After
7 Chapter 6 - Guilty
Notas iniciais
Quem dá ouvidos a difamações é ainda mais culpado do que aquele que as difunde.
Ibn Sahl
–John, você confia em mim? — disse Ryan, tentando manter um tom neutro.
–Claro que sim.
–Então você pode confiar em mim quando eu digo que você não é culpado.
–Ele me disse.
–Ele se foi, Johnny. Todos nós sentimos falta dele, mas ele nunca nos culparia.
–Vocês, não, mas eu?
–John! — ele se levantou para olhar o garoto de frente e se ajoelhou diante dele, segurando-o pelos ombros – Por favor, ele disse que você foi o que mais se preocupou com ele.
–E não pude salvar ele.
–John, você me disse que sou quase um irmão pra você, agora, depois do que aconteceu. Quer um conselho, de irmão para irmão?
–Sim.
–Ele nunca culparia você. Ele nunca culparia ninguém. Ele escolheu isso.
–Mas ele... — Ryan colocou a mão sobre a cabeça dele.
–Ele amava você, John.
–Você acha? Então explique o que houve na rua hoje.
–Eu não posso explicar.
–Mas eu posso.
–Nem tudo pode ser explicado. Eu gostaria que pudesse, mas não pode.
John se levantou e começou a andar pelo quarto. Ryan ficou de pé, encostado na parede. Alguém bateu à porta.
–Posso entrar? — era Alice.
–Aly? — John disse, um pouco cético.
–John, desculpa por aquela hora.
–Não, tudo bem. Eu exagerei.
–O que houve aqui? Vocês demoraram.
–O Ryan estava tentando me explicar algo inexplicável.
–O que?
–O encontro na rua.
–Você não explicou isso muito bem.
–Encontrei um mendigo na rua. Ele me chamou pelo nome, falou sobre perder alguém importante. Eu senti que ele me culpava. E que ele tinha algo do Micheal.
–O que ele teria do Micheal? — era a primeira coisa que Ryan falara desde que Alice entrou.
–Eu não sei. O jeito dele. Algo assim.
–Entendi. Mas... John, me desculpa.
–Você já me pediu desculpas, Aly. Eu já desculpei.
–Você se desculpou, John? — questionou Ryan.
–Você sabe a resposta. — e deu um sorriso desanimado para ele.
–Devo deixar vocês conversarem mais um pouco? Estou com sua mãe lá embaixo, se precisar.
–Certo, obrigado, Alice.
A jovem desceu as escadas. A mãe de John tentou se levantar mas tropeçou, quase caindo. Alice a amparou.
–Senhora Harley? O que houve?
–Estou um pouco tonta.
–Coma alguma coisa.
–Estou sem fome.
–A senhora está pálida. Quando foi a última vez que comeu?
–Obrigado, Alice.
–Quando foi?
–Não interessa.
–Quando foi? Você tem comido?
–Não tenho sentido muita fome.
–A senhora tem que comer.
–Eu não... — ela parou de falar, parecia estar fraca demais até para isso.
–Senhora Harvey? — a mulher deu um passo para trás e caiu no sofá, inconsciente. Alice entrou em desespero – John! Ryan! — e subiu a escada, correndo.
***
George se aproximou de Marco. Os olhos estavam marejados de lágrimas.
–O que houve? — perguntou o amigo.
–Me perdoa.
–Pelo que?
–Me perdoa, Marco. Eu traí a confiança da única pessoa que confiou em mim, perdi meu emprego, estou devendo e meu filho me odeia. Me perdoa. — ele soletrou a última frase.
–Devendo? Você jogou de novo? — George fez que sim com a cabeça, envergonhado – Não, não acredito! O que eu falei pra você, seu irresponsável? — ele não respondeu – Que porra você tem na cabeça pra fazer isso? Eu tentei te ajudar! Custava fazer isso, pela nossa amizade? Eu te dei uma casa quando te abandonaram, eu te dei minha amizade, eu te dei um voto de confiança! Eu não pedi nada em troca, só que você fizesse algo por você! Não era nem por mim, era por você, George! Seu filho. Você não me decepcionou, na verdade, você decepcionou o John, o seu filho! Eu não devo te perdoar porque você não errou comigo, você errou com você e com ele. Agora, você vai pedir desculpa para ele. Não fale que ele não quer olhar pra você. Você vai dar seu jeito. Eu não vou te ajudar dessa vez, foi te ajudando que você chegou nisso.
–Eu não posso.
–Você não podia ter se afundado desse jeito. Sinceramente, George.
