Afterlife
18 Ryan – Conexão
— Preciso de sua ajuda — eu, transformado em Claire, disse, de maneira agitada.
O homem de pele escura se levantou de sua cama, e perguntou:
— O que é dessa vez?
— Eu vou fazer uma ligação — eu mostrei o celular em minha mão, balançando-a — Conte cinco minutos e depois alerte Garry.
Tudo que eu fazia era sensual. A forma de gesticular, o modo de andar, de falar... Simplesmente não podia evitar, a não ser quando tinha que fingir realmente ser Claire.
— Por quê?
— Sério? — ergui as sobrancelhas — Aquele poder dele é uma bomba esperando para explodir. Não podemos tê-lo por aqui.
— Não podemos tê-lo ou você não pode tê-lo aqui? — retrucou.
Revirei meus olhos. Eu precisava mais do que tudo me livrar daquela peste que claramente já havia descoberto algo de errado em mim por conta daquele poder estúpido.
— Vai me ajudar ou não?
— Ok. Cinco minutos.
Após finalmente conseguir uma confirmação, fui até a cozinha, onde não havia ninguém, pois ainda era bem cedo, e abri uma das gavetas. Tirei uma faca e a repousei sobre o balcão de um jeito que ficasse bem evidente. Depois fui em direção ao cômodo onde iria fazer a ligação.
— Quem é? — perguntaram do outro lado da linha. Era a voz de um homem.
Senti um frio na barriga. Meu coração acelerou.
— Não se lembra de mim? — eu repliquei, porém, dessa vez, com uma voz masculina, minha voz original.
Do outro lado, silêncio.
— Acredito que seja um “sim”.
— Ry... Ryan? — O homem do outro lado da linha perguntou, sua voz fraca e surpresa.
— Faz bastante tempo — Sorri. Um sorriso que mascarava uma enorme quantidade de emoções.
— Onde você está?
— Aquela oferta ainda está de pé? — Ignorei sua indagação.
— Sim! Você sabe que sim...
— Mas não é para mim.
Outro silêncio.
— Eu preciso que você leve uns amigos meus. Eles estão em um lugar que pode até ser seguro, mas com certeza não o será por muito tempo — eu disse.
— E quanto a você?!
Dei um riso nasal. Depois, disse com pesar:
— Não se preocupe. Ficarei bem.
— Por favor, Ryan... Não faça isso de novo.
— Killian... Pode fazer isso por mim ou não?
— Quem são essas pessoas? — ele perguntou alguns segundos depois.
— São cinco. Todos possuem superpoderes. Seus nomes são Leon, Michael, Claire, Karen e o do outro não sabemos, pois ele não fala.
— Karen?!
— Sim — Franzi a testa — Por quê?
— Nós temos alguém aqui procurando por ela.
— Oh, ok — disse com indiferença. Depois, repensei — Isso é bom... Assim eles irão mais facilmente, não duvidarão de vocês.
— Não era só falar de você?
— Não! — neguei enfaticamente — Não faça referência a mim de forma alguma — Olhei para o relógio — Tenho que ir. Mando uma mensagem depois com o endereço.
— Ryan...
Encerrei a ligação, sentindo um aperto em meu peito. Eu abaixei o braço, com o celular na mão, e me enchi de memórias. Memórias de um passado cinzento. Depois, mudei minha voz para uma de outra mulher, e continuei falando como se estivesse conversando com alguém. A verdade é que os cinco minutos já haviam se passado, e eu queria que Garry me escutasse com outra voz, porém não com a minha original. Momentos depois, saí do cômodo.
— Te peguei! — Garry disse, completamente animado.
***
— Posso entrar? — Michael perguntou.
Estava de costas para ele, e não perto do espelho, então pude sorrir sem ter receio de que visse. Ouvir sua voz grossa e ao mesmo tempo suave me satisfazia, assim como tê-lo vindo atrás de mim.
Virei para ele com uma expressão de magoada que aquela Claire melodramática provavelmente faria.
— Sim — respondi.
