Afire Love
23 Capítulo 23
Notas iniciais
P.O.V. Daryl
Foi estranho estar sozinho no meu quarto, a solidão não era novidade, mas hoje era diferente. Não me acostumei a tanto conforto desde que cheguei aqui, mas não é por isso que estou estranhando, aparentemente foi bem fácil passar a noite algumas casas acima. Até mesmo quando ela dormiu aqui pareceu natural.
Não acredito que estou mesmo nessa situação, pensando em uma mulher que beijei só algumas vezes, mas o que eu posso fazer se a cama parecia maior e o silêncio mais pesado? A questão é que eu gosto de estar com ela e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Somos amigos, não somos? Eu posso sentir a falta dela. A imagem dela dormindo ao meu lado, a respiração suave, ficava na minha mente.
Terminamos de consertar a cerca que havia cedido com a invasão do bando, então já não passamos mais a maior parte do dia juntos. E como não vamos recrutar eu também não tenho desculpas para procurá-la. Eu tenho que parar com isso, tenho que encontrar uma distração. Então o convite do Rick para procurarmos mantimentos vem em boa hora. E estava tudo indo muito bem, nós havíamos encontrado um caminhão cheio de comida, até que fomos assaltados, o caminhão de comida caiu num lago e terminamos o dia com um refém inconsciente que está insistentemente caindo no meu ombro e absolutamente zero de comida. Não consegui nem mesmo trazer o refrigerante que Denise pediu para surpreender Tara.
Fomos um total fracasso hoje e isso faz com que nossa situação com a comida comece a ficar preocupante, quase tudo está no fim então ou encontramos comida rápido ou provavelmente vamos passar fome. E agora temos mais uma boca para alimentar, pelo menos até descobrirmos se esse tal de Jesus é útil. Rick e eu decidimos deixá-lo na enfermaria já que ele estava completamente apagado depois de ter levado uma pancada na cabeça. Bem feito.
— Desculpe, Doutora, não consegui o que você me pediu — digo a Denise. — Tudo culpa desse babaca.
Após Denise dizer que estava tudo bem, nós amarramos o tal Jesus e o deixamos na enfermaria. Em seguida Rick e eu voltamos a pé para nossa casa. E é nesse momento que vejo Sophie vindo na nossa direção.
— Onde você esteve? Maggie estava de vigia e me disse que vocês haviam chegado, mas não o encontrei em lugar nenhum. Enfim, isso não importa, você não vai acreditar no que aconteceu hoje — começa ela animada. — Aaron e eu caçamos um cervo adulto. Não vamos morrer de fome, pelo menos nos próximos dias.
— A lei das médias — diz Rick rindo. Ele passou o dia inteiro falando disso. Quando algo ruim acontece, algo bom tem que acontecer para restabelecer o equilíbrio — Algo bom tinha que acontecer.
— Rick — Michonne o chama aparecendo na varanda. — Trouxe o que eu pedi?
— Essa vai ser uma longa história — diz Rick se afastando com Mich. — Boa noite, Sophie.
— É impressão minha ou existe um clima entre eles? — Sophie pergunta no momento em que eles fecham a porta da frente. Nunca parei para pensar nisso, existe?
— Você acha?
— Sim, mas eles disfarçam melhor. Com a gente foi muito mais óbvio.
— Foi?
— Sim, estava na cara, no momento em que nós nos conhecemos e você me apontou a crossbow, aquilo gritou tensão sexual — ela mal consegue segurar o riso enquanto fala.
— Está tentando me irritar?
— Definitivamente — ela acaba rindo e também me arranca um sorriso.
— Eu ainda tenho aquela garrafa de vinho que você me deu — digo, Denise acabou me dando uma ideia.
— Você não está pensando em entrar lá para pegá-la, está? — eu confirmo com um aceno de cabeça. — Nós vamos interromper eles, isso vai acabar com o clima.
— A gente entra pelos fundos, pega a garrafa e damos o fora — ela acaba sorrindo cúmplice.
— Ok, mas tem que ser rápido.
Nós damos a volta e entramos pela porta da cozinha, conseguimos ouvir as vozes de Rick e Michonne na sala. Passamos abaixados pela sala e subimos a escada em silêncio, pegamos a garrafa de vinho no meu quarto e quando ela abre a porta para darmos o fora daqui ouvimos passos subindo a escada. Sophie imediatamente fecha a porta de novo.
