Affection
1 I. Kalani
"Ela estava perdida em meio àquele mar de neve. Logo ela, que sempre esteve acostumada com o calor de Mumbai. Suas bochechas chegavam a doer de tanto frio, e sua boca tremia quando o vento soprava. Kalani odiava esperar. Ela se contentou quando viu um ônibus parar para que ela entrasse, não sabia muito bem para onde estava indo, só sabia que devia ir. O percurso era longo e silencioso, e Kalani estava imersa em seus pensamentos, confusa, sem entender o que estava acontecendo.
De repente, o transporte para. A mulher sabia que deveria descer. Ela avistou uma casa enorme, com uma calçada de pedra que a levava até uma porta rústica de madeira. A porta não estava trancada, então Kalani simplesmente entrou.
E lá estava ele. Sentado no sofá de frente para a lareira enquanto degustava um café quente. Seus olhos profundamente azuis refletiam as chamas, e o loiro de seus cabelos quase se fundia com o laranja. Ele era lindo. Diferente de todos os homens que ela ja tinha visto em Mumbai.
Mas aquele homem diante de seus olhos era quase angelical. Ele parecia tão sereno naquele momento íntimo, e Kalani não hesitou em ir sentar ao seu lado.
— Eu estava esperando por você, – ele disse dando-lhe um beijo na testa – que bom que conseguiu chegar mais cedo em casa hoje, esse tempo está terrível pra ficar lá fora.
Kalani se perdeu em sua beleza. Ela pode observar atentamente cada detalhe seu, tentando guardar o máximo de informação possível para não se esquecer dele. E foi assim, a partir daquele momento, que ela começou a acreditar em anjos."
O coração de Kalani estava acelerado e seus olhos cheios de lágrimas. Ela acordou em um pulo no meio da madrugada, se debruçou sobre o travesseiro e se permitiu chorar ao lembrar-se do sonho que teve. Essa não foi a primeira vez que sonhou com o homem misterioso, e provavelmente não será a última. Kalani soluçava, tomada por um sentimento de culpa – como ela pode sonhar uma coisa dessas e pensar em outra pessoa, dias antes de seu casamento? Akin era um homem bom, e lhe daria estabilidade e um futuro maravilhoso, ele não merecia isso.
Mas ao mesmo tempo, as lágrimas que caíam também expressavam sua tristeza de não poder viver tudo aquilo, de não estar bebendo algo quente enquanto observa a neve cobrir as ruas, esperando alguém que ela realmente ama chegar em casa. Kalani sabia que naquela altura do campeonato não poderia mais abrir mão de tudo, de seu casamento, de sua vida. Por mais que os sentimentos de Akin não fossem correspondidos, aquela era a vontade de seus pais, e se eles achavam que ele era bom para Kalani, então estava tudo bem. Afinal, eles a amavam, e sabiam o que era certo para ela.
*
O movimento do restaurante de seu pai era difícil de ignorar. Ela já acordava com pratos batendo, pessoas entrando e saindo do estabelecimento, e o principal: o cheiro de comida. Mesmo estando no andar de cima, Kalani podia ouvir tudo. E podia sentir tudo. Desde pequena ela sempre estava envolta do pai para provar novos temperos e o ajudar no que fosse preciso.
Depois de pronta, ela desceu as escadas e foi de encontro com sua mãe.
— Bom dia querida!— disse a ela, com um sorriso no rosto — Dormiu bem?
Kalani congelou por um instante, sentiu seu estômago dando um nó ao se lembrar do sonho que teve. Mas não deixou isso transparecer em seu rosto. Ela respondeu normalmente, como se nada tivesse acontecido, e seguiu seu caminho.
Todos os dias antes de ir ao trabalho, Kalani passava no templo para fazer suas preces. Nos últimos dias o que ela mais pedia para Ganesha era para que ele enviasse uma luz para clarear suas ideias. Ela não sabia se devia acontecer um casamento onde não existe amor, por mais que seus pais provassem. Ela estava ciente de que Akin a amava, mas por mais que tentasse, não conseguia sentir o mesmo.
Uma vela foi acesa e posta no altar do deus. Kalani olhava a grande estátua e conversava com Ganesha como se fossem amigos íntimos de longa data. Sua fé era inabalável, e ela sabia que tudo o que acontecia tinha um propósito. Ganesha nunca lhe abandonou quando precisou e sempre a abençoou. Kalani sabia com todo o seu coração de que Ele sempre lhe ajudaria, por isso estava em gratidão eterna para com Ele.
Naquele dia, assim como todos os outros, o sol brilhava em Mumbai. Kalani seguia o mesmo caminho todos os dias até o hospital onde trabalhava. Ela já estava se preparando para todo o caos que enfrentaria ao longo do dia. Pelo menos conseguiria ocupar sua mente e evitar os pensamentos indesejados.
— Bom dia, Ka — Kalani sorriu da melhor forma possível assim que ouviu a voz de Maya — Como foi seu fim de semana?
— Foi maravilhoso, — ela respondeu soltando um suspiro — Akin quis passear pela cidade e a noite ele me levou para jantar — ela apertava o anel de noivado em seu dedo anelar enquanto desviava olhar.
Maya era sua colega de trabalho, mas também sua cúmplice, sua melhor amiga desde que eram pequenas. Ela sabia muito bem quando Kalani estava escondendo algo. Elas eram como tampa e panela, uma era a metade da laranja da outra. Elas se completavam. Quem acha que o amor da sua vida é alguém para se casar, é porque nunca teve uma amizade tão forte quanto a delas.
Elas ficaram se olhando enquanto Kalani mexia em seu anel, mas seus devaneios foram interrompidos quando as outras enfermeiras passaram pedindo ajuda com uma pessoa ensanguentada em uma maca.
O rosto de Maya se contorceu em uma expressão de pavor. Ela reconheceu imediatamente a pessoa que estava na maca. Ela sentiu seu estomago borbulhar e lágrimas se formarem em seus olhos.
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