Afterlife

19 Ryan – Ilusão


— É muito bom ver que você está vivo — Michael disse a Max. Isso fez com que Killian e eu deixássemos de nos olhar.

— É bom te ver vivo também — Max sorriu levemente.

— Mas quem são essas pessoas? — Michael perguntou, apontando para o outro homem e para a mulher — E como sabiam onde estávamos?

— Nós somos “A Ordem” — Killian começou a responder — Somos um grupo que luta para que pessoas como nós sobrevivam. Nós os achamos da mesma forma que encontramos qualquer outro.

— “Pessoas como nós”? — Michael indagou.

— Mutantes — a ruiva disse, sua feição bem séria.

Todos ficaram mais atentos.

— Esse lugar é seguro — Leon falou, aparentemente incomodado.

— Não, não é — a ruiva disse firmemente. Leon começava a ficar transtornado.

— E contra o que vocês lutam? — Michael perguntou.

— Não é óbvio? — Max tomou a palavra — Contra os próprios monstros que nos capturaram, fizeram experimentos em nós, e tornaram nossa vida em um inferno...

— Não só contra eles — Killian disse. Engoli em seco. — Também lutamos contra outra força.

— Quem? — perguntei, querendo me misturar à onda de perguntas.

Killian olhou para mim da mesma forma que antes e respondeu:

— William.

Engoli em seco mais uma vez, ao que minha expressão deve ter demonstrado um assombro, porém tentando reprimi-la já que Claire de nada sabia. Calafrios percorreram todo o meu corpo.

***

Os estreitos degraus me faziam descer aquela escada empoeirada cautelosamente. Não tocava em nada, e o asco era óbvio em meu semblante e em minha expressão corporal. Ao encostar no piso o salto incrivelmente alto do peep toe preto que eu usava, dei uma última olhada de nojo para aqueles degraus enquanto virava na direção para onde andaria em seguida. Sorri maliciosamente e disse:

— Há quanto tempo.

O homem de jaleco branco, que mexia em seu notebook de costas para onde eu me encontrava, deu um pulo da cadeira e se virou rapidamente para mim.

— Meu deus, você me assustou! — ele disse, visivelmente alarmado.

— Oh, você é um gatinho medroso — eu disse, ainda sorrindo da mesma forma. Com uma postura sensual, andei finalmente até ele.

— Essa é nova — Ele se referia a minha aparência.

— Sim, mas tive que fazer umas mudanças — eu disse, evidenciando meus escuros, lindos e longos cabelos com suas ondulações soltas que ficavam mais apertadas perto das pontas. — Mas se eu vou continuar assim... Isso vai depender de você — Apontei para ele, enquanto sorria e balançava sarcasticamente meu corpo de forma serelepe.

— Você deveria estar aqui assim tão cedo? — Ele se distanciou perceptivelmente do assunto.

— Não. Houve alguns problemas no caminho, tive que acelerar o processo. Então... — Olhei em volta — Cadê? — Coloquei a mão na cintura.

O homem permaneceu na mesma posição, sem fazer nem falar nada. Desmanchei o sorriso sarcástico, porém que possuía certo grau de realidade, e o olhei de maneira incrédula.

— Onde está?! — perguntei com uma voz e postura mais agressivas.

— Ainda não está pronto — ele respondeu finalmente.

Olhei-o fixamente com perplexidade e indignação.

— Como assim “não está pronto”?!

— Você havia me dado mais tempo...

— Você teve tempo suficiente! — falei uns tons mais alto, olhando-o de maneira furiosa enquanto lembrava da grande quantidade de tempo que passei naquela prisão.

— Preciso de mais tempo — ele disse, nervoso.

Com uma expressão de cólera mesclada ao desespero, desviei o olhar, que provavelmente demonstrava um leve brilho de meus olhos que começaram a lacrimejar. Aquilo não podia estar acontecendo. Embora eu pudesse me transformar em quem quisesse, sempre teria um “corpo principal”. Isso fica óbvio se, por exemplo, eu desmaiar, o que faz com que eu volte à minha real aparência. E eu precisava mudar aquele corpo principal, pois não importava como aparentasse ao andar por aí, se ele cruzasse seu olhar comigo, saberia quem verdadeiramente sou. E minha única esperança era aquele homem à minha frente que, naquele momento, mostrava-se um completo inútil que poderia acabar trazendo minha própria destruição. Pisquei demoradamente, e depois voltei a fitá-lo, sem ter deixado nenhuma lágrima descer.

— Se ele me encontrar... — eu falava de forma espantada — Eu vou morrer.

— Eu sinto muito, mas eu realmente preciso de mais tempo — Era evidente que o homem estava com medo.

— De quanto tempo precisa? — perguntei, depois de processar tudo aquilo.

— Uma semana.

