Afterlife

1 Em uma noite de neve...


Notas iniciais
Yo minna~

Eu meio que postei essa história por livre e espontânea pressão do meu nii-sama, já que eu vinha escrevendo ela no ônibus, ele vinha do meu lado lendo e disse que ficou emocionado e insistiu o dia todo pra que eu postasse e... Aqui está.

Eu escrevo MUITAS fics desse gênero (drama/tragédia), mas nunca postei nenhuma aqui, então espero sinceramente não desapontar nenhuma das minha leitoras.

Muito obrigada por lerem :3
KIssus

Aquela já era uma cena comum dos fins de tarde. Os amigos do albino apenas assistiam de longe, sem querer se intrometer no momento.

- Kanda, em primeiro lugar, eu queria dizer que você é um idiota. O maior idiota que eu já conheci sabia? Eu deveria ter te batido bem mais quando nos conhecemos! – Esbravejava Allen Walker, perdendo todo o ar apático que parecia não sair mais do seu rosto. – Talvez, se eu tivesse te batido mais, essa sua maldita cabeça estivesse no lugar! Por que merda você sempre tem que ser tão impulsivo?! Parece um animal BaKanda! – Gritava a plenos pulmões enquanto lágrimas de desespero escapavam dos olhos prateados.

O moreno apenas o encarava serenamente, ouvindo calado o desabafo do seu pequeno. Seu eterno Moyashi.

Já faziam três anos. Três longos anos e Allen Walker nunca mais tinha sido o mesmo, nunca mais tinha sorrido, nunca mais tinha comido que nem um louco, nunca mais tinha feito alguma brincadeira idiota com os amigos. Nunca mais tinha se sentido vivo.

Lenalee foi embora aos prantos, não agüentava ver o melhor amigo naquele estado, lhe doía mais do que tudo. Já Lavi permaneceu, tinha um pressentimento estranho, e também tinha medo do amigo fazer alguma besteira. Apenas se encostou a um túmulo próximo, mantendo distância, sabia que Allen não respondia bem quando alguém ficava perto dele nessas horas e tentava consolá-lo, e também, fazia suas próprias orações ao seu amigo esquentadinho. Fechando os olhos e lembrando de como eles quatro costumavam ser no passado.

Agora, Lavi e Lenalee estavam na faculdade, Allen também, já tinha entrado há algum tempo, uma vez que estava fazendo dezenove esse ano, e como sempre fazia desde aquela noite, ao invés de ir comemorar seu aniversário, ia até o cemitério discutir com Kanda mais uma vez, como sempre faziam quando ele era vivo.

Não que ele não visitasse aquele lugar todos os dias, muito pelo contrário, só faltava morar ali; mas apenas naquela noite, na noite em que tudo aconteceu, ele conseguia colocar pelo menos um pouquinho daquela dor pra fora.

Quando se conheceram, Allen tinha quinze, ainda estava no primeiro ano da escola e estudava na mesma sala que a Lenallee, que era um ano atrasada por ter passado um ano viajando com o irmão pela Europa. Ela era vizinha e namorada de Lavi na época – hoje, já estão casados – então por causa da amiga, o albino acabava freqüentando constantemente a casa do ruivo que era vizinho e melhor amigo de Yuu Kanda, com quem estudava no terceiro ano.

Quando os dois se viram... Foi ódio a primeira vista.

Em primeiro lugar, se conheceram na véspera do aniversário do menor, que vinha saindo da casa de Lavi ao mesmo tempo em que o moreno vinha chegando, acabou derrapando nas escadas do alpendre que tinham uma leve camada de gelo e caindo em cima do oriental. Kanda sempre tivera um temperamento explosivo e agressivo, já Allen não era do tipo que baixava a cabeça pra ninguém. Uma combinação explosiva.

Naquela noite, começaram discutindo sobre de quem era a culpa da queda, depois foram para os socos e pontas pés, e no fim acabaram perseguindo um ao outro por todo o bairro, atirando bolas de neve e gritando ameaças de morte. No fim, mais se divertiram do que brigaram.

