Lembranças são como gelo, elas vem, te congelam no passado, e quando querem evaporam.

Era 1916. Estava sentada em uma cadeira na nossa velha mesa de madeira. Avril chegara naquele instante carregando uma cesta nas mãos.

—Eles chegaram? – Ela me pergunta colocando a cesta na mesa.

—Não, ainda não.

Nossos pais não apareciam em casa há uma semana, o que não acontece constantemente, já que geralmente saíam por no máximo quatro dias, já fazia um certo tempo que eles vinha agindo estranhamente.

Fui ao meu quarto e adormeci.

Acordei com Avril me chamando para o jantar, a caminho escuto um barulho vindo do laboratório dos meus pais.

—Avril, eles estão em casa? – Pergunto com esperança.

—Não – Ela responde frustrada.

—Estranho, tenho certeza que ouvi um barulho do laboratório.

—Deve ter sido o vento, vem jantar logo.

—Vem comigo – Vou em direção ao laboratório.

—Themis, o que vai fazer – Ela pergunta assustada.

-Pai? – Bato algumas vezes na porta porém ninguém me responde.

Abro a porta e entro.

—Themis, está louca? Papai nos proibiu de entrar.

—Entre logo.

Olho por toda a sala procurando o que causou o barulho. Mas tudo estava em seu devido lugar, até minha querida irmã derrubar vários frascos de vidro no chão.

—Que droga Avril!

Pego os cacos mas acabo me cortando.

—Ai! – Coloco o dedo cortado na boca.

—Cuidado! – Avril diz preocupada.

—Você também cortou seu pé, vou pegar um pano e gelo.

Fui até a cozinha e coloquei alguns cubos de gelo em um pano, quando voltei não via Avril.

—Avril! AVRIL! – Chamo a inúmeras vezes até achar ela caída no chão. – Avril, me responda. Acorda! – Fico a balançar ela várias vezes até perceber que aquela não era minha irmã.

Quando a mulher abri os olhos, à última coisa que lembro é de ouvir minha irmã gritando.

100 ANOS DEPOIS

Tic tac, tic tac, o único barulho que ouvia em toda a casa era o do relógio. Eu estava deitada no sofá olhando pela janela as gotas de chuva escorrendo pelo vidro.

Meu celular toca e eu atendo.

—Alô? Themis?— A voz do outro lado disse.

—Oi, Julia? – Julia era minha única amiga do colegial, e também a única que podia levantar meu humor.

—Queria saber como você está, não aparece há dois dias na escola. Estou preocupada, te mandei diversas mensagens mas você não respondeu a nenhuma delas.— Disse nervosa.

—Não se preocupe, estou bem. Irei aparecer amanhã.

—Ótimo, tenho tanta coisa para te contar, você nem vai acreditar!

Ficamos por duas horas conversando, até sua mãe chama-la para jantar.

E eu, fui a uma loja de conveniência perto comprar meu jantar. Quando faço o mesmo caminho voltando para casa, sou pega de surpresa por um homem com uma faca na mão.

—Passa tudo! – O ladrão aponta a faca em minha direção.

—Você chegou em um péssimo momento, meu caro – Sorrio diabolicamente.

—Seus o-olhos, o q-que é v-você? – Ele diz e corre.

—Mexeu com o demônio errado, camarada. – Passo a língua sobre as minhas presas e corro atrás dele.

Deixei o homem caído perto de uma caçamba de lixo em um beco, provavelmente suguei toda sua energia. Limpei o sangue em meu rosto e continuei meu trajeto para casa.

Assim que abro a porta a porta de casa vejo Avril no sofá assistindo a Tv. Acabo perdendo o apetite, e jogo a sacola em cima da mesa. Subo para meu quarto e durmo feito uma pedra.

No dia seguinte, acordo com o barulho do despertador. Me levanto e vou até meu guarda-roupa, cato qualquer blusa, por fim pego uma blusa de manga curta branca, um jeans azul-claro e meus tênis all-star vinho, me visto. Escovo os dentes, faço um coque meio bagunçado, pego minha mochila e vou caminhando para a escola.

—Themis! – Julia me grita assim que me ver entrar no colégio, corre em minha direção e me abraça.

—Oi! – Sorrio.

Fomos para a sala de aula e conversamos até o professor do 1º tempo chegar. Eu estava quase morrendo de tédio na metade da aula de física quando o sinal do intervalo tocou. Ah, me vi livre.

—Que aula você tem agora? – Pergunta Julia pegando alguns livros debaixo de sua carteira.

