After Ever After-Interativa
2 Chapter I-A Vida Na Selva-Ou Não
Notas iniciais
– Moony!- ouvi minha mãe chamar da cozinha. — Hora do jantar!
–Certo, mãe.- eu devolvi, apertando um parafuso de meu robozinho. — Só tenho de acabar uma coisinha...
– Depressa, vai esfriar!- ela gritou de volta. — Anda, desce logo! Não vai te matar, vai?
Sorri com a brincadeirinha dela, largando o projeto. Era um dos quais mais me orgulhava, um robozinho que seria como uma dama de companhia para mim. Não que eu fosse ficar com ele, pretendia dá-lo de presente à alguém.
Afinal, nem todo mundo é filho da Branca de Neve: com coroas, mordomos e castelos.
Não que eu esteja reclamando, sou muito mais meus pais. E nosso pequeno apartamento decorado de selva. Isso para não falar nos bichinhos fofos que papai insiste em cuidar.
Desci para o primeiro andar do apartamento (sim, tem dois andares, mas ainda é pequeno e simples) pela escada de corda que, para a agonia de mamãe, papai colocara ali. Eu adorava aquilo — muito melhor que as escadas sem-graça dos McFrog. Para quê descer degraus de mogno quando se tem a chance de se pendurar por pedaços de corda?
No andar de baixo, mamãe acabava de colocar a mesa do jantar. Me sentei quando ela o fez.
– Onde está papai? — perguntei, ajeitando meu garfo. Minha mãe riu, apesar de saber que este meu lado perfeccionista vinha todo dela.
– Deve chegar a qualquer momento.- disse ela, tirando alguns fios de cabelo de seu rosto. Seu sorriso era luminoso. — Está treinando os novos tratadores do Zoo, sabe? Quer que os animais estejam perfeitamente bem.
– É claro que quer.- sorri. — Estou morta de fome.
– Imagino. Você não sai do seu quarto desde o lanche.
–Férias são monótonas, mamãe. Preciso fazer algo em vez de ficar vegetando feito uma preguiça. — minha mãe revirou os olhos em resposta.
– Ouvi dizer que vai Destiny Snow vai para Ever After High. — ela quase cantarolou as palavras.
– Que quer dizer com isso?
– Que vocês estudarão juntas, Moony.
Arregalei os olhos e soltei uma risadinha nervosa.
– Você deve estar brincando.- disse, limpando o feijão que deixara cair fora do prato. — Eu não posso estudar junto com Destiny, mãe. Ela vai acabar comigo. Ela me odeia. Acha que somos selvagens, mãe.
– Não acredito que a Branca fosse capaz de educar a filha desse modo. Ela é a pessoa mais querida que existe.- diz, e eu concordo mentalmente. — E desde quando é que te importas com o que os outros pensam?
– Desde que ela é: um — filha do prefeito da cidade, dois — uma falsa que vira e mexe apunhala alguém pelas costas e três — de que ela vai acabar com a minha vida.- disse, meio irônica, me esforçando para não fazer escândalo.
– Tenho a certeza que estás a exagerar. — diz minha mãe, arrumando a louça suja que ficou dos cozinhados -Eu queria ter essa conversa com seu pai aqui. Estávamos a planejar contar-te hoje ao jantar — ela tentou se desviar.
– Mãe, você já me matriculou nessa escola? — perguntei, por fim. Ela limitou-se a assentir.
Joguei os braços para o alto e desfiz minha postura na cadeira. Como assim ela faz isso sem me consultar?
– Mãe, eu tinha achado um pré-vestibular ótimo. Se quisesse me mudar de escola, não seria para Ever After High.- disse, brincando com minha comida.
–Filha, você enfrentará várias adversidades na vida. Especialmente você, que quer mexer com robôs e informática. O mercado não tem espaço para isso, e você sabe.- minha mãe suspirou, séria. -E já estava na hora de você conhecer mais gente como você.
Eu sabia o que ela queria dizer- os FCF. Não sei porquê, a maior parte das pessoas valoriza demais a coisa de ser FCF. Acho que nem é nada demais — menos quando isso te leva a viver num castelo. Aí eu valorizaria.
Acho que é por isso que esse pessoal valoriza. Quer dizer, o conto de fadas da Branca de Neve levou os Snow a morar num palacete e governarem a cidade; o da Cinderela levou os O'Crown para uma mansão com quatro andares; e não esquecer que o da Bela Adormecida deu aos Montgomery a maior rede de loja de colchões do mundo — junto de uma enorme fortuna.