Com o passar do tempo, os dois desenvolveram uma espécie de conexão que, embora fosse possível dizer o contrário pelo tanto que brigavam, os deixava inacreditavelmente próximos. Como se cada um fosse uma metade de um ser. Tudo bem, duas metades que se digladiavam sempre que se juntavam, mas ainda assim, metades que se encaixavam perfeitamente.

Lavi não sabia dizer ao certo quando os dois começaram a namorar. Claro que já tinha percebido olhares, o ciúme do Allen em relação as constantes declarações que Kanda recebia das meninas da escola, o instinto super protetor de Kanda em relação ao albino... Esse tipo de coisa que faz a gente suspeitar sem ter certeza. Mas a prova irrefutável não tardou a vir... Em mais umas das brigas que eles pegavam no intervalo das aulas, Allen ouviu algum comentário de alguma garota sobre o corpo definido de Kanda, e em um impulso que ele mesmo nunca imaginava que teria, agarrou o moreno e o puxou para um beijo apaixonado de fazer inveja a platéia.

E Kanda...? Este apenas puxou o pequeno para seu colo e intensificou a carícia, pouco ligando de estavam em um local público e cheio de gente.

Desnecessário dizer que a platéia que se reunira para assistir uma briga das feias tinha ficado estarrecida com a cena.

Depois disso, os dois continuaram entre tapas e beijos, embora que com mais beijos do que tapas ultimamente.

Formavam um casal belíssimo e digno de ser chamado de perfeito. Se entendiam mutuamente, mesmo nas brigas, tinham uma cumplicidade ímpar. A única pessoa que tirava o meigo e centrado Walker do sério, era Kanda, enquanto a única criatura que conseguia acalmar a fera nipônica era o albino. E como se não bastasse, o modo como os olhos brilhavam quando olhavam um para o outro... Não havia dúvidas: Esses dois estariam juntos até que a morte os separasse. E foi exatamente o que aconteceu.

Era noite de natal, Allen e Kanda saiam do metrô e andavam pelas ruas cobertas de neve da cidade. Kanda havia levado o pequeno para o observatório que ficava na zona rural da cidade para ver uma chuva de asteróides, e agora voltavam para festejar o aniversário do mais novo. Andavam de mãos dadas, já que Allen tinha esquecido suas luvas, então Kanda deu uma das suas para sua mão esquerda, e segurou a direita com sua própria, usando de seu calor para esquentar o menor. No meio do caminho acabaram por andar abraçados logo de uma vez, era uma noite fria, e o cheiro dos cabelos brancos do pequeno relaxava Kanda.

Nenhum dos dois pensava em se separar. Não sem antes terem passado mais tempo juntos, não sem terem viajado para algum lugar distante como o moreno queria, ou sem terem adotado um cachorro para ser o filho deles como queria Allen... Ainda havia tanto a ser vivido.

Uns caras apareceram de um beco enquanto os dois caminhavam até em casa. Eles se aproximavam, gritavam ofensas, os chamavam de “bichinhas nojentas”. Allen ainda se irritou, Kanda apenas mostrou o dedo médio para os idiotas, puxando seu pequeno para mais perto de si, não conseguia se estressar fácil na companhia do garoto.

Mas os arruaceiros não pararam por ai... Tentaram se aproximar de Allen, que só agora tinha começado a ignorá-los, e foi quando o lado verdadeiramente sanguinário de Kanda veio à tona. O que se seguiu, foram cenas de um moreno irado, dando uma verdadeira surra em cinco caras que pareciam impressionados.

Mais inimigos apareceram, e logo Allen entrou na briga também, mostrando que não era á toa que conseguia acertar uns belos socos no demônio japonês de vez em quando. E no meio de tudo, um tiro foi disparado, passou de raspão no braço do albino.

O que aconteceu em seguida foi extremamente rápido, mas pareceu passar em câmera lenta. O cara que tinha a arma mirou novamente em Allen, dessa vez para acertar na cabeça. O britânico só conseguiu arregalar sutilmente os olhos quando viu o tiro sendo disparado, mas o moreno fora mais rápido, e sem pensar nem meia vez, se pôs na frente no menor, levando três tiros certeiros. Dois no peito e um na cabeça.

Suas últimas palavras foram um “eu te amo” acompanhado do nome do pequeno, que o moreno nunca tinha pronunciado na frente do albino, que se desesperou.

