Afterlife

24 Ryan – Percepção


Notas iniciais
Queria dizer que não postei por esses dias por conta dos mil trabalhos da faculdade que tinha para fazer rs. Também queria avisar que se encontrarem o Ryan falando de si no feminino (ex: mostrei-me cansada), é só por conta do corpo em que está. Ele está se mostrando como mulher, então ele se "mostra cansada". Enfim, só em caso de haver confusão :)

— Então... O que era? — Michael perguntou.

Killian tinha nos reunido em um lugar da sala de visitas para nos dizer algo. Max e Karen estavam próximos, ela sentada no braço do sofá e ele ao seu lado. Eu estava de pé, não muito longe e em uma direção diagonal da deles, ao lado de Michael e de frente para Killian, que tinha do seu outro lado Leon, ficando, então, no meio de nós. Eu podia sentir um cheiro muito bom que provavelmente vinha da cozinha, mas não me liguei a isso.

Havia passado um dia desde que eu fizera o acordo com Aaron, e eu até já havia dado um pouco de meu sangue a ele. Além disso, nada de mais acontecera, a não ser eu ter percebido Karen e Michael um pouco próximos de mais para meu gosto, e uma garota em seus vinte e alguns anos ter tocado o ombro de Michael.

Eu presto atenção em todos os detalhes possíveis, pois não posso me dar ao luxo de ficar às escuras, de ser “atacado” de surpresa. Sim, “atacado”. Havia alguém lá fora atrás de mim, alguém terrível, e isso me mantinha sempre em alerta, vigilante, sempre “no limite”. Então, com minha percepção acentuada, eu prestava atenção em tudo. E aquela “tocada no ombro” não fora comum. Não fora algo amigável. Eu sabia que tinha algo a mais, pois também notara a expressão da garota mudar minimamente, voltando ao normal em seguida e demonstrando um sorriso depois, como se escondesse alguma coisa. Alguma coisa que descobrira ao tocá-lo. Ela devia ser capaz de captar informações ou sentir determinadas coisas ao tocar as pessoas. E eu não poderia deixá-la andar por aí com o que quer que tenha descoberto.

Com os braços cruzados, tentava fingir paciência enquanto Killian nos contava o que queria. Ele falava que aquelas duas pessoas das quais informações foram descobertas por Leon não serviriam para nada. Leon se exaltou, e eu até fiquei um pouco surpreso com sua reação, erguendo as sobrancelhas. Ele indagara, irritadiço, o porquê de as informações que obtivera não servirem. Para ser sincero eu não sabia nem que Killian estava sabendo sobre isso. Acho que devem ter falado com ele em algum momento que eu não estava por perto. Talvez quando eu fazia aquele acordo estúpido com Aaron. Quem se importa?

— Por que eles estão mortos — Killian disse, referindo-se às duas pessoas em questão.

Embora todos os meus pensamentos estivessem na garota que tocara o ombro de Michael, não pude deixar de ter minha atenção roubada por aquilo que Killian dissera.

— O que? — Leon ficara perplexo.

— Como?! Por quê?! — Karen indagou.

— Não sabemos o porquê — o homem respondeu — Mas nós temos razões para acreditar que esse homem os matou — Ele ergueu uma foto.

Claro que havia sido ele. “Quem mais poderia ter feito isso?” perguntei-me mentalmente de maneira sarcástica. Era uma foto de Garry, o retardado que tentou arruinar meus planos, mas do qual eu felizmente me livrara.

— Meu deus — Karen murmurou.

A partir da fala de Karen e dos semblantes de todos, Killian perguntou:

— Vocês o conhecem?

— Sim. Ele é louco e perigoso — eu disse, antes que qualquer um pudesse falar qualquer coisa. Eu não queria que nenhum perfil dele fosse traçado de alguma forma que não a de um inimigo.

Michael olhou para mim, mas logo voltou para Killian.

— Então não temos nada — Michael disse.

— Isso não é verdade — Killian replicou, deixando-nos incitados — Nós temos algumas coisas... Bom, vocês não precisam saber.

— Por que não? — Leon perguntou.

— Não podemos confiar em vocês — ele respondeu sem desvios — Pelo menos não completamente.

