After Real

3 Capítulo 3 - Perdão


Notas iniciais
Para Brenda Noronha

— Você não acha que devia trazer suas coisas para cá? — pergunto-lhe quando o tempo esfria e ele tem de ir em sua casa para pegar alguns conjuntos de moletons e cobertores mais grossos. Estamos convivendo juntos há vários meses e não parece que mudaremos algum dia.

— Você está me convidando discretamente para morarmos juntos, Katniss? — ele indaga tirando a cabeça de meu colo para olhar-me melhor.

Agora que o pessoal da padaria consegue se virar sozinho, nós dois tiramos o domingo de uma semana de folga e na seguinte, o sábado. Semanas intercaladas para que possamos aproveitar o fim de semana de jeito diferente a cada sete dias que se passam. Gostamos de ter uma rotina, mas é sempre bom inovar.

— Nós, tecnicamente, já moramos juntos. Suas coisas só não estão todas aqui. — comento e ele sorri animado.

— Então você quer oficializar? — indaga fazendo-me corar.

Peeta e eu, apesar de não sermos realmente um casal que faz coisas de casal, assumimos uma posição de amizade entre nós mesmos. Amigos que dormem na mesma cama, mas amigos. Depois de seu telessequestro, Peeta não é mais o mesmo e jamais voltará a ser o garoto que me amava com todas as suas forças desde os cinco anos. Como podem me garantir que ele sente um pingo da mesma fração de amor que ele sentia por mim anos atrás? Apesar de eu poder gritar para todo o mundo o quanto estou completamente entrelaçada à ele pelo resto de minha vida, o loiro não pode fazer o mesmo. Peeta não me ama mais e talvez nunca volte a amar.

— É que... — suspiro. — Você dorme, cozinha e faz a maioria das coisas aqui, mas ainda é só a minha casa, entende? É solitário pensar que eu sou sozinha. Sem mãe, pai ou irmã.

— Eu já entendi. — interrompe ele entrelaçando nossos dedos e colocando nossas mãos perto de sua boca para um leve beijo. — Mais tarde nós começamos a arrumar as coisas para trazer para cá.

— Você está animado, não está? — pergunto-lhe vendo seu belo sorriso e seu corpo aproximando-se do meu.

— Claro que sim. Agora será nossa casa. É mais do que eu jamais imaginei ter com você.

Meu rosto fica vermelho. Peeta devia ter imaginado tanto para nós dois quando mais novo que tento pensar em tudo que ele planejou para vivermos juntos. Termos nossa casa, casarmos, ter filhos e os criar. Apesar de que filhos estão fora de questão. Eu nunca quis tê-los para que eles se preocupassem com os Jogos. Vi muitas mães e pais sofrendo pela morte de seus primogênitos e eu não queria isso para mim. Nem antes, nem agora e nem nunca.

Pelo início da tarde, Peeta e eu fazemos um cozido de carneiro. Confesso que logo que vi o pedaço de carne na bancada, meu estômago roncou. O loiro riu de mim e sugeriu que eu o ajudasse. Acho que se ele tivesse cozinhado sozinho, a produção ficaria ainda mais rápida. Ele teve de me explicar e ajudar com as coisas que foram designadas à mim, mas é o Peeta. Quase impossível negar-lhe alguma coisa pedida por ele.

[...]

— Shh. Calma, está tudo bem. — silencia-me ele depois de um pesadelo proveniente de nosso sono da tarde. — Não precisa chorar. Já passou.

— Era ela, Peeta. Era Prim me pedindo ajuda e eu não consegui salvá-la de novo. — conto-lhe sentindo as lágrimas passarem por meu rosto e seus braços por meu corpo. Envolvo seu pescoço e recolho-me em seu peito.

— Não foi sua culpa, Katniss. A vida dela não estava em suas mãos. — lembra-me e nego com a cabeça.

— Ela não devia estar lá. Jogaram-na lá de propósito, Peeta. Queriam me machucar.