Quando a ambulância chegou, o corpo que Allen abraçava enquanto chorava desesperadamente já não passava de uma casca sem vida. Não iriam mais discutir, não iriam mais brincar na neve, nem assistir um filme onde o oriental sempre acabava dormindo no colo do pequeno... Allen nunca mais sentiria aqueles lábios macios lhe beijarem carinhosamente em meio a um sorriso cretino que ele achava sexy, nunca mais deitariam na grama do parque pra ficar de bobeira, nunca mais veria o rosto de Kanda vermelho quando dizia algo que ele achava constrangedor, nunca mais teria aqueles braços fortes a sua volta, nunca mais sentiria como se tivesse encontrado seu lugar no meio de todo o universo.

- POR QUE VOCÊ TINHA QUE MORRER?! A CULPA FOI MINHA! EU DEVERIA TER MORRIDO! POR QUE?! Por que... Você... Se... Foi... – O garoto de cabelos brancos soluçava pesadamente, era de cortar o coração.

Todos sentiram a falta de Kanda, o irmão dele, Alma, foi hospitalizado depois de uma tentativa de suicídio, Lavi demorou quase um ano para parar de chorar sempre que lembrava do outro, na verdade, ainda chorava, mas sozinho; Lenallee sempre tentava fazer todos lembrarem dos momentos felizes ao lado do japonês irritadiço, mas sofria em silêncio também. Já Allen... Allen só vivia para sentir a falta que o outro fazia. Se ainda estava vivo, era por que seu amado havia morrido para protegê-lo, não iria desrespeitar a vontade de Kanda desse modo, e também, tinha medo de esquecê-lo se morresse.

Era uma noite fria. Ninguém estava no cemitério naquele momento. Apenas os gritos de desespero do pequeno cortavam a noite gelada.

Lavi chorava silenciosamente, tinha crescido ao lado do Yuu-chan, sentia uma falta imensa do moreno, e sorria de leve lembrando do jeito curto e grosso dele, de como havia juntado o ruivo com a mulher da sua vida da maneira mais insana possível.

E de repente, os gritos pararam, a neve parou de cair, o frio... Parecia ter desaparecido.

A dor que sentia em seu peito sumia ao poucos, deixando apenas uma sensação quentinha e acolhedora. Lentamente, Lavi resolveu abrir os olhos, e nem usando todas as palavras de todos os idiomas existentes, poderia descrever a cena que via diante de seus olhos.

Kanda estava parado de frente a Allen, que o encarava em choque, mas ele parecia... Não, ele definitivamente estava diferente. Uma espécie de luz fosca parecia ser emitida de seu corpo, como se fosse uma aura, e nas suas costas, havia um gigantesco par de asas brancas como a neve que brilhavam de forma exuberante.

Em uma calma anormal da sua pessoa, ele se ajoelhou em frente de Allen, que continuava paralisado, e beijou cada uma das lágrimas que caiam pela suas bochechas enquanto tocava carinhosamente os cabelos descoloridos do menor, que só agora pareceu acordar e pulou em seus braços sem hesitar.

- Me ouça... – Sussurrou Kanda em uma voz melodiosa e diferente de qualquer coisa que o ruivo já tivesse ouvido em sua vida. – Não disse isso todas as vezes que queria em vida, mas eu te amo. Te amo tão plena e sinceramente quanto é possível amar alguém. – Falava calmamente, abraçando Allen com os braços e com as asas também. – Eu não pude aparecer pra você antes, mas eu estava aqui em todas as vezes que você veio. Eu nunca te deixei, e nem nunca vou te deixar... Mas se isso significar que você nunca mais vai sorrir de novo, eu vou ter que ir embora. – Seu tom era calmo, carinhoso, e triste ao mesmo tempo.

Era fácil adivinhar o motivo. Kanda não suportava ver Allen sofrendo de forma algum, aliás, até os amigos do garoto ainda não tinha conseguido se acostumara com a sua atitude apática e depressiva.

- NÃO! POR FAVOR! NÃO VAI! – O albino se desesperava só de pensar na hipótese de perder o moreno uma segunda vez.

