After Midnight
25 As coisas que perdemos...
Notas iniciais
Após algumas semanas a neve derreteu e toda Portland estava úmida.
As estradas de terra eram três palmos de lama mole e grudenta.
Os dias de inverno divertido tinham acabado.
Quando acordei naquela manha uma chuva torrencial castigava o lugar.
Levantei da cama e uma onda de frio me atingiu, fui até a janela e afastei um pouco a cortina para olhar para fora. O céu estava escuro e raios caiam por todos os lados. Não era um dia muito agradável.
Peguei o meu celular pretendendo ligar para o Sam, mas acabei vendo uma notificação da agenda.
“Apresentação beneficente do Sam”
Puta merda. É hoje!
Sam havia me dito há alguns dias atrás que faria uma apresentação num show beneficente, mas eu havia esquecido completamente. E hoje era o pior dia para se fazer qualquer coisa.
Sentei na minha cama por alguns minutos na esperança que o Sam me ligasse e dissesse que a coisa toda havia sido cancelada, mas isso não aconteceu. Meu telefone realmente tocou, mas não era o Sam, era o Kurt.
_ Alô? – atendi incerta.
_ Paloma! Esta pronta? Ah... Claro que não... Foi mal. Eu sai mais cedo de casa por causa da chuva, mas não me atrasei tanto quanto eu esperava... Enfim, estou chegando aí... Sabe do que eu estou falando né? – Ele falou tão rápido que as informações ficaram muito confusas na minha cabeça, mas entendi as palavras chaves: Sai mais cedo; não me atrasei, chegando aí; Sabe do que estou falando né. Kurt iria me levar até o tal lugar, o que era um tanto estranho já que normalmente quem era a “banda” do Sam era ele.
_Sim... Sei... Entendi. – respondi ainda meio confusa.
_ Chego ai em 2 minutos. – e então ele desligou o telefone.
Continuei sentada olhando pro nada absorvendo o choque de realidade e tentando entender o que estava acontecendo. Até que a situação me atingiu como um soco e eu me levantei e fui para o closet.
Eu teria que sair nesse dilúvio. Que roupa se veste para ir a um dilúvio? Eu gostaria de saber. Ninguém sai num tempo desses. Ah... As coisas que eu faço por amor.
Resolvi vestir qualquer coisa quente que não retese o ar gelado e deixasse as roupas frias. Acabei com um sobretudo preto e uma calça jeans azul, com uma galocha preta com um salto baixo e um enfeite de laço que poderia muito bem se passar por uma bota normal não fosse o brilho do material impermeável.
Quando eu desci apenas com as minhas roupas a minha carteira e meu celular enfiados dentro do bolso gigante do sobretudo, Kurt já estava na sala conversando descontraidamente com Tanner.
Ele me ouviu descer as escadas e se virou pra mim.
_ Olá – ele me cumprimentou. Sempre admirei o jeito como Kurt falava, uma maneira formal descontraída. – Isso é uma galocha?
_ Há quanto tempo esta aqui? – ignorei a pergunta dele e fiz outra pergunta.
_ A alguns minutos, nada de mais. –Kurt deu de ombros.
_ É definitivamente uma galocha. – Alisson apareceu de lugar nenhum falando. – Eu gostaria de ir com vocês, mas... Essa chuva não me favorece.
Fiquei com vontade de perguntar se alguém havia chamado ela, mas seria uma grosseria desnecessária. Urgh... Dia idiota humor cretino. Espero que esse show mude as coisas.
_ Então ta... Vamos? – Kurt olhava pra mim com um olhar que estava beirando a impaciência.
_ É... Vamos.
Olhei de relance para os meus Mauvais Dentes e eles automaticamente começaram a me seguir.
O carro de Kurt era um esportivo, mas moderno do que eu esperava. Entramos no carro dele enquanto Fred e Jason entravam naquele veiculo enorme disponibilizado a mim, e seguimos para a tal apresentação.
_ Você sabe onde fica esse lugar exatamente? – No folder barato que o Sam me deu onde continha o endereço e à hora do tal evento, mas o tal lugar parecia totalmente estranho pra mim, comecei a duvidar se ficava ainda em Portland.
_ Tenho uma vaga idéia... – ele respondeu com indiferença.
_ Uma vaga idéia? – Não parecia suficiente, mas resolvi deixar pra lá.
