After Ever After-Interativa
39 Chapter XXXVII — Discussões e Relações
Notas iniciais
A manhã de quarta-feira já ia a meio, e eu entrava pela porta da sala onde ia ter matemática pelos dois próximos períodos. Andei em direção à minha mesa de costume: fila da frente, ao lado da janela. Rosemarie já estava sentada na mesa do lado quando cheguei, conversando com Rosetta, que, por sua vez, estava na mesa seguinte.
— Bom dia — cumprimentei ao sentar-me. Rosetta devolveu, e Rosie sorriu-me simplesmente. Já nos tínhamos visto minutos antes. Mas nesse momento não me tinha apetecido assistir à conversa de Rosie com o meu irmão gêmeo, e por isso tinha seguido caminho sozinho para a cafetaria da escola.
— Estávamos a falar sobre a nova equipe de torcida que vão formar para apoiar a equipe de basquete — disse Rosetta, inclinando-se sobre a sua mesa de forma a conseguir ver-me e a incluir-me na conversa. Tinha uma expressão ligeiramente desagradada.
— Ela acha que cheerleading é algo que faz regredir a sociedade porque, supostamente, é apenas uma forma de colocar as mulheres a dançar com roupas curtas para entreter os homens — disse Rosie num sopro, e eu pude ver que revirava os olhos internamente. Ela nunca o fazia na realidade, pois era contra todas as regras de etiqueta que a obrigavam a cumprir desde criança. No entanto, eu conseguia sempre detectar um tipo de olhar diferente quando ela estava cética quanto a alguma coisa.
— E não é verdade?! — perguntou Rosetta indignada — Já viste a maioria das coreografias? É quase como se não quisessem saber de todo o esforço que se fez para que as mulheres fossem livres e vistas como iguais em relação aos homens! Fazem delas completos objetos de admiração! Não pessoas!
— Tenha calma, Rose! — disse Pearl Pontus acabada de chegar, acompanhada por Matt Frost, o seu namorado. Ambos ocuparam os seus lugares do costume, ao lado um do outro: Matt atrás de mim e Pearl atrás de Rosemarie — Não é como se fossem fazer striptease durante as coreografias — disse meio a rir.
— E também há homens que o fazem — interveio Matt — Acho que é muito mais pela ginástica que envolve do que propriamente para andar a exibir o corpo.
Rosetta suspirou sentindo-se derrotada, mas ainda não totalmente convencida. Voltou-se para sua carteira, e pegou no livro de Arthur Conan Doyle que andava a ler naquela semana. Isso foi o foi suficiente para Rosie ver uma oportunidade para mudar de assunto:
— O Max contou-me que vocês discutiram outra vez — disse ela, depois de ter aproximado a sua cadeira um pouco mais da minha, de forma a mais ninguém ouvir.
— Pensei que vocês não se falassem — entranhei eu. — Depois daquela cena no domingo.
— Bom, falamos — disse Rosemarie. — Quer dizer, mais ou menos. Estou a tentar dar-lhe um gelo para ver se aprende a não ser um idiota.
"Impossível," pensei para mim.
— Mas ele não me disse porque é que discutiram — insistiu, fitando-me com olhar inquisidor.
Revirei os acontecimentos de domingo à noite na minha cabeça, certo de que o melhor era não contar a verdade:
"— Tu podias parar de a pressionar! — disse irritado. Max virou-se de novo para mim, de expressão espelhada à minha:
— Olha quem fala! Como se não fosses tu quem anda sempre atrás dela! Sempre a segui-la, sempre a fazeres-te de coitadinho!
— Oh sim! Até porque eu sou igual a ti não é?! (mais tarde dei-me conta da ironia desta frase)
— O Max é isto, o Max é aquilo! — continuou ele. — É como se eu fosse a única coisa que vocês têm em comum! Como é que ainda estás à espera de que algum dia ela vá querer ficar contigo?!
Não sei ao certo como, mas a verdade é que segundos depois, Max estava encostado à parede. As minhas mãos seguraram-no pela gola da camisa, e ele olhou furioso para mim, mas sem tentativa de defesa.