- Não posso ficar aqui por muito tempo... – O anjo falava com uma calma de quem tem todo o tempo do mundo, acariciando o rosto do pequeno. – Saiba que estou sempre com você, do seu lado, sempre. Nunca deixaria meu Moyashi desastrado abandonado. Mas eu queria meu pirralho de sorriso retardado de volta...

Allen estranhava o fato de seu peito não estar um furacão de emoções, talvez fosse a influência de Kanda, mas só conseguia sentir uma sensação calma, aconchegante, um amor profundo que irradiava pelos seus poros... Pela primeira vez nesses três anos abriu um sorriso genuíno, aquele lindo sorriso encantador que ele havia esquecido por tanto tempo. As asas macias se apertaram mais em volta de seu corpo, em um abraço delicioso, até que a sensação de solidez começava a desaparecer, e Kanda parecia cada vez mais incorpóreo, a um passo de ficar transparente.

Durante todas as vezes que tinha chorado, que tinha sofrido, que tinha passado o dia no quarto com tudo fechado querendo morrer... Kanda estava lá. Estava vendo-o sofrer, e sofrendo junto... Não, não queria que Kanda sofresse por sua culpa...

- Eu te amo tanto... – Allen sussurrou tomando o rosto daquele ser em suas mãos e beijando-o com todo o amor e carinho que manteve preso dentro de si durante três anos.

- Nos veremos novamente, mas enquanto isso, viva Moyashi. Você tem uma vida inteira pela frente e deve vivê-la do melhor modo possível. – Kanda murmurava com os lábios quase colados aos do menor. – Eu não vou sair daqui do seu lado... E no final de tudo, eu vou estar te esperando. – Sussurrou beijando-o uma ultima vez antes de levantar. Não tinha mais tempo.

Foi na direção de Lavi, que assistia a cena ainda atônito, e apoiou uma das mãos no ombro do amigo, transmitindo-lhe toda a paz, e outros sentimentos bons e leves, que não podia passar por palavras e que sabia que ele precisava, tocando-o levemente com uma das asas quando se afastou da dupla.

Mais tranqüilo, depois de ter conseguir reencontrar o seu pequeno, coisa que tinha passado todos esses anos treinando para conseguir, Kanda abriu as enormes asas, deixando aquele calor emanar por todo o seu corpo e uma luz multicolorida começar a envolvê-lo, para então levantar vôo, indo para onde passaria os próximos anos zelando por quem mais amava.

Depois daquela noite, Allen voltou a sorrir, vivia olhando bobamente para uma pena que Kanda havia perdido naquela noite de Natal e que ele havia passado uma corrente por ela para prender em seu pescoço. Lavi também parecia melhor, infinitamente melhor. E com o passar do tempo, todos superavam, agora verdadeiramente, a trágica morte do moreno, por mais que soubessem que nunca conseguiriam esquecê-lo.

Allen se formou em gastronomia, abriu seu próprio restaurante, e conseguia viver bem com o que ganhava com ele (mesmo com seu apetite monstruoso que havia voltado), nunca se casou, nem se envolveu com mais ninguém, não tinha carência disso, seus amigos eram mais do que suficientes para lhe fazer companhia, e graças aos céus, eles entendiam isso. Lavi e Lenallee tiveram três filhos, dos quais ele foi padrinho e babá dos três, e cuidava como se fossem verdadeiros filhos.

Viveu uma vida plena e sem arrependimentos. Viajou, adotou um cachorro grande e preto e colocou o nome de BaKanda, realizou todos os sonhos que tinham na adolescência. Também adquiriu uma mania constante de olhar para o céu, quando fazia isso, era quase como se pudesse sentir na pele aquele par de olhos intensos lhe encarando de volta.

E quando sua estada na terra chegou ao fim, ele apenas se levantou de onde estava, vendo que sua alma ainda tinha a forma de quando conheceu o moreno, e caminhou até o anjo de enormes asas alvas que o esperava com uma mão estendida e um leve sorriso nos lábios.

E assim... Nem mesmo a morte conseguiu separá-los.

Notas finais
Espero sinceramente que tenham gostado, e gostaria MUITO da opinião de vocês, mesmo que fosse pra dizer que ficou ruim.

Muito obrigada por lerem :3

Kissus
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!