Começamos a seguir pelas ruas bem pavimentadas do condomínio em direção a saída.
_ Esse condomínio é realmente incrível – Kurt observou. – Ouvi dizer que tem pista de hipismo aqui.
_ Tem muitas coisas aqui que todo mundo conhece e eu não – retruquei.
Quando saímos do complexo de casas seguimos por alguns caminhos que no começo me eram familiares, mas depois as ruas começaram a ficar estreitas, esquisitas e enlameadas.
_ Kurt, você sabe onde estamos?
_ Eu tenho total certeza de que estamos... Perto. – Ele não fazia a menor idéia da onde estamos.
_ Perto? É sério? Nós podemos...
Não pude terminar a frase por que o carro deu um solavanco esquisito, e não queria mais andar.
_ Acho que estamos atolados. – Kurt estava sempre pronto para afirmar o obvio.
_ Você vai ter que descer e empurrar então. Estamos no meio do nada, não podemos ficar aqui.
_ Acho que eu tenho capacidade para essas coisas? Eu sou a pessoa que tem um computador de cinco mil reais, eu não entendo de carros e nem de força bruta.
_ Que ótimo Kurt. Quer que eu desça e empurre?
_ Você que é a Hexembiest com Mauvais Dentes de guardas. Dá um jeito.
_ Bem lembrado. – Eu tinha duas opções: (a) tentar eu mesma mover o carro com meus poderes de Hexembiest, ou (b) chamar meus Mauvais Dentes pra empurrarem. A, é claro.
Tentei com todas as minhas forças fazer com que o carro se mexesse, mas mover uma coisa daquele tamanho não era fácil, até mesmo pra mim, não consegui segurar a transformação, Kurt chegou a se assustar se voltando um pouco pra trás e me olhando com olhos arregalados, mas depois de algum esforço a coisa se moveu o suficiente para termos certezas de estávamos fora do buraco, mas mesmo assim a coisa continuava a não querer se mover.
_Você é assustadora – ele observou. – Mas enfim... Não estamos mais atolados. O que tem de errado com esse carro... Idiota. – Kurt socou o volante fazendo a buzina soar.
_ Que droga, Kurt.
_ Desculpa mesmo. – Kurt finalmente se rendeu se deixando deslizar no banco.
_ Esquece. Vamos com os Mauvais Dentes no meu carro.
Eu estava abrindo a porta pronta para sair quando Kurt segurou meu braço.
_ Não posso deixar o meu carro aqui! – Dessa vez ele afirmou como se fosse obvio, mas não era.
_ Ta. Então fica ai até o seu carro magicamente funcionar.
Mais uma vez tentei sair e ele me puxou de volta.
_ Não pode me ajudar?
_ Eu poderia tentar, mas não preciso de um motor de carro explodindo na minha cara. Obrigado.
Ele finalmente me soltou e eu consegui sair. A chuva começou a acertar meu rosto, mas quando olhei para trás o meu carro não estava lá... Nem os meus Mauvais Dentes.
Voltei pra dentro do carro automaticamente.
_ Você não tem um guarda chuva ai, não é? – perguntei incerta.
...
Passamos mais ou menos meia hora tentando fazer o carro funcionar enquanto esperávamos os meus Mauvais Dentes por magia aparecerem. Nenhuma das duas coisas aconteceu.
_ Kurt, temos que sair. – Informei depois de alguns minutos de absolutamente nada a fazer.
_ E ficar perdidos e molhados na mata? Ótima sugestão. Adorei. Vamos lá.
_ Ah senhor ironia. – Revirei os olhos. – Tenho que achar meus Mauvais Dentes, e acho que ainda temos que chegar ao tal evento. Acho que esta mais perto do que a minha casa e já parou de chover de qualquer maneira.
_ Seus Mauvais Dentes não sumiram a toa, alguma coisa aconteceu. Andar com você é um perigo.
_ Ok, então fique aí.
Abri a porta e sai do carro e comecei a seguir a estrada. Quando ouvi a porta do carro abrir de novo eu soube que ele tinha mudado de idéia.
_ Espera! – Kurt gritou. – Eu vou com você. Mas deixei anotado que eu acho isso uma idéia terrível.
_ Ok, vou anotar. – Eu sorri e segurei a mão dele e começamos a caminhar.
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