— Mas nós devemos confiar em vocês? — Leon retrucou.

— Nós podemos confiar neles — Karen disse, serena — Não é, Max?

— Sim — o outro respondeu.

Leon claramente ficou chateado, e saiu dali em seguida. Era claro que se sentia dessa forma não somente pela situação em si. Provavelmente a situação não devesse levar nenhum crédito. Era óbvio que estava assim por Karen.

— E como já dissemos anteriormente, nós também já sabíamos sobre o Credit Trust, então tudo está fluindo da forma que deveria. Talvez, dentro de algum tempo, eu possa dar mais alguma informação a vocês. Não se preocupem — Killian disse, firme.

E era óbvio que Michael não titubearia em relação a nada já que Karen confiava neles. Não que eu desejasse essa reação dele, até porque essa “luta” entre “A Ordem” e essas outras pessoas não me interessava muito. Porém, aquilo entre Michael e Karen, o que quer que fosse, estava começando a mexer um pouco com meus nervos.

Quando Killian se retirou, Max o seguiu, despedindo-se momentaneamente da loira. Michael veio falar comigo, porém eu perguntei se poderíamos conversar mais tarde, pois precisava falar com Karen, e ele assentiu.

— Karen, podemos conversar? — perguntei, aproximando-me.

— Claro — ela disse meigamente.

Já não havia mais ninguém por ali a não ser ela e eu. Sentei-me do lado de onde Max estava anteriormente, e ela logo desceu do braço para a almofada próxima a ela.

— O que está acontecendo entre você e Leon? — perguntei fingindo preocupação.

— O que quer dizer? — ela replicou de maneira desentendida.

— Você não está mais falando com ele... Pelo menos não tanto quanto anteriormente. Foi só Max aparecer que você não o dá mais atenção.

A feição de Karen se tornou mais séria e reflexiva.

— Desculpe se estou me intrometendo

— Não, tudo bem — ela sorriu — Eu deveria falar com ele, não é?

— Sim. Ele parece bem chateado por causa disso. Ainda mais porque ele gosta de você — Fiz questão de enfatizar aquela palavra.

Karen ficou com a boca entreaberta. Logo em seguida indagou:

— Como assim “gosta”? Nós somos só amigos... — Ela sorriu constrangida.

— Oh... — Demonstrei surpresa em meu semblante — Você não sabia? Pensei que estivesse claro...

— Você está falando sério? — ela perguntou, mostrando-se em choque após alguns segundos.

Eu ergui as sobrancelhas e sorri levemente.

— Oh meu deus... Eu sou tão burra! — Karen fechou os olhos com força e bateu ligeiramente em sua própria testa.

— Eu pensava que você gostava dele também — Tentava incitá-la.

— Eu não tinha pensado nele dessa forma... — Ela olhava para os lados, pensativa. Tornou a me olhar — Eu o coloquei na “friendzone”, não foi? — Seu semblante mostrava seu desapontamento consigo mesma. — Eu vou falar com ele. Não sei sobre o que, mas vou.

— Ok — Sorri de maneira afetuosa.

— Muito obrigada — ela disse, sorrindo, e me abraçou.

Meu sorriso se desmanchou completamente e então rolei meus olhos. “Pelo menos ela deixa Michael de lado”, pensei. Depois que o abraço acabou, voltei a sorrir, esperando que ela saísse.

Ao me deparar com o espaço daquele cômodo completamente vazio, resolvi focar na minha preocupação anterior e que era extremamente urgente: aquela garota tosca que tocara o ombro de Michael. Eu teria de procurá-la, porém, ao passar meu olhar pela janela, pude ver, ao longe, certo movimento entre algumas árvores. Aproximei-me e avistei a garota conversando com aquela ruiva que aparecera com Killian e Max na casa de Leon. Durante as apresentações, ao chegarmos, no primeiro dia, pude saber que se ela se chamava de Eleonor.

Aquilo não era nada bom. Eu já havia observado muitas coisas, e, dentre estas, que Eleonor era bem próxima à Killian. O que quer que a garota a estivesse contando chegaria com certeza aos ouvidos de Killian em pouquíssimo tempo. Eu tinha que lidar com aquilo o mais rápido possível.