Dei uma risada nasal e irônica, que não se desprendia do meu desespero, e em seguida disse, com o ódio aparente:

— Eu acabei de voltar de onde me escondia, então isso é o que vou fazer: você tem três dias. Se em três dias eu vier aqui e não estiver pronto... — Com a cabeça erguida de maneira superior, olhei profundamente em seus olhos de forma diabólica — Eu não só irei matá-lo, como irei fazê-lo sofrer até a última arfada que der.

***

— Quem é William? — perguntei, fingindo total desconhecimento.

— Um mutante incrivelmente forte com o qual nunca poderemos nos aliar — Killian disse, olhando para mim. Depois, olhou para os outros enquanto continuava — Ele nos caça.

— O que quer dizer? — Leon perguntou.

— William pode ganhar os poderes de outros — Todos ficaram estarrecidos. — Algumas vezes nós acabamos nem mantendo nossos próprios poderes. De qualquer forma, depois que faz isso, ele mata a pessoa da qual roubou o poder. William é um ser aterrorizante que possui um acervo de habilidades imensas. Seu poder é... imensurável — Killian suspirou.

— Nós estamos ferrados — Leon disse.

— Não se vierem com a gente — Killian sugeriu.

— Nós não sabemos se podemos confiar em vocês — Michael disse com uma expressão receosa.

— Claro que sabemos — Karen pronunciou — Max está com eles. E, agora, eu também.

Após algum tempo, Michael, que provavelmente refletia sobre aquilo, com sua testa franzida, mostrou-se mais relaxado e concordou:

— Ok. Nós iremos.

Foi minha vez de franzir a testa enquanto observava ora Karen ora Michael. A verdade é que eu senti ciúmes naquele momento. Ele aceitara aquilo muito rápido, somente por causa daquela garota... Havia algo acontecendo entre os dois que eu não sabia? Eu esperava que não, pois não queria ter que me livrar de mais uma pessoa.

— Por mim tanto faz — Leon deu de ombros.

— E você? — Killian apontou para o homem de pele escura.

Ele continuou calado. Mas ele iria aonde eu fosse.

— Ele vai — eu disse.

— Ok. Então vamos — A ruiva disse apressadamente, sendo a primeira a pisar fora dali.

Dentro de pouco tempo chegamos ao lugar “seguro”. Não pude ficar com muito tempo com aquela expressão de menosprezo em meu rosto, mas a continuei mentalmente. Os outros pelo menos estranharam aquela localização também. Encontrávamo-nos no meio de uma floresta. Basicamente no meio do nada, e eu pude literalmente ouvir pássaros cantar.

— Por que paramos? — Leon perguntou, conturbado.

— Nós chegamos — a ruiva disse.

— Isso é uma piada? — perguntei, de forma tão ríspida que logo em seguida fiquei em alerta para tentar não soltar mais uma frase com aquela entonação.

— Não — Killian disse — Isso é uma ilusão.

O homem, então, sorriu, e, segundos depois, várias daquelas árvores sumiram, surgindo, no lugar delas, uma enorme casa. “Oh, verdade... Ilusão”, pensei ao me lembrar de fato que aquele era seu superpoder.

***

— Por favor, pare — eu quase implorava.

— Você tem que encarar seus medos — Killian disse.

Ele estava a alguns passos de mim. Eu mantinha meus olhos para frente, de vez em quando dando uma olhadela para baixo. Eu suava frio, meu corpo tremulava de nervosismo.

— Olhe para baixo! — ele falou bem alto, sobressaltando-me.

Em baixo de mim havia prédios, casas, carros extremamente distantes. Era como se eu estivesse voando, embora pudesse sentir meus pés firmes ao chão e soubesse que aquilo era apenas uma ilusão. Mas o meu medo de altura era algo extraordinário, e, mesmo que fosse uma ilusão, parecia extremamente real.

Killian deu alguns passos para perto de mim, ainda mantendo uma pequena distância. Eu olhei para baixo e mantive meu olhar daquela forma por um tempo, enquanto sentia uma quantidade muito grande de emoções aversivas. Depois, voltei a fitá-lo. Ele pedia para eu andar, mas eu não conseguia. Killian, em seguida, manipulou sua ilusão, fazendo-me sentir como se fosse cair. Meu coração já descompassado e quase pulando para fora só faltou explodir. Entretanto, no mesmo segundo, Killian me segurou firme em seus braços.

— Você tem que treinar. Você tem que ficar forte se você realmente quiser se vingar pelo que ele fez. Mas você não precisa enfrentar isso tudo sozinho. Eu estou aqui para você — ele disse de maneira terna, com seu olhar mergulhando no meu. Ele fazia com que eu não me sentisse mais tão abandonado.

Ele fazia-me sentir bem, como se aquele meu mundo cinzento tivesse suas nuvens afastadas, finalmente dando passagem aos raios de sol.

***