After Earth - Interativa
2 Eu acredito, você não?
Notas iniciais
Era um dia quente e tedioso na oficina dos Strenght, de modo que a camisa de Daniel já estava ensopada de suor. Se ele tivesse uma piscina, já estaria afundado lá dentro há muito tempo. Mas o que estava tornando o dia mais chato ainda, se é que era possível, era que seu irmão não parava de tagarelar.
– Você sabia que em Nevada existe um lugar que era usado para testar aviões, a aproximadamente cem quilômetros da Área 51? Essa base continua ativa, mas não tem mais aviões! O que será que eles fazem lá? – perguntou Dave.
– Sei lá, vai ver eles fazem testes com enguias radioativas. – respondeu Daniel já irritado. Seu irmão nunca parava de falar sobre alienígenas. – Por que você não vai ali e compra um sorvete para a gente, hein?
– Tá bom. – o mais novo revirou os olhos, já pegando seu skate que jazia encostado na parede da oficina.
*
Kim estava concentrada no almanaque que havia acabado de comprar numa banca de revista. Era um especial sobre um dos segredos mais mal guardados da história: a Área 51. Ela mal podia acreditar no que os humanos pensavam sobre eles, era no mínimo engraçado.
Estava tão absorta que não viu o casal que estava em seu caminho e esbarrou neles.
– Desculpe-me. – ela disse sentada no chão. Havia caído sobre alguma coisa que se quebrara com o peso de seu corpo.
– Olha por onde anda garota. – o rapaz falou. A namorada olhou feio para ele mas ele ignorou e saiu andando.
Quando se levantou ela viu sobre o que havia caído, tratava-se de uma garrafa de cerveja. De vidro. Foi após ver os cacos do objeto que sentiu a dor lancinante na parte anterior da coxa. Ela tentou não se importar com o incômodo causado pelo machucado e nem com o sangue morno que escorria pela coxa e continuou o seu caminho mancando.
– Você está bem? – perguntou-lhe um garoto que andava num skate, ele havia parado para falar com ela. Até hoje, Kim não entendia por que os humanos faziam perguntas com respostas óbvias. Estava mais do que na cara que ela não estava bem.
– Sinceramente, não. – ela respondeu dando ombros.
– Esse negócio está horrível. – ele disse.
– Não deve estar tão ruim.
– Pode crer que está. – ele disse preocupado. Ou a garota era louca ou tinha uma resistência tanto física quanto psicológica imensa a dor. – Vem comigo, a gente da um jeito nisso ai rapidinho para você poder ir para onde quer que estivesse indo. Se você não tratar pode pegar uma infecção.
– Obrigada. – ela disse meio constrangida, apanhando o almanaque que estava lendo. O olhar do garoto se deteve nele por alguns segundos.
– Ei, você sabia que existe uma antiga base de teste de aeronaves a cem quilômetros da área 51? Ela ainda está ativa, mas...
– Não testam mais aviões. E ninguém sabe o que fazem lá. – ela completou e viu os olhos negros dele se iluminarem. – Existem outros lugares tão misteriosos quanto a Área 51 quando o assunto é ufologia.
Eles mantiveram um debate animado até chegarem na “Oficina Strength – Consertamos de carros à discos voadores”, onde o garoto entrou já gritando.
– Dan, onde está aquela caixa de primeiros socorros?
Enquanto ele falava com o irmão, Kim ponderava o que acabara de acontecer. Ela não era ingênua o suficiente para ir com qualquer pessoa a qualquer lugar, mas com uma análise rápida ela concluiu que não era má pessoa, além de lembrar alguém que ela conhecera há um bom tempo atrás. Ele voltou e a puxou pelo pulso e a levou para os fundos da oficina, onde eles subiram uma escada e entraram num apartamento meio bagunçado, porém aconchegante. Ele continuou a guiando até um quarto, que ela teve certeza de que era dele assim que botou os olhos nas paredes. Havia várias coisas relacionadas a alienígenas ali, tanto que ela quase teve vontade de contar a verdade para ele, quase.
