After The Rain
5 04. Indigo
Notas iniciais
04. Indigo
Rachel sentia-se sufocada no meio de todas aquelas caixas. Normalmente, ela já odiava arrumar suas coisas, separá-las por categoria, etiquetar e colocar tudo organizado dentro das caixas de papelão, sem que nada pudesse ser estragado durante o transporte. Entretanto, agora, parecia estar atrasando toda a arrumação de propósito, seu coração apertava a cada objeto que pegava e embrulhava com plástico bolha. Ela gostaria de poder empacotar seu próprio coração com plástico bolha para evitar que ele se machucasse naquele momento.
E as lembranças? Ah, as lembranças a bombardeavam com um milhão de imagens, sons e cheiros. Cada objeto naquele apartamento tinha algo a contar, e eles conseguiam ser mais tagarelas do que Rachel. Era difícil ouvir todas as suas histórias e parecia que eles não se silenciavam nem quando a garota os colocava na caixa, com plástico bolha, passando uma fita durex no papelão para evitar possíveis acidentes.
Andrew já havia terminado a faculdade e estava voltando para a Austrália, por um tempo, no máximo um ano, a pedido da família. Ele não havia conseguido um bom emprego em Nova Iorque ainda, portanto, não tinha problema em se afastar por alguns meses. Rachel não estava magoada ou triste, e nem deveria, mas, ainda assim, sabia que a saudades iria cavar um buraco em seu peito, porém, tinha que ser forte o bastante para tampá-lo e não deixar que seu namorado o percebesse.
Além disso, ela estava apreensiva e preocupada por outros motivos, já estava namorando com Andrew por um ano e ainda não tinha criado a coragem necessária para contar a ele o que tinha de diferente. Ele não iria entender, era cético, um cientista, o tipo de pessoa que precisava ver para crer, a própria Rachel também não teria acreditado em Percy Jackson, anos atrás, se não tivesse a habilidade de ver através da névoa. E, em meio a tantas palavras que conhecia, nunca encontraria as certas para explicar sua situação ao namorado.
Por mais que ser o Oráculo nunca tivesse atrapalhado o seu relacionamento, agora, as poucas profecias que realizava eram sobre alguns objetos mágicos roubados ou lutas entre deuses menores, nada que pudesse acabar com o mundo de novo; ela sentia que essa era uma parte de sua vida, uma parte da qual estava até orgulhosa, afinal, os poderes do Espírito haviam a escolhido, e essa foi uma das únicas vezes em que se sentiu especial sem ser pelo seu dinheiro.
Andrew havia sido a primeira pessoa para quem Rachel tinha se exposto por inteiro, tirando todas as suas camadas de mentiras e disfarces, deixando sua alma completamente nua. Ele a amava mesmo com todas as suas manias esquisitas e sonhos utópicos, afinal, isso era o amor, acolher todos os defeitos e qualidades do outro. A garota nunca tinha se sentido aceita antes, afinal, ela não podia nem se considerar do mundo dos mortais.
– Olha o que eu achei. – O garoto vinha animado falar com Rachel e tinha uma caixa colorida em mãos. O cabelo de Andrew havia crescido uns bons centímetros de um ano para o outro, e os cachos moldavam seu rosto de um jeito angelical. – Foi uma caixa que eu tentei fazer para que você guardasse seus pincéis, no nosso primeiro Dia de São Valentim juntos.
Rachel observou a caixa em suas mãos. Era de um tamanho médio, grande o suficiente para caber muitos pincéis e alguns potinhos pequenos de tinta, quem sabe tinta de tecido e elásticos, que a garota usava para fazer suas amadas camisas tie-dye. Apesar de ser um presente extremamente fofo, estava mal pintado, com grotescos espaços em branco e uma confusão não poética de cores. A garota só conseguiu rir.
— Eu sei, é a coisa mais feia que você já viu.
Ela se inclinou para dar um selinho em Andrew, enquanto pegava seus livros e guardava em uma nova caixa.
– Pare, não é assim. Eu adorei, você deveria ter me dado. Sabe que presentes manuais e feitos com o coração me interessam muito mais do que qualquer coisa comprada em lojas.