Levantei o meu punho direito, preparando-me para o esmurrar da maneira que tantas vezes me apetecera fazer.
— Como se fosses capaz — provocou.
E isso fez-me parar. Estaquei. Aquele não era eu. Eu não era o gêmeo vingativo e e violento da família. Eu não era o irracional, que cedia a impulsos e provocações.
— Tens razão. Não sou — disse. — Porque eu e tu somos muito diferentes.
Baixei o punho, larguei a sua camisa, e saí do quarto. Eu podia não ser nenhum santo, mas Max nunca iria ter o prazer de dizer que algum dia eu fora pior do que ele."
— Não foi nada de especial — minto. — Foi apenas por causa de quem é que ia usar o carro no dia seguinte.
Rosie suspirou:
— Por favor Will, vocês têm de se entender! São família! Vão passar o resto das vossas vidas a odiar-se por razão nenhuma?
Suspiro, incapaz de mentir mas também de lhe dizer a verdade. Rosie, Rosie, se ao menos deixasses de ser ingênua e percebesses que há uma razão. E que essa razão és tu.
Olhei novamente para o relógio, só para constatar o que já sabia:
12:33.
Urgh. Ainda faltava meia hora para a hora de almoço, e eu já não aguentava nem mais um minuto fechada naquela sala. Olhei em volta, à procura de alguém que estivesse tão entediado quanto eu, mas por incrível que parecesse, a maioria dos alunos parecia sinceramente interessada no que o professor Lewis estava a dizer; enquanto os restantes estavam já numa fase de tédio ainda mais avançada que a minha, onde parecia que algo na sua cabeça fora completamente desativado e os deixara com cara de apáticos.
Olhei novamente para o relógio:
12:33.
Como assim?!Ainda nem um minuto tinha passado. Bato (literalmente) com a mão na cara, fazendo um gesto mais sonoro e dramático do que o que pretendia, e que atraiu alguns olhares de estranheza na minha direção. Precisava de uma distração, urgentemente, ou não ia conseguir suportar aqueles vinte e sete minutos de pura tortura.
Tamborilei os dedos na mesa, tentando lembrar-me de algo. Olhei em volta na sala, e depois na direção da janela. Estávamos no piso zero, e tínhamos uma boa visão do pátio. Acabei por notar dois alunos no pátio. Um deles tocava um violão, sentado num dos bancos, e o outro parecia acompanhar a cantar.
Cantar... Canta-ar... Sing... SING!
Ooh oh oh oh ooho! SING!
De desordenados e aleatórios os meus dedos passaram a batucar a mesa no ritmo de "SING" de Ed Sheeran. Antes de me aperceber estava também a bater o pé e a abanar a cabeça, enquanto cantava a música na minha cabeça.
If you love me come on get involved
Feel it rushing through you
From your head to toe
Ooh oh oh oh ooho!
— Menina Montgomery, espero não estar a atrapalhar o seu pequeno show — ouço o professor dizer, num tom um pouco mais firme, fazendo-me dar um salto com o susto.
— A-a-ah... Peço desculpa! Estava... Ahn... distraída — Uau Charlie, ainda bem que avisaste porque ninguém tinha reparado.
— Podia tentar canalizar esse entusiasmo para a aula, da próxima vez — disse o professor, empurrando os óculos para cima, e voltando-se novamente para o quadro.
Suspiro aliviada. Pelo menos era o professor Robinson. Se tivesse sido o Frollo estaria fer-ra-da.
— Charlie, estavas a treinar para a Dançatona? — perguntou Festus O'Crown, virado para trás, na sua carteira duas filas à frente da minha, e exibindo um sorriso trocista. Deitei-lhe a língua de fora em resposta, mas já estava mais bem disposta, pois achei que já não faltava muito para acabar a aula.
Olhei de novo para o relógio:
12:39...
12:39! Ainda?!
Estive prestes a bater com a mão na cara novamente, mas dessa vez consegui controlar-me.
