After The Rain
7 06. Orange
06. Orange
Rachel admirava como as luzes de Natal brilhavam ao redor da família Matters. Ela mesma nunca havia tido festas de fim de ano muito caseiras ou afetivas, era a época em que toda sua família decidia viajar para a Europa. A véspera do Natal, no entanto, era sempre especial, a garota sempre via os fogos de artifício com os pais, não importava em que país estivessem, e era a única data no ano em que tinham um jantar de verdade. Todo ano, ela pedia a mesma coisa para o Papai Noel, mais tempo com seus pais.
Com o passar dos anos, Rachel começou a enxergar a data apenas como algo comercial, e, como cresceu e o bom velhinho nunca realizou o seu desejo, o Natal foi perdendo a importância com facilidade. Nos últimos anos, passou a noite especial com seu pai, o que foi divertido, apenas os dois, conversaram a noite inteira e descobriram fatos um sobre o outro que nunca imaginaram. E algumas vezes, na casa de Percy, com sua mãe, Annabeth, Jason e mais alguns semideuses que não tinham para onde ir no dia mais importante do ano.
Agora, olhando para os sorrisos estampados na família do namorado, os olhos brilhando, a fartura de comida sobre a mesa e a ansiedade das crianças para a chegada do Papai Noel, Rachel compreendeu o porquê daquela nata ser tão importante para tantas pessoas no mundo inteiro.
A viagem para a Austrália estava sendo maravilhosa até então, ela e Andrew saíam todos os dias, para que o jovem pudesse mostrar à namorada todos os seus lugares favoritos no país e alguns pontos turísticos também. Rachel ainda estava encantada com a arquitetura do Sidney Opera House, por mais que Andrew não soubesse responder nenhuma de suas perguntas curiosas e longas sobre a sua estrutura. A garota tirou inúmeras fotos do espaço, todas que precisava mostrar para Annabeth.
O casal também passava muito tempo na praia. Rachel não poderia estar mais vermelha de queimaduras do Sol, mas tudo valia a pena, uma vez que seu namorado conhecia todas as praias secretas da região, então, conseguiam fugir de turistas, o que tornava mais fácil para que ela pudesse levar seu caderno de desenhos e ilustrar a paisagem.
Um Natal sem neve ainda não parecia certo para a moça, entretanto, seria mentira se ela dissesse que não estava adorando o tempo quente. As cores pareciam ficar mais fortes, as bebidas mais geladas e as risadas mais altas. A família de Andrew era tão barulhenta quanto a própria Rachel, ela havia rapidamente feito amizade com seu pai, que também era um apaixonado por Artes, por mais que nunca tivesse recebido a chance de estudar sobre.
Na hora do jantar, uma conversa acabou atropelando a outra, falaram sobre esportes, culinária, pinturas com o Sr. Matters, a nova série que estreava, os artistas que haviam se entregado às drogas naquele ano... Tudo parecia tão simples e cotidiano, apenas uma família jantando, mas era a primeira vez que Rachel participava de algo daquela forma, e seu coração não poderia estar mais leve. Ela tinha vontade de chorar de felicidade, enquanto cortavam a sobremesa, e podia falar sobre suas experiências em Nova Iorque. Era um fato que a moça odiava programas de turistas, mas não se importou em falar sobre os musicais da Broadway e sobre a Estátua da Liberdade, até respondeu, animada, as perguntas da Sra. Matters sobre a casa da personagem Carrie, de Sex and the City.
Quando deixaram a mesa, após a ceia e uma oração, Andrew e Rachel ajudaram a levar os pratos e os restos de comida para a cozinha, e a moça estava pronta para se encarregar da lavagem dos mesmos, quando o jovem a interrompeu e a puxou para um canto afastado. Era uma pequena sacada que saía da sala, mas grande o suficiente para admirar as estrelas.
Andrew empurrou o corpo da garota suavemente para dentro, enquanto os dois riam e Rachel depositava alguns beijinhos no seu pescoço.
– O que foi?
— Não posso pedir uns minutinhos com a minha namorada? – perguntou, abraçando sua cintura e lhe dando um beijo na testa.
– Só porque é Natal, eu vou lhe conceder esse desejo.
O casal se beijou de forma apaixonada, enquanto Rachel brincava com alguns fios do cabelo do namorado, alternando entre puxá-los levemente e acaricia-los. Andrew aprofundou o beijo, descendo as mãos para as coxas da garota, que estavam cobertas pelo vestido que usava, mas, lembrando que estavam na casa de seus pais, separou-se dela e andou até o espaço que sua mãe usava para cuidar de alguns vasos de plantas, tirando de lá uma sacola escondida.
Rachel ergueu uma sobrancelha.
— Espero que isso seja um presente para sua amante e não para mim, Andrew. – A garota depositou um leve tapa no seu braço quando o moço se aproximou. – Nós tínhamos um trato, só iríamos dar presentes para o nosso apartamento nesse Natal. Você sabe que dinheiro não é um problema, mas eu não quero que se preocupe com...
— Apenas abra a sacola, por favor Elizabeth. – Ele entregou a sacola à namorada, enquanto ela suspirava.
Rachel tirou de dentro da sacola de papelão um porta-retrato comum, com uma moldura um pouco antiga e marrom avermelhada. No entanto, o presente só fez sentido para ela quando reconheceu quem eram as pessoas sorridentes na fotografia. Na parte superior, era uma foto da própria garota com um grande sorriso e sua beca, no dia de sua formatura; na parte inferior, seu pai, muitos anos mais novos, sorria orgulhoso com seu diploma em mãos, ele estava irreconhecível, os cabelos castanhos brilhantes sem fios brancos e o rosto sem marcas de cansaço ou velhice.
Antes que as lágrimas começassem, ainda com o presente em mãos, a garota abraçou Andrew com força e suspirou fundo contra seu pescoço. O garoto correspondeu ao abraço, e ficaram assim durante muito tempo, Rachel com os olhos marejados e seu namorado afagando suas costas. Só se separaram quando a Sra. Matters veio lhes chamar, avisando que o moço deveria se fantasiar de Papai Noel para os primos mais novos e sobrinhos.
Andrew segurou o rosto de Rachel entre suas mãos antes de deixar a sacada:
— Eu achei que você merecesse ter isso. Tenho certeza que seu pai está muito orgulhoso de você, onde quer que ele esteja, com você cursando Artes ou qualquer outro curso.
Assim que o namorado saiu, a garota ainda ficou um tempo na sacada, observando as estrelas que eram muito mais vívidas e presentes do que as de qualquer noite de Nova Iorque, ao mesmo tempo em que se recompunha, com os olhos marejados, do melhor presente que alguém já havia lhe dado, e ela não estava pensando no porta-retrato. Voltou para a sala quando ouviu o característico sino do Papai Noel e, ao ver Andrew vestido daquele jeito, fazendo todas as crianças rirem e se aglomerarem à sua volta, ela soube que aquele era o homem com quem deveria passar o resto de sua vida.
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