O garoto olhava para ela com um sorriso bobo e foi a vez dele de depositar um beijo singelo e rápido nos lábios da namorada. Andrew decidiu ajudar a garota a guardar seus livros, uma vez que já estava com as malas quase todas prontas para a viagem que aconteceria dali dois dias e todas as caixas, que iria deixar em um depósito, estavam devidamente embaladas. Os dois ficaram quietos por bastante tempo, mas não aquele silêncio confortável e apaziguador que sempre se fazia presente sobre os dois, um silêncio agoniante e quase desesperador, como se ambos esperassem algo fantástico acontecer.
Rachel havia falado sem parar durante toda a arrumação, mesmo quando ela e o namorando estavam em cômodos diferentes do apartamento. Agora, o baque de que ele estava indo embora havia atingido a garota, que não queria falar nada por medo de ter que adiantar uma despedida ou ter que confessar sobre sua verdadeira identidade como Oráculo. Quem sabe, se Rachel fizesse uma história legal e fantasiosa como as HQs que Andrew lia, não seria mais fácil para ele acreditar?
Uma foto pareceu escorregar de dentro de algum dos livros, distraindo a garota de seus pensamentos por um instante, que se abaixou para pegá-la. Andrew já estava curioso, tentando ver o que a namorada havia encontrado, erguendo a cabeça por cima de seu ombro. Era uma foto dos dois no MoMA PS1, um dos maiores espaços dos Estados Unidos dedicado à arte contemporânea. Rachel simplesmente adorara as exposições interativas que estavam presentes no local e sonhou com o dia que colocaria um trabalho seu ali.
O jovem abraçou a namorada pela cintura e apoiou seu queixo nos cachos dela, observando a foto com um enorme sorriso. Estavam em frente à entrada do lugar, com uma de suas notáveis esculturas, azul e pontuda. Rachel não podia exibir um sorriso maior naquela fotografia, e Andrew, como sempre, tinha saído horrível, no meio de um espirro.
— Lembra quando tentou me ensinar a grafitar? – O garoto soltou o corpo da namorada e jogou-se no colchão sem lençol, encostando em uma das paredes do apartamento pequeno, o único objeto que havia sobrevivido em meio a tantas caixas.
Rachel balançou a cabeça, de costas para ele, ainda colocando os livros, que estavam empilhados pelo chão, nas caixas da mudança. Tinha sido uma experiência, no mínimo, traumática. Ela pensou que seria uma boa ideia se Andrew tivesse um lugar para depositar sua raiva, com o seu último ano na faculdade e as dificuldades para conseguir um emprego, e decidiu ensiná-lo, poderiam tentar algumas coisas nas paredes até do seu próprio apartamento.
A garota estava acostumada a viver com suas roupas cheias de respingos de tinta e riscos de canetinha, e não se importava mais nem em sair com elas na rua, já que, dali a alguns dias ou semanas, acabaria sujando-as de novo. Mas a sujeira que Andrew havia feito com os sprays de tinta era surreal, mesmo com os moldes, os seus desenhos e assinaturas ficaram borrados e sem sentido. Rachel tentara convencê-lo de que estava tudo bem, que a arte não existia mais para ser bela há muitos séculos e que aquela era sua forma de expressar sua opinião, mesmo assim, o garoto ficou bastante desapontado com o seu desempenho.
A jovem riu ao se lembrar de como o namorado havia ficado adorável com os braços e dedos sujos de tinta, ele tinha feito um escândalo falando sobre como a tinta preta nunca mais iria sair e que não poderia aparecer na aula daquele jeito. Quando ela tentou ensiná-lo a fazer tie-dyes, também foi um desastre, as blusas ficaram manchadas e era impossível para fazer Andrew acreditar que aqueles belos desenhos eram feitos apenas com alguns elásticos. Como eu vou fazer com que ele acredite em mitologia grega? Aquilo que ele aprendeu na escola muito antes de saber que queria ser um matemático?