— Não. — ele sussurra esfregando minhas costas. — Foi um terrível acidente. Um acidente, entende? Você não pode se culpar.

— Como não? — soluço. — Fui eu quem começou tudo isso. Tudo é culpa minha.

— Não é não.

Ele repete essas palavras até que eu consiga me acalmar e enfim sugere que façamos consultas com o psicólogo que cuidava de nós antes. Doutor Aurélios. Peeta diz que podemos fazer juntos e pelo telefone até que eu me sinta segura para fazer sozinha. Ele acha que eu preciso voltar a confiar em mim e voltar a ter a mesma bravura de tempos atrás, mas eu não posso ser a mesma garota porque eu não tenho mais as mesmas forças e ideais pelo qual lutar. Não há mais nada. Todos têm o que sempre tiveram direito de ter. A revolução acabou com tudo, houveram consequências e a morte de minha Patinha foi uma delas além do afastamento de minha mãe. Isso possui um fator em comum. Os mandamentos de Coin e a criação daquelas bombas de Gale e Beetee.

— Vamos sair um pouco. Precisamos nos distrair. — sugere ele ao voltar da cozinha com um copo de água para mim.

Concordo e tomo um banho rápido para tirar o cheiro de medo do meu corpo. Medo e tristeza. Num silêncio pleno, pegamos algumas malas que eu tinha da época da turnê que Effie obrigava-me a usar. Juntos, Peeta e eu nos dirigimos para a casa dele e começamos a colocar suas roupas dentro das bolsas. Algumas ele alega que não quer levar pois são especificas para usar enquanto pinta. Já que ele vai morar comigo, sua casa ficara como um atelier isolado onde ele possa se recolher e ter seu silencio para fazer suas lindas obras de arte.

— Vou levar essas daqui enquanto você faz as outras. — digo puxando duas malas cheias para fora do quarto. Quem olha para Peeta na rua nem imagina que ele tem tantas roupas, mas ele tem muitas. Tudo proveniente das viagens que fazíamos. O mesmo tipo de camisa, mas de dez cores e tons diferentes. O exagero da Capital.

— Não precisa de ajuda, não? — pergunta.

Nego com a cabeça e deixo-o sozinho. Quando tivermos acabado de recolher e juntar tudo, arrumaremos suas coisas em meu armário espaçoso. Dividir não é problema. Por isso deixo as coisas na porta marrom do guarda roupa e volto para a casa da frente para ajudá-lo com as últimas coisas. Porém quando estou na varanda da casa de Peeta algo me chama a atenção. Um homem de cabelos escuros observando meus movimentos de longe. Gale.

— Estava esperando você aparecer aqui de novo. — conta ele dando alguns passos em minha direção. Minha respiração fica pesada e eu nervosa. — Faz muito tempo, Catnip.

— Não me chame assim. — brigo afastando-me dele. — Você não tem o direito de usar esse apelido. Isso servia para quando ainda éramos amigos.

— Nós ainda podemos ser amigos.

— Não, não podemos. Não depois de tudo que aconteceu.

— Você sabe que aquilo não foi culpa minha. — diz dando mais um passo para frente enquanto eu vou para trás. Ter essa conversa em frente a casa de Peeta não é uma boa ideia. Não quando eu não sei o que isso causará nele caso nossas vozes cheguem aos seus ouvidos.

— Eu não sei de nada. Eu não conheço mais você.

Um vento frio passa por nós enquanto falo e arrepio-me pressentindo coisas ruins à caminho.

— Você não pode dizer algo assim depois de tudo que passamos, depois de tudo pelo que precisamos ultrapassar para sustentar nossas famílias. Você não pode jogar tudo isso fora. — sobressalta ele colocando sua mão sobre o peito. Nosso passado é algo pelo qual não posso ousar dizer que me arrependo. Gale me ajudou muito quando precisei, mas ele pegou tudo nosso sofrimento de adolescentes desesperados e jogou para longe com seu novo comportamento durante a rebelião.