–Cala a boca! — ele gritou, surpreendendo Marco – Cala a merda da boca! Eu cansei de você! Você não fez nada além do seu mínimo! Você me afundou! É tudo culpa sua, seu idiota!
–Minha? Ótimo, pode pegar o quase nada que você tem e sair da minha casa.
–Ótima ideia! — o orgulho era maior do que a vergonha. Se recusava a acreditar que a culpa era inteiramente sua e culpou a primeira pessoa que conseguiu, sem pensar bem nas consequências. Acabara de perder um amigo e o abrigo que por pouco não conseguira. Estava agora na pior situação que conseguiu imaginar: sem dinheiro, sem família, sem amigo, sem casa, sem emprego.
–Muito bem, seu filho da puta orgulhoso. Pode sumir. Nunca mais venha me pedir ajuda.
–Marco… — ele tentou reparar o que fez.
–Não me interessa. Sai. Da. Minha. Casa!
–Por favor, me desculpa. — a expressão de sofrimento dele o atingiu como um soco no estômago. Mas o pior estava por vir. George se jogou no chão, ficando de joelhos – Por favor.
–George, levante-se.
–Não.
–George, levante-se.
–Não! Por favor, não. — definitivamente, Marco nunca pensou que veria o amigo se humilhando daquela forma. Ele sentiu uma pena tão profunda, um sentimento que fazia com que a dor de George se tornasse quase palpável. Ele engoliu em seco e se virou para sair, com uma lágrima queimando os olhos dele, pedindo para vir a superfície.
–Não. — e saiu.
***
–O que houve com a minha mãe? — disse John, se levantando da cadeira da sala de espera.
–Sua mãe vai ter que ficar um tempo aqui. Os médicos disseram que ela estava com um princípio de desnutrição. Ela não quer dizer, mas acho que ela não tem comido quase nada desde que o Micheal… Você sabe.
–Alice, você está com medo de dizer isso?
–Isso o que?
–Que o Micheal está morto.
–Não. Não estou com medo. Eu não quero acreditar. O médico disse que pode ir falar com ela.
–Ah! Obrigado. Eu vou lá. Vocês vem comigo.
–Não, vou ficar aqui. Acabei de falar com ela. — disse Ryan.
–Também. Vamos deixar vocês conversarem sozinhos. Talvez possa ajudar ela – falou Alice.
–Certo, farei o meu melhor. Podem me esperar aqui?
–Nós vamos ficar bem aqui. Demore o quanto quiser. — falou a garota. John entrou. Ela esperou para ter certeza que ele havia ido e se sentou. Ryan sentou-se ao lado dela.
–Você está preocupada, não é?
–Com ele? Sim.
–Também estou, Aly. A conversa que tive com ele aquela hora no quarto me preocupou mais.
–O que ele disse?
–Ele se culpa pelo que aconteceu.
–Você acha que ele tentaria algo? — a voz dela falhou quando disse isso.
–Eu? Eu não sei. Resta esperar que não. — e ele segurou a mão dela, alisando delicadamente com o polegar – Espero que não.
–Ryan, como você está? Ele era seu melhor amigo.
–Triste, eu gostava dele. Muito. Era um irmão pra mim. E você, Alice?
–Eu? Eu não sei se estou sentindo a coisa certa.
–Você era apaixonada por ele. E ele por você. Ele falava tanto de você.
–Eu estou triste e com raiva, culpada. Não sei o que sentir.
–Não tem nada certo para se sentir. Você sente o que acha que deve sentir. Eu, por exemplo, deveria me sentir horrível por não me culpar, mas não me culpo. Acho que poderia ter ajudado ele, mas não me culpo. Se ele me dissesse, eu teria ajudado. A nossa última conversa. Ele estava tão animado. Parecia que tinha quase superado aquilo. Ele riu tanto no cinema. Quase nos expulsaram da sala.
–Que bom. Ele também estava feliz na nossa última vez. Mas ele me disse uma coisa que eu não esqueci. Ele disse que me amava, e amava você e amava o irmão. Ele me disse que precisava que nós três ficássemos unidos. Agora entendi o que ele quis dizer.
–Aly, não. — ele disse, secando uma lágrima dela. Alice colocou a cabeça no ombro dele enquanto Ryan acariciava os cabelos dela. Ela inclinou um pouco a cabeça para trás e ele se virou, fitando-a nos olhos. Ele tocou o queixo dela e a puxou para a frente enquanto se aproximava.
Eles se beijaram.
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