– Espero que não se importe de deitar na minha cama. – ele coçou a cabeça levemente constrangido. Ela fez que não com a cabeça. – A propósito, não me apresentei. Dave, Dave Strenght.
– Kim. – ela disse com a voz quase inaudível. Ela se deitou na cama de modo que o machucado ficasse para cima. Ela sentiu a mão de Dave encostando em sua pele.
– Pode doer um pouco. – ele falou.
– Seja sincero, ambos sabemos que isso vai doer. Muito.
Ele riu e começou a limpar o sangue seco da perna dela com uma gaze úmida, não podendo evitar o constrangimento. Estava pegando na perna de uma garota que acabara de conhecer, e mesmo que não houvesse nenhum tipo de malícia na situação, ainda assim era estranho. Quando terminou a limpeza ele pegou uma pinça esterilizada e começou a “pescar” os cacos dentro da ferida. Ela resistiu bem quando ele tirou os menores, mas Dave pôde a ouvir abafando um gemido de dor com seu travesseiro quando ele tirou um pedaço de vidro de mais ou menos seis centímetros de comprimento. Inevitavelmente o sangramento recomeçou, e ele pressionou o ferimento com uma gaze até que estancasse. Depois ele fez um curativo e o prendeu com uma bandagem, para ter certeza de que ela não teria uma hemorragia e também de que o curativo não cairia pelo caminho.
– Se importa se eu te levar até... Para onde você estava indo mesmo? – Dave perguntou.
– Para casa. – ela respondeu.
– Então, se importa de eu te acompanhar até lá? Está escuro e pode ser meio perigoso sair andando sozinha por ai de noite. – ele disse.
– Não vejo problema. – ela falou prendendo o cabelo num rabo de cavalo. Ele se pegou rindo quando ela fez uma expressão de frustração por duas mechas terem escapado do penteado. Ela era uma garota ingênua e meio aérea, ao menos, era o que parecia. Kim soprou as mechas que caiam nos olhos e Dave percebeu que eles eram no mínimo exóticos. Não pelo fato de serem azuis, mas pelo de ficarem violetas perto da pupila.
Ele demorou alguns segundos para perceber que a estava encarando e desviou o olhar. Contudo, ela pareceu não perceber. Estava encantada admirando as luzes da cidade a noite, seus olhos brilhavam como se fosse a primeira vez que via tal coisa. Na verdade era, mas ele obviamente não sabia disso.
– Então... Onde você estuda? – ele perguntou tentando quebrar o silêncio constrangedor.
– Em casa. – ela respondeu inclinando a cabeça para o lado enquanto olhava para ele como se a resposta fosse óbvia.
– Sério?
– Sim.
– Sorte sua, a escola é uma droga. – ele falou colocando as mãos atrás da cabeça.
Kim omitiu o fato de nunca ter realmente frequentado uma escola. Quer dizer, já havia tentado assim que chegara ali, mas tinha sido uma experiência um tanto traumática. As outras garotas a batiam e puxavam seus cabelos além de xinga-la das piores palavras que conheciam. Não aguentou mais do que duas semanas e desistiu. Por causa de seus cabelos azuis ela teve de passar anos escondida até que os humanos se acostumassem com as diferentes cores. Assim, ela perdera preciosos anos de convívio e agora tentava correr atrás do tempo perdido.
– Não deve ser tão ruim assim. – ela disse cautelosamente.
– É um pouco chato quando as pessoas tentam te zoar por gostar de fantasias alienígenas. – ele confessou.
– Por que fantasias? Você não acredita neles?
– Você acredita? – ele indagou.
– Claro. Você não? – ela abriu um leve sorriso.
*
– E então, quem é a garota? – perguntou Daniel, quando Dave chegou em casa.
– Qual o interesse? – o mais novo devolveu.