Rachel parou de arrumar os livros na caixa, faltando poucos agora, e sentou ao lado do namorado no colhão, que estava despreocupado olhando algo no celular.
— Estava pensando em pedir uma pizza, passar meu último dia aqui de um jeito bem nova-iorquino. – Andrew riu. – Do que você quer, Rach?
A garota não respondeu, com a cabeça baixa e uma posição contraída na ponta do colchão. Seu coração já tinha começado a bater mais rápido e sentia seu estômago se embrulhar, como se estivesse vazio, além disso, parecia que algo estava pressionando o seu peito. Ela nunca sentia nada muito parecido com aquilo, a não ser quando acordava com os sonhos enevoados sobre o futuro e o passado. O pior de todos, com certeza, era com Bianca e Nico di Angelo, quando Zeus tentou matá-los e Hades amaldiçoou o Espírito de Delfos. Era como se Rachel fosse uma das crianças, ingênua e sozinha.
— Eu preciso lhe contar algo.
O olhar de Andrew direcionou-se rapidamente para a barriga da namorada, que balançou a cabeça, o apreendendo:
— Não é isso, não precisa ficar preocupado dessa forma. – O garoto ia dizer algo, mas Rachel continuou, porque precisava gastar aquela onda de coragem antes que deixasse seu corpo: – Andrew, o que vou lhe contar agora é algo que você, provavelmente, não vai conseguir entender ou aceitar, mas tudo bem, eu só sinto que precisava compartilhar isso com você, ser verdadeira como um todo, sem ocultar partes de mim.
O moçou continuou sem dizer nada, apenas abandonou sua posição relaxada, aproximou-se da namorada e segurou suas mãos com força entre as dele. Ela respirou fundo antes de prosseguir:
— Imagino que você se lembre de algumas aulas de História que teve quando era mais novo, por mais que não goste muito dessa matéria, seu estranhozinho de exatas. – Rachel riu fraco. – Mas o que você lembra sobre os deuses gregos do Olimpo? Melhor, o que você diria se eu lhe contasse que esses deuses ainda estão aqui, em Nova Iorque?
Andrew olhou para ela com uma sobrancelha erguida e gargalhou alto, como se esperasse algo muito maior e estivesse estressado por estar perdendo sua preciosa pizza por causa daquilo, mas não largou as mãos de Rachel, apenas começou a desenhar círculos imaginários com o seu dedão na pele lisa e macia.
— Querida, eu não me importo com sua religião, você sabe que isso nunca foi um problema para mim, respeito qualquer uma de suas decisões ou crenças, mas já havíamos conversado algumas vezes sobre isso, eu sou ateu.
Rachel mordeu o lábio, olhando fixamente para seus pés descalços, balançando os dedos contra o carpete felpudo, que ainda tinha que ser removido.
— Eu sei que não vai acreditar em mim e também não lhe peço para que acredite, só quero que não me ache uma completa louca. – A garota continuou olhando fixo para o carpete, enquanto pensava, entre tantas as informações para dizer, qual seria a primeira, a mais fácil de Andrew aceitar. – Eu acho que você se lembra da Annabeth e do Percy, meu casal de amigos?
Esperou por um grunhido do namorado, indicando que ela continuasse.
– Eles são semideuses, filhos de mortais com deuses gregos. Eu conheci Percy faz bastante tempo e fui me aproximando mais de sua vida com o passar dos anos, até que, um dia, entendi o porquê de minha proximidade com o Jackson, a possível atração entre nós dois tinha um significado mitológico, e fui chamada pelo Oráculo de Delfos. – Rachel cruzou os braços, nervosa, quando percebeu que as mãos do moço haviam se soltado das suas, mas continuou a falar mesmo assim, sem coragem de olhar para ele. – Não sei se está familiarizado com esse nome. Séculos atrás, costumava ser uma sacerdotisa do Tempo de Apolo, sendo consultada para todas as decisões importantes que eram tomadas no Império, quando ela morreu, o Oráculo passou por diversas mulheres, até chegar em mim, e, depois de tudo que eu vi, como o mundo corria perigo e que meus amigos poderiam ser mortos, eu tive que aceitá-lo. – Ela tomou fôlego para continuar. – Antigamente, apenas virgens ou mulheres solteiras podiam assumir o Espírito do Oráculo, mas uma filha de Afrodite me contou que a deusa abençoou o nosso amor e que minha alma continua pura, por ter colocado minha vida em risco pelos meus amigos, então, provavelmente continuarei com visões até morrer.