Era como se fossemos crianças travessas, e um sorriso cúmplice surgiu nos meus lábios. Parecia errado estar ali, mas a adrenalina e a proximidade dela tornavam tudo ainda mais divertido. Quando Sophie fechou a porta apressadamente ao ouvir os passos na escada, nossos olhares se cruzaram, e não conseguimos conter o riso.
— São eles — sussurra ela. — Eu te avisei.
Alguns segundos depois ouvimos a porta no final do corredor se fechar.
— O que nós fazemos agora? — pergunta Sophie.
— Vamos dar o fora daqui.
Assim que abrimos a porta novamente é possível escutar Rick e Mich rindo no quarto, o que me faz ter ainda mais pressa pra sair desse lugar de uma vez por todas.
[...]
— Ele estava no teto o tempo inteiro? — ela pergunta mais uma vez rindo. — Eu não acredito que você desceu do caminhão em movimento para ir atrás dele.
— A essa altura ele já tinha me irritado demais. Rick acabou tendo que descer para abater os zumbis.
— E o caminhão? — pergunta ela me passando a garrafa de vinho. Nós dois estávamos largados no sofá compartilhando a bebida.
— Tá no fundo de um lago.
— O que? Como? — explico a ela que Jesus e eu acabamos abaixando o freio de mão e o caminhão deu ré até cair na água.
— Sinto muito por vocês — ela diz, mas não consegue segurar o riso. — Realmente lamentável.
— Agora ele está lá, apagado na enfermaria. Amanhã vamos resolver isso.
— Eu sinto falta disso — diz ela.
— De ficar apagada na enfermaria? Que tipo de vida você levava antes? — ela ri ainda mais. Gosto de como ela tem o riso solto e gosto de como é direcionado a mim.
— De sair, de viver esse tipo de coisa. Acho que eu sinto falta de ter um pouco de liberdade para poder ir a algum lugar.
Quero dizer que nós podemos ir, mas não é verdade, por mais que eu queira, esse não é o momento de deixar minha família aqui. Não agora que sabemos que existe um grupo por aí que pode nos encontrar e fazer sabe-se lá o que com a gente, com o que estamos tentando construir aqui.
— Quem sabe um dia.
— Está se oferecendo para fugir comigo, Daryl?
— Um dia — é tudo que consigo dizer e ela vira o corpo pra mim. Sophie fica me olhando sem dizer palavra alguma, mesmo no escuro eu consigo perceber seus olhos brilhantes fixos em mim, queria saber o que ela está pensando. — O que foi?
— É fácil gostar de você quando você para de resistir. Sua família tem muita sorte de ter alguém como você por perto, acredito que eu também. Acho que nem você percebe o quanto você se dedica aos outros, mas é muito bonito. Você é muito bonito.
— Eu não tinha nada antes desse mundo — admito. — Não quero perder o que consegui.
— Sua família.
— Minha família também. Existe mais agora — acho que ela entende o que estou querendo dizer porque acaba me beijando. Eu não sou bom em falar sobre essas coisas, mas ela torna isso muito mais fácil. Ela torna muita coisa bem mais fácil porque ela entende o que eu sou.
Eu senti falta do seu beijo, senti ainda mais falta de ter seu corpo assim tão perto então passo meus braços em volta sua cintura para trazer Sophie para mim e ela acaba colocando uma perna em cada lado do meu corpo e me puxa para deitar sobre ela. Nós dois sabemos como essa noite vai terminar, se terminar.
Parece que eu esperei tanto tempo por isso e não só porque eu não faço nada do tipo desde que o fim do mundo começou, mas porque eu nunca estive com alguém que eu me importasse para além do sexo então quero ser o melhor pra ela. E isso é tudo que eu consigo pensar agora,
O corpo dela se aconchegou ao meu, o calor suave, o cheiro dela que me acalmava. Senti o tempo desacelerar. Cada toque, cada riso compartilhado, era como um pedaço de luz em um mundo de escuridão. As palavras dela sobre a família, sobre o que eu tinha, ecoavam em minha mente. Ela me enxergava de um jeito que poucos o fizeram. E eu queria mais do que apenas ter ela por perto.
Sophie vai ser minha e dessa vez eu não vou fugir com medo das consequências disso. Eu quero ela.
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