Afrodite de Peixes

1 Afrodite de Peixes


Noite alta, sem estrelas no santuário. A brisa natural do crepúsculo soprava aguda, fazendo gelar até os ossos das sentinelas desmotivadas que rondavam desatentas pelo templo milenar. A lua emitia um brilho opalescente sob os soldados. O céu estava escuro, completamente desenfeitado de estrelas e sem nuvens. Apenas o satélite terrestre permanecia inerte sob a cabeça de todos. Um vulto penetrou facilmente por entre os aspirantes que não se tornaram cavaleiros, e fadados estavam a findar seus dias como vigias anônimos e incapazes. Um som de metal se chocando, fraco, ecoa pela noite como uma corrente se arrastando pelo chão árido e frio. O ser, coberto pelo manto espectral cortou a noite como uma estrela morta, e a trilha acinzentada que em outrora fora protegida por doze homens que se chamavam “santos” agora eram quase vazias. O espectro aproximou-se das escadarias da trilha milenar, e as subiu em passos lentos, e as botinas de metal faziam um barulho frio ao entrar em contato com o mármore imaculado. Subiu pelos degraus da primeira casa. Vazia. Cada passo que ele dava dentro daquele
manto vil fazia brotar uma rosa escarlate nas vinhas orvalhadas e semimortas que margeavam as escadas. Percorreu as quatro primeiras moradas zodiacais com essa mesma indiferença, o olhar escuro por detrás do capuz fitava o chão, enquanto o tempo corria lento, como se atrasasse o confronto que provavelmente seria travado naquele caminho centenário. Até que ele chegou às escadarias da quinta mansão. Cessou o andar assim que chegou ao final da casa de câncer. Suspirou finalmente, um ar quente saiu de sua boca como um sussurro.

-Pff...

Nada podia se descrever sob sua aparência, escondida por detrás da sombra do capuz. Levantou o olhar para cima, observou as estrelas como nunca tinha feito antes, e o capuz deslizou um pouco pela face, revelando uma fração mínima da beleza que escondia por detrás do tecido escuro. Encheu seus pulmões do oxigênio que tanto desejara existir no reino das sombras do qual viera. A inexistência... A derrota, a desonra, alguns minutos de liberdade. Qualquer coisa era melhor do que o lugar de desesperança de onde emergira. Sorrira por detrás do manto espectral, ainda fitando as estrelas tão almejadas pelos olhos cansados. A cor de seus lábios era como a das rosas, e brilhavam serenamente como se fosse dia, apesar da treva infernal que o envolvia. Nada se comparava ao sentir do sangue correndo novamente quente por suas veias, a brisa noturna deliciosa acariciando sua face por detrás do manto. A lembrança daquela planície horrorosa, na qual o inverno nunca chegara para aliviar os rigores do fogo intenso desapareceu por alguns segundos da mente do ex-santo. Os traços belos que a luz fez questão de lançar a melhor iluminação possível eram incontestáveis, admiráveis. As pupilas cintilantes de outrora perderam ligeiramente o brilho, mas ainda eram únicas em seu explendor, a Íris azul por detrás das pupilas refletiam todo o cosmo do universo, o homem por detrás do manto quis evitar aquele passo, lembrando do bordão repetido sempre pelo cavaleiro que provavelmente protegeria aquela morada. Bordão que em outrora fora aliado, mas agora era como uma tormenta na mente do fantasma.“Se der mais um passo, não posso garantir a sua vida.”. Era uma vida superficial, um oxigênio contaminado, e um sangue morno, mas mesmo assim era bem melhor do que os rigores do plano abominoso de onde fora tirado. O vulto deu alguns passos em direção a entrada da casa de leão, esperando que não fosse ali que fosse travar o seu último combate.

Notas finais
Simples narração do cavaleiro de ouro de peixes, gosto da beleza dele ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!