- 31 de outubro de 2013, Louisiana, Nova Orleans. -

Kaily Lundgreen dormia serenamente em sua cama. O imenso quarto branco, enfeitado por luzes beges e reluzentes e posters de bandas de indie, era agraciado pelo som inquietante de Orange Is The New Black vindo da televisão que ficava logo a frente da cama. Chovia do lado de fora, mas nada, nem uma explosão poderia abalar o doce sono do qual Kaily aproveitava, ou não...

A porta branca do quarto logo foi aberta as preces por sua mãe, Rae Lundgreen, uma mulher de cinquenta anos de estatura média, cabelos loiros, olhos azuis e rechonchudinha. Ela usava uma camisola branca, suava muito, e os olhos estavam rodeados de lágrimas. Ela foi até a cama de Kaily, e chacoalhou a filha e gritou:

- Kaily! Kaily, acorde! Nós temos que ir!

Foi até o closet da menina, esforçou-se para pegar uma grande mala de couro que estava a cima do armário de sapatos de Kaily, jogou praticamente todo o guarda roupas ali dentro de forma desajeitada, logo pegou uma mochila de costas grande e jogou grande parte dos sapatos ali. Kaily levantou da cama em um pulo. Olhou a mãe fechando as malas e franzindo o cenho perguntou:

- O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Rae jogou as malas porta afora, se aproximou da filha agarrando as bochechas cheinhas da menina com as mãos.

- Estão atrás de você, querida. Descobriram. — Ela disse com lágrimas escorrendo.

Kaily olhou bem fundo nos olhos azuis da mãe. Se culpou mais de milhões de vezes em cinco minutos por dar muito sinal para os humanos ao seu redor. Na escola... Naquela semana ela tinha utilizado suas habilidades para ressucitar os peixes do laboratório de biologia. Sem contar com as plantas que ela havia revivido dentro do laboratório mesmo. Se lembrou de que havia sentido que estava sendo observada por alguém. "Merda..." pensou sentindo as bochechas arderem. Rae a acordou do transe e disse:

- Anda, Kaily! Temos que ser rápidas! Coloque qualquer roupa mais escura, e ande logo. Estou descendo, me encontre no jardim.

Kaily entendeu a gravidade da coisa. Saiu correndo para o closet, retirou seu pijama, uma camiseta velha do Vampire Weekend e calças vermelhas com um enxadrezado azul marinho e verde escuro, colocou a primeira coisa preta que viu, uma calça leggin, com um uma jaqueta e uma blusa de mangas compridas por baixo, colocou seus vans combinando, pegou o celular e alguns cd's e saiu correndo pelas escadas. Sua mãe bebia um copo de água com açúcar, que foi jogado dentro da pia assim que viu Kaily. Rae correu em sua direção, agarrando Kaily pela mão e a levando até a garagem da casa, onde ordenou que Kaily entrasse no livina preto.

Rae entrou logo depois abrindo o portão da garagem, e acelerando para fora da casa azul pastel de venesianas brancas.

Kaily nãosabia para onde estava indo, só tinha como primeira impressão de que sua mãe a levava para a casa de sua tia, pois Rae acelerava loucamente até a entrada da estrada de Nova Orleans. Ela observou a mãe fazer uma curva em uma entrada tecnicamente "fechada" da estrada, correr mais uns dez quilometros, e parar em meio a uma grande floresta escura. Kaily arregalou os olhos e berrou:

- ONDE ESTÁ ME LEVANDO?

Rae respirou fundo e disse:

- Kaily, assim que chegarmos lá, eu te explicarei. Agora não temos tempo.

As duas saíram do carro as preces. Kaily pegou a mala de couro claro no porta-malas empunhando-a, e logo jogou a grande mochila nas costas. Rae pegou a mala de couro, e tomou frente rumo ao seu destino. As duas entraram entre a um tipo de pantano. Fedia a fezes, era escuro e tinha um grande rio se estendendo a sua cerca. Kaily estremeceu e se aninhou ao braço de sua mãe.

As duas andaram rumo ao norte do pantano. Kaily observou o seu redor. Haviam sorgos do pantano expalhados pelo local, ouviam-se coaxados de sapos e podiam ser visualizadas grandes árvores se estendendo por toda a região. Muitas plantas emergiam do lago fedorento e barroso do pantano. Kaily pisoteou um sapo, saltou e começou a chorar. Rae tapou sua boca, e pegando Kaily pela mão a arrastou para fora do pantano.

Kaily fechou os olhos chorando baixinho e se deixando ser guiada pela mãe, continuou sua caminhada. Rae franziu o cenho e disse:

- Kaily, pare com isso e abra os olhos! Falta um quilometro.

Kaily abriu os olhos e viu um grande campo. A grama era bem aparada, creciam dentes de leão ali e a mais ou menos um quilometro, ela conseguia ver uma grande casa branca. Era uma grande mansão branca, de venesianas pretas, tinha colunas enormes em estilo grego, e as luzes da casa estavam acesas. Rae correu com Kaily soluçando, pela campina, e não se preocupou em olhar para a filha, que tremia de nojo a cada vez que olhava suas roupas enlameadas e que começavam a pesar. Os tenis de Kaily eram marrons com manchas de sangue na borda, e suas calças estavam completamente sujas de lama e restos de planta. Ela respirou fundo engolindo o choro e observou a imagem do grande casarão se aproximar. Kaily viu silhuetas femininas passarem pelas janelas do casarão e perguntou baixinho:

- Onde estamos indo, mamãe?

Rae respirou fundo e disse:

- Calma, filha... Por favor, aguente mais um pouco.