Mas eu e meus pais? O conto de fadas dele resultou numa casa na árvore na selva, que se transformou num apartamento pequeno na cidade, disfarçado de selva.
Não que eu esteja reclamando: amo minha vida. Só não tenho motivos para valorizar a coisa de ser um FCF.
E, aliás, de que isso importa mesmo? Não foi a história do meu pai que fez de mim aquilo que sou hoje.
Certo, você deve estar boiando. Eu sou Moony. Moony Willd. Como já disse, sou uma FCF (Filha dos Contos de Fada), mas não do jeito que você imagina. Eu não sou filha de príncipes ou princesas — sou sim, filha de um rei. Tarzan, o rei da selva.
E não ria, por favor. Se rir, vai ser tão bom quanto a megera da Destiny Snow.
Bom, eu não conheço exatamente a Destiny. Claro que todo mundo sabe quem ela é, é meio difícil não saber por causa de toda a coisa do sou-filha-da-Branca-de-Neve. Mas eu nunca estudei com ela ou algo do tipo. É só que, parece que sempre que me vê na rua, torce o nariz para mim. E vira e mexe vejo ela na rua me chamando de selvagem e fazendo aquela cara fofa dela, que me mata de raiva, porque eu sei que é pura atuação.
Mas talvez a minha mãe esteja certa, é difícil imaginar que uma Primeira Dama como a Branca de Neve pudesse educar um filho seu daquela maneira. Ainda mais se essa Primeira Dama for Branca de Neve.
E eu estou tranquilamente divagando sobre como eu farei para ignorar Destiny já que seremos da mesma sala. Ela porque, bem, conseguiu chegar ao último ano do Ensino Médio, eu porque mesmo sendo uma novata na turma dos dezesseis anos fui adiantada no colégio.
De repente meu pai aparece escandalosamente na sala. Ele sempre faz isso, mas convencê-lo a não ser assim é como ensinar uma gorila a ser delicado. Literalmente.
Minha mãe sempre deixa cair o garfo com cara de chateada. Eu rio, e ele também.
– Jane. — ele beija sua bochecha, e ela ri. Meus problemas somem ao ver aquilo: eu amo mesmo meus pais. — Olá, Moon.
–Hey, pai.- digo, continuando a comer. Ele se senta. — Como correu?
Meu pai hesitou um pouco antes de responder.
– Bem, eu acho. — disse, por fim. — Terei de checar se estão se saindo bem, mas darão conta dos macacos.
– Ou os macacos darão conta deles. — mamãe brincou. — É frango grelhado, Tarzan. Não tem veneno nem nada.
Ele sorriu.
– Só quis garantir. — piscou e colocou uma garfada na boca. Engoliu rapidamente e eu fiz o mesmo.
– Devagar, vocês dois! — mamãe nos chamou a atenção. Ela odeia quando fazemos isso. — Vão acabar se engasgando!
Meu pai me lançou um olhar travesso, que eu devolvi. Então ele assentiu e eu assobiei. De imediato um pequeno sagui — Guapi, se bem me lembro — pulou em meu ombro. Mamãe deu um grito agudo.
– Moony Willd! Nada de animais à mesa! — esbravejou.
– Mãe, é só Guapi. Não vai roubar nossa comida nem nada.- eu disse, e papai pôs um tomate em suas mãozinhas.
– De qualquer jeito, nós é que o alimentamos, Jane. Vai dar ao mesmo.- disse ele, e voltou a comer. Guapi saiu fora de meu ombro, satisfeito com o tomate.
Ela rolou os olhos.
– Acho que Moony está passando tempo demais com os Smith.- disse, e eu ri.
– Mãe, eles são legais! E a história deles? É fascinante! — me defendi.
– Acho que o que você acha fascinante nos Smith é aquele garoto, o filho de Pocahontas. Não me lembro qual era o nome dele...
– Mãe! — eu disse, enquanto meu pai ria. — Pai! Parem com isso!
Eles riram mais um pouquinho até parar de uma vez só, e minha mãe enxugou uma lágrima que escorria de seu olho. Então meu pai beijou minha bochecha.
– Sabe que te amamos, não sabe, Moon? — ele perguntou, e eu sorri com comida na boca.
– Moony, feche a boca enquanto come! — minha mãe, de volta ao estado normal, me chamou atenção, e eu engoli.
Seria um longo, longo, longo último ano.
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