Acabei por ter de me conformar com a ideia de que não havia nada a fazer se não aguentar o que faltava da aula. Escolhi então ficar simplesmente a sonhar acordada com a aula do clube de dança que iria haver durante a tarde. Esmeralda tinha-nos dito na última reunião que com sorte teria uma surpresa para nós na aula seguinte, e que com certeza íamos adorar. E isso era, basicamente, código para me deixar morta de curiosidade!
E claro, não me podia esquecer de mencionar que o clube de dança era também uma ótima oportunidade para ver o Uriah...
A sério, aquele menino era demasiado bonito para seu próprio bem. Claro que já era de se esperar, sendo filho do José e da Rapunzel... Mas mesmo assim... Nossa! E era tão simpático! Sabem o quanto custa encontrar um garoto simpático e giro?!
Sim, sim, podiam até argumentar que o Festus também é assim... Mas de mim só receberiam uma simulação de vômito! Conheço o Fest desde pequeno, e deixei de o considerar como um partido assim que brincamos pela primeira vez de casinha, quando tínhamos quatro anos.
Por isso, de volta ao Uriah. Com ele há só um pequenino problema, e chama-se Alanna Haddock. A ruiva, sua melhor amiga, não o larga, e vice versa. E não é que eu não goste dela! Somos parceiras em Química e ela é bem legal. Mas a proximidade dos dois é meio que... Difícil para quem quer que esteja tentado chegar perto.
No entanto, os meus pensamentos foram interrompidos com o som da campainha a anunciar (finalmente!) o final da aula. Arrumei os meus materiais na bolsa rapidamente (e desordenadamente) e levantei-me, saindo da sala e parando do lado de fora à espera de Festus e Jasper, que vinha da aula de História Mágica a julgar pelo exemplar gigante em sua mão, já que tínhamos combinado almoçar juntos.
— Charlie, o que foi aquilo lá dentro? — perguntou Fest assim que chegou perto de mim, ainda com cara de riso.
Revirei os olhos:
— A culpa não é minha se não sou uma nerd como vocês e preciso de encontrar os meus próprios meios para me entreter.
Festus continuou rindo, provavelmente por causa da lembrança do meu pequeno show, mas Jasper apenas disse:
— Sabes que se não te começares a aplicar para Física, depois vai ser muito pior na altura da prova, certo?
— Como eu disse: neeeerd! — foi a vez dele de revirar os olhos.
Fomos andando em direção ao pátio, já todos tínhamos trazido o almoço de casa.
— O Sean vem sentar-se conosco? — perguntei, assim que chegamos e ocupamos uma das mesas do exterior.
— Sim — respondeu Jasper — mas disse que ia passar na biblioteca primeiro.
— Pergunto-me porquê — disse Fest com ironia.
Bufei:
— Já estava na altura de eles se acertarem.
— Bem, não acho que isso esteja mais perto de acontecer do que o que estava no início. — ele replicou. — A Aria parece cada vez menos interessada em ouvi-lo pedir desculpas.
— Isso lá é verdade — disse Sean, ao sentar-se ao nosso lado de repente e assustando-me de morte. — Ajudem-me, pessoal. Eu já não sei o que fazer — choramingou, com a voz abafada devido a ter a cabeça enterrada nas mãos.
— Deixa estar, Sea — eu disse — Ela vai acabar por reconsiderar — Uau. Ótimo trabalho como consoladora Charlotte. Clap. Clap. Clap.
— E se mudássemos de assunto?— sugeriu Festus.
— Isso! — exclamei — Que tal um joguinho de cartas?
— Depois da última vez? Como é que ainda tens coragem, Charlotte? — pergunta Jasper, risonho, referindo-se à semana anterior quando eu perdi vergonhosamente durante várias rodadas seguidas.
— Eu preciso de uma revanche — justifiquei — Nem pensar que vos vou deixar ficar a pensar que jogam melhor que eu. Foi só uma maré de azar.
Era completamente mentira e todos o sabiam. Eu sempre fui e sempre seria péssima em jogos daqueles. No entanto, Sean era ótimo, e no espaço de cinco minutos a jogar, pareceu descontrair-se um pouco. E, por mais que eles fossem tirar sarro da minha cara eternamente por perder pelo que seria a décima terceira vez consecutiva, eu soube que valia a pena.
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