Rachel tomou coragem de olhar para cima, percebendo que Andrew estava grudado contra a parede branca, os olhos perdidos no outro lado do apartamento, era impossível para a garota reconhecer o que seu olhar tentava transmitir. O rosto do garoto sumia com a cor da parede, e, como essa, não parecia ser capaz de apresentar nenhuma expressão ou fala. Os objetos embalados dentro das caixas também pareceram se calar, e a garota conseguia ouvir apenas um zumbido irritante na sua cabeça, uma voz que afirmava que ela tinha tomando a decisão mais estúpida da sua vida.
— Isso é muita informação, Rachel. – O jovem ainda não havia olhado para ela, e sua voz parecia embriagada, fraca. – Eu me lembro de algumas histórias, sim, acho que estou familiarizado com o termo semideus, por mais que eu pensasse que ele só servisse para elogiar uma pessoa bonita... Mas isso tudo é muito difícil de entender e aceitar. O que faz um Oráculo de Delfos? Ele te possui? Como eu nunca vi um deus grego ou nada do tipo? Afrodite? Como...?
— São muitas perguntas, e eu entendo que as tenha. E, de novo, eu não quero que acredite, só quero que continue me aceitando dessa forma. – Andrew assentiu, ainda encarando a parede. – O Oráculo é capaz de ver o passado, o futuro e realizar profecias que auxiliem os semideuses em suas jornadas. Eu não o controlo, essas coisas só vêm para mim quando necessárias, como os pesadelos que eu tenho. Mas, agora, acabamos de passar por várias guerras e finalmente estamos em paz, não faço mais profecias muito relevantes para a humanidade ou corro risco de vida. E existe algo chamado névoa, que impede mortais de verem os seres mitológicos, apenas algumas pessoas conseguem ver através dela.
Andrew bufou alto, uma risada um pouco desesperada escapou pela sua garganta.
— É como uma vidente?
— Pode se dizer que sim, mas eu não vejo o futuro quando desejo, como já disse, não é algo que está muito no meu controle.
Seu rosto adquiriu um tom vermelho, algumas veias tornaram-se mais fortes sobre sua pele morena.
— E Percy e Annabeth... ?
— Eles são filhos de deuses com mortais, como eu disse. Você se lembra do Acampamento que eu costumo ir nas férias e em alguns outros dias do ano, quando necessário? É um Acampamento que treina semideuses para saírem em suas missões.
— E eu achando que você fosse escoteira... Todas aquelas criaturas mitológicas, os deuses, os heróis, as lendas... são verdadeiros? – Rachel assentiu, e Andrew levantou, atordoado. – Preciso dar uma volta.
Ele falou tão baixo, que a garota gostaria que estivesse imaginando tudo aquilo.
Quando o garoto deixou o apartamento, sua namorada reorganizou todas as caixas, para que não caísse no choro, enquanto contava para as paredes sobre o que gostaria de fazer quando saísse da faculdade e como estava indo com o seu curso. Andrew voltou cerca de uma hora depois, por mais que tenham se passado invernos rigorosos inteiros para Rachel, com uma caixa de pizza e uma garrafa de refrigerante. Ele a beijou, sentou no colchão e começou a comer como se nada tivesse acontecido.
A garota compreendeu que seu namorado achava que tudo aquilo que ela tinha contado era apenas sua religião, suas crenças, como se Rachel fosse uma espécie de senhora que senta na porta do metrô e diz trazer a pessoa amada em sete dias, mas não se importou. Tudo estava bem quando, na madrugada, deitados e abraçados, com a luz da Lua iluminando o espaço, Andrew perguntou se Poseidon era como o Aquaman.
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