As duas chegaram ao casarão subindo os dois pequenos degrais de madeira branca, dando entrada na varanda do terreo. Rae largou a mala de couro no chão, ouvindo seu baque devido ao contraste com a madeira, e Kaily fez o mesmo com a mochila de costas. A menina observou as mãos sujas e fungou. Quando ela se virou para observar a vasta imensidão verde banhada pelo azul marinho do céu da madrugada, a grande porta branca se abriu, e uma mulher loira saiu de lá vestida em uma camisola branca de seda, com penoir para combinar. Ela deveria ter uns sessenta anos. Os cabelos estavam presos por bobbys e ela tinha olhos cinza. Ela sorriu ao ver Rae.

- Achei que viriam mais cedo... — A loira disse. — Bem-vinda ao lar, Rae Lundgreen.

Rae sorriu para ela e disse:

- Obrigada, Cornelia.

A loira, denominada Cornelia, deu passagem para elas, e quando mãe e filha entraram, ela retirou um cigarro de um dos bolsos do penoir e disse:

- Então quer dizer que acharam a bruxinha, ahn?

Cornelia raspou o dedo indicador no polegar e uma pequena chama se revelou na ponta da unha vermelha. Ela acendeu o cigarro, assoprou o dedo, e deu uma longa tragada, fazendo sinal para que as duas adentrassem o casarão. Kaily observou o local. As janelas da frente estavam cobertas por cortinas beges, e logo na entrada havia um tapete escrito "Bem-vindo!". Havia um conjunto de cabideiro para pendurar casacos ao lado da porta, e na sala de estar podia-se ver um divã vermelho e dourado, e logo afrente, um gramofone tocando Frank Sinatra. Um gato preto cochilava na cadeira ao lado do cabideiro. Cornelia as guiou até o centro da casa, onde havia uma grande mesa de vidro com uma meia lua no centro. As três se sentaram, e Cornelia sorriu observando Kaily.

- Então vamos começar... — Cornelia disse. — Seja bem vinda a Academia de Bruxaria de Salém.

Kaily sorriu fraco e disse:

- Obrigada...

Cornelia sorriu.

- Eu sou Cornelia Fox, e vou ser sua mestra daqui em diante. Quero que saiba que também fui mestra de sua mãe. — Ela disse olhando para Rae. — Bem, a base você já tem, querida. Você, Kaily Lundgreen, sabe que é uma bruxa, nosso grande problema foi saber esconder isso da sociedade humana, certo?

Kaily franziu o cenho e disse:

- Minha mãe já havia te contado?

Cornelia riu.

- Não, meu bem... Sua mãe só havia me contado que estava vindo te trazer, o resto advinhei sozinha.

- Tia Nelia é ótima clarividente. — Rae disse olhando Kaily.

Cornelia sorriu e disse:

- Primeiramente, querida, quero que saiba que nós não somos a única academia de bruxas no mundo. Temos em todos os lugares ao redor do mundo, e aqui na velha Salém temos doze, todas escondidas pelos pantanos. Temos a Morgana's Order, Betty Parris School, também a academia para meninos Giles Corey, e muitas outras mais especializadas em treinar e preparar bruxas e bruxos. Somos importantes para a sociedade...

Cornelia se levantou indo até uma bancada que dava para a sala de jantar, pegou a garrafa de Whisky que se encontrava encostada no canto, um copinho de vidro, derramou o líquido ali dentro e voltou a mesa:

- Rae, querida, você quer um pouco?

Rae se recusou a tomar, agradeceu e permaneceu em silêncio. Cornelia tomou um gole e disse:

- Kaily, querida! Deve estar se perguntando: Onde estão as estudantes? Esclareço para você que todas estão espalhadas pelos três andares do casarão. Oh! Já informo que não somos tão rigorosos com nossas alunas, como por exemplo na Abigail Concil, mas também temos nossas exigencias, certo? Nada de brigar com as colegas de quarto e turma, a partir das dez da noite, todas nos quartos, devemos ser pontuais durante as refeições, e sem uso de drogas e bebidas alcólicas por aqui. — A loira riu. — Sou uma excessão, é claro.

Kaily sorriu.

- Bem, nossa casa fora fundada em 1890 por uma bruxinha chamada Mary Lou de Camille, filha de franceses, amante de sua raça bruxa. — Cornelia sorriu. — É bom que nos orgulhemos de quem somos, certo?

Kaily afirmou com a cabeça.

- Aqui aprendemos muitas coisas como, história da bruxaria, alquimia, botanica segundo a bruxas, matemática, literatura, ingles, e por último latim, para aprendermos palavras em rituais e etc... Somos bruxas de luz, então qualquer sinal de magia negra, você é expulsa. Bruxa que fere brutalmente outra bruxa é queimada sem dó ou piedade, tome cuidado, sim? Bem... Aqui está o básico. O resto aprenderemos amanha pela manhã. Você ficará no ultimo quarto com outras duas alunas excelentes. Então façamos as despedidas, e eu te guiarei até os seus aposentos, certo, querida? — Cornelia afirmou sorrindo.

Kaily afirmou com a cabeça e se levantou juntamente com Rae para se despedirem.

Rae a abraçou e disse:

- Me desculpe por não ser tão clara contigo a vida toda...

Kaily riu.

- Mãe, o pior de tudo você já havia me contado: Kaily, você é uma bruxa!

As duas riram. Rae a soltou e disse:

- Você ficará bem, querida. As férias de inverno já estão chegando.

Kaily sorriu.

- Eu me cuido, mãe. Sério!

Rae sorriu dando um beijo em sua bochecha.

- Estou tão orgulhosa de você, Kaily. Eu te amo.

Kaily sorriu.

- Eu também te amo, mamãe.

Cornelia se despediu de Rae e passando os braços pelos ombros de Kaily, que tinha duas malas em mãos, a acolheu levando-a até seu quarto, onde seu destino a esperava.