Michael deu uns passos em minha direção. Seu semblante de arrependimento me fazia querer mais ainda agarrá-lo para que pudéssemos imediatamente voltar àquele momento intenso, apaixonante e lascivo que tivemos. Isto é, antes de aquela pirralha nos interromper.
Mas eu não podia. Tinha que agir como Claire agiria. Urgh. Aquilo me enojava.
— Eu realmente sinto muito — ele disse.
— Michael... Você ia acreditar nele — Fazia-me de chateada.
— Não é isso... Com tudo o que está acontecendo eu... — Ele lutava com as palavras, deixando clara a dificuldade frente à vontade de se expressar — Eu me sinto perdido — ele disse, finalmente.
Olhei profundamente em seus olhos. O semblante surpreso em minha face, dessa vez, não era encenação. Michael tentava sempre ser o alicerce de Claire, ser aquilo que a mantém. Para ele estar dizendo aquilo...
Coloquei minha mão suavemente em seu rosto. Disse, em seguida:
— Eu entendo. Está tudo bem em se sentir perdido. Você não pode querer me carregar em suas costas sozinho. Eu vou ser mais forte, Michael. Nós iremos resolver isso juntos.
Ele sorriu, e eu também. Abraçamo-nos logo depois. Eu podia sentir o calor de seu corpo, seu cheiro, e uma satisfação enorme por ter seu corpo junto ao meu. Fechei meus olhos, saboreando aquele momento.
Um barulho ao longe nos chamou a atenção. Foi como se um prato tivesse caído no chão, espatifando-se. Mais uma vez interrompidos, revirei os olhos, e nós nos desprendemos. Dentro de poucos segundos, ouvimos Karen gritar “meu deus!” com uma voz de assombro mesclado à aflição.
Michael olhou para mim atônito, e eu fiz a mesma expressão, voltando a encenar. Isso porque eu sabia o que tinha acontecido: o homem que eu contatara veio até nós, e provavelmente trouxe aquela pessoa que procurava pela loira.
Com passos apressados, fomos até a cozinha, de onde ouvimos ambos os barulhos. Ao chegarmos lá, vimos Karen desabar em lágrimas, com a mão na boca e o olhar apreensivo fixado em um dos dois homens que estavam ali. Este, que possuía um físico bem musculoso e era bem alto, não tinha um dos braços. Karen correu para abraçá-lo pouco tempo depois e disse, entristecida:
— Max... O seu braço...
— Está tudo bem — ele disse, envolvendo o corpo dela com seu único e enorme braço — Estou tão feliz por vê-la — Ele quase chorava.
— Eu também — ela reciprocou, em prantos. O desconforto de Leon era evidente.
Além dos dois homens, havia uma mulher de olhos verdes, alta, de pele clara, magra e com o corpo bem feito e malhado, vestindo uma regata preta, coberta por uma jaqueta de couro escura, e uma calça justa de mesma cor. Seu cabelo era tão longo quanto o meu, liso, porém bem uniforme e dividido de lado, e de uma cor escarlate.
Minha atenção, entretanto, não se ateve nem àquela situação melosa demais nem àquela ruiva que checava cada detalhe do apartamento, mas sim ao homem alto, magro, não tão malhado, mas extremamente bonito e charmoso. Ele tinha pequenos, porém lindos olhos de íris azuis. Seu cabelo era bem curto, sobrando apenas um pouco na parte da frente que usava como um pequeno topete caído para o lado. A barba em seu rosto quadrado era bem rala.
Ele olhou para mim, e, embora não fosse interessante que me aquele com quem eu conversara no celular me pegasse fitando-o fixamente e com uma expressão levemente nostálgica, minhas tentativas de desviar o olhar fracassaram. Ficou claro em seu semblante que ele percebera a maneira diferente de como eu o fitava. Depois, manteve sua atenção voltada a mim, com sua face serena e terna como se naquele instante estivéssemos plenamente conectados. Porém uma dúvida que permaneceu no ar foi a de se ele sabia ou não para quem verdadeiramente estava olhando.
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