– Nenhum, — ele ergueu as mãos como se alegasse inocência. – só quero conhecer minha futura cunhada. – concluiu sorrindo travessamente.
– Vai sonhando, vai.
– Claro, todos os dias a gente encontra garotas de cabelo colorido que gostam de aliens caindo e se machucando na rua. – ele ironizou.
Dave revirou os olhos e foi para seu quarto, afundando a cabeça no travesseiro. Seu irmão podia ter dezenove anos, mas continuava infantil como se tivesse dez. Cansado, ele dormiu inspirando o pouco do perfume dela que ficara em sua cama.
Assim que o irmão dormiu Daniel vestiu um moletom, vestiu a calça e calçou os sapatos de corrida e saiu. A cidade já quase não tinha movimento de carros porém ele preferia assim, precisava do campo limpo para se movimentar como quisesse. Começou com uma corrida leve, que se transformou num majestoso mortal assim que ele pulou o primeiro banco. A noite era seu momento favorito para praticar a arte da locomoção, popularmente conhecida como parkour. Era o único momento do dia em que ele se libertava completamente de todos os seus fardos, quando se sentia livre para fazer o que quisesse, onde seu único limite era ele mesmo. Foi no meio desse momento de reflexão que ele percebeu um pequeno vulto do outro lado da rua. Levou alguns segundos até que a pessoa também o percebesse e viesse em sua direção correndo em alta velocidade.
A mão de Daniel foi automaticamente para o bolso, onde ele trazia sempre uma faca consigo, porém ele não teve tempo de sequer sacá-la quando o garoto saltou por cima dele com um mortal, usando seu ombro como apoio. Ele imediatamente relaxou. O garoto era magro e pequeno usava um moletom com o capuz no rosto e uma faixa de tecido cobria seus olhos e o nariz, de modo que apenas os olhos e os fios negros e desgrenhados da franja eram visíveis.
– Isso foi um truque e tanto. – ele falou. O garoto deu ombros. – Sou Dan. – o garoto ficou em silêncio. – Seu nome é...
Ele ficou em silêncio porém formou um T com os dedos.
– T? Apenas T?
Ele assentiu.
– Bem, é um prazer conhece-lo.
*
Kim acordou cansada no dia seguinte, sua perna doía. Também pudera, quem mandara quebrar uma garrafa de vidro sob a perna? Ter sido acidental não influenciava na dor. Por sorte, era sábado.
Aos fins de semana ela tirava folga do trabalho. Precisava conseguir uma maneira de convencer seu chefe a não força-la a estudar numa daquelas escolas para superdotados onde as crianças pensavam que sabiam de tudo. Ele achava que por ter catorze anos, ao menos na aparência, ela deveria frequentar algum tipo de instituição de ensino. Parece que o homem não estava convencido quanto a seu estudo em casa.
Ela nunca admitiria, mas achava escolas assustadoras devido a sua experiência passada. E também não havia muito que aquele lugar pudesse a ensinar. Apesar de ser tentador estudar as dinâmicas dos jovens.
Procurando livrar sua mente desses pensamentos ela foi até o outro quarto de seu modesto apartamento em busca de algum instrumento. Distração era outra coisa que ela aprendera na Terra. Assim que as notas do violino perfeitamente afinado encheram o lugar, ela se sentiu mais calma.
Depois do que poderiam ter sido horas ou minutos, alguém bateu em sua porta. Ela perdia totalmente a noção de tempo quanto tocava um instrumento. Correu até seu quarto e vestiu uma blusa de mangas compridas folgada e um short. Não podia atender a porta de pijama. Sem ao menos perguntar de quem se tratava ela abriu.
– Saudações Kimbra, sou Alyssia Pectaria Luvbourne. Engenheira classe A do quinto distrito de Sitriz.
Kim tentou não cair para trás. Eles tinham dito que estavam vindo, ela só não sabia que seria tão rápido. Com sorte, os outros demorariam mais alguns dias ou semanas para chegarem também.
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