—Matemática –Faço uma careta de nojo colocando a língua para fora.

Júlia ri – Eu de história, a gente se vê depois.

Depois de muitas aulas o sinal do almoço toca.

Vejo minha amiga em uma mesa no canto e vou até ela. Meu olhar e o de Avril se cruzam e eu sorrio ironicamente em sua direção.

—Minhas aulas foram um saco, Jesus! – Falo e pego uma de suas batatas fritas.

—Aposto que as minhas foram piores, e solte minha batata! – Ela dá um leve tapa na minha mão.

Ri e deito minha cabeça em cima do meu braço que estava sob a mesa. Estávamos ali até o sinal tocar novamente.

—Até logo. – Dou um ‘tchau’ e vou para a próxima aula, sociologia.

Faço meus deveres. Finalmente escuto o sinal da saída. Vou ao quarto andar da imensa escola, Stranger School. O andar abandonado pela a escola. Sento em um canto daquele gigante corredor e fico a observar por uma das janelas as crianças brincando em um parquinho em frente. Aquela paisagem me acalma.

Ouço o toque do meu celular, que interrompe meus pensamentos.

—Oi Julia – Digo.

—Onde está? Estou te procurando há um tempo!

—Já vou te encontrar, pera aí.

Encerro a chamada e sigo para o pátio. Júlia me avista e se aproxima.

—Vamos tomar um café? – Ela sorri.

—Ok, vamos!

Eu pego um cappuccino e Julia, um café expresso. Ficamos conversando e rindo das histórias dela, até ela ir embora. Então, nos despedimos e fomos cada uma para sua casa. Quando cheguei já era 20:30 da noite.

—Oi minha filha – Minha mãe sorri.

—Oi. – Respondo e subo para meu quarto.

Fico trocando mensagens pelo sms, foi quando minha mãe me chamou para o jantar.

O jantar foi tranquilo se não mencionar os olhares que eu e Avril trocamos. Assim que lavo a louça me jogo na cama e adormeço.

Acordo sem ouvir o despertador, o que significava que estava atrasada. Me arrumo rapidamente, pego uma maça na geladeira e corro para escola comendo a maça ao mesmo tempo.

Cheguei não mais que uns vinte minutos atrasadas mas foi o suficiente para o professor de ciências, que me colocou de detenção depois da aula.

—Não acredito que tô de detenção, fala sério! – Falo irritada sentado atrás da Julia.

—Essa não é a primeira vez que se atrasa para a aula dele durante só esse mês! – Ela ri.

—Você ri porque não é tu que vai ter que aturar ele depois da aula.

O professor entrou na sala de aula e paramos de conversar. Depois de algumas horas que mais pareciam ser minutos intermináveis o sinal tocou e eu fui ao refeitório me encontrar com Julia.

—Não acredito que vou ter que ficar até mais tarde aqui – Faço uma cara de quem está chorando e minha amiga ri.

—Na próxima não fica vendo Tv até tarde – Ela retruca e eu faço uma careta.

—Nós vamos na festa da Luna hoje, né?

—Sim, vamos, vou ir na sua casa ás oito. – Respondo.

Volto para a sala de aula.

O horário de saída se aproximava, e enquanto eu via todo mundo indo embora, minha indignação de ter que ficar na escola aumentava! Tive que ir para a sala de detenção, o professor já estava lá dentro, sento em uma cadeira. Achei que seria a única a ficar de detenção hoje, até aparecer um menino alto e magrelo, loiro com um pouco de espinhas no rosto. Ele estava usando jeans, um par de tênis velho e um óculos de grau. Um típico nerd.

—Entre Sr. Collins.

O rapaz se senta na cadeira ao meu lado e começa a fazer uns trabalhos, trabalhos escolares provavelmente.

—É a primeira vez que vejo um nerd na detenção – Falo baixo – Posso saber como veio parar aqui?

—Eu tenho um nome, e é Dean. Me atrasei para a aula dele. – Responde indiferente.

—Ele não perdoa um atraso – Suspiro

—Você tem fama de ter mais detenções que o normal, então no seu caso tem que certeza que foi apenas um? – Ele ri

Eu mostro a língua pra ele.

—Parem de falar já! – O professor diz e nos calamos.

Após algumas poucas horas a detenção acabou, me despedi de Dean e fui caminhando para casa.

Joguei a mochila em qualquer canto do meu quarto, e assim como a mochila, me joguei na cama. Hoje iria ser um longo dia!