antes tinha ouvido. Eufrat tinha todos os motivos para se sentir grata a ele, mas acabara dando uma facada nas costas do garoto. Agora, o sentimento de culpa quando pensava no mesmo era enorme, pelo que ela com certeza ficaria observando e torcendo pelo garoto, lá de cima. Era o mínimo que poderia fazer, como já mencionara Shizue.

— De qualquer forma, viram Ai por aí? – Perguntou. Após acenarem afirmativamente e dizerem que ela estava na sala de pintura do andar de baixo, Eufrat logo saiu correndo. Após ter gasto já algum tempo conversando com os outros, começara a ficar impaciente.

Quando deu por si, já estava correndo na direção da sala onde diziam que estava a albina. O seu coração batia depressa. Quando entrou no quarto, lá estava ela, encarando uma tela com uma expressão absorta. Quando ela se virou para ver quem chegara, dera um guincho e tentara fugir, mas Eufrat era mais rápida. Alcançou-a e agarrou-a pelo pulso, impedindo-a de fugir.

— N-Não… Eu não quero…! – Choramingou a albina, a voz trémula. Parou de se debater quando finalmente percebeu que escapar não era mais uma opção.

— Não quer o quê? – Inquiriu Eufrat, num tom conciso – Não quer me ver?

— N-Não é isso, e-eu só… Eu só… Eu não mereço falar c-com você…

— Não merece? – A sua voz passou a ser curiosa – E porque haveria de ser isso?

— Eu… Eu fui egoísta! Eu fui uma boba que não entend-deu que estava sendo enganada e pus a vida de t-todo o mundo em risco! – Ai começou a soluçar, lágrimas lhe caindo do seu rosto. Eufrat já não sentia necessidade de prendê-la, pelo que a soltou. A garota deixou-se cair no chão e escondeu o rosto com as mãos. – E-Eu… Eu sempre quis ajudar todo o mundo, e-e falhei redondamente… Sou uma pessoa horrível, e-e pior ainda, e-eu t-te fiz sofrer…! Eu f-fiz você passar p-pelos p-piores momentos de sua v-vida porque não pensei direito na situação… Porque eu tinha medo… M-Medo de não conseguir… Ajudar…

A cada palavra que a albina soltava, Eufrat se aproximava um pouco mais. No final, também a empresária estava de joelhos no chão, os seus braços envolvendo a albina com cuidado.

— V-Você deve me odiar! E-Eu… E-Eu vacilei, e por causa disso, v-você está aqui t-também… Porque eu n-não conseguia… Trocar uma vida por várias… Mesmo quando você m-merecia, por tudo o q-que meu grupo de ativistas f-fez a você… Eu… Eu… desculpe…!

A garota não conseguia mais falar nada, lágrimas caindo do seu rosto enquanto devolvia o abraço a Eufrat.

— Querida… Você… Eu nunca te culparia por nada do que aconteceu. – Disse Eufrat, afagando os cabelos da outra carinhosamente – Na verdade, tudo o que eu te devo é um agradecimento. Obrigada. Obrigada por ter sido egoísta, obrigada por me ter feito abrir os olhos. Você, e apenas você, conseguiu me fazer perceber qual era o motivo para o qual eu continuava viva, com braços e pernas metálicos. Essa razão, querida…

Afastou-se ligeiramente para poder olhar no rosto de Ai. Encaram-se nos olhos por algum tempo, as orbes heterocromáticas da albina inchadas pelas lágrimas, com o lábio inferior tremendo. Eufrat se aproximou da mesma, a as testas se tocando.

— Essa razão era conhecer você.

Notas finais
Comentários e críticas são sempre aceites. Choros também.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!