— O que você veio fazer aqui? Para que veio me assombrar?

— Eu não te assombro. Não seria capaz disso. — completa com vigor.

— Mas é. Você é outra pessoa, Gale. É a pessoa que matou minha irmã.

— Eu não a matei! — berra. Seus olhos enchendo-se de água junto dos meus. Lembrar de Prim é demais para mim. — Não fui eu que a coloquei no campo na hora exata em que as bombas caíram. Não era para ela estar lá.

— Então porque você está aqui? Para que veio tirar a minha paz quando todas as noites eu sofro pelo que aconteceu?

— Eu só queria seu perdão. — pede e eu suspiro. — Você precisa me desculpar por eu não ter sido o que você precisou. Katniss, eu preciso tirar esse peso das costas porque também sofro por horas depois do pôr do sol quando me culpo pelo que aconteceu.

— Você não enxerga, não é? — pergunto notando que nossa conversa se prolonga mais que o necessário. — Você aparece depois de meses, diz que nada foi culpa sua quando eu via muito bem nos seus olhos o quanto era de sua vontade toda aquela guerra. Você estava enfeitiçado pelos princípios nojentos de Coin, Gale!

— Eu só queria o melhor para nossas famílias. — conta.

— E no que isso deu? Minha irmã morta e uma mãe que não aguenta ficar no distrito porque tem medo dos fantasmas. Eu sou sozinha agora. Vê? — indago. — O fato de Prim ter estado na hora errada e no lugar errado não ter sido culpa sua diretamente, não muda a realidade de ela ter morrido por algo que você criou e isso eu nunca vou perdoar. Não me peça para tirar um peso das suas costas quando esse e muitos outros jamais sairão de mim.

Isso o deixa sem fala. Não quero deixá-lo mal de propósito, mas não posso livrá-lo de algo quando ninguém pode fazer o mesmo por mim. Uma palavra não vai acabar com seus pesadelos e eu sei muito bem disso.

— Se já acabou...

— Você o escolheu. — interrompe ele parecendo nervoso.

— Peeta faz parte de mim. Sempre fez.

— Ele pode te matar! — constata raivoso. Ele quer jogar na minha cara os contras de ter ficado com Peeta ao invés de com ele.

— Você acha que eu me importo? — pergunto. — Eu já me machuquei, já tentei me matar duas vezes, mas foi ele quem não deixou. — lembro da pílula durante a guerra e o episódio com a faca. — Não você, mas sim o cara que sofreu lavagens cerebrais, perdeu toda a família e a si mesmo.

— Ele não te ama. Snow o fez te odiar e é um perigo ficar perto dele.

— Talvez seja. — concordo. — Mas eu o amo e isso basta para mim.

— A Katniss que eu conhecia jamais falaria isso. — ele ri.

Algumas horas depois, quando Peeta e eu estamos para finalizar a arrumação de suas coisas em meu armário, Gale bate em minha porta e se despede de mim alegando e explicando que veio fazer uma visita a sua mãe e irmãos. Conta que faz parte do serviço militar de segurança agora que os pacificadores foram extintos. Desejo-lhe uma boa viagem e ele se vai tão silencioso quanto veio, tão destruidor quanto um furacão e tão simples quanto um acenar de mãos.

— Quem era? — Peeta pergunta guardando as malas nas prateleiras grandes de cima.

— Greasy perguntando se precisaríamos dela essa semana. — minto.

De vez em quando ela nos ajuda com a faxina. Quando Peeta e eu ficamos ocupados e cansados demais com a padaria, ela oferece seu tempo para limpar nossa casa vendo que somos incapazes de erguer um dedo para pegar a vassoura e faxinar a casa.

[...]

— Tire o pé da mesa. — peço para Peeta enquanto termino de lavar a louça. Ele ri.

— Pensei que isso valesse só para o Haymitch. — diz aconchegando-se melhor no sofá e com os pés ainda sobre a mesinha de centro.

— Se ele ver você fazendo isso, ele vai querer fazer também. Então será impossível convencê-lo a tirar o pé daí.

— Mas ele já foi embora. — o loiro ri enquanto seco as mãos. — Ele não vai ver nada.

Sorrio.

— Vamos subir, garoto rebelde.

Recolhidos na cama, Peeta acaricia minhas costas enquanto deixo minhas mãos entrelaçadas em cima de minha barriga e meus olhos grudados nos seus. Seu cotovelo está dobrado e ele apoia a lateral do rosto na palma de sua mão aberta.

— Eu sei.

— Sabe o que? — pergunto confusa.

— Que não era a Greasy na porta mais cedo e que você não demorou para voltar e me ajudar com as últimas malas porque as primeiras estavam pesadas demais para subir as escadas com as duas de uma vez.

— Peeta...

— Porque mentiu?

— Eu não sabia como você iria reagir. — confesso.

— Eu sou incapaz de te fazer algum mal como ele disse, Katniss. — fala ele subindo sua mão até meu pescoço onde ele para e acaricia minha nuca com seus dedos gentis.

Arrepio-me.

— Por isso que eu não disse nada. Não queria que isso acabasse envenenando você e ti fizesse achar que pode me machucar só porque ele disse que sim. Eu só queria ti proteger.

— É isso que fazemos, não é? — ele pergunta e eu sorrio sabendo sua resposta.

— Sinto muito. Sei que devemos ser verdadeiros um com o outro.

— Devemos sim. — ele suspira rindo. — Mas você não me contou toda a verdade ainda.

— Não?

— Não. Você disse uma palavra que eu gostei muito de ouvir.

— Então nesse caso você não foi de total sinceridade também. — falo. — Você não me disse que escutou toda a conversa que tive com ele.

— A senhorita é muito esperta.

— E o senhor adora se safar das coisas.

Peeta sobe sua mão para meu rosto e acaricia minha bochecha antes de tirar alguns fios de cabelo de cima de meus olhos. Sinto um frio na barriga como quinhentas borboletas loucas para sair de dentro de mim. Suas asas batendo e coçando em mim.

— Eu também te amo. Só tinha medo de dizer, você sabe... Por causa de todo o nosso histórico de anos atrás, fica difícil saber se você realmente gosta de mim. Mas depois do que disse para ele hoje, eu senti que não podia ser fingimento. Convivemos juntos há tempo demais para conseguir identificar quando um de nós mente.

— Eu não menti. — conto sentindo meu rosto esquentar.

— Eu sei.

Sorrindo ele deixa sua cabeça cair para perto da minha e logo gruda seus lábios nos meus. É quente, gostoso e apaixonante. O movimento das borboletas intensifica-se em mim e acabo as ignorando quando aquela mesma vontade que senti na caverna e na praia do massacre afloram em meu corpo mais uma vez. Ergo minhas mãos para suas costas quando o seu peso cai para os lados de minha cabeça onde seus braços estão.

Sua boca é macia na minha e não posso conter um leve sorriso ao sentir meu lábio inferior ser puxado e mordido por Peeta. Eu senti saudade desse ato íntimo entre nós dois. Viver meses e meses dormindo ao lado dele, sentindo seu corpo abraçar o meu e não poder beijá-lo foi uma louca tortura. Uma tortura que teve fim agora e que jamais voltará a ser presente.

— Você me ama. Verdadeiro ou falso? — pergunta ele passando seu nariz no meu.

— Mais que verdadeiro, Peeta. Muito mais.

Notas finais
Alguns devem saber que estou cheia de problemas e empecilhos para escrever. Caso queiram saber mais é só aparecer lá no grupo. Enfim, o capítulo está aqui e espero aparecer no fim de semana com coisa nova de novo. REVIEWS? RECOMENDAÇÕES? Grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/1454122631524474/